Meteorologia

  • 19 JULHO 2019
Tempo
18º
MIN 17º MÁX 19º

Edição

"Não renego as minhas raízes francesas, mas o meu coração é lusitano"

No dia em que se assinalam três anos da conquista mais importante para a Seleção Nacional, o Desporto ao Minuto entrevistou Olivier Bonamici, jornalista francês de ascendência italiana, com vários amores a ligá-lo a Portugal.

"Não renego as minhas raízes francesas, mas o meu coração é lusitano"
Notícias ao Minuto

08:25 - 10/07/19 por Ricardo Santos Fernandes 

Desporto Olivier Bonamici

'Je m'apelle Olivier Bonamici et...' Foi desta forma que Olivier Bonamici nos entrou pela casa dentro, a partir de 2004, na Eurosport. Há 15 anos ouvimos o jornalista francês, de ascendência italiana, a falar na língua de Camões nas grandes provas de ciclismo - Tour de France, Vuelta e Giro -, Taça das Nações Africanas, Jogos Olímpicos, entre tantas outras.

Chegou a Portugal em 1996, com 24 anos, sem saber falar uma única palavra em português. Apaixonou-se por uma "tuga" e o destino levou-o a abandonar um bom trabalho para seguir o rumo do coração.

Por cá, aprendeu uma cultura diferente, entrou na Eurosport com uma "certa pancada", por lá falou de "orgias" em direto, contou histórias irrepetíveis e agarrou-se a um país que foi berço para os seus dois filhos.

Os duelos entre Portugal e França representam, como se perceberá, uma verdadeira tortura para o coração deste luso-francês, mas não há dúvidas na hora de escolher entre A Portuguesa e a A Marselhesa.

Há três anos Portugal escreveu a página mais dourada do futebol português. Estava de coração dividido?

Não, não estava. Vivo em Portugal desde 1996. No Euro-2000, durante o Portugal-França [os gauleses venceram a meia-final por 2-1], famoso pela mão do Abel Xavier, admito que gozei muito com os jogadores portugueses e fiquei contente com a vitória da França. Lembro-me de ligar para vários amigos portugueses e gozar com eles. Só que depois o amor por Portugal cresceu e acontece que em 2006 [França derrota a Seleção Nacional por 1-0 nas meias-finais, com um golo de Zidane], já estava de coração dividido. França ganhou, mas já não estava super contente, sentia um sentimento agridoce.

Dez anos depois acontece o Euro-2016, e aí, como agora, sinto Portugal como o meu país. Não renego as minhas raízes, mas o meu coração é lusitano. No Euro'2016 estava 55% por Portugal e 45% por França. Lembro-me de estar no Bairro Alto com um grupo de 20 pessoas, metade por Portugal e outra metade não, e pensei: ‘Que m***, o que faço agora?!’. Lembro-me tão bem de ouvir A Marselhesa e depois A Portuguesa e de me sentir mais emocionado com o hino português. Eu já era ‘tuga’ e estava de lágrimas nos olhos. O meu filho [de pai francês e mãe portuguesa] estava ao meu lado e festejou a vitória de Portugal. Admito que depois de tudo acabar e ouvir os cânticos anti-franceses fez-me imensa confusão, e doeu-me, mas o mesmo teria acontecido se fosse ao contrário. Fiquei contente, mas o pós-jogo lembrou-me que também sou francês. Foi uma situação muito complexa.

E o Olivier no início de cada Portugal-França canta os dois hinos. Sente 'pele de galinha' quando os ouve?

Claro, como é óbvio, mas sinto-me mais emocionado com o português. Primeiro, foi neste país que cresceram os meus filhos; segundo, foi um país que abriu as portas à minha carreira aos 24 anos [chegou em 1996]; e, em terceiro, identifico-me mais com os tugas do que os franciús, pela mentalidade que têm uns e outros. Sempre que oiço o hino e a parte dos ‘egrégios avós’ é muito difícil para mim, porque é muito emocional. Faz-me lembrar como fui acolhido aqui e toca-me imenso.

Perguntaram-me como é que se chamava a um grupo de 10 pessoas e eu respondi: ‘Uma orgia’E quando o Eder ‘arromba’ a baliza de Lloris, no Stade de France, que emoções lhe passaram pela cabeça?

Fiquei contente, super contente. O meu filho estava de lágrimas nos olhos. Antes do jogo começar, ele virou-se para mim e disse: ‘Pai espero que não fiques triste, mas eu sou português’. Ele tem esse direito, como o contrário também seria normal. Mas, ver a alegria do meu filho e das pessoas que amo à minha volta também supera tudo. A única coisa que não gostei no golo do Eder foi o ‘delay’ entre a RTP e a rádio. Eu ouvi o golo antes de ele acontecer na televisão e isso estragou um pouco o momento. Eu gosto da emoção pura e dura, não suporto ouvir os golos antes de os ver. Mas, depois adorei a festa que se fez.

O Olivier chegou a Portugal em 1996. Como é que nasceu este amor?

Porque, efetivamente, cheguei cá por uma questão de amor. Apaixonei-me por uma portuguesa, mãe dos meus dois filhos, um grande amor da minha vida. Inicialmente achei surpreendente a diferença cultural entre os dois países e acontece que depois aprendi aos poucos a dizer que este era o meu país. À margem da comida, do clima, ou das mulheres, são as pessoas que me tocam muito. Eu encontrei aqui uma sociedade com a qual me identifico imenso. Hoje em dia, e apesar de ter tido uma educação num país diferente, são os portugueses com os quais me identifico.

O Olivier chega a Portugal por amor, mas o que é que deixou para trás com esta decisão?

Eu tinha encontrado um trabalho ótimo em França, mas entretanto apaixonei-me por uma mulher portuguesa, e entre o trabalho e o amor eu escolho quase sempre a segunda opção. Eu pertenço ao grupo das pessoas emotivas. Claro que foi um risco enorme.

Identifico-me mais com os tugas do que os franciúsO que estava a fazer na altura, antes de abandonar solo francês?

Eu era jornalista numa rádio francesa, cheguei a Portugal para trabalhar na Rádio Paris-Lisboa e depois tive a sorte de ser despedido em 2004 [todos os jornalistas franceses a trabalhar nesta emissora, que depois deu lugar à Rádio Europa, seguiram o mesmo caminho], para depois entrar na Eurosport.

E como surgiu esse convite?

Lembro-me de enviar o curriculum, de ir à entrevista, e na altura, logo depois do Euro-2004, a Eurosport ter alguns receios relativamente ao meu sotaque e dizerem ‘será que as pessoas vão aceitar ou não?’. Mas, na altura, disseram: ‘Vamos arriscar, tu tens uma certa pancada’. E eu agradeço às pessoas que me aceitaram, porque não é fácil um jornalista estrangeiro entrar no mercado português. E, posso dizer, que tirando duas ou três pessoas, as pessoas julgam-me pela minha alegria, a minha postura, e não pela minha maneira de falar.

E foi difícil aprender português?

Eu não sabia pouco, sabia zero. Nem uma palavra. Eu nem espanhol sabia. Foi terrivelmente difícil, numa sociedade culturalmente diferente, e com apenas 24 anos estar num país em que nem uma palavra sabia dizer. Para uma pessoa tão sociável como eu foi horrível. Não podia conversar com ninguém, foi complicado. Ao fim de cinco/seis meses comecei a entender, ajudou muito ter um curso de português, e o processo de integração a partir daí acelerou bastante.

O meu filho estava de lágrimas nos olhos. Antes do jogo começar, ele virou-se para mim e disse: ‘Pai espero que não fiques triste, mas eu sou portuguêsÀ margem da língua, quais foram as maiores dificuldades?

Talvez duas coisas. A criança em França não é rei, tem uma educação dura e muito mais estreita. Em Portugal não, há muito mais flexibilidade. Em Portugal tu tens fome, comes. Se não tens fome, não comes. Em França, esse cenário não existe. Em Portugal tu queres sair da mesa, sais. Em França, nem pensar. Como pai foi muito difícil habituar-me a este registo, hoje já me habituei. Eu fico um pouco surpreendido com esta cultura da criança-rei em Portugal, um pouco à semelhança do que acontece em Itália. Outra das coisas com a qual fico abismado é a simplicidade das pessoas. Eu penso tantas vezes: ‘Porque é que este povo é tão simples na sua essência?!’. Com 25 anos de Portugal e ainda me surpreendo com a simplicidade dos portugueses. E, em França, eu tinha amigos fantásticos, mas aqui é tudo mais natural. Aqui a ausência de códigos [nas pessoas] acaba por me surpreender/irritar, mas ao mesmo tempo também me encanta, é um paradoxo, mas é a mais pura das verdades.

E, numa conversa entre dois jornalistas, seria quase impensável não fazer esta pergunta. Que diferenças é que o Olivier encontra entre o jornalismo português e francês?

É muito interessante debater sobre isso. Eu acho que em Portugal ainda há, ao contrário do que as pessoas acham, um certo chauvinismo. É muito estranho dizer isto. Em França há um jornal, chamado L’Équipe, que tem o culto dos campeões e pouco importa a nacionalidade deles. Temos o exemplo de Roger Federer ou Usain Bolt. Se o jamaicano ganhar uma prova de velocidade ele faz a manchete, em detrimento de uma vitória do Paris Saint-Germain. Uma coisa que me surpreende é que há pessoas menos chauvinistas aqui do que em França, mas na comunicação social qualquer português pode fazer um lugar muito baixo na classificação, que o vencedor de outra prova, sendo estrangeiro, aparece reduzido a quatro linhas no fundo de um jornal. E isso é curioso. O povo português é mais aberto, menos racista, mas ao mesmo tempo, olhando para o jornalismo desportivo não temos o mesmo reflexo da sociedade portuguesa. Lembro-me do Michael Johnson estabelecer o recorde mundial nos 300 metros e a sua marca foi reduzida a um espaço de três linhas no fundo de um jornal desportivo. E, sim, na minha opinião falta esta cultura desportiva.

O Olivier considera então que o jornalismo português tem ainda muito a aprender com o jornalismo francês?

Não, não se trata disso, não se trata de um debate entre jornalistas portugueses vs jornalistas franceses. Os portugueses são bastante cultos, importa é saber como certas direções/editorias de jornais olham para o jornalismo. Existe abertura em alguns meios de comunicação, mas há pessoas que acham que as guerras entre os clubes e se o gato fez xixi ou não é o mais importante que existe para debater. Eu acho que este modelo se está a esgotar em Portugal. Os jornalistas portugueses não são mais burros do que os franceses, nem as pessoas, quem manda é que deve pensar se o modelo de gestão é o mais adequado.

 Eu acho que em Portugal ainda há, ao contrário do que as pessoas acham, um certo chauvinismoEm Portugal ainda estamos ‘reféns’ da ‘ditadura’ dos três ‘grandes’ na imprensa nacional?

Não, não esta refém, porque isso faz parte da cultura do povo. Cada país tem as suas características. Os jornais também têm de viver de audiências/vendas. Se o Usain Bolt ganhar não pode ser capa de jornal , porque não vende. Isto é um assunto que não é assim tão fácil de resolver. Mas, estamos a falar de outros momentos, em que há espaço para fazer um jornalismo diferente, em que é possível dar espaço a outras modalidades, fazer comparações, reportagens. E nem todos querem apostar nesse caminho. O ciclismo tem uma cultura desportiva muito forte em Portugal, mas é preciso haver meios para concretizar certos trabalhos e há companheiros meus que estão de ‘mãos atadas’. Mesmo que queiram, as direções não nos permitem projetar um jornalismo diferente. Neste meio não se pode sempre bater na mesma tecla.

O Olivier acredita que criou uma ‘marca’ e já é reconhecido na casa dos portugueses?

Uma marca não, mas acredito que consigo fazer a diferença. Um dos piores defeitos dos portugueses é o ciúme e a inveja e recordo-me de no início da minha caminhada na Eurosport alguns colegas meus dizerem: ‘As pessoas gostam de ti, porque tens um sotaque diferente’. E, na altura, lembro-me que sofri muito com isso. Eu, no meu dia-a-dia, rio-me com as coisas que digo, sou feliz com as histórias que conto. Às vezes, dizem-me para ser mais sério para parecer mais credível. Eu estou a borrifar-me para isso. Eu quero ter o meu trabalho, desempenha-lo da melhor forma possível, mas sem etiquetas ou códigos. Quando eu estou cansado, eu digo. Quando tiver de rir, vou rir. Quando errar, vou dizer que errei. Mas, na maioria das vezes, só tenho a agradecer a simpatia das pessoas, que me congratulam pela imparcialidade e a diversão que tenho.

Que momentos mais caricatos guarda nos 15 anos que leva de televisão portuguesa?

Lembro-me que no decorrer da Volta à França falávamos de tercetos, quartetos e depois o Luís Piçarra ou o Paulo Martins, já não me recordo, perguntaram-me como é que se chamava a um grupo de 10 pessoas e eu respondi: ‘Uma orgia’ [risos]. Também no Tour, um dia falávamos de uma receita francesa com testículos de touro e perguntaram-me: ‘Do que é que isso vem acompanhado?’ E eu retorqui: ‘Sei lá, de batatas fritas e arroz’. E foi mais uma risada total. Eu tento ser a mesma pessoa na televisão, que sou na minha vida pessoal.

Leia aqui a segunda parte da entrevista

Recomendados para si

Seja sempre o primeiro a saber.
Acompanhe o site eleito pelo segundo ano consecutivo Escolha do Consumidor.
Descarregue a nossa App gratuita.

Apple Store Download Google Play Download

Acompanhe as transmissões ao vivo da Primeira Liga, Liga Europa e Liga dos Campeões!

Obrigado por ter ativado as notificações do Desporto ao Minuto.

É um serviço gratuito, que pode sempre desativar.

Notícias ao Minuto Saber mais sobre notificações do browser

Campo obrigatório