Analistas esperam por novidades do BCE apenas em dezembro

O Banco Central Europeu (BCE) reúne-se na quinta-feira na sua sede, em Frankfurt, não sendo esperadas quaisquer alterações à política monetária da instituição, segundo os analistas ouvidos pela agência Lusa, que esperam por novidades apenas em dezembro.

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Economia Frankfurt

De acordo com o economista-chefe do Montepio Geral, Rui Bernardes Serra, atendendo a que o BCE mandatou, na última reunião, os comités relevantes para analisar os impactos da sua política, não são esperadas ainda conclusões, pelo que não se perspetiva qualquer alteração de política na próxima reunião.

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"Em dezembro, quando forem apresentadas as novas projeções do BCE e perante as referidas conclusões dos comités, antecipa-se designadamente um alargamento temporal do programa de compra de dívida, mas podendo o ritmo de compras mensais ser inferior aos atuais, a partir de março (o término do atual programa), e com esta provável alteração a dever ver-se acompanhada de outras alterações ao atual desenho do programa de compra de ativos", refere o economista.

Assim, para além da provável extensão do prazo de vigência do programa, é também possível assistir-se a uma alteração do ritmo de compras mensais (neste caso, uma redução), do tipo de ativos englobados e dos atuais limites dos emitentes, acrescentou.

Também o gestor de ativos da Orey Financial, José Lagarto, considerou não ser "muito expectável" que o presidente do BCE, Mario Draghi forneça qualquer desenvolvimento sobre o trabalho destas comissões, poderá eventualmente usar este tema para reafirmar o compromisso de continuar com o programa de 'Quantitative Easing' (compra de ativos a longo prazo) até março de 2017, como inicialmente previsto.

"Considerando que o 'Brexit' teve um impacto menor daquele que era inicialmente esperado pelo BCE e ainda com as eleições presidenciais nos EUA para o início de novembro, é expectável que o BCE guarde para a próxima reunião, em dezembro, a par do que está a acontecer com a Fed [Reserva Federal norte-americana], para eventualmente dar a conhecer algumas alterações no seu programa", disse.

Na mesma linha, a analista do departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, Teresa Gil Pinheiro, remete para a reunião de dezembro eventuais alterações à política monetária do BCE.

"É possível que o BCE indique que em dezembro apresentará alterações ao programa, nomeadamente no que se refere a ajustes técnicos com impacto no montante de dívida elegível para participação no APP [programa de compra de ativos a longo prazo]", disse.

Nessa altura, acrescentou, a instituição poderá também indicar se o programa será estendido além de março nos atuais moldes (compras mensais de 80 mil milhões de euros) ou se iniciará um processo gradual de redução do montante de compras mensais.

"Ainda que este seja o nosso cenário central, não será de excluir a possibilidade de que alterações técnicas com impacto no montante de dívida elegível para participação no APP sejam anunciadas na reunião de quinta-feira", salvaguardou.

O gestor da corretora XTB, Eduardo Silva, lembrou que apesar de "a especulação ter vindo a aumentar de tom à medida que se aproxima a data inicialmente avançada para terminar o programa de estímulo monetário na Europa (março 2017)", não é esperada qualquer alteração, quer às taxas de juro, quer ao programa de compra de dívida em outubro.

"Com a inflação a subir lentamente e a recuperação económica frágil, Mário Draghi poderá ter de aumentar a política de estímulos na Europa antes de poder considerar uma diminuição da escala do QE, fator que deverá obrigar o presidente a garantir alguma flexibilidade no discurso", referiu.

Para Eduardo Silva, o foco da reunião recairá assim sobre as projeções económicas e o tom do discurso do presidente, que se espera neutro com a possibilidade de se assistir a algum otimismo, tendo em conta a evolução dos dados económicos recentes na Alemanha e demais economias da zona euro.

"Dificilmente iremos assistir a uma inversão na política de estímulos antes da segunda metade de 2017. Mesmo com a inflação a recuperar, o banco central deverá querer pelo menos três registos acima dos 1,5% por forma a poder sinalizar qualquer diminuição", sinalizou.

O economista do Banco Carregosa, Rui Bárbara, diz também esperar, no discurso do presidente -- na conferência de imprensa que habitualmente se segue à reunião de política monetária do BCE - uma "clarificação dos rumores recentes sobre o início do fim da política de estímulos do BCE, que já trouxeram turbulência ao mercado de obrigações, sobretudo às obrigações de países periféricos como Portugal".

"Para mim seria estranho que o BCE começasse a reduzir as compras de ativos tendo em conta o fraco crescimento da zona euro e o potencial de riscos que ainda temos no horizonte", considera Rui Bárbara, defendendo que se tal acontecer "será mais o resultado da pressão alemã do que da vontade do BCE".

"Acredito, e espero, que Mario Draghi vá tentar ganhar tempo e afastar esses rumores. Se assim não for, as consequências para Portugal podem ser muito negativas", finalizou.

 

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