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"Conhecer Moonspell também já faz parte da cultura geral do país"

Os Moonspell são os entrevistados do Vozes ao Minuto de hoje.

"Conhecer Moonspell também já faz parte da cultura geral do país"
Notícias ao Minuto

01/11/17 por Pedro Filipe Pina

Cultura Moonspell

A 1 de novembro de 1755, um violento terramoto, seguido de um tsunami, fustigou Lisboa. Do cenário de morte e destruição, uma nova Lisboa haveria de surgir.

Este é o mote para o regresso dos Moonspell aos discos, e logo num álbum especial: '1755'. É que pela primeira vez, a banda que se tornou porta-voz do metal em Portugal, e de Portugal no universo do metal, aposta num álbum em língua portuguesa

Já lá vão mais de duas décadas desde que os Moonspell começaram a ganhar nome, conquistando o seu espaço num género de mil e uma variações, mas que tem nos cabelos longos e nas roupas negras uma das suas imagens de marca.

Ao telefone, entre ensaios para os concertos do último fim de semana e ações promocionais para este '1755', o Notícias ao Minuto falou com Pedro Paixão (teclado e guitarra) e Fernando Ribeiro (voz).

Falámos do tempo em que o metal em Portugal era visto como algo obscuro e do espaço que o género tem nos media. Falámos de música e da língua portuguesa e de um 'Inferno' que é paraíso. Falámos do facto de serem a banda portuguesa que tocou mais vezes no estrangeiro, o que os leva a assumir – sem sobranceria – que já fazem parte da cultura geral portuguesa. E falámos desta Lisboa, de 1755, que por entre os escombros da devastação teve de romper com o seu passado. E renascer.

Os Moonspell estão de volta e com um álbum conceptual, em português, inspirado na Lisboa devastada pelo terramoto de 1755.

Pedro Paixão (PP) - Os Moonspell sempre foram uma banda conceptualista, trabalhámos quase sempre sobre conceitos. Precisamos de uma história, de um foco, para compor. Claro que temos uma iniciativa musical espontânea. Mas quando temos um conceito, aí sim, começam a surgir muito mais ideias.

E porquê esta Lisboa de 1755?

PP - Esta Lisboa é uma Lisboa algo intolerante, até ignorante, que, através de um fenómeno natural, surgiu renascida, com novas ideias. Creio que será uma metáfora para o que acontece hoje em dia, até politicamente, não só em Lisboa mas em muitos outros locais, em que quem mantém o poder procura manter as pessoas na ignorância. Esta é a Lisboa que nós descrevemos e que foi necessário destruir para renascer um novo pensamento, de Iluminismo, [na altura] vigente há algum tempo na Europa Central.

Fernando Ribeiro (FR) - O terramoto é um evento com ligações tão densas e tão intensas com tantas coisas, da Europa da altura, da religião, da sociedade. Na minha opinião foi uma saída trágica da Idade Média. Portugal até 1755 era praticamente um país de Idade Média, impedido de evoluir pela coroa e por um certo terror católico, e essa era a Lisboa que tínhamos antes do terramoto: cinzenta, com um povo mal tratado, temente a Deus, com autos de fé por toda a cidade. Para mim, apesar da desgraça, da morte, da matança, interessava-me pintar uma Lisboa que renasceu, em que as pessoas, naquele dia, no meio daquele desespero todo, sabiam que iria renascer, ou que pelo menos houve essa atitude. Em Filosofia, houve aqui um fenómeno da astúcia da razão, em que o progresso, entre aspas – e o Marquês Pombal é incontornável nisto –, fez com que se avançasse praticamente dois séculos ou três, em que não se tinha avançado antes, especialmente a nível social e político.

"Só mesmo o terramoto, um desastre natural, é que conseguiu dar o contexto que era preciso para sair da Idade Média"Funcionam aqui as duas ideias, não é? A destruição e o que surge para lá da destruição.

PP - É. Essa é uma imagem que temos passado do álbum. Não é uma reportagem histórica de um evento mas o sentimento deste processo, de destruição e reconstrução.

FR - Há pelo menos aqui um espírito. É um evento trágico, que tentámos recriar pelo lado das orquestrações e pela parte mais rockeira e metaleira. E depois há outros elementos e arranjos que também remetem para algo que diz também: ‘Atenção, isto não é só uma história de morte’. Portugal continuou a existir, e houve coisas que naquela altura mudaram para melhor. O que nos leva a questionar; porque não tinha havido até então uma força social, política e religiosa, como tinha havido noutros países da Europa, como o movimento dos protestantes, por exemplo, que conseguisse fazer tremer os grandes dogmas que havia em Portugal. Só mesmo o terramoto, um desastre natural, é que conseguiu dar o contexto que era preciso para sair da Idade Média.

Desta vez apostaram em algo que nunca tinham feito: um álbum todo na nossa língua. Foi muito diferente, o processo criativo?

PP - Pode-se dizer que sim, no sentido em que o Fernando [Ribeiro] domina muito bem ambas as línguas, o inglês e o português, mas para outros elementos da banda – não para o Mike [Gaspar], que nasceu e cresceu nos EUA – o facto de as letras serem em português toca-nos mais fundo, percebemos melhor as entrelinhas das letras. E isso de certa maneira torna o processo mais fluído e, pela forma como as letras encaixam na música, torna-se até mais natural para nós, um pouco mais ignorantes do inglês. Outra coisa que tivemos foi o cuidado de procurar usar palavras que também tenham uma leitura internacional. Há palavras aqui que vêm quase diretamente do latim, e que muitas pessoas percebem, independentemente da sua língua.

FR - Acho que temos sempre de nos enquadrar mentalmente no processo que estamos a fazer. E foi fundamental com este conceito [terramoto de Lisboa], tão forte, tão documentado em livros, termos feito a escolha do português porque imediatamente toda a banda começou a pensar em português. Claro que a música é uma linguagem universal, mas este disco tem um argumento – as letras – que é completamente cantado em português. Foi diferente, até extremamente confortável. Mas foi um processo em que ainda fomos mais exigentes ao nível da dicção porque era muito importante que o registo usado no '1755', que acho que é o registo certo, também tivesse uma boa perceção, especialmente para as pessoas que falam português.

Como é que o álbum está a ser recebido pelos fãs, em particular pela legião estrangeira? A língua é barreira?

PP - Há duas perspetivas: no metal já há algum histórico de utilização de línguas nativas, que não o inglês. Há bandas norueguesas que cantam em norueguês, bandas alemãs que cantam em alemão, e funciona bem. Entre as reações de pessoas que trabalham connosco, e muitas delas são estrangeiras, dizem-nos que ficaram assoberbados pela qualidade do álbum e que, cantado em português, tem um 'feeling' diferente. Dá-lhes uma viagem um pouco mais periférica do que o normal e viajam num sítio mais surpreendente, porque não estão tão habituados. Alguns jornalistas estrangeiros que nos entrevistam também comentam o que acharam do álbum e gostaram bastante. Na verdade, os portugueses até têm estranhado mais, o que é curioso. 

Lembra, em parte, o sucesso de uns Madredeus no Japão, em que ninguém entendia uma palavra mas a música estava lá, em concertos esgotados.

PP - A música e a forma como interpretas as palavras muitas vezes têm um cariz diferente e as pessoas também procuram na música essa experiência diferente. Às vezes gostamos de um sabor e se há uma banda que nos dá esse sabor gostamos de chegar à loja, comprar o novo álbum, e ouvir, sentir, saborear o que procurávamos. Mas normalmente também procuramos sentir qualquer coisa de novo, um outro sabor.

É isso que encontramos neste novo álbum?

PP - Os Moonspell estão lá à mesma e estas variações de sabor que temos é algo que acho que é bastante atraente e traz até um exotismo que os portugueses têm e que através da sua língua se torna ainda mais fácil. No caso dos Madredeus isso era evidente, se eles cantassem em inglês aquilo soava um pouco mais celta do que português.

E como é que a editora, Napalm Records, acolheu a ideia? O português preocupou-os?

PP - Não, não. Inicialmente, a ideia nem era fazer um álbum inteiro, era um EP. Mas nós encontrámos uma solidez de composição e gostámos tanto e ficámos até frustrados porque havia tanta história para contar, que sentimos a necessidade de fazer um álbum. Para a editora, o ser em português sempre foi uma aposta segura. São, digamos, atrevimentos artísticos que são necessários para a música continuar para a frente.

Na 'In Tremor Dei' ouvimos uma sobreposição curiosa, com a voz mais grave do Fernando Ribeiro e o alcance de fadista do Paulo Bragança. Como é que surgiu esta colaboração?

PP - Tu queres fazer música mas às vezes é a própria música que nos começa a dar ideias. E neste caso a música quase que nos implorou. Nós tínhamos uma linha de voz melódica, com o Ricardo [Amorim], o nosso guitarrista, e soava muito bem. Mas a dada altura pensámos que era giro termos isto interpretado com algo mais de fado. E que tal chamarmos um fadista? E aí o Fernando Ribeiro insistiu muito com o Paulo Bragança, porque era uma pessoa que estava fora do eixo que agora domina o fado. Nós costumamos chamar-lhe o 'anjo caído do fado'. É uma pessoa com alma e tornámo-nos amigos e já temos feito outras coisas juntos que nada têm a ver com os nossos percursos profissionais. E esse bónus, de conhecer pessoas interessantes, é também o cerne da vida.

Há aqui também um lado de Lisboa, do fado, que acaba por entra no vosso universo do metal através de um género que não associaríamos naturalmente?

FR - Sim, o fado é também de Lisboa mas o Paulo Bragança é mais português do que apenas só um lisboeta.

É Lisboa aqui enquanto portugalidade?

FR - Exatamente. E o Paulo Bragança carrega essa portugalidade. E o Paulo ainda é aquele diamante, agora outra vez em bruto, porque o Paulo tem Lisboa mas também tem Coimbra, tem Trás-os-Montes, tem toda esta carga dos sítios por onde passou e se estabeleceu e sofreu, e eu queria muito trazer isso para a 'In Tremor Dei', precisamente para esse contraste, de mais vozes a lamentarem, e o Paulo Bragança caiu aqui que nem uma luva. (…) Já há mil canções sobre como Lisboa é solarenga e luminosa e por aí fora, e eu como português estou um bocado de fora dessa imagem de Lisboa. Acho que o terramoto de 1755 também repõe alguma verdade sobre o que Lisboa realmente é: uma cidade linda mas que, mesmo hoje, tem partes que estão aquém das expectativas.

Notícias ao Minuto                                  Fernando Ribeiro, vocalista de Moonspell          ©  Divulgação/Napalm Records                  

Vocês já levam 25 anos de carreira. Esta aposta num álbum em português é sinal de mudança de direção ou vontade de procurar inovar?

PP - É o procurar inovar. Acho que nos Moonspell tivemos sempre a capacidade de surpreender as pessoas musicalmente. E mesmo não o fazendo intencionalmente temos essa necessidade de criar novas situações musicais. Acho que isso [nos] é tão inato como fazer música. 

O sucesso fora de portas é algo que facilmente se associa aos Moonspell. Após estes anos na estrada ficou mais fácil triunfar lá fora a partir daqui ou o tamanho do país ainda é limitativo?

PP - Acho que Portugal é um país muito pequeno para uma banda ser só de Portugal. É muito difícil uma banda que faça música alternativa, no sentido de não ser aquela música muito fácil de captar e entender, viver só da música em Portugal. Não somos um país grande, não há um circuito nem tanto dessa cultura de ir a concertos em bares ou clubes. Se é mais fácil a internacionalização? Penso que os meios de divulgação são muito mais acessíveis, mas geram também muito mais confusão. Há muito mais bandas. Não é em excesso, mas, como tudo o que existe em grande quantidade, desvaloriza. E as bandas têm sido um bocado desvalorizadas. Um concerto era um momento mais importante, as bandas eram mais bem pagas. Hoje em dia não é bem assim. Não sei dizer se é mais fácil, mas há outras maneiras de fazer as coisas. Já não basta ser só músico, também temos de saber movimentar-nos tanto nos campos de promoção como de gestão.

A própria indústria mudou bastante nestes anos.

PP - Exato, e temos de ser mais self-made-band, tomar as rédeas dos nossos destinos.

"Não deixa de haver ainda muito preconceito, sobretudo à nossa estética"Quando começaram a carreira ainda nos anos 90, Portugal era diferente. Como é que foi explicar lá em casa à família que queriam fazer vida neste universo meio obscuro do metal?

PP - Olha, tentava-se da melhor maneira. Ainda hoje há pessoas que me perguntam, ‘Então mas o que é que tu fazes?’, e eu digo: ‘tenho uma banda’. ‘Sim, sim, mas o que é que tu fazes?’ - ‘Tenho uma banda [risos]’. Isto é como uma pequena empresa e dá bastante trabalho. Um músico se se divertir é ótimo, é sinal de que está a trabalhar bem.

Mas Portugal nos anos 90 era mais complicado. Na altura até por ter cabelo comprido uma pessoa recebia piropos na rua por pensarem que era uma miúda a passar. Eu sempre levei isso com uma certa calma, que o progresso iria acontecer. E aconteceu. Mas não deixa de haver ainda muito preconceito, sobretudo à nossa estética. Nós ainda agora fomos fazer uma sessão fotográfica para um jornal, éramos para fazer nas Ruínas do Carmo, e fomos recusados sem explicação. Aguardamos uma explicação mais detalhada porque não queremos acreditar que ainda há este preconceito de, por estarmos de preto e sermos cabeludos, que somos acéfalos ou que não temos qualidades sociais. Eu realmente não percebo muito bem isso porque sou desprovido de muitos preconceitos. Mas nos anos 90 havia muitos preconceitos tão ridículos, como esse do cabelo comprido.

Claro que nós também não podemos comportar-nos como lobos e estar à espera de ser tratados como ovelhas. Nós também não somos nenhum santinhos. Fazíamos coisa de índole satânica e há pessoas que não sabem o que é que queremos dizer com isto. Nós não vamos extirpar criancinhas ao pequeno-almoço por causa da índole satânica [risos]. Acho que se tem de relativizar as coisas.

FR – Não foi fácil, foi acontecendo, e acho que, como qualquer estilo de música, especialmente os que não são tão bem aceites a nível popular, houve uma grande perseverança. Há sempre um grande compromisso com o metal. Não é só ter uma banda, é também viver segundo um estilo de vida, e talvez isso tenha sido mais complicado de aceitar. Mas o segredo é mesmo o termos gostado muito daquele estilo e virmos que havia ali muita profundidade. Acho até que já é tempo para deixar de chamar nicho ao metal porque até em Portugal já há pessoas suficientes para ter o mesmo alcance e o mesmo respeito de outros estilos de música. Mas sim, na altura foi complicado.

Vocês participaram recentemente num passatempo do Sapo 24 para ser um fã a colocar questões à banda. A vencedora foi uma jovem que tinha sido motivada a participar pela avó. Avó e neta a partilhar o gosto pelo metal. Isto é sinal de novos tempos?

PP - Deixa-me enquadrar isto historicamente: Nos concertos na Europa sempre houve crianças e pessoas mais velhas – eu não sei se a avó é idosa, acho que não, e isto hoje em dia ser idoso é discutível – mas sempre tivemos pessoas de todas as idades. Isto não é dirigido aos portugueses, naturalmente, mas eu também perdoo Portugal porque nós viemos de uma ditadura. Muitos dos nossos pais ouviam algumas coisas brasileiras mais interessantes, ou uns Abba, também musicalmente interessantes, mas ninguém ouvia uns Black Sabbath, por exemplo. E é uma banda gigantesca em tudo e nunca cá tocaram. Poucos dos nossos pais ouviam Led Zeppelin ou Jimi Hendrix, não passaram por essa escola do rock. E nós quando crianças também não ouvíamos esse rock.

Mas sempre tive essa esperança e está a acontecer: já há deputados que gostam de Moonspell, já há o comandante da TAP que gosta de Moonspell. Já há mais gente com uma determinada cultura e estudos e em lugares de influência que ouvem metal.

Quando eu tinha 16 anos e o meu irmão mais velho ouvia metal eu também pensava 'Epah, mas porque é que esta gente grita tanto?'. Mas com os anos fui percebendo a profundidade das mensagens artísticas que estão por trás. Algumas são mais profundas do que outras, é verdade. Mas também no pop, um estilo que também aprecio, há músicas mais fúteis e mais profundas. O metal também não pode ser olhado como apenas uma força de raiva destruidora, não tem nada a ver com isso.

FR – Acho que a avó da Carolina é uma pessoa bastante especial e aqui em Portugal também já temos fãs mais velhos que têm insistido muito na nossa música. Mas nós já fizemos essa curva geracional. Já estivemos na Eslovénia num festival e na primeira fila havia uma família francesa: um avô, um pai jovem, mas já com 30 e tal anos, e um filho de 11 anos, e todos ouviam Moonspell.

Vocês acabaram por ser em Portugal, um pouco como os Ramp, uma banda que teve essa quase 'missão' de apresentar o género a um público maior.

PP - Sim. E nós até é num metal mais alternativo, os Ramp por exemplo são mais próximos do que é o heavy metal. Fomos um pouco porta-vozes do metal em Portugal, mas também de Portugal no metal. Nós temos fãs que conheceram Portugal e que vieram cá através dos Moonspell. É um papel que também temos na nossa história. Nestes concertos que demos agora em Lisboa e no Porto tínhamos um bilhete para fãs para passarem o dia connosco e é de notar que mais de metade deles eram estrangeiros. Até um mexicano havia.

Nesse aspeto, e passe a arrogância, Portugal teve sorte [risos] por ter pessoas bem falantes, que conseguem comunicar com pessoas que não conheciam tão bem o espírito do metal e que viam só uma faceta mais destruidora no género. Às vezes, explicando, começas a perceber que não, que é música, e que quando uns usam outros elementos nós usamos também berros como forma de expressão. Eu já fui a espectáculos de bailado contemporâneo e acho aquilo muito mais estranho que qualquer banda de metal. Também gosto, mas às vezes acho aquilo até mais extremo [risos].

Em 2016 um artigo do Público sobre o sucesso internacional e a transversalidade dos Buraka Som Sistema levou os Moonspell a falar em “racismo musical”. Volto à polémica para perceber o que estava em causa mas também para saber como ficaram as coisas.

PP - Nessa polémica toda aquilo que mais me afetou pessoalmente foi se em algum momento os Buraka Som Sistema pensaram que estávamos a implicar com a qualidade musical deles ou a aceitação que têm. Não era isso que estava em causa. Nós somos uma banda, eles são uma banda e ninguém se pode entender melhor. Mesmo no jornalismo acho que os media prestam muito mais atenção aos Moonspell do que prestavam no início.

Confesso que durante anos a fio sempre tolerei que isso acontecesse mas, agora, já com mais de 40 anos, não tolero: não há banda portuguesa que tenha tocado mais vezes no estrangeiro do que os Moonspell. Isto é um facto. Não vejo ninguém tocar tantos concertos no estrangeiro, seja para 200 pessoas ou milhares. Nós temos fãs em todo o lado e somos uma banda que projeta a dimensão da nossa cultura a muitas pessoas e a muitos países. E temos o potencial para o fazer ainda mais. Ignorar isto em termos de cobertura jornalística, na minha ótica é quase uma lacuna deontológica. E nessa polémica pode ter ficado ofuscada esta questão: nada contra bandas portuguesas, até porque preferíamos que muito mais bandas portuguesas fossem conhecidas lá fora, abria-nos muito mais portas. Mas nós somos tão patriotas como os que sempre cantaram em português e que alguns que às vezes dizem que eles é que levam a cultura [portuguesa lá fora], como se a cultura se cingisse à língua. Tem que nos ser feita justiça. As pessoas têm de perceber que somos verdadeiramente portugueses e que conseguimos este sucesso. Pode não ser um grande sucesso mas é suficiente para tocarmos centenas de concertos no estrangeiro. Eu sou super-fã dos Madredeus e eles fartaram-se de tocar no estrangeiro mas acho que com a nossa carreira já fomos ultrapassando essa marca, até porque há alturas em que tocamos lá fora dias consecutivos durante meses.

"Hoje em dia conhecer Moonspell também faz parte da cultura geral, nem que seja por ser a banda que mais toca no estrangeiro"Portanto, não será uma questão de serem os Moonspell, os Buraka Som Sistema ou os Madredeus, que deram todas esse 'salto' lá para fora. O que é que achas que está em causa? É a perceção dos media em relação ao metal e ao que é o é mainstream?

PP - Não tenho nenhuma síndrome de perseguição. Julgo que é uma questão de não chegar a todo o lado.

E o metal às vezes fica um pouco de fora?

PP - É óbvio que também ainda é um nicho de mercado. Mais uma vez: não podemos querer ser lobos e depois ser tratados como ovelhas. O que eu quero dizer é que nós tentamos fazer o nosso trabalho com a melhor qualidade possível. Mas isto também é conhecimento de cultura geral. Nós já saímos em perguntas de concursos, em livros escolares. E eu fico contente com isso. Mas por vezes a cobertura é desproporcional. Acho que é um ato mais espontâneo. Não é uma perseguição que nos fazem. Mas às vezes pode ser um pouco de ignorância. E hoje em dia conhecer Moonspell também faz parte da cultura geral, nem que seja por ser a banda que mais toca no estrangeiro.

Fernando Ribeiro, para lá do sucesso no universo do metal, és uma figura conhecida do público em geral. Isto quando o metal não costuma ter espaço no mainstream. Como é que lidas com isso, com este lado de um grande público que já sabe quem és, mas que se calhar não tem tanta noção do mundo do metal de onde vocês vieram.

FR - A minha missão nunca foi evangelizar. Foi se calhar procurar uma avaliação mais justa, menos preconceituosa. Já reagi de maneiras diferentes. Agora estou muito mais envolvido em fazer algo verdadeiramente útil ao metal do que fazê-lo apenas com jornalistas a quem tentas explicar porque fazes o que fazes. Acho que esse é um processo profundo em que só as novas gerações vão aceitar o metal tal como ele é: um estilo de música com história e público.

Isso acontece de que maneira?

FR - Trabalho nos Moonspell mas também na nossa nova editora, a Alma Mater Records, que vai editar ou reeditar bandas portuguesas, não só de metal. Mas o plano é tentarmos ser nós a retirar o metal de editoras que acho que não o promovem de uma forma justa ou digna. E acho que mais cedo ou mais tarde isso vai acabar por acontecer. A minha reação já não é tanto estar atrás de um ecrã a fazer os meus comentários, que já nos levaram a algum lado, mas queremos um bocadinho mais do que isso. Opinadores e comentadores já há muitos [risos].

Um espaço que se tem tornado importante para vocês é a quinta em Olival Basto, que tem servido de estúdio. Chamam-lhe o 'Inferno', mas quando falam do espaço vê-se que é uma quinta, com privacidade, que dá para vocês e agora também para outras bandas. Este 'Inferno' é um bocadinho um paraíso para uma banda, não?

PP - É. Nós fomos a primeira banda a ir para lá. É uma quinta mas é também um conjunto de armazéns. Há uma série de salas e nós fomos a primeira banda a ir para lá e sentimo-nos tão bem e o senhorio, que estava desconfiado, lá está: 'uma banda? agora vêm para aqui fazer barulho'. Mas nós com essa experiência de porta-voz [risos] que já temos explicámos ao senhor as coisas e de facto a relação é ótima e eles prestam-nos imensa ajuda, e começaram a chegar outras bandas e o que o senhor verificou é que as bandas são dos melhores clientes que tem: são certinhas a pagar e funcionam noutros horários. Mas é engraçado que se juntaram muitas bandas e as pessoas gostam de facto de ir lá. É um inferno no paraíso, sim [risos].

Notícias ao Minuto'1755' é o novo álbum dos Moonspell© Divulgação/Napalm Records

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