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Família revoltada após esperar 11h para recolherem corpo de idoso da rua

“Se vivemos num Estado de Emergência de Saúde Pública expliquem-me como se abandona um corpo à sua família por 11 horas na via pública? ", questiona a filha.

Família revoltada após esperar 11h para recolherem corpo de idoso da rua

A filha do ex-militar que morreu no passado sábado, quando saía de casa em direção ao hospital, em Santarém, e cujo cadáver ficou cerca de 11 horas na via pública à espera de ser recolhido pelas autoridades, exprimiu a sua revolta perante esta situação nas redes sociais.

Filipa Taxa de Araújo começa por dizer que viveu, assim como a mãe e os irmãos, o “momento mais surreal” da sua vida. O pai faleceu e isso é desde logo “devastador”, mas com Portugal a lidar com a pandemia da Covid-19 o sofrimento foi ainda maior.

Além das cerimónias fúnebres estarem restritas apenas aos familiares diretos, sem cortejos fúnebres e sem missa, o que já por si tem um grande impacto no seio familiar, estas pessoas tiveram de lidar com o facto de o corpo do idoso ficar na via pública durante horas e horas.

De acordo com Filipa, o pai morreu pelas 10h00, perto do carro, quando tentava deslocar-se ao hospital porque se estava a sentir mal. “O 112 foi célere a enviar as equipas de socorro, bombeiros e INEM, que o assistiram e fizeram todas as manobras de reanimação possíveis, já sem êxito. O seu corpo ficou no chão e a médica do INEM verificou o óbito, com causas desconhecidas, e deu-nos os pêsames. Taparam-no com um lençol”, explica.

De seguida, e ainda segundo a mesma, o Ministério Público foi contactado, de forma a dar seguimento ao processo para que a Delegada de Saúde Pública de serviço fosse ao local declarar o óbito e o corpo pudesse ser conduzido à morgue.

Entretanto, continua Filipa, a PSP vedou o local e continuou com a família à espera da Delegada de Saúde.

A filha do ex-militar revela que, durante todo este tempo, foram “tratadas com bastante suspeição, por um dos sintomas do pai ser febre”, ao ponto de não poderem abandonar aquele local nem para ir à casa de banho.

Já perto do 12h30, a PSP comunicou que o corpo ia ser liberado à família porque a Delegada de Saúde não iria ao local, ao contrário do que se esperava.

Entregues ao seu destino e sem perceber o que se estava a passar, os familiares do ex-militar entraram em contacto com a agência funerária que, percebendo que não havia declaração de óbito, não tinha forma legal de recolher o corpo.

Depois de vários telefonemas para a Delegada de Saúde, o Diretor Regional de Saúde, o Estado Maior do Exército, o Procurador Geral, só o Presidente da Câmara Municipal de Santarém é que tentou resolver a situação, ordenando à Delegada de Saúde que fosse ao local declarar o óbito. Contudo, duas horas depois, garante Filipa, esta voltou a recusar dirigir-se a local.

Cada vez mais angustiados com a situação e sem saber como a resolver, a família sentiu-se desamparada por quem lhe devia dar a mão numa altura destas.

“A sensação de abandono é indescritível. Como pode um corpo, no meio da via pública, ser entregue à família? Seria suposto sermos nós a fazermos ali mesmo o seu enterro? Revolta, vergonha, humilhação, desprezo, alguns dos sentimentos que sentíamos naquele momento, mas na realidade o Meu Pai foi sendo velado ali pelos amigos que foram aparecendo e prestando-nos toda a sua solidariedade”, escreve Filipa.

De seguida, a família contatou uma segunda agência funerária “que compareceu no local e foi incansável em contactos, procedimentos e explicar às autoridades presentes que as informações que chegavam ao local não eram suficientemente dotadas da legalidade precisa que os permitissem levantar o corpo”.

Pelas 17h00, a delegada declarou o óbito, “por causas desconhecidas”, sem nunca se deslocar ao local e o corpo foi entregue à família mesmo sem autópsia. “O Procurador Geral declarou que não haverá autópsia, não sendo esse o nosso desejo e até duvidando da legalidade de uma imposição dessas tendo em conta as causas desconhecidas da morte do meu Pai”, esclarece.

Mesmo assim, só pelas 20h00 é que a ambulância chegou para fazer levantamento do corpo.

Filipa diz que depois desta situação sente “muita vergonha” do país que o pai serviu. deste “Entregaram-nos à nossa sorte, o Estado não nos soube proteger. A paranoia do coronavírus apoderou-se das pessoas e sobretudo das instituições que, alegando estarem a trabalhar de forma extraordinária, não cumprem o seu papel com os cidadãos, negligenciando tudo e todos”, atira o Facebook.

E questiona: “Se vivemos num Estado de Emergência de Saúde Pública expliquem-me como se abandona um corpo à sua família por 11 horas na via pública? Onde esteve a saúde pública a ser considerada? Se não tivesse questionado as autoridades presentes ninguém se teria lembrado sequer de limpar o local depois da remoção do corpo”.

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