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Caso de espionagem australiana a Timor-Leste é um "escândalo"

Um especialista australiano considera "um escândalo" que o Governo da Austrália tenha desviado recursos dos seus serviços secretos do combate ao terrorismo para espiar Timor-Leste em 2004, ao serviço dos grandes interesses económicos.

Caso de espionagem australiana a Timor-Leste é um "escândalo"

Clinton Fernandes, ex-militar australiano e hoje académico com uma ampla bibliografia de textos sobre Timor-Leste, considera que ao optar por espiar Díli quando estava em negociações sobre o Mar de Timor, Camberra mentiu ao eleitorado a quem dizia que estava a combater o terrorismo.

"É escandaloso que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Alexander Downer, tenha arranjado emprego na Woodside", a petrolífera australiana com interesse no maior projeto do Mar de Timor (o Greater Sunrise), "mas o maior escândalo é desviar recursos do combate e prevenção do terrorismo para essa espionagem"", afirmou o académico e investigador.

Ex-militar australiano e responsável pela Timor Desk a partir de 1998, Clinton Fernandes esteve destacado no Australian Army Intelligence Corps (AUSTINT) e é atualmente professor de Estudos Políticos e Internacionais na Universidade de NSW-Camberra, tendo publicado vários artigos e livros sobre Timor-Leste.

Recordando que a espionagem ocorreu na década da "Guerra ao Terror", Clinton Fernandes refere-se a um Livro Branco do Governo contra o terrorismo, no âmbito dos atentados em Bali (2002) e na embaixada australiana em Jacarta (2004).

No documento indicava-se "mais de 100 vezes" que o "terrorismo fundamentalista islâmico era a maior ameaça" e que "a Indonésia era o maior alvo", com vários membros do Governo a repetirem declarações de que "estavam a fazer tudo para manter a Austrália segura".

"Mas acabaram por desviar o que eram parcos recursos dos serviços secretos para espiar Timor-Leste", disse Fernandes, que esta semana participa na conferência anual em Díli da Timor-Leste Studies Association (TLSA), que decorre na Universidade Nacional Timor Lorosa'e (UNTL).

Ainda que os serviços secretos australianos tenham hoje "o maior orçamento de sempre", na altura "isso não acontecia" e os recursos eram muito mais limitados, sendo que a operação de Timor-Leste exigiu muitos recursos humanos e técnicos.

"Estás a dizer ao público que estás a lutar contra o terrorismo e grupos radicais na Indonésia e os oficiais de inteligência sabem que não é isso que estão a fazer. Esse, para mim, é o escândalo", considera.

Clinton Fernandes falava à Lusa numa altura em que um tribunal australiano está a julgar um ex-agente dos serviços secretos australianos, conhecido como "Testemunha K" (a sua identidade nunca foi revelada publicamente), e o seu advogado, Bernard Collaery, acusados de conspiração pelas autoridades em Camberra, crime que tem uma pena máxima de dois anos de prisão.

A "Testemunha K" divulgou um esquema de escutas montado em 2004 pelos serviços secretos australianos em escritórios do Governo timorense, em Díli, quando estava a ser negociado um novo tratado para o Mar de Timor.

"Nenhum país gosta de 'whistleblowers' (denunciantes). Nenhum sistema de poder recompensa quem tenta enfraquecer esse sistema. A Austrália não é única nisso e vai sempre acusar qualquer 'whistleblower'", afirma.

"O maior problema, do ponto de vista das autoridades é que se a 'Testemunha k' consegue escapar, o que acontecerá com a testemunha J, L e M. Se for permitido a alguém sobreviver a este tipo de revelação, isso pode dar força a outras", sustenta.

Por isso, considera o ex-oficial da secreta australiana, o mais provável é que o tribunal dê razão à acusação e que ambos tenham que cumprir penas de prisão.

"Penso que os dois vão enfrentar a prisão. E o Bernard mais ainda. O K pode dizer que estava a seguir o conselho do advogado, que é o Bernard", refere.

Para Clinton Fernandes, o caso demonstra que a Austrália "está dominada pelos grandes bancos e pelas empresas de energia" e que as prioridades das estruturas de inteligência são desenhadas com base nesses interesses".

"O termo 'interesse nacional' deve ser entendido simplesmente como cumprir os objetivos dos setores dominantes. É um anacronismo enganoso que devemos abandonar a bem da higiene semântica", comenta.

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