Meteorologia

  • 17 DEZEMBRO 2018
Tempo
14º
MIN 13º MÁX 14º

Edição

Espetáculo com portugueses de Great Yarmouth faz reflexão da atualidade

Um grupo de não-atores, na maioria portugueses, de Great Yarmouth, na costa Este de Inglaterra, estreiam hoje um espetáculo encenado por Marco Martins que usa as experiências pessoais de imigrantes e locais para refletir sobre a atualidade política.

Espetáculo com portugueses de Great Yarmouth faz reflexão da atualidade
Notícias ao Minuto

11:14 - 25/05/18 por Lusa

Cultura Reino Unido

'Provisional Figures' faz parte do Festival de Norfolk e Norwich e estará em cena hoje e no sábado na sala Drill House, cuja lotação esgotou para os dois dias, fruto da curiosidade que o projeto causou na vila com menos de 40 mil habitantes.

"Eu sinto-me um bocadinho nervosa. É normal, não é? Acho que todos estamos um bocadinho nervosos, mas não me sinto mal. Nós não somos profissionais, somos amadores. Mas sinto-me bem, estou feliz", confiou à agência Lusa Maria do Carmo Ferreira, de 48 anos.

O espetáculo é o culminar de muitos meses de trabalho num projeto que começou há mais de dois anos, quando o realizador e encenador Marco Martins, devido à sua experiência de teatro comunitário, foi desafiado a criar uma produção com a numerosa comunidade portuguesa.

Visitou os muitos cafés e restaurantes da vila e fez 150 entrevistas, mas, no final, do grupo inicial, só permaneceram duas, dificuldade que o levou a alargar o projeto a outras nacionalidades.

"Nunca tive a ambição de no espetáculo mostrar exatamente como é a imigração portuguesa. Tinha a ambição de falar das pessoas que estão aqui representadas, [mas] elas falarem por elas próprias. E eu acho que foi o que me atraiu neste projeto, que Great Yarmouth é um lugar muito sintomático de várias coisas que estão a acontecer no nosso mundo hoje em dia", explicou.

A maioria dos milhares de portugueses nesta região rural de Inglaterra foi atraída por anúncios de trabalho em fábricas de processamento alimentar, nomeadamente a Bernard Mathews, onde se transformam perus em produtos para consumo doméstico.

Foi o caso de Carmo, que se lembra do choque que sentiu ao entrar na unidade industrial pela primeira vez e viu que o trabalho consistia em desmanchar os animais acabados de abater, repulsa que levou muitos "homens grandes a chorar" e a desistir.

Os oito anos que a lisboeta aguentou naquele emprego inspiraram uma das cenas que mostra o trabalho mecanizado de estripar e cortar os órgãos e peças de carne.

Do trabalho na "Bernardo", como é apelidada a empresa por muitos, parte uma reflexão sobre a relação da sociedade com os animais e a forma como são tratados.

"Eu costumava trabalhar numa reserva natural de animais e aqui temos trabalhadores da Bernard Mathews. É um contraste interessante", admite Robert Elliot, um dos locais que se juntaram ao elenco.

Da comparação e confronto de experiências pessoais formou-se uma peça teatral com testemunhos e números de dança, unidos por música e fragmentos de entrevistas e textos de autores como Joseph Coetzee.

Criou-se também um sentimento de comunidade entre o grupo de quatro atores lusófonos, quatro ingleses e um esloveno, revela Elliot.

"Conheci muitas pessoas com quem agora me dou bem. Antes deste projeto não me dava com portugueses, mas agora tive oportunidade de conhecê-los melhor e são ótimas pessoas", disse à Lusa.

Outra das protagonistas, Victoria River, admite que "esta é uma peça muito invulgar" porque acaba por mostrar "a forma como o mundo mudou e Great Yarmouth mudou desde quando era pequena até agora".

Richard Raymond, um local por afinidade, já que foi durante a visita a uma irmã que foi convidado a juntar-se ao grupo, espera que a peça contribua para uma maior tolerância e para combater a xenofobia, mostrando que os portugueses vieram para a região trabalhar.

"Vai fazer as pessoas pensarem. É uma peça interessante. Eu já tinha feito teatro antes, há muitos anos, com guiões mais tradicionais. Mas esta peça é diferente, é muito artística, leva os espectadores a pensarem na nossa relação com os animais e outras coisas", garante.

Ana Moreira, que testemunhou ataques racistas, também deseja que o espetáculo mude mentalidades numa cidade onde 71,5% votaram pela saída da União Europeia no referendo sobre o 'Brexit' em 2016 e onde o partido UKIP chegou a eleger 12 vereadores.

"Somos estrangeiros, mas também podemos juntar-nos e unir-nos com os ingleses e fazer coisas bonitas como é este teatro, que vai ser bonito para a cidade. As pessoas falam muito disso já. E só o facto de termos aqui nacionalidades diferentes mostra que podemos ser mais unidos", reivindica.

Depois de Great Yarmouth, "Provisional Figures" vai apresentar-se no Porto, de 15 e 16 de junho no Teatro Rivoli, no âmbito do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), e depois em Lisboa, de 28 de junho a 04 de julho no Teatro Maria Matos, integrado no ciclo Migrações.

O projeto foi também base de uma residência artística 'online' da plataforma RAUM (http://raum.pt/) que abre a 19 de junho, onde a vida de Great Yarmouth é descrita e ilustrada por textos da escritora Isabela Figueiredo e imagens do fotógrafo André Cepeda.

Recomendados para si

Seja sempre o primeiro a saber.
Acompanhe o site eleito pelo segundo ano consecutivo Escolha do Consumidor.
Descarregue a nossa App gratuita.

Apple Store Download Google Play Download

Campo obrigatório