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Rodney Peach, o professor inglês que se tornou português devido ao Brexit

Professor de inglês na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Rodney Peach, 62 anos e quase metade da sua vida passada em Portugal, tornou-se cidadão português este ano por causa do 'Brexit'.

Rodney Peach, o professor inglês que se tornou português devido ao Brexit

E na Lousã, desde há dois anos a casa portuguesa de Chris Sutcliffe, antigo funcionário do governo britânico, a desilusão com a saída do Reino Unido da União Europeia é idêntica à do casal Denise e Eric Sutton, residente na Figueira da Foz há mais de uma década.

"Recentemente, passei a ter as duas nacionalidades [inglesa e portuguesa] por causa do Brexit. Particularmente, porque quero continuar a ser um cidadão europeu e sinto-me muito mais descansado agora, aconteça o que acontecer", disse à agência Lusa Rodney Peach.

A preocupação resultava de, sendo 'só' inglês, poder experimentar dificuldades, por exemplo, ao nível do acesso a cuidados de saúde, caso após o Brexit quiser viajar dentro da União Europeia, para Espanha ou França "sem ter qualquer espécie de seguro de saúde".

O processo de naturalização "longo de mais de dois anos" começou em 2017, uns meses após o referendo que ditou a saída do Reino Unido da UE.

O cartão de cidadão chegou já este ano - depois de cumpridas todas as formalidades, incluindo um exame obrigatório de português, despachado sem dificuldades, por parte de quem fala, lê, escreve e percebe perfeitamente a língua de Camões - mas que, ainda assim, preferiu falar com a Lusa em inglês - tal e qual as aulas que dá na universidade -, para poder expressar "mais fielmente e com o vocabulário correto" as suas ideias sobre o Brexit.

Para Rodney Peach, o Brexit "é um grande erro", desde logo a decisão de convocar um referendo sobre o tema, o que, na sua opinião, levou a que passassem a coexistir "dois tipos de democracia em conflito" no Reino Unido, sendo essa a razão base para existirem "tantos problemas" sobre a saída da UE.

"Temos uma democracia parlamentar, elegemos membros do parlamento para tomarem decisões por nós e depois fizeram um referendo. E agora os dois discordam, os representantes eleitos, não todos, mas uma clara maioria, pensam que devemos ficar e o povo votou para sair", argumentou.

Quase 52% de votos em prol da saída da UE resultaram num país "dividido ao meio" e um resultado escasso "para tomar uma decisão tão grande e com tantas implicações", frisou Rodney Peach.

"Penso que teriam o mesmo resultado se a questão fosse 'está farto da vida como as coisas estão?' As pessoas deixaram-se levar pelos sentimentos, não votaram com uma perceção do que podia acontecer. Estavam insatisfeitos e pensaram, 'vamos tentar algo diferente'", alegou o docente de Inglês, natural do sul de Inglaterra, do condado de Dorset.

Agora, adiantou, o Reino Unido enfrenta uma "confusão política" a dias das eleições legislativas: Rodney Peach antecipa a vitória de Boris Johnson - face à "permanente indecisão" do Trabalhista Jeremy Corbyn - e com ela a saída da UE em janeiro, mesmo se critica ao primeiro-ministro conservador "as garantias que dá e nunca se concretizam".

Para o professor inglês, "o ideal seria um novo referendo e um resultado oposto", assim as eleições resultassem "num impasse", com a eventual entrada em cena de novos protagonistas políticos.

O casal Denise e Eric Sutton, de 70 e 73 anos, respetivamente, conheceu a Figueira da Foz em 2006 - por 'culpa' de um filho que para ali se mudou. Três anos mais tarde estavam rendidos à cidade litoral do distrito de Coimbra - principalmente Denise, nascida na África do Sul, já que Eric assume-se como "muito britânico" e manifesta a necessidade de, volta e meia, regressar à base, para visitar uma irmã e "respirar o ar" da ilha.

Em 2009 passaram a dividir o tempo, após a reforma - ela trabalhava num banco em Londres, ele era um engenheiro ligado à indústria de jogos de vídeo - entre Portugal e o Reino Unido, território onde desde o País de Gales a Inglaterra e Escócia, assumiram uma nova função: tratar dos animais, das casas e quintas de proprietários abastados, trabalho que os preenche, mesmo se a idade lhes vai complicando a destreza.

Embora ainda o façam, passaram a residir permanentemente em Portugal em 2015, um ano após conseguirem a dupla nacionalidade.

Eric lembra que da mesma maneira que Portugal os acolheu, no Reino Unido existiram "gerações de imigrantes, paquistaneses, indianos mas também portugueses", entre outros, "que ajudaram a construir o país".

"O Brexit para mim não é uma boa palavra. Sou da velha escola, sou europeu e acho que temos de ficar na Europa, porque somos parte da Europa. E quem decide devia pensar com muito cuidado porque se não fossem os imigrantes que, por exemplo, trabalham nos hospitais, o país estaria morto a esta altura", argumentou.

"E não somos só nós [a defender a manutenção na UE], toda a gente com quem falamos o faz", acrescenta Denise.

Já Chris Sutcliffe encontrou na Lousã, vai para dois anos, o seu lugar em Portugal e com ele algumas das características que destaca ao país e que conhecia das férias que habitualmente fazia no Algarve: um ritmo mais lento de vida, belas paisagens mas, sobretudo, gente com tempo para dar e respeito pelos outros, coisa que a população do Reino Unido, generaliza, "perdeu há muito, juntamente com boas maneiras".

Residente na cidade de Scarborough, na costa leste, junto ao Mar do Norte, Chris, de 54 anos, aproveitou a possibilidade de uma reforma antecipada depois de 27 anos de funcionalismo público e um problema de saúde da mulher acabou por ser decisivo para a mudança.

Chegou a procurar em Portugal um local idêntico junto ao mar, antes de se decidir pelo campo e de se fixar na Lousã, mesmo se em Inglaterra, onde regressa duas vezes por ano, ficaram os filhos, já crescidos e a banda rock que integrava, dois motivos de saudades.

Ele e a mulher votaram ambos pela manutenção na UE e dizem-se "extremamente desapontados" com o resultado do referendo. Chris Sutcliffe vai mais longe e manifesta-se incrédulo que expatriados britânicos "que vivem como estrangeiros noutros países" tenham votado pela saída.

"Quão idiota tens de ser para o fazer?", questiona.

Defende que o Reino Unido "estaria muito melhor" como parte da União Europeia, desde o comércio, à segurança e à defesa. E lembra que o "grande "Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) "que toda a gente quer proteger, depende da Europa para a maioria das suas equipas de enfermeiros e médicos" e que por isso o público britânico, ao querer sair da UE, "está a dar tiros nos pés".

E depois, segundo Chris Sutcliffe, até ao momento, o "único efeito que o Brexit já produziu na vida dos britânicos, são as constantes flutuações" do valor da libra esterlina face ao euro: "isto vai afetar-nos a todos após o 'Brexit' mas como ainda não sabemos. Só podemos esperar para descobrir", lamentou.

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