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Imigração: Esta casa portuguesa é multicultural e acolhe como poucas

Nas últimas décadas Portugal teve diferentes vagas de imigração que ajudaram a moldar o tecido social, económico e cultural do país. Os imigrantes sentem-se bem recebidos e integrados e muitos pensam ficar por cá.

Imigração: Esta casa portuguesa é multicultural e acolhe como poucas
Notícias ao Minuto

07:42 - 21/01/18 por Fábio Nunes

País Sociedade

Portugal é desde há muitas décadas um país que recebe imigrantes e que os sabe acolher e integrar. A primeira grande vaga de imigração pode ser identificada no período pós-colonial e, sem surpresa, os primeiros imigrantes que começaram a chegar ao país em grande número eram oriundos dos PALOP.

Os dados do SEF sobre a evolução da população estrangeira em território nacional têm como ponto de partida o ano de 1980. Na altura residiam em Portugal 50.750 imigrantes. Um número que dobrou à entrada para a década de 90 e foi sempre subindo. Em 2001 disparou para quase 224 mil imigrantes. Atingiu um pico em 2009, com quase 452 mil estrangeiros a viverem em Portugal. Os anos de crise e de austeridade tiveram impacto nestes números, que foram caíndo anualmente, tendo estabilizado em 2016 para cerca de 393 mil imigrantes.

A partir de 2001, verificou-se uma diversificação da população imigrante em território português. Uma enorme vaga de imigrantes de leste começou a chegar a Portugal por volta dessa altura. Maioritariamente ucranianos, mas também muitos romenos. O número de brasileiros que chegou ao país também foi aumentado ao longo dos anos e trata-se atualmente da comunidade com maior representatividade por cá. Os chineses também escolheram Portugal como um dos seus destinos preferenciais e são uma das comunidades de maior relevância. Mas há muitas mais nacionalidades. Muitos cidadãos provenientes da Índia imigraram para Portugal, além de várias outras nacionalidades com menor impacto nestes números.

A maior parte das comunidades estrangeiras em Portugal já cá estão há vários anos. Motivo pelo qual o Notícias ao Minuto decidiu falar com algumas associações dessas comunidades para compreender como foi a adaptação ao país, como foram e continuam a ser recebidos e o que mais apreciam na sua vida em Portugal.

Os dados do SEF de 2016 – os mais recentes – mostram que há 81.251 brasileiros a viver em Portugal. Representam quase um quarto da população estrangeira em território nacional. Adriana Dihl Moraes é a presidente da Associação Mais Brasil, que está sediada no Porto.

“Qualquer imigrante quando chega a um país não tem uma adaptação fácil. Embora algumas pessoas digam que falamos a mesma língua, mas não falamos porque há muitas expressões que têm significados diferentes”, começa por dizer Adriana, que depois acrescenta: “A adaptação é mais complicada porque as pessoas têm de se adaptar ao clima, à cultura, a estar longe da família e dos amigos. Viemos de um país onde temos uma formação e não podemos trabalhar na nossa área”.

A Associação Mais Brasil disponibiliza apoio jurídico, apoio psicológico mas também terapia da fala, por exemplo. “Muitas pessoas também vêm para cá ao engano, com um visto de turista e deparam-se com a falta de emprego e com a dificuldade em obter a documentação necessária para trabalharem cá de forma legal”, faz notar Adriana Dihl Moraes que já testemunhou situações mais dramáticas.

“Há situações de pessoas que batem à nossa porta com filhos pequenos e dizem-nos que não têm mais dinheiro, que não têm onde morar e que precisam da nossa ajuda. Não podemos deixar de o fazer”, enfatiza a responsável da associação.

Adriana Dihl Moraes não hesita na hora de dizer que o povo português “é muito acolhedor” e explica o que leva os brasileiros a virem para Portugal. “Nós quando vimos para cá procuramos quatro coisas que não existem no Brasil: segurança; transportes públicos de excelência; a saúde - no Brasil temos de pagar uma fortuna por um plano de saúde privado porque a saúde pública é muito má -; e a escola pública que também é de excelência”.

Notícias ao MinutoNúmero de estrangeiros a viver em Portugal disparou em 2001© Global Imagens

Foi também à procura de melhores condições que os ucranianos começaram a vir para cá. A escolha teve uma justificação simples. “O mercado de trabalho estava aberto na altura e também havia muita procura de emprego na área da construção civil devido ao campeonato europeu de futebol de 2004”, diz Paulo Sadokha, presidente da Associação de Ucranianos em Portugal.

O responsável diz que em 2006 chegaram a viver em Portugal cerca de 80 mil ucranianos. Agora oficialmente vivem cá cerca de 34 mil, de acordo com os dados do SEF. “Mas há alguns ucranianos que já conseguiram a nacionalidade portuguesa e que já não entram nesta estatística, por isso estão em Portugal entre 45 mil a 50 mil ucranianos”.

Paulo Sadokha lembra que os ucranianos foram bem recebidos desde o primeiro momento. “Eu lembro-me bem de que no Natal de 2001, o primeiro Natal que muitos ucranianos passaram cá, a paróquia ucraniana reuniu-se numa igreja e, na altura, o Presidente Jorge Sampaio veio ter connosco e disse que os ucranianos podiam sentir-se bem-vindos”.

Recentemente, Marcelo Rebelo de Sousa recebeu a visita do presidente ucraniano, Petro Poroshenko, e aproveitou para elogiar a forma como os ucranianos se integraram tão bem em Portugal e como contribuíram para o desenvolvimento do país, como refere Paulo Sadokha, que elogia a política de imigração portuguesa.

“É muito boa e eficiente. Foi criada a lei da imigração que combateu os trabalhos ilegais. Os programas do Governo de aprendizagem da língua portuguesa também são muito úteis. Os ucranianos também tiveram acesso livre a cursos de formação. O reconhecimento dos diplomas das universidades da Ucrânia também foi algo que ajudou muito os ucranianos formados que vieram para cá”, realça o presidente da Associação dos Ucranianos, que vai mais longe. “Acho que os ucranianos em Portugal têm os mesmos direitos do que os portugueses”.

Os imigrantes chineses também já fazem parte do tecido social e económico do país. Trata-se da quinta comunidade com maior representatividade em território nacional. Há 22.503 imigrantes chineses em Portugal, segundo os dados do SEF de 2016.

Miao Sun, é um dos fundadores da Associação de Jovens Luso-chineses, cujo principal objetivo passa por promover “a interligação entre a comunidade chinesa e os portugueses”. Ao Notícias ao Minuto fez um retrato da comunidade chinesa que vive em Portugal.

“A comunidade chinesa pode ser dividida em duas camadas: a mais velha, que chegou cá há mais tempo e tem muitas dificuldades com a língua; os jovens estão mais bem integrados. Por vezes vocês dizem que a comunidade chinesa é muito fechada e têm razão porque muitos não conseguem falar português. No caso dos jovens, muitos de nós andam na faculdade e têm mais facilidade em interagir”, diz.

Quando os imigrantes chineses começaram a vir para Portugal e para outros países europeus o objetivo era “ganhar mais dinheiro", afirma Miao Sun, que também partilha da imagem dos portugueses como um povo acolhedor. “O povo português, pelo menos comparando com outros países europeus, é mais aberto e fomos muito bem recebidos. A minha geração quase nunca teve problemas com os portugueses”.

Regressar aos países de origem já não é uma opção para muitos

O fundador da Associação de Jovens Luso-chineses destaca ainda o papel do CNAI, o Centro Nacional de Apoio aos Imigrantes, na integração dos imigrantes. O CNAI é apenas um dos serviços disponibilizados pelo Alto Comissariado para as Migrações que pretende ajudar e facilitar a adaptação dos imigrantes que escolhem vir para Portugal.

Muitos dos filhos de imigrantes já nasceram cá ou então passaram a grande maioria da sua vida em território português. Muitos não querem regressar aos seus países de origem ou aos países dos seus pais. “Os jovens ucranianos sentem-se mais portugueses do que ucranianos. Integraram-se tão bem que até já se torna difícil manter a identidade ucraniana”, indica Paulo Sadokha. “Não sei se pensam em regressar à Ucrânia um dia. Quanto aos mais velhos, muitos pensam regressar”, admite.

Adriana Dihl Moraes percebe este dilema, que muitos brasileiros também enfrentam. “As pessoas apaixonam-se por Portugal, pela cultura, pela alimentação, pelos lugares maravilhosos que há para se visitar pela liberdade, pela segurança. Há coisas que o dinheiro não compra. Não adianta ter uma casa maravilhosa no Brasil para depois ter um carro blindado e ter de andar armado, não poder parar num semáforo vermelho devido ao risco de assaltos, de raptos e de correr perigo de vida”.

No caso da comunidade chinesa a vontade de regressar ou não ao gigante asiático difere conforme a faixa etária. “Há uma tradição chinesa importante para a geração mais velha. Quando estiverem próximos da idade de morrer têm de voltar ao sítio onde nasceram. Para nós jovens é diferente. A China é o nosso país, tal como Portugal é o nosso país. Não temos uma necessidade de regressar tão grande como eles. Nós podemos viver em qualquer lado”.

Apesar da crescente intolerância e xenofobia que cada vez mais mina o sonho europeu, Portugal parece manter-se à parte. Não é o país que oferece melhores condições económicas ou sociais, certamente. Mas sabe receber e integrar os estrangeiros que vêm para o país e que em muitos casos já não querem sair. De alguma forma esta torre de babel portuguesa funciona. 

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