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Terrorismo: "Ninguém pode dizer que tem um risco de segurança zero"

A ameaça do terrorismo é global e Portugal não foge à regra. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garante, na terceira parte da entrevista que concedeu ao Notícias ao Minuto, que as ameaças ao país "são vistas com todo o cuidado, com toda a atenção". Mais não pode dizer.

Terrorismo: "Ninguém pode dizer que tem um risco de segurança zero"
Notícias ao Minuto

10/08/16 por Inês André de Figueiredo com Elsa Pereira

País Santos Silva

Na terceira e última parte da entrevista ao Notícias ao Minuto, Augusto Santos Silva fala sobre as ameaças que o terrorismo representa para o país e para o mundo. Mas, embora o perigo seja real, não podemos considerar que estamos em guerra. “Para o bem e para o mal”, sublinha o ministro.

 

Estamos perante um recuo ou um avanço do Estado Islâmico na Síria e no Iraque?

Estamos perante um recuo e esse recuo é evidente do ponto de vista territorial e das forças. Esse é um dado. Agora, devemos olhar para o assunto com cautela até porque sabemos que as metástases do Daesh se vão estendendo nomeadamente para o norte de África.

Essas metástases têm assustado a Europa. Ceder ao medo de um inimigo sem rosto é pior do que uma guerra no terreno?

A questão na Europa é ainda mais preocupante porque quase todos os atentados terroristas têm sido perpetrados por pessoas que vivem, e muitas delas que nasceram, em países europeus. Portanto, não se pode dizer que seja um ‘inimigo externo’ que ataca a Europa. É de facto uma rede global de jihadismo mas que tem uma expressão gerada e desenvolvida no interior de vários países europeus.

Apesar de não ter havido nenhum atentado terrorista em Portugal, tem havido várias ameaças. Como é que são vistas pelo Governo?

São vistas com todo o cuidado, com toda a atenção, recorrendo aos meios que o Estado dispõe e não posso dizer mais nada.

Podemos saber quantos portugueses estão alistados neste momento no Daesh?

Não.

E podemos saber como é que o país lida com essas pessoas?

Sim, podemos saber, dizendo que nós lidamos e mobilizamos os meios de segurança necessários.

Tendo em conta que somos considerados um dos países mais seguros do mundo, até que ponto a chegada de mais turistas se poderá virar contra essa ideia?

O quinto país mais pacífico a acreditar no último ranking… Acho que há várias razões que explicam a natureza pacífica e muito segura da sociedade portuguesa e algumas dessas razões são estruturais. Agora, é preciso ter em atenção que a grande força de atração do turismo português é intrínseca e não apenas porque as pessoas deixaram de ir ocasionalmente para destinos que entretanto se tornaram mais inseguros. Quando olhamos para a curva do turismo em Portugal verificamos que essa curva é de um crescimento sustentável.

Não há ninguém em nenhuma parte do mundo que possa dizer que tem um risco de segurança zero"

Agora, em questões de segurança nós devemos partir de dois princípios, primeiro que o risco existe e segundo que há meios que devemos usar para controlá-lo e minimizá-lo. Não há ninguém em nenhuma parte do mundo que possa dizer que tem um risco de segurança zero.

Se houvesse um avanço do ISIS no terreno havia a possibilidade de tropas portuguesas irem combater?

Portugal participa na coligação anti-Daesh, temos funções que são importantes de formação das forças nacionais do Iraque, participamos com uma trintena de militares nos centros de treino, também participamos com tropas, participámos no passado em missões no Afeganistão e participamos hoje e estamos a projetar um contingente para a República Centro Africana. Portugal é também um participante ativo nos meios que garantem segurança cooperativa e projeção de estabilidade e estamos nessas missões de corpo inteiro. Alguns países participam em missões militares apresentando limitações, Portugal não tem essa tradição.

Há quem diga que com o terrorismo está já em curso uma Terceira Guerra Mundial, é manifestamente exagerado assumi-lo?

Sim, não estamos numa Guerra Mundial para o bem e para o mal. Para o bem, porque não se pode falar de um conflito à escala dos que conhecemos no século XX, mas também para o mal, visto que os conflitos com que hoje nos confrontamos são conflitos assimétricos. Não são Estados que combatem contra Estados, subordinando-se todos esses Estados que combatem entre si às regras do direito da guerra. São Estados que são ameaçados por forças que não respeitam sequer as limitações humanas que seriam mais evidentes para nós.

Nós não temos hoje um conflito com expressão suficiente para que lhe chamemos uma guerra senão por aproximação metafórica"

Todos sabemos que mesmo numa guerra não atacamos hospitais, e esse é um dos alvos preferidos de alguns dos atentados que hoje se fazem no mundo. Mesmo em circunstâncias de guerra, não é admissível que uma tropa ataque um jardim-de-infância. Nós não temos hoje um conflito com expressão suficiente para que lhe chamemos uma guerra senão por aproximação metafórica, mas vivemos e estamos envolvidos em conflitos que são muito assimétricos e contra adversários que têm mostrado que não conhecem os limites. Estas forças que hoje nos desafiam não só não respeitam as regras como fazem questão de atacar civis, invadem centros comerciais, põem bombas em salas de espetáculo. Usar como alvo a população civil e a vida quotidiana é mesmo uma das suas intenções fundamentais.

O que podemos fazer para os travar?

O melhor que podemos fazer é não abdicar dos nossos valores. O que eles querem é que abdiquemos dos nossos valores e do nosso modo de vida. Não ceder ao medo e manter o nosso modo de vida é o melhor que podemos fazer.

Poderá ler a primeira parte desta entrevista aqui e a segunda aqui.

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