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"Havia alunos a chegar às aulas com fome. Não ficámos de braços cruzados"

O Vozes ao Minuto esteve nos Paços do Concelho de Odivelas para uma conversa com Hugo Martins, presidente da câmara e candidato do PS em Odivelas às autárquicas de 1 de outubro.

"Havia alunos a chegar às aulas com fome. Não ficámos de braços cruzados"
Notícias ao Minuto

18/07/17 por Pedro Filipe Pina

Política Hugo Martins

O atual presidente da Câmara Municipal de Odivelas assumiu o cargo após a saída de Susana Amador, a anterior presidente. A transição foi "natural", conta-nos. Mas há aqui um desafio pela frente num concelho de quase 150 mil habitantes.

Ao estilo de Fernando Medina em Lisboa, Hugo Martins vai a votos pela primeira vez, sendo já o responsável pela autarquia. 

Na nossa conversa, Hugo Martins falou de si como "um homem de Odivelas" e disse-nos ainda que não se pode chegar ali e, "em dois ou três meses a estudar", achar-se que se conhece o concelho. Mas quando lhe perguntámos diretamente se havia aqui alguma 'indireta' a Fernando Seara, o adversário do PSD nestas autárquicas, Hugo Martins disse que não. 

Da "perda" que foi o encerramento do Instituto de Odivelas às medidas para os mais jovens e os mais idosos, passando pela análise que faz ao Governo, eis Hugo Martins em entrevista ao Vozes ao Minuto.

Que expectativas tem para o PS a nível nacional nestas autárquicas?

O PS mostrou ao país que é a solução alternativa que permitiu aos portugueses devolver-lhes a esperança, os rendimentos, a dignidade e as condições de vida. Mostrou que é possível governar com contas sólidas, porque conseguiu o melhor défice da história da nossa democracia e ao mesmo tempo devolveu rendimentos. Penso que o PS poderá capitalizar o trabalho que está a realizar ao nível do Governo nas eleições autárquicas. 

Faz, portanto, um balanço positivo da chamada 'Geringonça'?

Até ao momento, é um balanço extremamente positivo e que é notório entre os portugueses pela expressão e forma como tem apoiado o Governo nas políticas que têm vindo a ser adotadas. 

As saídas de secretários de Estado acontecem na vida política. E os incêndios também podem servir para aprender a liçãoEntre a tragédia de Pedrógão Grande, o furto de Tancos e as recentes exonerações de secretários de Estado, o Governo tem enfrentado o seu maior período de críticas até ao momento. Estes casos podem abalar a imagem do Executivo e dificultar a vida aos candidatos do PS?

Os casos que refere tiveram um grande efeito e são situações indesejáveis, que provocam danos na imagem do partido e de quem está à frente da governação. No entanto, penso que estes assuntos serão ultrapassados e, face ao projeto político que o PS tem para o país, o partido não será prejudicado nas autárquicas. As saídas de secretários de Estado acontecem na vida política. E os incêndios também podem servir para aprender a lição. Espero que isso aconteça no futuro, para que nos envolvamos mais com a floresta e com a prevenção destas situações lamentáveis.

Tendo em conta a implantação autárquica da CDU em Odivelas, há hipótese de haver uma versão adaptada da dita 'geringonça' aqui?

O PS concorre sempre para ganhar em qualquer eleição. E podem ter a certeza de que o PS em Odivelas concorrerá para ganhar, e com uma expressiva vitória. Como dizia alguém, ‘prognósticos só no fim’. Esses cenários, a serem equacionados, não estão fora de possibilidade. Todos os acordos são possíveis. Mas vamos a eleições no dia 1 de outubro com a franca convicção de que teremos um resultado eleitoral muito bom.

O município de Odivelas tem sido sinónimo de vitórias autárquicas para o PS. É uma 'tradição' que conta manter?

Espero manter e reforçar, se possível.

Assumiu a liderança da autarquia, substituindo Susana Amador, que tinha já uma década de trabalho à frente da câmara. Como foi assumir essa responsabilidade?

Foi uma transição natural. O trabalho que vinha sendo desenvolvido por Susana Amador levou-nos a um trabalho de continuidade e estabilidade política. Sinto que não houve qualquer sobressalto ou questão que ficasse colocada à margem por haver uma sucessão na presidência. 

Nós não podemos vir para aqui estudar Odivelas. Temos de vir trabalhar para Odivelas, sentindo Odivelas e os problemas reais

Embora numa escala menor, é uma situação semelhante à de Fernando Medina após a saída de António Costa em Lisboa: já está no exercício autárquico ainda antes das eleições. Isso funciona a seu favor?

É um fator favorável. O Hugo Martins candidato é hoje uma pessoa com muita experiência, não apenas ao nível da vereação ou da presidência. Já conduzi dois orçamentos. São dois anos de mandato cumpridos na sua totalidade. O conhecimento que tenho dos dossiers é uma mais-valia. Nós não podemos vir para aqui estudar Odivelas. Temos de vir trabalhar para Odivelas, sentindo Odivelas e os problemas reais, conhecendo as dificuldades das pessoas.

Apresentou-se na sua candidatura como "um homem de Odivelas". Quando diz que não se pode "vir para aqui estudar Odivelas", há aqui alguma indireta ao candidato do PSD, Fernando Seara?

É apenas o afirmar da minha convicção enquanto cidadão de Odivelas que aqui nasceu, cresceu, estudou e trabalhou. Foi aqui que constituí família. Percorri estas ruas todas durante a minha juventude. E é uma grande honra poder servir o concelho onde tenho a minha morada e onde hoje vejo crescer a minha filha de quatro anos. Isso dá-me mais conhecimento. Para mim não basta estudar Odivelas em dois ou três meses, é preciso sentir e conhecer Odivelas, para depois podermos trabalhar Odivelas. E penso que esse trabalho não é possível ser feito em poucos meses.

Mas é algo que aponta ao seu adversário?

Não vou tecer qualquer juízo de valor relativamente à candidatura do Dr. Fernando Seara.

Nunca fui um vereador de gabinete, sou uma pessoa que gosta de andar na rua, que gosta de se inteirar dos problemas das pessoasE que perceção tem tido dos eleitores de Odivelas quando está no terreno?

Nunca fui um vereador de gabinete, sou uma pessoa que gosta de andar na rua, que gosta de se inteirar dos problemas das pessoas. É uma característica minha querer acompanhar de perto o trabalho que está a ser realizado. Hoje conheço os cidadãos de Odivelas e os cidadãos de Odivelas conhecem o seu presidente de câmara. Temos uma câmara municipal de portas abertas. Penso que só assim se justifica virmos para o serviço público.

Os subúrbios de Lisboa são por vezes catalogados como 'dormitório'. Sente isso em Odivelas?

Pelo contrário, Odivelas hoje tem vida própria, tem uma identidade, um mercado de trabalho já com bastante dimensão, onde as pessoas desenvolvem aqui a sua atividade profissional, e para isso também foi importante fixar as pessoas. Voltámos a baixar o IMI. Tínhamos uma das taxas de IMI mais baixas da área metropolitana de Lisboa e, no entanto, nos últimos dois anos voltámos a baixá-la. Vemos esta aposta nas pessoas também com a educação.

Aqui em Odivelas detetámos muitos alunos que chegavam às nossas escolas com fome. A única refeição quente que tinham era o almoço. Não podíamos ficar de braços cruzadosEm que aspeto?

Odivelas oferece desde 2008 os manuais escolares às suas crianças do primeiro ciclo do ensino básico da rede pública. É um enorme investimento nas famílias, que quando regressam de férias têm um elevado gasto na compra dos manuais. É um bom exemplo e o Governo veio acompanhar algumas das autarquias que praticam esta medida, agora a nível nacional. Ficamos bastante orgulhosos quando vemos que as políticas à escala local podem ser também acompanhadas à escala nacional. Mas digo-lhe mais. Aqui em Odivelas detetámos muitos alunos que chegavam às nossas escolas com fome. A única refeição quente que tinham era o almoço. Não podíamos ficar de braços cruzados. Neste momento, seremos dos poucos municípios do país que serve às crianças três refeições diárias: pequeno-almoço, almoço e lanche. E ao nível do parque escolar, nos últimos anos nunca temos investido menos de 1,3 milhões de euros na remodelação e requalificação as nossas escolas.

É uma aposta da autarquia?

Entendemos que o conforto e a qualidade dos materiais escolares têm uma relação causa/efeito com a motivação dos alunos e o processo de aprendizagem.

Mas não há o risco de algumas medidas poderem criar dificuldades orçamentais?

É uma aposta de médio-longo prazo. Um dos eixos em que o PS se vai apresentar nestas eleições é o alívio fiscal das famílias. Um pouco à semelhança do que acontece com o Governo, se nós conseguirmos que as famílias tenham mais rendimentos, a economia vai desenvolver-se mais. Temos vindo a incentivar uma política de incentivo à fixação no concelho. Por exemplo, isentamos todas as empresas que aqui fixem a sua sede social da taxa de derrama nos três primeiros anos de atividade, desde que criem postos efetivos, e não precários, de trabalho. Temos também a Start In Odivelas, que está a ser um pleno sucesso. E temos vindo, ano após ano, a consolidar os resultados financeiros da câmara. 

Como estão as contas da autarquia?

Hoje somos uma referência ao nível da redução da dívida. Estamos a pagar a fornecedores a menos de 30 dias, no último resultado tínhamos apenas 20 milhões de euros, e digo mesmo apenas, apesar de nascermos já bastante endividados de Loures. Hoje em dia 20 milhões de passivo de autarquia não é nada. Para se perceber, Odivelas tem um orçamento próximo dos 90 milhões de euros. Temos conseguido aliar a consolidação financeira, ao mesmo tempo que investimos no território e nas pessoas. E esta tem sido, no fundo, uma das características, e um dos grandes motivos de confiança das pessoas na gestão do PS.

O célebre mosteiro de S. Dinis virá à posse municipal por 50 anos. Está para breveAnunciou como uma das suas prioridades a regeneração urbana. Na última década Odivelas cresceu bastante em zonas como as Colinas do Cruzeiro. Mas o centro histórico não estará a ser esquecido?

O centro histórico tem vindo a ser alvo de intervenção e é quase semanalmente alvo de eventos realizados, quer pela junta, quer pela câmara, mas deixe-me dar-lhe uma grande notícia: brevemente, depois de termos chegado a acordo com o ministério da Defesa e o ministério das Finanças, o célebre mosteiro de S. Dinis virá à posse municipal por 50 anos. Está para breve, as negociações foram encerradas há pouco tempo. 

Essa passagem chegará ainda antes das eleições?

Espero até às eleições termos tudo assinado para a passagem para a gestão municipal. Sabe, as pessoas têm um grande sentimento de identidade com o mosteiro de Odivelas, que teve aqui o Instituto de Odivelas durante muitos anos, e que por uma decisão do anterior Governo foram todos integrados no Colégio Militar.

Intituto de Odivelas foi uma perda grande ao nível histórico, das raízes e tradições que aqui existiamFoi uma perda grande para Odivelas?

Foi uma perda grande ao nível histórico, das raízes e tradições que aqui existiam, mas temos também a referência de sermos um concelho onde está sepultado um rei português. No mosteiro de Odivelas está sepultado el-rei D. Dinis, uma referência da nossa história e de que muito nos orgulhamos. 

Propôs também a erradicação de barracas do bairro do Barruncho. Como conta fazê-lo?

Aquando da disponibilidade do PER (programa especial de realojamento), conseguimos erradicar praticamente todos os chamados bairros degradados do nosso município. Com a interrupção do PER, o bairro do Barruncho foi o único [que ficou]. É um bairro que tem cerca de 80 barracas, onde não se verificam situações de criminalidade. São pessoas trabalhadoras que vivem ali e aos poucos temos paulatinamente conseguido integrar no mercado habitacional algumas destas famílias. Ainda este mês entregámos seis chaves de habitação, são menos três barracas naquele local.  

O destino dos antigos campos do Odivelas FC foi dúvida que se manteve durante os últimos anos. O Notícias ao Minuto chegou a dar conta, no final de 2016, do projeto que estava pensado após a cedência ao Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF). Em que ponto estamos?

Houve um encontro de vontades com o sindicato, que tem um projeto desportivo para aquele espaço e que fará um investimento avultado para devolver aquele espaço à utilização dos odivelenses. Acredito que até ao fim do mês as obras possam começar. Qual é o objetivo? Criar um grande campus desportivo onde os nossos jovens possam praticar desporto. Temos tido contactos regulares com o Joaquim Evangelista [presidente do SJPF] e a sua equipa para levar por diante aquela que tornará Odivelas, ali nas Colinas do Cruzeiro, uma grande cidade desportiva.

Já temos o nosso pavilhão multiusos, reconhecido por eventos nas diversas modalidades que já passaram por ali, do futsal ao jiu jitsu, do judo ao ténis de mesa. O campeonato mundial do ano passado foi ali, está lá exposta a mesa da final. Com os campos de pádel que estamos a construir, com o circuito de manutenção, temos ali uma verdadeira cidade desportiva.

Mas são projetos associados aos antigos terrenos do Odivelas FC?

São projetos complementares, que terão uma diferente gestão. Aliás, o parque desportivo já está existe e tem adesão por parte da população, nomeadamente entre a população sénior, uma das nossas grandes preocupações sociais.

Há projetos para a população mais envelhecida?

Temos o inglês sénior, a universidade sénior, o Clube do Movimento, que tem cerca de 1500 alunos e modalidades como hidroginástica, caminhadas e ginástica de manutenção. É uma preocupação social para nós sob duas perspetivas. A primeira é que cada vez mais os seniores têm sido um porto de abrigo para as famílias. Os avós são hoje um elo fundamental para as famílias, face às vicissitudes do mercado de trabalho.

Em segundo lugar, temos de combater o isolamento. Temos de promover a aprendizagem ao longo da vida. Temos pessoas que saíram do país e não sabiam dizer um 'boa dia', um 'boa tarde', em inglês. São pessoas que não tiveram oportunidade de estudar e que têm hoje uma universidade sénior onde desenvolvem competências novas Os cidadãos seniores são um ativo do concelho. Temos até um projeto muito engraçado, dos vigilantes patrulheiros, que estão junto das escolas do concelho e ajudam as crianças a atravessar em segurança. É criada uma tal empatia com o vigilante que os próprios pais no Natal lhes oferecem uma lembrança. 

Queremos criar bolsas de estacionamento por todo o concelhoNo seu programa falou também nas bolsas de estacionamento.

Temos criado algumas bolsas de estacionamento mas pretendo fazer disso uma política. Queremos criar bolsas de estacionamento por todo o concelho, fazendo uma análise rigorosa das necessidades, bairro a bairro. 

E em termos de acessibilidades. O que é que a câmara pode fazer?

Odivelas é o concelho da área metropolitana de Lisboa com as melhores acessibilidades e isso tem sido um dos motivos de fixação de pessoas no nosso território. As pessoas hoje em dia, num espaço de tempo curto, conseguem colocar-se na Ponte Vasco da Gama, em Belém, em Torres Vedras, pelo acesso à A8. Sabe qual é o meu problema e o dos anteriores presidentes de câmara? Somos um concelho com apenas 27 quilómetros quadrados mas com 150 mil habitantes. É um desafio.

Como não existe muita insegurança em Odivelas, retiram-nos efetivos da polícia aqui para os levar para outros concelhosE em termos de criminalidade?

Odivelas tem criminalidade mas não é nem de perto nem de longe um dos municípios onde existam grandes problemas de segurança. Isto para nós por vezes até é uma faca de dois gumes. Como não existe muita insegurança em Odivelas, retiram-nos efetivos da polícia aqui para os levar para outros concelhos.

Há alguma bandeira que destaque do seu programa?

Sim, há um grande sonho e uma grande ambição: construir o parque da cidade. E quero assumir esse compromisso com os odivelenses: teremos um parque da cidade para as crianças, para os jovens, para a nossa população sénior, para toda a gente ter um espaço de lazer.

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