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Quotidiano da ex-Jugoslávia exposto em livro pelo olhar de um brasileiro

Fotojornalista Raphael Lima percorreu cidades do Leste Europeu durante 25 dias. Experiência é lançada pela editora Ímã.

Notícias ao Minuto

12:00 - 16/01/18 por Raquel Lima 

Cultura 'Sociedade Dividida'

'Sociedade Dividida: Iugoslávia' era para ser um relato das impressões de um fotojornalista sobre os Bálcãs, após 25 dias de imersão. Ao contrário do que defende o autor, Raphael Lima, na apresentação, as 200 páginas publicadas agora pelo projeto Motor Editorial, da editora Ímã, são demasiado íntimas para serem registos. São como um diário, que tanto expõe a intimidade do brasileiro de 31 anos, quanto desnuda o quotidiano cru das ruas desgastadas pela guerra, e que ainda carregam balas na arquitetura.

O livro é, em si, uma quimera que começou, em 2014, quando o autor visitou a Croácia e a Eslovénia, e ganhou força quando Raphael viajou para Belgrado, em 2015.

Ao deixar Copacabana, no Rio de Janeiro, para viver na Praça de Espanha, em Lisboa, há pouco mais de dois anos, Raphael Lima sentiu que era o momento de “contar um pouco da Jugoslávia desde a morte de Tito [o Marechal Josip Broz Tito], em 1980, até os dias de hoje”.

Com o plano de viagem (por terra, autocarro e comboio) pronto, o jornalista colocou a mochila às costas e, em março (“18 anos depois da primeira bomba; 29 anos depois do primeiro Big Mac”), desembarcou em Belgrado. “É bom visitar um destino mais do que uma vez. Você já sabe o que fazer e parece estar chegando em algo como a própria casa, onde você já conhece o caminho do banheiro [casa de banho]”, relata. Na tal mochila, uma Leica XL digital, com lente 35mm; uma Nikon F2 analógica, com lentes de 24mm e 50mm. “Quando necessário, usava o iPhone também”, completa. Além das máquinas fotográficas, um PC, um gravador e uma câmara de filmar - “para captar algumas imagens e entrevistas”.

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No epitáfio do ex-país, que há 40 anos era parte do estandarte comunista mundial, Lima usa, além de fotografias a preto e branco, textos sobre o que viu e ouviu, para dimensionar a vida de hoje em cidades como Vukovar, na fronteira da Sérvia com a Croácia. Palco de uma das piores batalhas das guerras de separação da Jugoslávia, Vukovar ainda tem as ruas desertas. “Andei de volta para a estação sem cruzar com ninguém”, revela o autor.

A narração de uma partida de futebol entre o Estrela Vermelha (Cvrena Zvezda, em sérvio) e o Spartak Moscou, em Belgrado, saem da frugalidade em 'Sociedade Dividida: Iugoslávia'. No estádio apelidado de Marakana, em homenagem ao Maracanã brasileiro, Lima festeja o futebol que respira “fora dos moldes da FIFA” e “longe de orçamentos milionários”, mas fundamenta a cooperação histórica entre os dois países. “Já ia me esquecendo: Estrela Vermelha 2 x 1 Spartak Moscou. De virada”, avisa. De frente ao Rio Drina, em Sarajevo, o autor relata ter-se lembrado de “todos os rios que viu na vida". Na cidade, que o fez se sentir “dentro do projeto”, passou por barricadas e ficou “sem pão”.

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Por entre as conversas que integram o livro, a com os fotógrafos jugoslavos Marko Risovic e Nemanja Pancic; a com Nermin Vlajcic, agente da polícia recrutado para a guerra aos 18 anos; a com Vujadin Vujadinovic, defensor de Tito e sobrevivente do bombardeio da NATO, a Podgorica, em 1999; e a com um português que atua como agente de imigração em Montenegro.

Com o Notícias Ao Minuto, Raphael Lima conversou sobre o que lhe causou surpresa no Leste Europeu e opina sobre a utopia e fratura social. Confira.

Nunca se pode contar uma história ouvindo apenas um lado

Depois de duas expedições por sociedades divididas, Terra Santa e Jugoslávia, tem uma opinião sobre por que razão algumas sociedades se dividem, enquanto outras persistem - ou é uma questão de tempo: a sociedade foi feita para ruir?

Geralmente, as sociedades quebram por conta de outras. A Palestina é um exemplo claro disso, basta ver o comportamento de Israel, com o apoio norte-americano, sobre o território. Por mais que, ao longo do século XX, a Palestina tenha perdido algumas oportunidades de selar a paz, o que acontece lá hoje é um claro sinónimo de apartheid. E sim, dificilmente, as sociedade conseguem manter-se firmes e coesas por muito tempo, principalmente por conta da indústria bélica, entre outros motivos.

Então, a ideologia de uma sociedade envelhece?

Envelhece a partir do momento em que a nostalgia prevalece sobre a racionalidade, e a impede de avançar. Os tempos mudam, algo criado lá atrás não necessariamente se encaixa com as mesmas medidas no mundo atual.

Qual era a sua relação com a fotografia antes do primeiro livro 'Sociedade Dividida: Terra Santa' (Independente, 2015)?

Comecei a fotografar depois de ler o livro 'Clube do Bang-Bang', há uns 10 anos. Contava a história de fotógrafos sul-africanos que trabalharam no país e cobriam, principalmente, os atritos causados nos últimos anos do apartheid e os primeiros após o fim, antes de Mandela ser presidente. Daí para frente, andava sempre com uma máquina no bolso. Fui adiando o sonho já que sem portfólio só conseguia emprego de repórter nas redações, nunca de repórter fotográfico. Mas de 2010 em diante, comecei profissionalmente.

Qual a lição pessoal que o trabalho de campo lhe trouxe?

Que nunca se pode contar uma história ouvindo apenas um lado.

Que outro lado é esse que viu?

A história da desintegração jugoslava tem muitas frentes. E todas elas têm as suas razões. Por isso é difícil tomar partido, principalmente, se baseados no que contam os media ocidentais.

Qual foi o dia mais marcante de todo trabalho de campo na ex-Jugoslávia?

O dia em que cheguei a Sarajevo. Foram oito horas de viagem, pensando numa cidade que ocupou o meu imaginário desde os anos 1990.  Chegar lá, foi ver ao vivo tudo que minha imaginação construiu nesses 17 anos.

O que esperava e o que encontrou em Sarajevo?

Esperava uma Sarajevo recuperada da guerra. Não fazia ideia de que a memória do conflito era tão presente daquela forma. Você não precisa de entrar num museu para se recordar do que aconteceu, como quando fui a Hiroshima, por exemplo. Basta caminhar na rua.

Qual o próximo projeto?

Pela proximidade, já que moro em Lisboa, posso fazer algo em Espanha, já que a crise na Catalunha reacendeu pavios no país. Ou mesmo contar a história de algumas regiões separatistas, como Transnístria (Moldávia), Nagorno-Karabakh e Chipre do Norte. Todas num mesmo livro.

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