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"Não vejo problema em que o futebol seja uma máquina de fazer dinheiro"

Depois de falar sobre a legislação e as principais dúvidas que surgem associadas à prática de atividades físicas em contexto de ginásios e health clubs, Alexandre Mestre analisou o momento que se vive atualmente no futebol português.

"Não vejo problema em que o futebol seja uma máquina de fazer dinheiro"
Notícias ao Minuto

19/02/18 por Patrícia Martins Carvalho

Desporto Alexandre Mestre

Ex-secretário de Estado da Juventude e do Desporto e autor do livro ‘Direito do Fitness - Atividades em Ginásios e Health Clubs’, Alexandre Mestre conversou com o Notícias ao Minuto sobre o estado do futebol português.

Sem querer comentar os processos judiciais que envolvem os presidentes do Benfica e do Sporting, o ex-governante lembrou que até que se prove o contrário, todas as pessoas são inocentes.

No entanto, menos inocentes são os adeptos que cometem atos de violência e quebram as regras, razão pela qual as sanções aos clubes não deveriam ser apenas pecuniárias, mas também desportivas. E este tipo de sanções passaria pela perda de pontos ou até pela despromoção, consoante a gravidade dos atos. “Assim, os adeptos pensariam duas vezes antes de agir”, garante Alexandre Mestre.

Recentemente têm sido vários os casos judiciais que envolvem dirigentes de grandes clubes de futebol. Isto não passa uma má imagem do futebol português?

Quanto existe muita crispação e quando há fenómenos de violência é evidente que não é positivo. Mas temos de ver as coisas como elas são: temos um campeonato muito competitivo, temos bons jogadores, bons treinadores, somos campeões da Europa, temos uma federação muito respeitada e, por isso, o futebol português tem uma excelente reputação. Mas sim, é evidente que a conflitualidade permanente entre alguns agentes do mundo do futebol não ajuda.

Atualmente temos um presidente de um grande clube que foi constituído arguido num processo...

Não vou comentar. Temos de esperar. Há um princípio basilar que é o princípio da presunção da inocência. Há que apurar, nesta e noutras situações, se há ou não responsabilidade dos alegados infratores.

Tem de se dar alguma autonomia ao movimento associativo para ele se autorregular de forma a evitar episódios de violênciaQual é que deveria ser o posicionamento da secretaria de Estado do Desporto e da Juventude face às situações de violência que se vivem no futebol?

O Estado tem um dever que, na minha conceção, tem os seus limites de intervenção. Quando estive no governo dizia o que digo hoje também: tem de se dar alguma autonomia ao movimento associativo para ele se autorregular de forma a evitar episódios de violência.

Então qual é o papel do Estado nesta área?

O Estado tem a missão de aprovar legislação e é algo que faz. Do ponto de vista da legislação não há grande falta, acho até que estamos bem servidos do ponto de vista da legislação. Depois terá é que fiscalizar e aí tenho dúvidas de que o Estado tenha todos os meios necessários para fiscalizar.

Se as sanções não fossem tanto de natureza pecuniária, mas de natureza desportiva, talvez os adeptos pensassem duas vezes antes de agirQue meios faltam?

Penso que mais meios humanos. Onde, porventura, poderia haver uma intervenção na legislação no caso da violência é no âmbito das sanções desportivas. Isto é, a lei exigir que quando houvesse episódios de violência em qualquer modalidade desportiva as sanções não fossem tanto de natureza pecuniária, mas de natureza desportiva. Assim, talvez os adeptos pensassem duas vezes antes de agir.

Perder pontos, derrotas, despromoção, tudo aplicado proporcionalmente e tendo em conta a gravidade dos factos e se os mesmos são reiterados ou nãoÉ esse o caminho para pôr cobro à violência no futebol?

É evidente que o se o adepto sabe que o clube tem condições financeiras para suportar as sanções pecuniárias que resultam do seu comportamento violento, vai continuar a agir desta forma. Porém, se esse mesmo adepto vir que a equipa está a sofrer desportivamente com a sua conduta, então é algo que o vai tocar mais diretamente e vai pensar duas vezes antes de agir.

Está a falar em perda de pontos?

Sim, perder pontos, derrotas, despromoção, tudo aplicado proporcionalmente e tendo em conta a gravidade dos factos e se os mesmos são reiterados ou não.

A verdade é que também há casos de violência nos escalões inferiores do futebol.

É um facto e é algo em que os pais falham bastante. Por isso é tão importante o plano nacional da ética no desporto, no qual eu me envolvi bastante, porque tem uma ótica preventiva para chegar a todos os que estão diretamente envolvidos no mundo do futebol.

Os grandes clubes continuam a somar contratações milionárias mesmo com passivos financeiros. Não falta fiscalização nesta área?

Tem havido uma evolução bastante positiva ao nível da definição e do controlo do cumprimento dos pressupostos financeiros para as sociedades anónimas desportivas poderem aceder a uma determinada competição. Isso está bastante desenvolvido em Portugal e muito mais fiscalizado do que há uns anos. Também a nível europeu com as regras do ‘financial fair play’ há um controlo quanto à relação entre aquilo que se recebe e o que se gasta.

Antigamente o futebol era uma atividade para a família. Hoje em dia não é tanto assim, começa a ser percecionado como uma máquina de fazer dinheiro.

Eu não vejo problema em que o futebol seja uma máquina de fazer dinheiro.

Porquê?

Porque contribui muito – e há dados da União Europeia e de outras entidades nesse sentido – para o PIB dos vários países, para a criação de emprego, para a criação de empresas novas, para a criação de indústria e, por isso, acho positivo e não vejo nada como sendo algo negativo. O que afasta os adeptos não é esta questão.

O adepto não irá tanto ao futebol se, por exemplo, o horário for o que menos lhe dá jeito, mas dá mais jeito às televisõesQual é então?

O adepto não irá tanto ao futebol se, por exemplo, o horário for o que menos lhe dá jeito, mas dá mais jeito às televisões. O adepto se calhar não vai tanto ao futebol e não leva a família consigo porque já não acredita no desporto porque ouve falar em viciação de resultados e apostas antidesportivas.

O que se pode fazer para inverter essa tendência?

É evidente que os flagelos que gravitam à volta do desporto podem dissuadir as pessoas de continuarem a acompanhar e a acreditar. Mas é importante que as pessoas continuem a acreditar, que tenham a perceção de que o resultado desportivo é apenas mérito desportivo dos intervenientes. Agora, se começam a duvidar disto e somando-se a questão da violência, sim, os adeptos vão afastar-se.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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