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"Enquanto o artista se mantém com fome e relevante nunca pode ser datado"

Mundo Segundo vai estar, este sábado, no Famous Fest, em Lisboa, num espetáculo com Rui Unas e com o maestro Rui Massena. Aproveitámos a oportunidade para conversar com um veterano do hip-hop nacional, que ajudou a abrir caminhos para o género e continua a surpreender com os seus trabalhos, a solo ou em conjunto com outros artistas.

"Enquanto o artista se mantém com fome e relevante nunca pode ser datado"
Notícias ao Minuto

07:00 - 30/09/17 por Pedro Bastos Reis 

Cultura Mundo Segundo

Quando falamos de hip-hop praticado em Portugal, é inevitável falar de Mundo Segundo, um dos membros dos históricos Dealema, que revolucionaram a forma como o género é feito no nosso país.

No entanto, nem só de Dealema se faz a vida de Mundo Segundo, que no início deste ano lançou o EP ‘Sempre Grato’, quatro anos depois do seu segundo disco, ‘Segundo o Ancião’. Este EP, “uma forma de agradecer a todos em formato de disco”, tem levado o rapper a vários pontos do país, isto enquanto tem gravado com outro nome histórico do hip-hop nacional: Sam the Kid.

Numa entrevista por telefone ao Notícias ao Minuto, Mundo Segundo desvenda um pouco sobre os mais de 20 anos em que cimentou um lugar importante neste género musical. De Dealema ao projeto com Sam the Kid, do último EP ao concerto de hoje no Famous Fest, ficamos a conhecer mais sobre o rapper, bem como para os projetos que se avizinham.

Como está a ser a reação ao seu último trabalho, 'Sempre Grato', lançado no início do ano?

Tenho tido um bom feedback. As pessoas têm ido aos concertos, abordam-me, dizem-me que gostaram muito do disco.

A quem se considera grato? O EP serviu como homenagem a essas pessoas a quem agradece?

Sim, de certa forma é mesmo esse o conceito do disco. Uma forma de gratidão à minha família, aos seguidores que me acompanham ao longo dos anos e a todos os meus amigos. Uma forma de agradecer a todos em formato de disco.

No 'Segundo o Ancião' teve uma série de convidados. No EP aconteceu o mesmo. Sente que é como que um complemento à sua música?

Sim. Gosto muito de fazer música com mais pessoas, sempre foi algo que me deu muito gozo e as coisas surgem de forma espontânea. Alguns convidados são pensados, outros nem tanto. Vou fazendo um pouco ao sabor do vento, desfrutando do momento. Se acho que aquela pessoa encaixa naquela música, então vou convidá-la. As pessoas respondem de forma positiva quando faço convites e fico muito contente, porque isso mostra o que eu sou, uma pessoa que convive com muita gente, de todo o país. Espero que a minha música reflita um pouco isso.

Tento introduzir estas paisagens sonoras, que vêm de mundos diferentesHá alguma colaboração que queira destacar?

Este último disco tem a participação de alguém com quem eu nunca tinha feito uma música: o Bezegol. É uma pessoa aqui da cidade do Porto, com quem eu já queria fazer algo, só que ainda não tínhamos privado nesse sentido. Começámos a falar e a criar uma amizade, e naturalmente surgiu o convite para fazermos esta música [‘Não Há Competição’]. Deu-me muito gozo e diverti-me imenso a fazer essa malha.

Muitas destas colaborações vão para além do hip-hop. O seu projeto a solo ultrapassa barreiras no que diz respeito a géneros musicais?

Sem dúvida. Privo com outras pessoas, de outros géneros musicais que aprecio, e faço sempre questão de introduzir algo mais, seja do reggae, do rock, do soul ou do funk. Tento introduzir estas paisagens sonoras, que vêm de mundos diferentes, mas incluí-las, de certa forma, no hip-hop que faço.

Recuemos um pouco até ao momento em que decide lançar o projeto a solo. O que o levou a querer fazê-lo?

O meu primeiro projeto a solo, que começou em 2006, veio numa altura em que eu já fazia rap há quase 13 anos. Foi uma necessidade criativa pessoal. Tinha o meu projeto com os Dealema, continuo a ter, mas de certa forma surgiu-me ali um espaçozito, e eu ia aproveitando para criar algumas coisas sozinho. Depois, isso foi dando origem a uma coisa maior e acabou por se tornar no meu primeiro disco [‘Sólida Oportunidade de Mudança’].

A minha música vive muito disso, de recolher vivências de tudo aquilo que me rodeiaO primeiro álbum surge em 2006 e até ao lançamento do 'Segundo o Ancião' passaram oito anos. O que se passou nesse tempo?

Concentrei-me mais em Dealema, fizemos quatro discos nesse espaço. Além disso, fazia grande parte da produção, gravava as vozes e fazia a pré-produção de quase tudo. Isso levava-me algum tempo. De certa forma, coloquei a minha carreira a solo em stand-by, mas sempre fui fazendo algumas coisas. Aqui e ali ia tirando apontamentos e depois, em 2014, surgiu, naturalmente, o segundo disco.

Oito anos depois, sente-se mais maduro? 

Claro que sim. A experiência e a idade vão-nos tornando mais sábios e a saber canalizar as energias da forma certa e na hora exata. Senti, nessa altura, que já tinha mais algumas experiências acumuladas, que é algo que tento fazer de disco para disco, conviver com pessoas. A minha música vive muito disso, de recolher vivências de tudo aquilo que me rodeia.

O nome Mundo Segundo quase que se confunde com a história do hip-hop português. Passados todos estes anos, desde a formação dos Dealema, o entusiasmo continua a ser o mesmo? O que mudou?

Posso dizer que estou muito mais maduro. A fome acaba por ser a mesma, mas quando comecei era todo um mundo para explorar, era tudo novo. Hoje em dia, já sei como usar as ferramentas que fui adquirindo ao longo dos anos e usá-las da melhor forma. Essa é uma das grandes diferenças apesar dos 20 anos que passaram.

Andámos muitos anos a abrir caminhos, a tornar o hip-hop credível e a fazê-lo chegar a outros palcos

Já que falamos nos Dealema, é inevitável a pergunta. Há disco novo no horizonte?

Neste momento, não estamos a fazer música. Estamos focados em recolher arquivo de vídeo, porque o que temos em mente é fazer alguns episódios em forma de documentário no nosso canal de Youtube, para falar sobre a nossa história e o processo criativo destes mais de 20 anos de banda. A partir daí, logo virão novas ideias e potencialmente faremos um novo disco.

Qual o balanço de todos estes anos de Dealema?

Faço um balanço muito positivo, porque, no fundo, começámos por fazer aquilo que era uma brincadeira e acabou por se tornar num estilo de vida e numa forma de estar. Estamos aqui a falar ao fim de mais de 20 anos, portanto o balanço só pode ser positivo.

Marcaram uma geração, são uma banda de culto no género em Portugal. Que lugar é que os Dealema ocupam, hoje, no hip-hop português?

Essencialmente, abrimos muitas portas ao longo dos anos. Ver esta juventude aproveitar este espaço que foi sendo criado pelos pioneiros e pelos que vieram a seguir é positivo. Andámos muitos anos a abrir caminhos, a tornar o hip-hop credível e a fazê-lo chegar a outros palcos, e ver esta nova geração conseguir ter agenda, a fazer concertos mensalmente e a fazer quase uma carreira é muito positivo. O espaço que nós ocupamos, nos dias de hoje, é mesmo esse. As pessoas sabem que nós fomos importantes na história e que enquanto cá estivermos vamos continuar a ser, porque temos uma palavra a dizer. Estávamos cá no início, estamos aqui agora e, eventualmente, vamos estar aqui no futuro. Somos um grupo que potencialmente não tem data. Enquanto o artista se mantém com fome e relevante, nunca pode ser datado. É essa a mentalidade que mantemos.

Olhando para a qualidade que se faz hoje em dia, qual a sua visão sobre o hip-hop em Portugal?

Há muitas novas texturas musicais, muitos bons produtores, novas sonoridades, novas formas de rimar. Tudo o que seja diversificado é sempre bom para a cultura.

Nos últimos tempos tem colaborado frequentemente com o Sam the Kid. Quando é que vai sair um álbum conjunto?

O álbum está a ser gravado. Neste momento em que estamos a falar, estou aqui no meio do set do novo vídeo, que está ser gravado hoje [quinta-feira]. Em breve, temos novo single na rua, e a pouco e pouco vamos desvendando o que temos guardado no baú, que está sempre a ser cozinhado.

Como se chama o novo single?

Isso não posso revelar [risos]. Posso dizer que, no máximo, daqui a um mês está na rua.

 Possivelmente, vamos lançar o álbum sem avisarMas o álbum ainda vai sair este ano?

Não é uma coisa que datamos. Quando estiver ao nosso gosto, dentro daquilo que queremos apresentar ao público, comunicaremos. Mas, possivelmente, vamos lançar [o álbum] sem avisar.

De onde surge a colaboração com o Sam the Kid?

É uma amizade que já temos há muitos anos. Já tentámos fazer algumas músicas na cave do Dj Cruzfader, em 1999/2000, depois as coisas ficaram em águas de bacalhau, fomos trabalhando nas nossas carreiras. Há coisa de três/quatro anos, o Sam [the Kid] convidou-me para fazermos umas batalhas instrumentais, visto que somos os dois produtores e que tínhamos um currículo grande a nível de beats para outras pessoas, e voltou a avivar-se a ideia de fazermos um disco. E, naturalmente, começámos a fazê-lo.

Hoje, vai estar no Famous Fest, no Lx Factory, em Lisboa, à conversa com o Rui Unas e com o maestro Rui Massena. Desvende-nos um pouco mais sobre o que vai acontecer.

Vai ser, basicamente, uma conversa com momentos musicais. Vou pela primeira vez mostrar algo às pessoas que já fiz em tom de brincadeira com o maestro, que é cantar rap ao som de piano, sem qualquer tipo de [outro] instrumental. Cozinhamos ali um momento engraçado. Creio que o mesmo acontecerá com o maestro e com o Rui Unas, e depois vamos revelar algumas curiosidades pessoais sobre cada um e de como é que os nossos mundos se cruzam.

Imagina-se a rimar contra o Rui Unas?

Acho difícil. O Rui Unas não ia conseguir ganhar [risos].

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