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Teatro Oito séniores de Marvila sobem ao palco com 'Metamorfose'

As memórias e os sonhos de oito habitantes da freguesia de Marvila, em Lisboa, com idades entre os 55 e os 86 anos, sobem ao palco do auditório Fernando Pessa, no próximo fim de semana, através da peça "Metamorfose". Uma semana antes da estreia, a agência Lusa esteve no auditório, a assistir a um ensaio da peça.
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Oito séniores de Marvila sobem ao palco com 'Metamorfose' Oito séniores de Marvila sobem ao palco com 'Metamorfose' Oito séniores de Marvila sobem ao palco com 'Metamorfose'
Lusa

Este é um projeto que nasceu de uma parceria entre o grupo de teatro Contra Senso, a associação Entremundos e a junta de freguesia de Marvila, e tem o apoio do programa BIP/ZIP (Bairros de Intervenção Prioritária/Zonas de Intervenção Prioritária) da Câmara de Lisboa.

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Há dois anos, foi feito com dois grupos de jovens. "Este ano, decidimos fazer o mesmo, mas com séniores", explicou o encenador de "Metamorfose" e diretor artístico do Teatro Contra Senso, Miguel Mestre.

Ensaiar séniores "é muito diferente" de ensaiar jovens. Para Miguel Mestre, "é igualmente gratificante, mas até chega a ser mais, porque o desafio é maior".

"O método dos ensaios tem que ser completamente diferente, a idade é outra, a capacidade de decorar texto é diferente, tem que haver esquemas para se memorizar, temos que associar as marcações com as deixas", disse.

Para salvar os esquecimentos, Miguel Mestre vai dando palavras aos 'atores', escondido atrás dos panos.

Por vezes, a intervenção do encenador não é necessária, já que em palco, Miguel Mestre tem a ajuda de Lourenço, de 86 anos, que vai corrigindo os colegas e chamando a atenção para falhas no texto e entradas em cena fora de sítio.

Ao longo de quase uma hora, dançam, cantam, declamam e contam pedaços de vida, deles e dos colegas. Entre os 'atores' há quem tenha trocado Lamego por Lisboa, quem gostava de ter sido escritor, quem passava a ferro para ganhar a vida, há um cego e uma senhora que "de nascença" faz tudo numa cadeira de rodas.

Maria Morgado Rodrigues, reformada de 62 anos, é uma estreante na representação. "Agora estou a gostar, e já vou ter saudades quando acabar, mas no princípio foi um bocado complicado, não me conseguia integrar no teatro", contou.

Maria recordou que até "queria desistir", mas depois, "com a força" dos colegas, do encenador e do psicólogo Gonçalo Henriques, que também ajuda nos ensaios, decidiu continuar.

Também para Elisabete Ramos, de 61 anos, esta é uma estreia. Embora, diga que "faz teatro todos os dias" da sua vida.

"Num palco fazia na escola quando era em miúda", recordou. Mas, o "sonho" ficou pelo caminho. Aos 19 anos já era mãe, teve três filhos e "tinha que trabalhar para os sustentar". "Vivia o teatro no Carnaval, mascarava-me e aos miúdos e fazíamos pecinhas uns com os outros, tal e qual como eu em garota fazia com a minha irmã", recordou.

Para Elisabete, "representar não é só vestir um boneco", é também "passar mensagem" e isso "é muito importante".

"Fiquei muito feliz por participar e estar neste grupo, que é fantástico", disse.

Maria e Elisabete partilham o palco com Francisco Lourenço, de 67 anos, e José Carlos Amaral, de 55, que já levam alguma rodagem na arte dos palcos.

Franciso recordou que "fazia teatro na adolescência e costumava declamar poemas". Com o desafio para fazer parte do elenco de "Metamorfose" sentiu-se "motivado e entusiasmado".

Este professor reformado, formado na Holanda, admite que às vezes há falhas, mas, "globalmente", os ensaios têm corrido "bastante bem".

Também para José Carlos Amaral, de 55 anos, esta peça é um regresso aos palcos.

"Já tinha feito teatro num grupo de teatro do meu bairro, Grupo de Teatro os Patolas, de teatro de intervenção. O grupo acabou e nunca mais fiz", contou.

"O bichinho do teatro fica sempre. Porque é no teatro que eu consigo adquirir uma grande naturalidade, uma maneira diferente de encarar as coisas. Vejo o mundo de uma forma diferente. O teatro educa muito. Adoro fazer teatro", disse.

José Carlos diz-se "satisfeitíssimo" com o projeto. "Gosto porque a história é bonita e tem algo a ver com o nosso dia-a-dia, com aquilo que se passa no mundo", sustentou.

Também o encenador faz um balanço positivo do projeto. "Apesar de serem todos diferentes e de alguns já terem experiência de palco, de teatro amador, tem corrido muito bem. Tem sido um casamento perfeito entre todos", considerou Miguel Mestre.

"Metamorfose" estará em cena nos dias 14, 15 e 16 de março no Auditório Fernando Pessa, no Espaço Municipal da Flamenga.

Na sexta-feira, a peça sobe a palco às 11:00 e às 16:00, no sábado às 16:00 e às 21:30 e no domingo às 16:00. Os bilhetes custam dois euros.

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