Rendas de bilros dão nova vida a velhas redes de pesca

As tradicionais rendas de bilros de Vila do Conde integram um projeto inovador em que os fios de antigas redes de pesca são utilizados como matéria-prima.

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Cultura Vila do Conde

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A iniciativa partiu do município vila-condense que desafiou as rendilheiras locais a darem uma nova roupagem aos seus trabalhos, reutilizando materiais usados pelos pescadores de Caxinas e criando, assim, uma ligação entre duas mais vincadas marcas identitárias deste concelho nortenho.

O projeto está ser executado no Museu das Rendas de Vila do Conde, onde uma dezena de artesãs está a preparar os trabalhos que serão mostrados ao público num desfile de moda de bilros, que acontecerá em 03 de junho, na cidade.

Os desenhos e coordenação dos trabalhos estão sobre a alçada de Eugénia Cunha, que explicou que estas invulgares rendas de bilros serão, posteriormente, aplicadas em vestidos de uma coleção de moda que tem o mar como elemento inspirador.

"Achei que seria oportuno darmos a conhecer um novo modo de fazermos bilros, utilizando estes resto de fios de pesca, que iam para o lixo, e transformando-os em material nobre e mostrando que é possível dar contemporaneidade a esta arte", vincou à Lusa a criadora.

Eugénia Cunha confessou que as rendilheiras "aceitaram o desafio com muito entusiasmo", considerando que esta é uma boa maneira de "promover a modernidade das rendas de bilros e a sua transmissão para as novas gerações".

"É fundamental que este saber continue a passar de avós para filhas e para netas. Creio que tem sido conseguido, porque já vemos meninas de 5 anos a fazerem bilros. Sinto que ainda há muitas coisas novas para se experimentar", confessou a coordenadora do projeto.

A adaptação das rendilheiras a esta invulgar matéria-prima correu sem grande dificuldade, despertando até, em algumas das artesãs, ligações afetivas e familiares.

"Trabalho com rendas de bilros há 62 anos, numa paixão que me foi transmitida pela minha mãe quando tinha 4 anos, e, ao fim de todo este tempo, estou utilizar os fios de pesca que o meu pai, que era pescador, usava para trabalhar", partilhou, com alguma emoção, Maria Monteiro.

Esta rendilheira considerou, por isso, que o desafio é "fascinante", garantindo que o trabalho "saiu ainda melhor" e que utilizar um fio diferente "não perturbou".

"Já há alguns anos que sou desafiada a trabalhar com diferentes materiais, usando, por exemplo, cobre ou prata. Com tanto tempo prática que tenho nas mãos, e o saber na cabeça, não foi nada complicado", assegurou.

Para Maria Monteiro "estes desafios são importantes para motivar e até cativar mais jovens para esta arte", deixando uma mensagem às novas gerações de rendilheiras: "não tenha medo de arriscar e fazer coisas novas com bilros".

Essa é também a mensagem que Elisa Ferraz, presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde, subscreve, garantindo que o município se tem esforçado para manter viva esta tradição.

"Temos de encontrar um caminho para que estas rendas tenham aplicações cada vez mais diferenciadas relativamente ao comum, e esta experiência, com os fios de pesca, é tão inovadora que esperamos que desperte uma grande curiosidade", partilhou a autarca.

Elisa Ferraz lembrou que no Museu da Rendas local existe uma escola para ensinar esta arte, mostrando-se satisfeita por ver que existem várias crianças a frequentá-la.

"É um grande trabalho que estamos a fazer porque acreditamos que é nas novas gerações que temos de projetar o futuro das nossas rendas de bilros", assumiu.

Nesse sentido, e porque esta arte é um dos elementos identitários de Vila do Conde, a autarquia tem promovido várias iniciativas para a promover, criando, por exemplo, no ano passado, a maior renda de bilros do mundo, que foi, inclusive, reconhecida nos recordes mundiais do Guinness.

"A afirmação resulta sempre da diferenciação, e tentamos, por isso, impor-nos por algo que temos de invulgar, neste caso, uma arte de enorme sensibilidade que nos ajuda a projetar Vila do Conde", concluiu a presidente de Câmara.

Este projeto preenche também as pretensões de economia circular defendida pela autarquia local, onde, neste caso, os resíduos são transformados através da inovação em subprodutos que promovem a reutilização, recuperação e reciclagem.

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