Meteorologia

  • 19 NOVEMBRO 2019
Tempo
MIN 7º MÁX 14º

Edição

"Acho que o espetáculo devia chamar-se: 'Os filhos são estúpidos'"

Conversámos com Joana Gama e David Cristina, protagonistas do espetáculo de comédia 'COITO: Aqui os miúdos não nos apanham a falar mal deles', sobre os temas mais controversos acerca da parentalidade sobre os quais os pais receiam falar.

"Acho que o espetáculo devia chamar-se: 'Os filhos são estúpidos'"

'COITO: Aqui os miúdos não nos apanham a falar mal deles' é o espetáculo de comédia que permite aos pais rirem-se do 'proibido'. Isto é, segundo os protagonistas Joana Gama e David Cristina, um espaço onde se reflete sobre temas da parentalidade que permanecem camuflados nos blogues e necessitam de atenção e diálogo.

Sob o mote do espetáculo, que realizará a última de três sessões esta sexta-feira, mergulhámos no universo das fraldas e das noites mal dormidas.

A amamentação, os medos, a adaptação do casal à chegada do bebé, o divórcio, o Baby Blues e o "lobby anti-vacinas" foram alguns dos temas que marcaram a conversa.  

Como surgiu a ideia deste espetáculo?

Joana: Decorre de sermos pais…

David: E de fazermos comédia.

Joana: Eu queria fazer um podcast sobre maternidade e parentalidade e fui falar com o David porque ele tem um podcast muito famoso, numa plataforma chamada ‘Conta-me Tudo’, a maior plataforma de storytelling a nível nacional. Entretanto, começaram a desenrolar-se várias ideias paralelas ao podcast, nomeadamente este espetáculo.

A ideia é um género de alcoólicos anónimos mas para pais. Os pais podem falar dos maiores receios que têm, das ansiedades, das coisas horríveis que já tenham feito às crianças e que em grupo podemos relativizar, rir A última sessão do espetáculo decorre esta sexta-feira e depois retoma em setembro.

David: Sim, no fundo estamos a testar o conceito. Isto envolve muita interação com o público, com os convidados, muito improviso. Metade do espetáculo, ou até mais, é improviso. Há alguns desabafos nossos, isso não é improviso, já os pensámos antes de os levar para palco.

Joana: O nosso objetivo com esta interação toda não é porque precisamos de falar com pessoas, é porque achamos que os pais entre si precisam de falar mais. A ideia é um género de alcoólicos anónimos mas para pais. Os pais podem falar dos maiores receios que têm, das ansiedades, das coisas horríveis que já tenham feito às crianças e que em grupo podemos relativizar, rir.

O próprio nome - ‘COITO: Aqui os miúdos não nos apanham a falar mal deles’ - já nos dá essa ideia.

Joana: Exatamente, é um sítio seguro onde as crianças não vão ficar traumatizadas se dissermos, por exemplo: ‘Eu já pensei se a minha filha não podia ir viver para sempre para casa da avó’.

David: Ou se aquele quarto onde ele está não dava uma excelente casa de televisão…

Diz-se aquilo que os pais realmente pensam. E o que é que os pais mais temem dizer?

Joana: ‘Será que podias parar de mamar?’

David: Ou quando eles fazem cocó na fralda: ‘Se calhar podias aguentar mais uma horinha para eu acabar de ver este episódio da Netflix. Ou acabar a temporada’.

Joana: ‘É muito mau fingir que estou a ter sono pesado para ir lá o outro cônjuge?’

Os convidados da primeira sessão foram a Catarina e o António Raminhos, que são pais que têm uma fábrica de filhos em casa, para mim foi muito bom ouvir coisas que nunca saberia

Tem o intuito de desamarrar alguns nós, uma vez que ainda existem tabus em falar do ‘lado negro’ da parentalidade?

Joana: O realista, nem precisa de ser negro. Acho que hoje em dia estamos tão habituados a separar as coisas boas das coisas más que deixamos de falar sobre a realidade.

David: É muito divertido. Porque todos temos situações em que nos achamos péssimos pais. Uma vez o meu filho era pequenino, tinha um ano e tal, e eu estava a fazer xixi - ele adorava ver-me, ficava fascinado - e ele às tantas estica a mãozinha e agarra no meu xixi. Comecei a gritar ‘Não! Não!’ e ele mete na boca. Senti-me um péssimo pai, mas pronto, não vai acontecer nada.

Joana: Eu não digo asneiras em frente à minha filha, mas uma vez a tirá-la da cadeirinha do carro, ela bateu com a cabeça e disse ‘f***-**’, com quatro anos. Contámos isto no espetáculo e começámos todos a falar das asneiras que os filhos já tinham dito. Os convidados da primeira sessão foram a Catarina e o António Raminhos, que são pais que têm uma fábrica de filhos em casa, para mim foi muito bom ouvir coisas que nunca saberia.

Que temas prendem mais a atenção do público?

David: É uma boa questão…

Joana: Tenho um blogue de maternidade e sei os temas que mais movem os pais atualmente, os que dão mais polémica.

E quais são?

Joana: Amamentação, divórcio, casamento, sono, doenças e julgamentos/comentários de outras mães. Mas não são tópicos que tenham graça, são temas que movem um bocadinho mais de culpa, não sei se os conseguimos tornar em humor. Estamos a apalpar terreno, já que se fala de mamas.

David: Uma coisa que testámos e que correu bem foi contar histórias nossas. Há três meses que o meu filho come com a mesma colher, mas todos os dias tenho de lhe mostrar todas as colheres que temos em casa para ele ver que come com a mais pequena. Quando contei isto senti que o público se identificava.

Joana: Depois dessa partilha não sentiste: ‘Ok, o meu filho não é estúpido’? São todos estúpidos. É importante sentirmos que não são só os pais que são estúpidos. Acho que no fundo o espetáculo devia chamar-se: ‘Os nossos filhos são estúpidos’.

O público também intervém no espetáculo?

David: Tenho uma rubrica em que lançamos perguntas para o público em papelinhos, depois eles escrevem e nós lemos as respostas e comentamos.

Joana: E temos um momento a seguir a esse dos papelinhos. Fazemos uma pergunta no início do espetáculo, por exemplo: ‘Do que é que têm mais saudades de quando não tinham filhos?’. Lemos os papelinhos em palco, reagimos, depois escolhemos o pai/mãe mais triste e damos-lhe um prémio. Tenho vontade de dizer o que é.

David: Só vendo.

É um prémio material?

Joana: É um prémio espiritual. Podemos dizer?

David: Temos um boneco e o pai/mãe é convidado a dar uma ‘palhaça’ [bofetada] no boneco.

Tenho saudades de uma coisa que deixou de acontecer que é chegar a casa e sentar-me, a fumar cigarros e comer rebuçados, a mandar mensagens. Fumava muito bem. Olha, tenho saudades de fumar À questão que colocam ao público, do que é que têm mais saudades de quando não tinham filhos, o que é que vocês responderiam?

David: Tempo. Tenho saudades de ter mais tempo para estar, para ser, para fazer uma coisa inútil.

Joana: Tenho saudades de uma coisa que deixou de acontecer que é chegar a casa e sentar-me, a fumar cigarros e comer rebuçados, a mandar mensagens. Fumava muito bem. Olha, tenho saudades de fumar. Deixei de fumar e depois amamentei até aos quatro anos e meio. Saudades desse nada, mas sobretudo saudades - isto se calhar é horrível - é de não a ter na minha cabeça. Todas as decisões que tomo, antes havia um nível de ‘estou-me a cagar’, agora não.

Também devem receber várias questões sobre a relação do casal com a chegada de um filho.

Joana: Estou divorciada, correu mal. Divorciei-me quando a Irene tinha três anos.

David: No meu caso, fizemos tudo que podíamos e aos três meses ele estava no quarto dele a dormir. E a partir desse momento, a questão do sexo deixa de ser tema porque ele está a dormir. Eu e a minha mulher estamos juntos há 14 anos.

Mas há uma fase para os casais pensarem em avançar para o passo de terem um filho?

David: Eu adiei muito. Na nossa relação, eu fui quem adiou mais e foi um disparate porque hoje só me arrependo de não o ter tido mais cedo. Porque é maravilhoso e não ganhei nada por tê-lo mais tarde. Quanto muito, perdi.

A questão do divórcio com uma criança pequena também é um tema de grande interesse?

Joana: Sou filha de pais divorciados. Apesar de saber que vai contra ao ideal que temos da família junta, existem vários graus entre a família estar separada ou estar junta. Existe o grau da família estar junta e notar-se que não quer e a avaliação pessoal que fiz disso foi: Eu não quero que a minha filha tenha como modelo de relação o conformismo e infelicidade para depois ela adotar na vida dela. A relação que eu tinha com o meu ex-marido já nem envolvia grande fisicalidade. Prefiro que ela tenha uma ausência de referência de casal do que tenha aquela que nós tínhamos. E com isto não estou a dizer que havia violência física nem nada do género.

Essa adaptação do casal à chegada do filho certamente que levanta algumas dúvidas. É um tema sobre o qual lhe fazem chegar muitas questões?

Joana: A maior parte das perguntas que me chegam são ‘Como é que estás? e ‘É bom nesse lado?’. São as mães que estão coladas aos monitores a dizer: Quero imenso ter a coragem de fazer o que tu fizeste, conta-me como é. E eu digo que estou ‘cool’, mas não quero ser a embaixadora do divórcio em Portugal. Na prática sinto que o divórcio aconteceu, entre mim e o meu marido, sem dar tempo de nos habituarmos à chegada da criança. Ou seja, como é que decidimos desistir da relação sabendo que esta pode passar por fases menos boas dado o período de adaptação? Acho que até foi a bebé que nos fez olhar um para o outro e ver a nossa incompatibilidade de génese. Existem princípios que procuras na outra pessoa e que se não existirem sabes que a relação continuar. Olhar um para o outro e pensar: ‘Tá bom, tá giro, piadinhas, a nível de humor, mas eu odeio mesmo quem tu és’. No teu caso era uma relação duradoura por isso é diferente.

David: Sim, eu já estava junto com a Tânia dez anos antes do Miguel nascer. Já estamos super alinhados a nível de princípios. É muito raro eu e ela discutirmos sobre a forma como se educa. Sem termos de falar muito, está tudo falado. Nesse aspeto é impecável.

Sinto que a geração passada responsabilizava muito os filhos por tudo aquilo que acontecia e que fosse mais incómodo. Daí os castigos, as regras desmesuradas, as palmadasVocês são mais pais de dar mimo ou de impor regras?

David: Eu imponho uma regra e a regra é: Mimo. Ando sempre agarrado ao meu filho. Sou muito mimoso, especialmente para homem, acho eu que os homens têm aquela coisa de serem um bocadinho mais distantes. A minha política é: Deixo-o fazer tudo menos as coisas que ele não pode mesmo fazer. Não me importo que se suje, que faça coisas meio parvas, mas se há coisas que são perigosas, aí a tolerância é zero. A vantagem disso é que digo-lhe não muito poucas vezes e quando digo ele ouve.

Joana: Eu mais uma vez venho ser um bocadinho chata, não acho que haja regras ou mimos, sou adepta da parentalidade positiva e da disciplina positiva. Acho que a nossa responsabilidade enquanto pais é vivermos de forma consciente esta aventura e não passarmos para os nossos filhos as nossas fragilidades e medos. Sinto que a geração passada responsabilizava muito os filhos por tudo aquilo que acontecia e que fosse mais incómodo. Daí os castigos, as regras desmesuradas, as palmadas. Sinto que agora estamos a viver uma era das pessoas que foram tratadas assim e que conseguimos ter um bocadinho mais de clarividência e ver que a criança é uma pessoa que apenas não tem a mesma experiência que nós. Nós como adultos é que temos a responsabilidade de resolver as situações e apresentar as situações de forma a fazê-los compreender. Acho que os filhos são um espelho da nossa natureza e da forma como estamos a gerir a nossa vida.

David: Estou contigo. Desde sempre - e isto sempre foi muito intuitivo, nunca li em blogue nenhum - que tratei as crianças como pessoas. Até era engraçado a forma como tratava os filhos dos meus amigos, mas o que é certo é que os putos gostavam de mim. Por exemplo, deixo o Miguel refilar com adultos.

Não aplico juízos nenhuns sobre outros pais. Não nos cabe a nós dizer o que está certo ou errado. Este espetáculo é mais acerca de dar um escape, não estamos a tentar resolver os grandes problemas. Estamos à procura de encontrar um escape para as pessoas se rirem um bocado.

Joana: É esse o papel do humor.

Com o terceiro espetáculo, estou nervosíssima porque vamos ter lá um dos meus ídolos, a Sónia TavaresO papel do espetáculo é proporcionar aos pais um momento em que se possam rir do que têm tanta vontade mas não podem?

David: Claro. Dás por ti numa sala cheia de pessoas e de repente pensas ‘afinal também posso rir-me disto’.

Joana: Há que ver uma coisa, uma das necessidades básicas do ser humano é a necessidade de pertença, sentirmos que fazemos parte de uma comunidade. Os grupos de parentalidade estão muito virados para as mães, mas na prática ninguém fala do que está a sentir. Isso não pode ficar só na internet, tem de ser ao vivo, temos de nos ver uns aos outros.

David: Aquilo é divertido para caraças. Além de muita interação com o público e muita partilha, eu e a Joana fazemos muita comédia. Cria-se uma atmosfera. Durante aquele período, as pessoas que estão naquela sala, experienciam uma coisa que é única. Não é como ver um DVD, um show da Netflix, aquilo que aconteceu ali é especial e fica com aquelas pessoas. Temos pessoas que viram o primeiro ‘COITO’ e que já compraram bilhete para o segundo.

Joana: Na primeira sessão tivemos a Catarina e o António Raminhos, eles como casal estão juntos há 80 anos…

David: Acho que um já morreu.

Joana: Sim, a Catarina já morreu há anos, ela continua a parir morta. Já nem é preciso anestesia, vai saindo. Mas eles tomaram conta da conversa e nós deixámos porque a partilha estava a sobrepor-se à estrutura do espetáculo. Com o terceiro espetáculo, estou nervosíssima porque vamos ter lá um dos meus ídolos, a Sónia Tavares, que nem convidámos ninguém para ir com ela porque achamos que por todos os motivos e mais alguns ela vai fazer a festa, vai ter opiniões.

O espetáculo acaba por ser caro para nós porque temos sempre de o refazer. Não é como aqueles musicais que têm sempre as mesmas músicas. Aqui vamos montar muito o espetáculo consoante o convidado.

Sobre a questão da parentalidade estar mais relacionada com as mulheres. Que feedback tem tido, enquanto homem, com este espetáculo?

David: Estamos numa fase de transição em que os pais estão a ganhar muito mais ascendente, são muito mais ativos. Faço tudo aquilo que a minha mulher faz com o meu filho. Se calhar ela faz um pouco mais por passar mais tempo com ele. Ela não amamentou, por isso desde o príncipio que estou a dar de comer ao Miguel. No primeiro fim de semana a seguir a ela parir, foi para os copos com as amigas.

O que senti logo desde o início era que, por ser homem, ninguém me ligava nenhuma. Eu estava a mudar a fralda, sabia perfeitamente, e as tias e não sei quê diziam-me ‘tu não sabes’. Tive uma situação na Padaria Portuguesa, estava com o meu filho, chamaram-me porque tinha prioridade e veio uma senhora, potencialmente grávida, que se mete à minha frente e diz: ‘Não tem prioridade, sou mulher e estou grávida’.

Joana: No meu caso não sei o que era pelo meu marido não ser muito ágil a fazer merdas ou por eu sentir que se não fosse eu a fazer que ninguém vai fazer como deve ser. As mulheres têm muito a mania que só elas é que sabem fazer as coisas e depois acabamos a ostracizar os homens e depois queixam-se que os homens não façam nada. Eu talvez tenha caído nesse erro.

É algo que ainda está intrínseco na sociedade?

Joana: Acho que tem a ver com a nossa biologia e genética. O homem não estará mais preparado para fazer a caça e sair da gruta? E a mulher para ficar dentro da gruta? A ligação física é um coisa que se constrói, as mulheres em princípio ficam com uma ligação inicial de quando eles choram o cortisol aumenta automaticamente, o vosso é adquirido.

David: Vou ser um pouco nerd. Li sobre isso e há uns estudos giros sobre as alterações nos cérebros dos homens e mulheres depois de o bebé nascer. Há alterações violentas, as pessoas mudam os afetos.

Eu não senti nada quando a Irene nasceu nem nos dias a seguir. Não senti afeto, estava completamente paralisada de medo e a julgar-me má mãe É um impacto que se sente de imediato?

David: Eu senti.

Joana: Eu não senti nada quando a Irene nasceu nem nos dias a seguir. Não senti afeto, estava completamente paralisada de medo e a julgar-me má mãe. Isso deveu-se à ansiedade, ao parto… Tinha um ser à minha frente que tinha de tomar conta e já estava a falhar.

David: Quando o Miguel nasceu, basicamente arranquei-o à enfermeira. Até àquele momento, tinha-me importado zero com a gravidez, não tinha relação com ele. A minha mulher até achava que era esquisito. Assim que ele nasceu, dei-lhe de comer e nunca mais o larguei.

Joana: É engraçado referires o comer porque está comprovado que dar de comer estimula muito a relação de apego.

David: Há mudanças que ocorrem na mulher que no homem só ocorrem mais tarde.

Joana: E por convivência. Porque se o pai não estiver presente, desaparece.

David: Está documentado que os homens interagem com os miúdos de forma diferente. As mulheres são mais de cuidar, os homens são mais da parvoíce.

Joana: Também depende se são filhos rapazes ou raparigas.

David: Com os rapazes há mais aquela coisa de ser rapaz, ensinar a subir coisas… Está demonstrado que esse comportamento é sempre mais masculino. Mas vou ser sincero, acho que não há nenhuma razão para acharmos que os homens vão ser menos ligados ou dedicados aos filhos.

Joana: É tanto quanto queiram e tenham espaço para isso. E possam... porque as licenças de maternidade e paternidade são desiguais.

Agora fala-se de uma realidade que é o ‘Baby Blues’, um estado de ansiedade causado pela falta de sono e mudanças hormonais na mulher.

Joana: Vivi essa realidade, não sei se não estarei ainda.

Há uma forma de a mulher se preparar para essa realidade?

Joana: Sim, se já tiver um irmão mais novo e ter acompanhado a mãe, ter amigas que tenham estado grávidas. Quanto mais cor de rosa for a nossa ideia da maternidade, maior é o choque. Mas nada nos prepara para um bebé que tenha dificuldade em dormir meia hora seguida, mesmo que saibamos que os bebés dormem mal. A privação de sono vai mesmo afetar em todos os níveis. Se a mãe amamentar ainda é um esforço maior. É um desgaste muito grande para a mãe que, se não estiver minimamente resolvida e equilibrada, toda a pressão que ela cria vai ser reforçada por toda a gente que está à sua volta, pela comunicação, pelos blogues… Se fores uma mãe segura já não és tão permeável a essas coisas. O problema de hoje em dia é que estamos cada vez mais inseguros por vivermos em famílias cada vez mais isoladas. Não vemos as mães a amamentar, não falamos com ninguém, os Natais são cada vez mais isolados, as famílias são cada vez mais pequenas, a nossa noção da maternidade é cada vez mais idílica e romanceada ou desinformada. Portanto, quando tudo é o oposto do que nós imaginávamos, acabamos sempre por nos culpabilizar em primeiro plano, o que é péssimo se quiseres sair de um Baby Blues.

David: A mim ajudou-me porque as minhas expectativas eram baixíssimas. Pensava que ia ser horrível, a criança não ia dormir. Depois foi porreiro.

Joana: Mas isto da parentalidade não é só mau. Tenho uma amiga minha que pariu a rir. Há mães que não passam por nada disto e têm uma vida completamente diferente.

David: Acho que sobretudo é importante não impor muita pressão. Há aquela malta que diz que [ter um bebé] é um milagre, não é. É literalmente a razão pela qual toda a gente existe. Nascer é completamente normal. Se é a coisa mais normal, há razão para estarmos assim tão nervosos?

Joana: Por outro lado, é importante questionarmo-nos. Às vezes o que é intuitivo é muito mau para a criança. Se aplicasse aquilo que foi feito comigo já tinha espetado dois pares de estalos à minha filha porque eu fui educada muito à chapada. Ainda bem que não me identifico com a minha mãe. O nervosismo vem daí: Temos a informação que está ao nosso dispor, temos a forma como fomos criados e a forma como gostaríamos de ser criados. No meio disto tudo como vais encontrar um equilibro, como sabes que estás certo? O resultado só vem daqui a 20, 30 ou 40 anos, quando abrir uma conta de Instagram e veres a porca em que se tornou.

Há um endeusamento muito irracional dos pediatras. Vemos neles uma espécie de fadas da maternidade. Eles não conhecem o nosso filhosEm Portugal, as pessoas preparam-se para a parentalidade ou ainda têm de despertar para os diversos âmbitos deste universo?

David: Já tive o meu filho tarde, na altura toda a gente me dizia que devia fazer um curso de parentalidade. Disse: ‘Acho que não faz sentido nenhum, mas já agora o que é que ensinam?’. Ensinam a mudar uma fralda, acho que consigo. Aprendes a dar banho à criança, acho que o princípio deve ser manter a cabeça à superfície. Não fiz nenhum curso, li um bocadinho sobre isso, a minha mulher leu muito. E quando o puto nasceu falei com as enfermeiras e com a médica e foi muito fácil. Onde é que estudámos bastante? A minha mulher não queria amamentar e estudámos o assunto. Somos os dois biólogos de profissão e fomos ler artigos científicos. Não há grandes certezas de que seja assim tão melhor [a amamentação]. Tenho alguma dificuldade em ver a malta da internet, que nunca estudou e tem o nono ano de biologia, a discutir comigo.

Joana: Mas a ciência não tem as respostas todas e há coisas que não se medem cientificamente.

David: É uma decisão complemente pessoal. O que nós ganhamos foi que eu pude participar desde o início e a minha mulher pôde dormir.

Joana: E se calhar estão juntos muito por essa decisão porque se a tua mulher tivesse feito um esforço maior e tu não tivesses participado desde o início, a vossa dinâmica como casal tinha sido diferente. Mas lá está, estamos a falar de um casal que tem o cuidado de pensar antes de o filho nascer, no que é importante e informarem-se sobre isso. A maior parte das pessoas não tem capacidade, tempo, criatividade para o fazer e acho que não é preciso chegar ao extremo de ir ver como é que se dá banho à criança, mas é chegar a esta conclusão que eles chegaram: tudo aquilo que não se saiba pode-se estudar com espírito crítico. Há um endeusamento muito irracional dos pediatras. Eles não são nutricionistas, são só pediatras e às vezes não documentam, não evoluem. Vemos nos pediatras uma espécie de fadas da maternidade. Eles não conhecem o nosso filho. Devemos usá-los para doenças e não para coisas comportamentais, para isso temos os psicólogos.

David: Nem tanto à terra nem tanto ao mar. Mas há realmente por aí muita informação perigosa. Por exemplo, a história das vacinas. Tens aí muito pessoal anti-vacinas. Isso é absurdo.

Joana: É um lobby muito grande contra as farmacêuticas.

David: As farmacêuticas não fazem dinheiro com as vacinas. As vacinas são uma componente pequeníssima que não é desenvolvida há anos porque não é lucrativa. O que aconteceu agora foi um lobby estranho na internet. Não são só as crianças que não são vacinadas que sofrem, criam um ambiente propício a que outras crianças apanhem também [doenças]. É absurdo e perigosíssimo.

Joana: Aí nem vou por estudar o assunto. Penso: De um lado morrer, do outro lado levar uma vacina. Acho que compensa os 2,50 euros no centro de saúde. Acho que o que a parentalidade nos pede é um desenvolvimento urgente do nosso bom senso, depois utilizado no resto da nossa vida. A toda a hora vamos ser confrontados com decisões importantes que podem mudar por completo a vida dos nossos filhos.

Recomendados para si

Seja sempre o primeiro a saber.
Acompanhe o site eleito pelo segundo ano consecutivo Escolha do Consumidor.
Descarregue a nossa App gratuita.

Apple Store Download Google Play Download

Receba as notícias dos famosos, realeza, moda e as mulheres mais elegantes.

O mundo das celebridades com fotos, vídeos e noticias de atores, atrizes e famosos.

Obrigado por ter ativado as notificações de Fama ao Minuto.

É um serviço gratuito, que pode sempre desativar.

Notícias ao Minuto Saber mais sobre notificações do browser

Campo obrigatório