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Desconhece-se quantas pessoas a afasia já "calou" mas há estratégias

Em Portugal desconhece-se quantas pessoas vivem "caladas" por terem afasia mas existem estratégias que permitem "dar voz" a esta situação, como o trabalho realizado no Instituto Português da Afasia (IPA) que "vive" há uns meses em Matosinhos.

Desconhece-se quantas pessoas a afasia já "calou" mas há estratégias
Notícias ao Minuto

11:00 - 26/03/16 por Lusa

Lifestyle IPA

Naquela manhã de 17 de novembro do ano passado, César Modesto, reformado, 80 anos, foi comprar o jornal e soube que "não estava bem". Sabia que aquele pedaço de papel servia para ler, mas não conseguia. Tinha sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que embora ligeiro lhe "roubou" competências.

Tem afasia, uma perturbação da linguagem e da comunicação provocada por uma lesão cerebral nas áreas específicas do cérebro que processam o código linguístico, o que se traduz na dificuldade, entre outras coisas, em expressar palavras e frases.

Mas, e conforme explicou à agência Lusa a responsável pelo IPA, Paula Valente, "a pessoa não perde os seus conhecimentos, a sua inteligência, a memória do passado, a sua identidade, a personalidade".

"As pessoas chegam a ficar envergonhadas e isoladas porque a postura do outro perante elas é desconfiada: se ele não sabe comunicar, será que é tolinho?", descreveu Paula Valente, acrescentando que muitas vezes a pessoa é "conotada como incompetente e geram-se preconceitos, quando até poderia estar normalmente integrada no mercado de trabalho".

César Modesto conhece essa realidade: "Isto é uma fatalidade, mas fazem de nós analfabetos", contou também à Lusa, confessando que deixou de ir ao banco levantar a reforma e delegou a tarefa num familiar até ao dia em que disse: "não, eu vou, eu faço, porque eu penso bem".

Um papel e uma caneta, uma tabela com imagens simples e perguntas frequentes, um telemóvel ou computador podem fazer milagres e no IPA (um projeto que arrancou alicerçado no Instituto de Empreendedorismo Social e na Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos) existem sessões para pessoas com afasia e familiares, sendo o terceiro eixo de intervenção o tornar a sociedade "verdadeiramente inclusiva", dotando-a de estratégias de comunicação.

Nas sessões com pessoas que têm afasia, que decorrem no Centro de Congressos e Desportos, Matosinhos, participam dois terapeutas da fala, uma psicóloga e voluntários.

Numa dessas sessões, o tal papel e a tal caneta estão presentes, mas António Melo, médico, 58 anos, descrito pelos amigos e familiares como "um ouvinte nato", porque sempre preferiu escutar a falar até que um AVC em 2013 o deixou de facto "calado", pousa na mesa o 'tablet'.

Tem afasia, mas tornou-se já um "facilitador". Aliás, a irmã admira-lhe a confiança com que usa os aparelhos eletrónicos para comunicar. Ela própria mudou, adaptou-se às novas tecnologias.

"A família, se não aceitar, vai estar sempre à procura da fala e isso é muito frustrante", contou Paula Valente, frisando o porquê das sessões.

É o caso da mulher de Camilo Correia que tem afasia há sete anos. Maria da Graça Coimbra descreve o IPA como "uma ajuda", reconhecendo que antes "adivinhava" o que o marido queria e ia tratar. Agora "obriga-o" ou, aliás, aguarda que seja este a dizer o que quer, o que pensa.

"Ele era muito preguiçoso a comunicar. Ou, se calhar, eu antecipava-me. Aqui eles [pessoas com afasia] incentivam-se. Ou, antes, incentivamo-nos [familiares incluídos]", contou.

Paula Valente frisa que o IPA não pretende substituir o tratamento convencional, a terapia da fala, procurando ser "um complemento" e nunca "uma solução para quando já não existe solução".

"Cada caso é um caso" e também existem sessões ao domicílio como uma promovida a pedido de uma família para explicar aos irmãos da pessoa com afasia que, "de vez em quando até iam lá a casa, mas não falavam muito", que é possível comunicar através de outras estratégias.

Atualmente, o IPA está a produzir panfletos para entregar em cafés, repartições de finanças, farmácias, entre outros locais e serviços, isto depois de também ter dado formação em centros de saúde a médicos e enfermeiros que, sem estratégias como a tal tabela de imagens ou perguntas, preferiam dirigir-se nos 20 minutos de consulta ao acompanhante, excluindo a pessoa com afasia.

Sabe-se que acontecem seis AVC por hora em Portugal, que dois terços das pessoas sobrevivem e que metade pode ficar com afasia, mas não se sabe ao certo quantas pessoas sofrem com esta situação.

O desenvolvimento de um estudo nacional é outra das "grandes metas" do IPA.

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