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"Se algum árbitro se sentiu condicionado, está na altura de denunciar"

Marco Ferreira deixou arbitragem há dois anos, após ter sido despromovido (2015) de categoria, uma decisão que ainda dá que falar na esfera do futebol. Depois de ter deixado a classe, Marco Ferreira confessou que se chegou a sentir pressionado. Esta quarta-feira, publicamos uma entrevista ao antigo juiz, onde fala do clima de intimidação na arbitragem portuguesa.

"Se algum árbitro se sentiu condicionado, está na altura de denunciar"
Notícias ao Minuto

08:10 - 07/12/17 por Andreia Brites Dias, Inês André de Figueiredo e Sérgio Abrantes

Desporto Marco Ferreira

Está cada vez mais 'pesado' o clima que se vive em torno futebol português e os árbitros são um dos principais 'alvos'. Entre agressões e ameaças, até as nomeações dos árbitros já foram 'afetadas' - têm sido divulgadas apenas no dia do próprio jogo. 

Por intermédio da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), a classe já ameaçou, mais do que uma vez, fazer greve - após diversas reuniões com o Conselho de Arbitragem - mas a verdade é que acabou sempre por recuar.

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Marco Ferreira, ex-árbitro de futebol respondeu a algumas questões sobre o momento atual da arbitragem portuguesa.

O juiz - que foi protagonizou a 'polémica' despromoção em 2015, que o levou a abandonar a profissão - teceu algumas críticas à forma como tem sido feita a gestão desta situação, apontando o dedo à APAF.

Como vê o clima que se vive atualmente em torno do futebol português?

É um clima nunca visto antes. Chegou-se a um ponto em que existe mais competição de segunda a sexta-feira do que no próprio jogo em si. Quando isso acontece, os protagonistas que vêm à baila são todas as outras pessoas e nunca os verdadeiros artistas, que são os jogadores de futebol. Mas isto foi um clima que se instalou numa época que, infelizmente, Portugal perdeu o acesso à Liga dos Campeões – só vai uma equipa diretamente – e tudo o que se puder fazer para alcançar esse lugar no final do campeonato, as pessoas vão a fazê-lo. Não bastam os 90 minutos para ganhar o jogo e isso logicamente que mancha um país que foi campeão europeu. Temos todas as pessoas, a nível internacional, a olharem para nós. Por isso, já era altura das instâncias que gerem o futebol português darem um muro na mesa e colocarem nos seus lugares os clubes que têm responsabilidade por este clima.

Como é que este problema pode ser resolvido? De que forma é que os organismos podem intervir?

Eu sou defensor que os problemas do futebol português devem ser resolvidos dentro das instâncias desportivas, nunca extravasar para outros poderes, como os políticos. Atendendo a que este clima está incontrolável, mesmo após vários pedidos do Dr. Fernando Gomes de apaziguamento sem resultado, e sendo a Federação Portuguesa de Futebol o mais alto organismo a gerir o futebol português, não vejo outra alternativa se não o poder político ter alguma intervenção, porque a indústria do futebol é muito importante para o nosso país. Isto reflete-se de forma negativa na sociedade, que não sabe viver o desporto.

O futebol português tem-se alimentado de críticas constantes aos árbitros. Como é que os árbitros gerem este tipo de situações?

Os árbitros têm de ter consciência que só devem olhar para os jornais aqueles que têm intenção de ser estrelas. No futebol, quem deve ser promovido e ser estrela são os jogadores. Se um árbitro tem muito interesse em ver notícias sobre ele na comunicação social, sem dúvida nenhuma tem de ser um árbitro blindado mentalmente, porque fala-se da arbitragem, dos erros e nunca das boas decisões. E quando digo isto, do desgaste mental, não acredito muito que os árbitros vejam programas ou leiam muitos jornais numa fase tão negra do futebol português. Mas são as consequências de tudo o que tem de ser feito para se protegerem das ameaças que têm sido feitas. São bombardeados com ameaças diariamente e, depois, é este desgaste. O pior desgaste é pôr em causa a segurança das suas famílias. Um juiz tem de estar sem problemas, com uma boa estabilidade familiar e a segurança é um fator importantíssimo. Este desgaste, que é diário, acentuou-se muito esta época devido à fase que estamos a passar no futebol português.

Artur Soares Dias foi um dos exemplos, recebeu ameaças que foram tornadas públicas…

Por ser uma figura de relevo na arbitragem portuguesa também tem que saber que a exposição pública aumenta as possibilidades de crítica. O que se passou com as ameaças não é nada que não se tenha passado noutros anos. No entanto, a comunicação social dá mais ênfase a essas notícias. Mas não é nada que os árbitros já não estejam habituados. Nunca somos uma figura que seja elogiada, quando falam dos árbitros é para criticar. É esta a sociedade que temos e a mentalidade que temos. É muito difícil alterar isto de um momento para o outro. É preciso que a arbitragem se abra um pouco à sociedade e que comece a incutir nos mais jovens a imagem do árbitro como pessoa e não como um elemento com imagem negativa no futebol.

E a APAF?

O que temos visto são uns comunicados pontuais da APAF e que têm sido claramente fracos a nível de conteúdo. Não trazem nenhuma novidade. Qualquer comunicado que saia agora da APAF não é visto com a credibilidade que deveria ter. Mas isso é um problema dos árbitros e eles é que têm de resolver. Se a Direção da APAF não está a tomar o rumo que os árbitros querem que seja tomado, então a direção da APAF tem de ponderar muito bem a sua continuidade. Se os árbitros entenderem que a APAF está a fazer um bloqueio às intenções dos árbitros ou às intenções daquilo que os árbitros querem fazer passar para a opinião pública, então têm de averiguar se aquela direção está condicionada por A, B ou C e aí tomar as devidas atitudes. Agora, se os próprios árbitros não têm capacidade de resolver os seus problemas dentro da sua própria associação, dificilmente o apelo dos árbitros para acalmia e resolução dos problemas não vai com a credibilidade que devia vir.

Os árbitros estarão muito expostos?

A exposição que os árbitros portugueses têm é a exposição que eles querem ter. Porque se os árbitros se unirem, e quiserem, fazem um comunicado através da APAF. A APAF só tem de fazer a vontade aos árbitros, até porque é um organismo que existe porque tem sócios, que são os árbitros. A APAF é liderada para os árbitros. Agora se a Liga tem tido o melhor comportamento…? Eu acho que também se exige à Liga um comportamento diferente neste aspeto, possivelmente porque Proença foi árbitro e é presidente da Liga Portugal. Se calhar se fosse outro presidente não diziam isso. Proença é presidente da Liga e vai defender a sua instituição e não vai estar a intervir na arbitragem. A Liga não tem de ser pronunciar sobre isso, a Liga tem de se pronunciar sobre aquilo que os clubes querem que se pronuncie, porque a Liga pertence aos clubes. Já a APAF é dos árbitros e quem tem de tratar dos problemas dos árbitros é a APAF. Se a APAF não está com capacidade para isso terão de haver mudanças, mas isso os árbitros é que têm de decidir.

Na minha opinião, a verdadeira razão da ameaça de greve, esta época, não foi devido ao ambiente que se vive no futebol português, mas sim por questões financeiras e de cortes que a Liga tem vindo a implementar desde a entrada de Pedro Proença. 

Os árbitros já fizeram algumas ameaças de greve, ameaças essas que acabaram sempre por ser retiradas. O que pensa destas iniciativas?

A greve evitava-se se os árbitros tivessem tomado uma posição mesmo antes do campeonato se iniciar, já nessa altura tinham vindo a público todas as denúncias. Não tomaram nessa altura, não faz sentido agora quererem tomar uma posição, visto que nada aumentou, mantendo-se o que estava antes do campeonato. A grande questão é que, na minha opinião, a verdadeira razão da ameaça de greve, esta época, não foi devido ao ambiente que se vive no futebol português, mas sim por questões financeiras e dos cortes que a Liga tem vindo a implementar desde a entrada de Pedro Proença. Depois, como os árbitros entenderam que isto devia ser uma boa oportunidade para pegar no clima que existe para ameaçar com uma greve, mas querendo atingir a Liga devido às questões financeiras, entenderam, e muito mal orientados pela APAF, querer fazer uma paragem de imediato. Isso é contra os regulamentos, teriam de esperar os 20 dias, e foi isso que o Conselho de Arbitragem foi alertar. Se quisessem tomar essas atitude, que as fizessem dentro dos regulamentos.

No início da temporada, chegou a falar-se num boicote ao campeonato nacional. Teria resultado?

Era uma posição de força e não seria tomada de uma forma tão radical, não com o campeonato a decorrer e, possivelmente, teria evitado que a Liga Portugal e a Federação Portuguesa de Futebol evitassem iniciar os campeonatos com este clima numa competição a decorrer. O que fez aumentar o volume da crítica e da desconfiança foi a competição que está a decorrer. É um campeonato paralelo em que as equipas querem chegar em primeiro. Todo este clima foi causado quando começaram os campeonatos e, a partir daí, foi um aumentar de críticas e uma guerra de comunicação. Portanto, tudo isto podia ser evitado se não se tivessem iniciado os campeonatos neste clima.

O FC Porto tem relevado emails que dão conta de um alegado sistema montado pelo Benfica para beneficiar das arbitragem, o conhecido Caso dos Emails. Nesses emails, surgem nomes de alguns árbitros que apitam na I Liga. Isto descredibiliza a classe?

Não tivemos conversas entre árbitros. Foi alguém que leu um hipotético email em que estava presente o nome de alguns árbitros, mas isso não quer dizer que aqueles árbitros sejam corruptos ou que não sejam sérios. Logicamente que, quando isso aconteceu, esses árbitros deviam ter tomado uma atitude. Não só de uma forma mais privada mas também através da APAF. Deviam ter dado alguma informação para a sociedade desportiva, a condenar que os seus nomes tenham vindo à praça pública, possivelmente inseridos num contexto em que não é normal no futebol, ou não devia ser normal. A partir daí dá-se azo a que as pessoas especulem e conversem. Não é por acaso que continuamos a falar de árbitros e desses emails, porque na altura não foi tomada a iniciativa que devia ter sido tomada para que se evitasse toda esta turbulência em torno dos seus nomes.

O próprio Marco Ferreira admitiu, numa entrevista há cerca de dois anos, que enquanto estava no ativo sentiu algumas pressões. Existe essa pressão aos árbitros?

O que acontece neste momento não sei, agora o que é verdade é que falamos numa altura em que maior parte destes árbitros já estavam no quadro de árbitros. Se algum deles se sentiu condicionado, se algum deles sentiu alguma pressão, seja de quem for, acho que está na altura certa de denunciar às entidades que estão a investigar o processo. Chegou a altura certa para dizerem aquilo que têm a dizer e deixarem de ter medo de serem ou não prejudicados. Sendo verdade tudo aquilo que tem sido publicado, os árbitros têm de dizer alguma coisa, se não disseram até agora, deviam dizer… A não ser verdade, mantiveram a sua postura normal, não têm nada a dizer e seguem bem com a sua consciência. O que eu disse há dois anos (pressões Vítor Pereira), e continuarei a dizer, também já o disse nas instâncias que devia dizer e o caso está em investigação e em segredo de justiça.

Esta época foi implementado o vídeoárbitro mas continuam as queixas em torno da arbitragem. O VAR está a resultar? Que falhas aponta a esta ferramenta?

Temos que analisar o porquê da implementação do videoárbitro este ano. Foi numa altura, na época passada, em que já estava um clima pouco saudável no futebol português, em que se estava a decidir o campeonato, e as críticas à arbitragem estavam a aumentar. A Federação Portuguesa de Futebol, rapidamente, apresentou o VAR como a solução, e as pessoas tiveram expectativas muito altas. O VAR não corrige todos os erros. O VAR é uma ferramenta extremamente útil, quando bem utilizada, com formação. Não desta forma, implementada à pressa. Não está a ser uma ferramenta bem utilizada, neste momento, porque está numa fase de testes e com uma competição a valer, temos visto o que tem acontecido. Acho que o VAR tem exposto a qualidade dos árbitros portugueses, porque o que temos visto é que o VAR é mais um elemento de decisão. Ao implementar o VAR sabíamos que estávamos a colocar mais um foco de críticas, e ia desgastar muito mais e mais rapidamente a imagem dos árbitros. São criticados quando são árbitros principais e quando fazem de VAR. É um desgaste intenso, sobretudo a nível mental, sobre os próprios árbitros. Infelizmente, o VAR foi implementado à pressa e não está a ser implementado da forma que devia ser, porque é uma ferramenta útil e indispensável para o futuro do futebol português.

Em 2013/14, Marco Ferreira foi segundo classificado e, em junho de 2015, ficou a conhecer-se a sua despromoção. Passado dois anos, consegue explicar-nos o que aconteceu?

Eu nunca percebi o que aconteceu. Não é por acaso que passado tanto tempo as pessoas ainda falem do meu caso e, tendo em conta o que tem vindo a público, se alguém for culpado assumirá as consequências. Se ninguém for culpado... é seguir o caminho. Em relação ao meu caso, estou à espera de explicações. No ano anterior fiquei em segundo lugar, fiquei atrás de Pedro Proença. Na época seguinte, eu seria o primeiro árbitro para avançar para um clássico ou um dérbi e posso dizer que, nessa época, não fiz um jogo desses e bastava ter feito um jogo desses para não ser despromovido. Mas não foi nomeado porque o presidente entendeu não nomear. Depois há aquelas situações, ao longo da época, que correram bem e menos bem e acabei por ser despromovido quinze dias depois de fazer uma final da Taça de Portugal, um caso caricato e único em Portugal. Caso único em Portugal um árbitro internacional ser despromovido, tal como um árbitro profissional ser despromovido, portanto, até hoje estou à espera dessas explicações. Abdiquei da minha profissão para investir na arbitragem e algo se passou para eu ser despromovido e é isso que eu quero saber. A verdade é que depois de ser despromovido, não poderia voltar à arbitragem, porque teria de encarar as pessoas que me fizeram mal.

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