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"Fui campeão nacional e depois a Federação 'cortou-me as pernas'"

Numa entrevista ao Desporto ao Minuto conheça a história de Rafael Domingos. Foi campeão nacional de juniores de triatlo, após estar lesionado durante quatro meses. Estranhamente a Federação retirou-o do Centro de Alto Rendimento. Uma decisão polémica, mas que tem uma explicação.

"Fui campeão nacional e depois a Federação 'cortou-me as pernas'"

Rafael Domingos é um jovem de 23 anos que se encontra no painel de federados no planeta do triatlo português. Com o sonho de atingir o maior certame a nível desportivo, os Jogos Olímpicos, o atleta do Estoril-Praia revelou a história que esteve escondida algum tempo debaixo do 'tapete'.

Foi campeão nacional de juniores, após atravessar um calvário de lesões. A sorte não sorriu a Rafael Domingos e a federação vigente na altura, em vez de o apoiar, decidiu retira-lo do Centro de Alto Rendimento. Uma realidade que muitos outros desportistas do triatlo viveram. Consequência? Muitos saíram, e poucos foram os que ficaram.

A história contada em primeira mão pelo triatleta Rafael Domingos, numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto.

Quando é que começou a aventura no triatlo?

Comecei em 2008, por causa do projeto de desporto escolar. Tive a sorte de ter um professor de Geografia, que praticava triatlo, e que me impulsionou para esta carreira. E foi assim que a minha paixão se iniciou.

Em que patamar é que o Rafael se coloca neste momento, tendo em conta a sua evolução e a situação atual da modalidade?

O triatlo está com um nível muito alto, quer a nível nacional, quer lá fora. Eu consigo bater-me com a maior parte dos atletas nacionais, sinto que os outros me respeitam. Com os atletas olímpicos é mais difícil competir com eles. Não estou no topo, mas estou a trabalhar afincadamente para lá chegar.

Qual foi o seu melhor resultado a nível nacional?

Os títulos de campeão nacional de juniores, bem como o de sub-23 no triatlo de sprint.

E a nível internacional qual é a prova de que se recorda com maior saudade?

Em 2018 conseguir o 19.º lugar na Taça da Europa, no Funchal, uma prova com bastante renome e apetrechada de excelentes atletas, alguns deles olímpicos.

Qual era o ‘teto’ arquitetado pelo Rafael quando entrou para esta modalidade?

O patamar máximo é sempre uma ida a uns Jogos Olímpicos, mas o nível no triatlo está tão alto que, por vezes, torna-se mesmo muito difícil atingir o patamar de excecional. Claro que vou lutar para ir a uns Jogos Olímpicos, sabendo, desde já, que é muito difícil chegar até lá.

Qual foi o momento mais marcante da sua ainda curta carreira e guarda como uma boa recordação?

Quando fui campeão nacional de juniores. Vinha de uma lesão de quatro meses, sabia que me iam retirar do Centro de Alto Rendimento e eu queria bastante lutar pelo meu sonho, e sabia que estava alguém a tirar-mo e, na altura, quando ganhei esse título sentia que estava a dar um ‘estalo de luva branca’ à federação e aos dirigentes que estavam lá.

E nunca pensou em desistir quando lhe retiraram do Centro de Alto Rendimento? A palavra desistência não passou várias vezes pela sua cabeça?

Quando estamos a falar de Alto Rendimento pensamos muitas vezes em desistir e atirar a toalha ao chão, mas temos de ter confiança no treinador, no clube, temos de ter confiança nas pessoas que querem o nosso bem. Hoje falo da Federação, se fosse há quatro anos não falava.

E como tem sido crescer nesta modalidade, visto que os apoios são muito reduzidos?

A nível individual penso que, entre 2012 e 2015, senti uma falta enorme do apoio da Federação, porque sempre tive no Centro de Alto Rendimento e, num ano em que estive lesionado, a Federação tirou-me de lá. Não competi a nível nacional e internacional em várias provas, por estar lesionado, todavia fui campeão nacional do meu escalão, sem estar no Centro de Alto Rendimento. Foi um grande choque esta falta de apoio, ‘cortaram-me as pernas’. Não cresci bem como atleta, e muito se deveu a esta falta de apoio. Com esta Federação vigente, quer os mais velhos, quer os mais novos, já têm tido maior apoio, e as oportunidades para competir são maiores. Não podemos dizer que está tudo feito, porque ainda há muito caminho a percorrer, e ocorrem ainda um grande número de falhas, seja a nível de material, de nutrição, de repouso, de fisioterapia.

Referiu que foi retirado do Centro de Alto Rendimento por estar lesionado, e o seu regresso só aconteceu alguns anos depois. É uma política normal do organismo tomar este tipo de medidas?

Quando tu não apresentas resultados é a medida que eles tomam. E isto depois vira regra: quem apresenta resultados está, quem não apresenta, sai. Se o atleta estiver no topo tem o apoio do Comité Olímpico e da Federação, se for um atleta que está a crescer na modalidade, mas tem o azar de sofrer um infortúnio – por lesão ou quebra de rendimento -, perde todos os apoios. Porém, como referi anteriormente, algumas coisas mudaram. Eu não tive esse apoio, mas com o atual presidente, Vasco Rodrigues, há outro apoio e uma nova forma de ver a modalidade.

Foram precisos vir novos dirigentes para regressar ao Centro do Alto Rendimento?

Eu ainda consegui reentrar no Centro de Alto Rendimento com os anteriores dirigentes, mas foram tempos muito difíceis, na medida em que direção não se preocupava com os apoios a dar aos atletas, antes sim em regularizar contas. Eles desinvestiram muito no Alto Rendimento, e o fosso que existe entre os atletas de topo e os restantes são gritantes. Talvez depois dos Jogos Olímpicos de 2020, só consigamos ter atletas nos JO em 2028 ou 2032.

Significa isso que o Centro de Alto Rendimento ‘castrou’ muito prematuramente vários atletas de valor no triatlo…

Antes estava a fazer essa ‘castração’, agora sinto que cada vez está a apoiar mais. Na altura da direção de Fernando Feijão, eu senti que fui um dos atletas mais prejudicados, assim como outros atletas promissores que desistiram de lutar pelo sonho olímpico. Eu posso dizer que fui um, entre muito poucos, que conseguiu resistir a este péssimo momento do triatlo.

A Federação está melhor mas, por outras palavras, de que tipo de ajudas falamos?

Antes o Centro de Alto Rendimento pagava-se, hoje já não. Há bastantes oportunidades para competir no estrangeiro, o que é muito bom para crescermos na modalidade, já que é fundamental ser acompanhado dos melhores exemplos internacionais.

Qual é o nível atual de amadorismo/profissionalismo do triatlo em Portugal?

Neste momento temos só três atletas totalmente profissionais – João Pereira, João Silva e o Miguel Arraiolos que estão no Benfica -, num universo de federados em que somos 2500. A nível de alto rendimento somos entre 50 a 60.

E que ilações é que o Rafael retira destes números?

Às vezes, um atleta desanima um bocadinho, mas sinto que podíamos ser mais apoiados, porque lá fora o mundo é completamente diferente. Todavia, ainda consigo ter algum apoio do meu clube – o Estoril-Praia.

O Rafael lamenta ter nascido em Portugal?

Sim e não. Temos um país ótimo para o triatlo, mas a nível de apoios para o desporto é tudo canalizado para o futebol.

Se trabalhasse na pasta da Juventude e do Desporto, a nível governamental, que medidas é que o Rafael considerava importantes serem implementadas no triatlo?

Desde logo, implementar o desporto escolar obrigatório. Tentar criar uma nova dinâmica nos mais jovens, logo a partir do primeiro ano de escolaridade, para serem mais ativos. Há cada vez mais pessoas a entrar num estado de sedentarismo, numa idade muito precoce, o que condiciona o crescimento dos nossos atletas. Na minha idade, em vários outros países, há sempre cinco ou seis vezes mais atletas de topo, comparativamente aos nossos números. O que fazemos de raiz condiciona, e muito, o crescimento da ‘árvore’. Temos de mudar urgentemente a nossa forma de estar.

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