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"Encontro do século" deu acordo vago e legitimidade que Kim procurava

Contra o entusiasmo de Donald Trump, analistas alertam que promessa de desnuclearização não é nova e que o acordo entre os dois líderes é demasiado vago. Kim Jong-un sai de Singapura com a legitimidade internacional que a sua dinastia sempre procurou.

"Encontro do século" deu acordo vago e legitimidade que Kim procurava
Notícias ao Minuto

08:24 - 13/06/18 por Pedro Bastos Reis 

Mundo Cimeira

Kim Jong-un chegou a Singapura para conseguir, finalmente, sentar-se na mesma mesa que um presidente norte-americano, uma ambição há muito pretendida pela dinastia Kim. Donald Trump, com mais perfil de homem de negócios e de estrela de reality show do que de estadista, pretendia demonstrar que, ao contrário dos seus antecessores, conseguia falar olhos nos olhos com o líder do regime norte-coreano, demonstrando, na sua cabeça, liderança nas relações diplomáticas.

Passadas mais de 24 horas da cimeira histórica em Singapura, em que os primeiros momentos foram recebidos com muito entusiasmo perante a cumplicidade demonstrada entre os dois líderes, os resultados práticos do encontro não parecem convencer os analistas, que alertam para o facto de o documento conjunto ser vago e não conter qualquer compromisso palpável.

Na rede social Twitter, a investigadora do Centro de Estudos de Não-Proliferação Melissa Hanham refere que o compromisso de Pyongyang com a desnuclearização não é nada de novo, uma vez que o regime “já o prometeu fazer diversas vezes”, acrescentando ainda que Coreia do Norte e Estados Unidos “continuam a não concordar no que significa ‘desnuclearização”.

Este é o “grande problema” identificado por Jonathan Freedland, uma vez que a palavra “desnuclearização não significa para Kim aquilo que Trump pensa”. “Para a Coreia do Norte, não se trata de diminuir unilateralmente o seu arsenal [nuclear], mas antes uma vaga aspiração a uma região livre de armas nucleares”, analisa o colunista do The Guardian.

No documento assinado pelos dois líderes e divulgado rapidamente nos meios de comunicação social, lê-se apenas que a Coreia do Norte “compromete-se a trabalhar na total desnuclearização da Península Coreana”, sem especificar, contudo, qualquer calendário ou etapas a cumprir para que tal aconteça.

Por isso, alerta o professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts Vipin Narang, “a Coreia do Norte não prometeu nada que não tivesse prometido nos últimos 25 anos”. “Neste momento, não há qualquer razão para pensar que esta cimeira conduza a qualquer coisa de mais concreto que isso na frente do desarmamento”, afirmou Narang à AFP, citado pela agência Lusa.

O "encontro do século"

Apesar de vago, o acordo estabelecido entre Trump e Kim ficará para a história pelo facto de ter sido a primeira vez que presidentes em funções dos dois países se encontram, algo que parecia impensável, por exemplo, em 2017, quando o presidente dos Estados Unidos se referiu ao homólogo norte-coreano como o “pequeno homem foguetão”, prometendo-lhe “fogo e fúria” enquanto mediam o tamanho dos seus botões nucleares.

Um ano depois da tensão que fez o mundo temer o eclodir de um conflito nuclear, Trump e Kim trocaram apertos de mão, sorrisos e momentos de cumplicidade. No fechado regime norte-coreano, a cimeira foi vista como o fim da hostilidade nas relações diplomáticas entre os dois países.

Notícias ao MinutoAgência norte-coreana divulgou a imagem do documento assinado por Trump e Kim© Reuters

A agência KCNA, principal órgão de propaganda de Pyongyang, falou no “encontro do século” que vai levar ao final das “extremas e hostis relações” entre os dois países. Os resultados foram de tal forma positivos, continua a KCNA, que Kim e Trump aceitaram propostas mútuas para visitarem os respetivos países. Em Pyongyang, já se espera a chegada de Trump, ao passo que em Washington, e isto foi confirmado pelo próprio Trump, aguarda-se uma visita de Kim à Casa Branca.

Depois de uma conferência de imprensa em que se congratulou com os resultados da cimeira, tendo anunciado o fim dos exercícios militares na Península Coreana, o presidente dos Estados Unidos foi ao Twitter dizer que “o mundo deu um grande passo atrás numa possível catástrofe nuclear”, anunciando ainda que não haverá “mais lançamento de foguetões, testes nucleares ou pesquisas”.

Kim consegue legitimidade procurada pela dinastia

Do lado de Pyongyang, a única garantia dada foi a desnuclearização da Península, uma promessa vaga e habitual no regime, ao passo que de Washington, que, apesar de tudo, vai manter as sanções internacionais, saiu a garantia do fim dos exercícios nucleares conjuntos com a Coreia do Sul, vistas como provocações pela Coreia do Norte, que teme uma invasão.

O anúncio de Trump apanhou os próprios militares norte-americanos e sul-coreanos de surpresa, tendo os mesmos referido que não tinham quaisquer indicações para parar os exercícios militares, agendados para agosto ou setembro. A surpresa chegou também a Tóquio, com o ministro da defesa japonês a sublinhar que a presença militar norte-americana na Coreia do Sul é “vital” para a segurança da região.

A China, principal aliado diplomático da Coreia do Norte e apontado por especialistas como um dos grandes beneficiados da cimeira, congratulou-se com os resultados do encontro entre Kim e Trump e anunciou que o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, vai reunir-se quinta-feira, em Pequim, com Wang Yi, ministro chinês dos negócios estrangeiros, e que o tema em cima da mesa será o balanço da cimeira de Singapura e os próximos passos nos processos de negociação.

Kim Jong-un saiu de Singapura com uma imagem de estadista e com a promessa de fim dos exercícios militares, ao passo que Trump parece sair apenas com uma promessa de desnuclearização vaga.

Nesse sentido, muitos analistas apontam o líder da Coreia do Norte, outrora considerado uma “pária”, como o grande vencedor da cimeira.

“Kim sai de Singapura tendo ganhado muita da legitimidade internacional que a sua dinastia ditatorial procurou durante décadas”, afirma Jonathan Freedland. “Kim foi tratado com um homem de estado, a par com o presidente dos Estados Unidos, os dois encontraram-se em termos iguais, com o mesmo número de bandeiras atrás deles enquanto apertavam as mãos”.

O tema dos direitos humanos também ficou fora da cimeira e Kim Jong-un voltou a Pyongyang sem uma palavra de condenação pela situação degradante em que vive grande parte da população norte-coreana, num regime descrito por José Duarte de Jesus, antigo embaixador português acreditado na Coreia do Norte, como uma "sociedade orwelliana"

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