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Ventura gera avalanche de críticas. "Tenho medo é que isto dê votos"

O CDS e o PSD já reagiram às declarações de André Ventura sobre a comunidade cigana em Loures. No entanto, nem Assunção Cristas nem Passos Coelho se manifestaram relativamente ao candidato da coligação. O politólogo José Adelino Maltez teme que o "populismo racista" dê votos.

Ventura gera avalanche de críticas. "Tenho medo é que isto dê votos"
Notícias ao Minuto

08:30 - 18/07/17 por Pedro Bastos Reis

Política Loures

"Há minorias que se acham acima da lei. Temos tido excessiva tolerância". Foram estas as declarações de André Ventura, candidato pela coligação PSD/CDS-PP à Câmara Municipal de Loures, numa entrevista ao Notícias ao Minuto, na passada quarta-feira, que acenderam o rastilho a uma polémica que tem incendiado a opinião pública nos últimos dias.

O professor universitário e comentador desportivo afirmou que não compreende que “haja pessoas à espera de reabilitação nas suas habitações, quando algumas famílias, por serem de etnia cigana, têm sempre a casa arranjada”. “Isto não é racismo nem xenofobia, é resolver um problema que existe”, justificou, na altura, na mesma entrevista.

Estas declarações mereceram o repúdio imediato do Bloco de Esquerda, que, através de Fabian Figueiredo, candidato bloquista à Câmara de Loures, denunciou uma “campanha ao pior estilo de Donald Trump”, baseada em afirmações “racistas graves”, e que, nesse sentido, levaram o partido a apresentar queixas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, à Procuradoria-Geral da República e à Ordem dos Advogados.

Perante a crescente onda de indignação, André Ventura não recuou, antes pelo contrário: "Não retiro uma vírgula àquilo que disse”, afirmou o candidato à Câmara de Loures após novo contacto.

Ontem, segunda-feira, o professor universitário voltou a atirar achas para a fogueira e, numa entrevista ao jornal i, fez eco das declarações anteriores, novamente tendo como alvo a comunidade cigana, reiterando que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”.

CDS pede explicações, PSD repudia e PS pede ação a Passos Coelho

A reação às declarações de André Ventura foram-se sucedendo nas redes sociais. No entanto, houve uma voz a manifestar apoio ao candidato à Câmara de Loures que causou particular impacto nos contornos que o caso assumiu. “Tens a certeza de que este não é teu?”, pergunta um utilizador da rede social Twitter ao líder do Partido Nacional Renovador (PNR), de extrema-direita.. “Infelizmente, ao que parece, alguns dos ‘meus’ ainda andam pelos partidos do sistema”, responde José Pinto Coelho.

Horas antes, Francisco Mendes da Silva, antigo deputado do CDS, repudiava totalmente as declarações de André Ventura, chegando mesmo a desejar a derrota do candidato apoiado pelos centristas em Loures. “Que o meu partido não fique ligado a tão lamentável personagem”, pediu.

De seguida, num texto assinado pelo presidente da Distrital de Lisboa, João Gonçalves Pereira, o CDS apelou a que as afirmações de André Ventura fossem “cabalmente esclarecidas”, sublinhando que o assunto iria ser discutido no interior da coligação.

O Notícias ao Minuto entrou em contacto com a assessoria de imprensa do PSD para obter uma reação oficial à polémica, contudo, até ao momento da publicação desta notícia, não recebeu qualquer resposta. Porém, a candidata dos sociais democratas à Câmara Municipal de Lisboa, Teresa Leal Coelho, num comunicado enviado às redações, disse que o partido não se revê "nem em pensamento, nem no discurso de natureza discriminatória" utilizado por André Ventura. “Afirmações que generalizam comportamentos só perpetuam os preconceitos e estigmatizam comunidades que fazem parte integrante do tecido demográfico das nossas cidades", justificou.

Por seu lado, o PS, que considerou as declarações de André Ventura como “xenófobas” e “racistas”, numa posição transmitida pela secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, e pela candidata socialista a Loures, Sónia Paixão, pediu que o líder dos sociais democratas retire o apoio ao professor universitário.

O PS exorta formalmente o doutor Pedro Passos Coelho para que retire a confiança política ao candidato da coligação PSD/CDS à presidência da Câmara Municipal de Loures, honrando assim a tradição do PPD/PSD", frisou Ana Catarina Mendes em conferência de imprensa.

"Às vezes, atitudes de populismo racista dão votos"

Até ao momento, apesar do pedido de explicações e de repúdio pelas declarações de André Ventura, feitas por dirigentes do CDS e do PSD, nenhum dos dois partidos, através dos seus líderes, Assunção Cristas e Pedro Passos Coelho, retirou o apoio à candidatura 'Primeiro Loures', sendo incerto qual o impacto que esta polémica poderá ter no eleitorado.

Contactado pelo Notícias ao Minuto, o politólogo José Adelino Maltez assinalou que este caso é “um problema dos partidos”, mas que a sua real dimensão – o racismo relativamente à comunidade cigana – é muito mais complexa e assume contornos históricos.

“Acho que o que é gravíssimo é a má relação da comunidade em geral com os ciganos. Isto não vai lá com declarações do candidato ou de condenação das declarações do candidato. É muito mais complexo”, disse o politólogo. “Infelizmente, a política contra os ciganos vai da esquerda à direita”, sublinhou.

Perante as críticas, não só da opinião pública como por parte dos partidos, André Ventura reagiu à polémica, não para retirar o que disse, mas antes para reforçar e justificar as suas declarações, apesar de, segundo o próprio, nada o mover "contra a comunidade cigana".

“O Estado e o poder autárquico não se podem conformar com situações de desordem pública e com guetos onde as forças da autoridade não conseguem repor a ordem, por falta de meios humanos e materiais”, disse em comunicado o candidato da coligação PSD/CDS, comparando a situação de alguns bairros de Loures com um “barril de pólvora”.

Para Adelino Maltez, a posição de André Ventura não condiz com as do PSD e do CDS. “Nunca ninguém viu uma atitude de racismo por parte do CDS ou do PSD, antes pelo contrário. Todos eles são firmes nesse domínio”. “Os portugueses podem estar descansados: não há nenhuma via indireta de racismo ou de potencial racismo por parte do PSD e CDS. Podem ter muitos defeitos, esse não têm”, acrescentou.

O grande receio do politólogo é que esta polémica possa dar votos a ideias populistas e racistas. “Tenho medo é que isto dê votos. Às vezes, atitudes de populismo racista dão votos”, alertou Adelino Maltez.

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