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"'Geringonça' e acordo de Esquerda tiveram efeito de quase avalanche"

Até 2019, a presidência dos jovens socialistas europeus (YES – Young European Socialists) fala português. João Duarte Albuquerque é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"'Geringonça' e acordo de Esquerda tiveram efeito de quase avalanche"
Notícias ao Minuto

16/05/17 por Pedro Filipe Pina

Política Presidente da YES

Foi há pouco mais de um mês, num congresso na Alemanha, que João Duarte Albuquerque, jovem de 30 anos oriundo do Barreiro, se tornou o primeiro presidente português da organização.

Era já noite em Helsínquia quando o Notícias ao Minuto falou com João Duarte Albuquerque via Skype. Falámos sobre as eleições em França e sobre os maus resultados de partidos da família europeia do PS nas urnas. Mas também da atenção que a ‘geringonça’ tem despertado fora de portas e da desconfiança de cidadãos, seja em relação à União Europeia, seja em relação às juventudes partidárias.

Como começou o interesse na política?

Tinha 18 anos quando aderi à Juventude Socialista do Barreiro. Foi um bocadinho fruto de um percurso pessoal e de participação cívica na escola onde estudava. Estive envolvido no jornal, na associação de estudantes, na organização de eventos. Com essa idade, a maturação pessoal que fui fazendo e o pensar em qual deve ser o nosso envolvimento na sociedade, acabei por querer aderir a uma estrutura partidária. Sempre me identifiquei com o PS. Foi uma decisão natural.

Já conhecia a Young European Socialists (YES) como ‘vice’. Agora tem a responsabilidade da presidência. Como têm sido estes primeiros tempos após a eleição?

A complexidade deste processo é elevada. A YES é composta por várias organizações - as juventudes socialistas ou sociais-democratas da Europa - e há que gerir todas estas sensibilidades de diferentes estruturas. Ainda estamos numa fase de transição, a apontar agulhas para o que vai ser o nosso trabalho nos próximo dois anos. Está a ser um trabalho desafiante mas recompensador.

Larga maioria das pessoas que se envolvem na atividade partidária tem intenções bastante nobresAs juventudes partidárias são muitas vezes olhadas com desconfiança, como simples plataformas para a carreira. Há razão para tal ou não passa de preconceito?

Em Portugal observamos muito esse preconceito. É uma visão um pouco redutora na maior parte dos casos. Continuo a acreditar que, numa democracia representativa como a nossa, os partidos são o principal agente de mudança. Não são obviamente o único, mas têm esta capacidade de congregar diferentes forças vivas da sociedade. Como em tudo há sempre pessoas com mais e menos pureza de intenções mas a minha experiência diz-me que uma larga maioria das pessoas que se envolvem na atividade partidária, e esta é uma atividade que rouba muito tempo e recursos, tem intenções bastante nobres.

Perante os desafios que a Europa enfrenta atualmente, quais são as prioridades para os jovens socialistas europeus?

Temos um mandato que vai até 2019 e que vai acabar na altura das eleições europeias. Será um momento determinante para nós. Somos europeístas convictos e acreditamos que é preciso dar força ao Parlamento Europeu. É o único órgão com poder e transparência democrática dentro da UE, por ser o único diretamente eleito pelos cidadãos.

Temos também uma grande preocupação com a questão dos refugiados e das migrações forçadas, mas também com a necessidade de reforma da UE e das políticas económicas seguida pela Comissão Europeia, muitas vezes impostas. Desde a crise de 2008 que fomos profundamente contra medidas de austeridade e contra o que foi aplicado em países como Portugal, Grécia, Itália, Espanha ou Irlanda. Mantemos também um grande foco nas questões de igualdade de género, de direitos de pessoas LGBT, de todas estas questões fundamentais na nossa política porque as consideramos parte da defesa de uma sociedade mais justa.

Estamos perante um mandato de dois anos. Quais são os objetivos até lá? Já há planos para depois?

Em política nunca fiz grandes planos em termos de cargos. Neste momento estamos focados em contribuir para que a YES aumente a sua relevância junto dos jovens europeus e para que possamos ter uma voz mais ativa junto dos fóruns de decisão europeus. Queremos ter mais influência dentro do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia para podermos transmitir as nossas ideias e contribuir para que o PS europeu seja o partido mais votado nas eleições de 2019. Se conseguirmos isso já seria um mandato excecional.

Emmanuel Macron ganhou as eleições francesas contra a representante da extrema-direita, Marine Le Pen. Que faltou à Esquerda para ter um candidato na segunda volta?

Fomos apoiantes de Benoit Hammon e obviamente que o resultado que o PS francês teve [6,4%] nos deixa insatisfeitos. Mas olhando para a conjuntura política da França nos últimos anos houve um castigo bastante grande ao mandato de François Hollande. Acho que esse castigo acontece pela ausência da França dos centros de poder de decisão europeia. Apesar da análise que fazemos isto não nos fez hesitar na necessidade de apoiar o único candidato democrata que passou à segunda volta. Foi a necessidade de apoiar Macron contra uma candidata [Marine Le Pen] que vai contra tudo aquilo em que acreditamos.

Podemos estar perante um fenómeno de ‘pasokização’ do PS francês?

É um pouco prematuro fazer essa análise porque a prioridade até agora eram as eleições presidenciais. Mas há um segundo momento, as eleições legislativas francesas em junho, que será o principal momento de avaliação do partido e daquela que é a sua real influência dentro do panorama político em França.

Verifica-se nos partidos socialistas alguma dificuldade em agarrar o seu eleitorado tradicional mas também se vê que os partidos conservadores e de centro-direita têm vindo a ser invadidos por movimentos mais populistasHá margem para recuperar?

Os partidos não são fenómenos estanques. Neste momento estamos perante uma ascensão dos discursos populistas. Vimos isso com o Brexit, com [Donald] Trump, com o referendo na Turquia. Os partidos estão, e não só à Esquerda mas também à Direita, a tentar ajustar a forma de comunicação e defesa dos seus ideais nesta nova realidade que torna o debate político bastante difícil. Verifica-se nos partidos socialistas alguma dificuldade em agarrar o seu eleitorado tradicional mas também se vê que os partidos conservadores e de centro-direita têm vindo a ser invadidos por estes movimentos mais populistas e que têm influenciado muito a passagem destes partidos para um discurso político mais extremado.

E como pode a UE responder a este avanço do populismo que temos visto em vários países?

Uma das nossas principais preocupações é procurar encontrar soluções para uma reforma da própria UE enquanto tal. Tivemos um esquema político e económico que foi criado na UE de certa maneira coxo. Antes de tudo, há mecanismos que ainda não são perfeitos na própria zona euro.

Não se pode querer ter uma moeda única que depois não permite aos países e à própria UE ter os mecanismos necessários para fazer face a uma crise económica como a que sentimos em 2008. Houve aí uma falha por falta de mecanismos adequados. Mas há também um desajuste entre os mecanismos da UE e o que devem ser preocupações da própria UE, que é centrar-se numa maior igualdade e numa maior qualidade de vida para as pessoas. A emergência de sentimentos antieuropeístas surge precisamente da falta de resposta que muitas vezes se verifica. 

A UE já tinha importância política e económica mas tornou-se nos últimos anos um assunto mais falado, muitas vezes de forma negativa. É um fenómeno de uma certa descrença que acontece em diversos países? 

Este crescente euroceticismo é bastante preocupante e estamos preocupados com os movimentos que se têm vindo a verificar de arrastar os países para a saída da UE.

No caso de Marine Le Pen essa afirmação de saída era mesmo concreta.

Exatamente. E era imediata. Mas se olharmos para aquilo que foi o referendo do Brexit também vimos que foi a camada mais jovem que mais votou no sentido de o Reino Unido se manter na UE. Mesmo agora em França vimos uma camada da população jovem que apoiou candidatos que se mantinham fiéis ao projeto europeu. É uma temática que vamos acompanhar, sempre no sentido de reforçar os processos de integração europeia, mas acima de tudo para contribuir para que esta união seja reformada e possa estar mais próxima das pessoas.

O PS português tem neste momento uma posição privilegiada dentro da sua família política europeiaA dita 'geringonça' tem sido falada lá fora, nomeadamente por ter contrariado a tendência de queda de socialistas que vimos noutros países. Outros partidos socialistas podem retirar algo da experiência governativa do PS em Portugal?

O PS português tem neste momento uma posição privilegiada dentro da sua família política europeia. A ‘geringonça’ tem sido acompanhada com grande interesse por parte dos nossos parceiros europeus, sobretudo porque é uma solução que contraria a política seguida nos últimos anos e que demonstra que é possível, apesar das limitações impostas pela política europeia, governar à Esquerda. Mas estamos atentos a outros movimentos importantes para nós, como as eleições na Alemanha e o movimento que se tem vindo a revelar em torno de [Martin] Schulz.

Uma vitória de Schulz faria a diferença?

Ter uma Alemanha novamente de centro-esquerda, ativa e forte, na Europa, com uma postura de reforma do próprio sistema europeu, seria fundamental para nós. Poderia trazer de novo uma vitalidade forte àquilo que é o centro da UE. Isso, combinado com o caso de Portugal e outros casos na Europa, poderia permitir dar a volta e, de facto, mudar o sistema.

A 'geringonça' é assunto comum no seio da YES? Os jovens socialistas de outros países costumam perguntar pelo caso português?

Somos várias vezes referenciados como um bom exemplo do que pode ser o caminho a seguir pelos partidos na Europa. O trabalho que foi feito em Portugal, e é isso que tentamos explicar, foi iniciado com tempo e preparado com base na especificidade do sistema político português. Foi feito através de passos dados por ambas as partes, quer do PS quer dos partidos à sua Esquerda. No congresso da YES recebemos um mandato bastante claro no sentido de os partidos socialistas europeus procurarem soluções que vão ao encontro de parceiros à Esquerda e não tanto com aqueles que foram algumas vezes parceiros, à Direita.

Acho que, de certa maneira, a ‘geringonça’ e o acordo de Esquerda que foi feito tiveram este efeito de quase avalanche, de trazer de novo os partidos socialistas europeus para aquele que é o seu tradicional espaço político.

Sente-se uma divisão Norte/Sul, como se nota noutras questões europeias, no seio da YES?

O fenómeno de diferenciação entre Norte e Sul não é exclusivo dos partidos socialistas ou sociais-democratas na Europa.

Mas é relativamente fácil a YES ter uma posição conjunta ou as divisões Norte/Sul também se notam?

Há, como em tudo, pontos que nos aproximam e nos afastam. Temos modelos sociais muito diferentes no Norte da Europa do que temos no Sul. Naturalmente, a defesa de algumas ideias que temos no Sul seriam mais difíceis no Norte da Europa. O salário mínimo, por exemplo, seria sempre inaceitável ser imposto em países nórdicos porque na maior parte dos casos o salário mínimo é definido por acordos coletivos de trabalho.

Temos de ter sempre uma abordagem realista e pragmática e que não entre em choque com aquilo que é a realidade dos próprios países. Ao mesmo tempo há uma solidariedade que se tem sentido. Recentemente, apesar das declarações infelizes do presidente do Eurogrupo [Jeroen Dijsselbloem], sentimos dentro da família socialista europeia que há uma visão clara de apoio às políticas seguidas em Portugal. Esse apoio é homogéneo, vem de países do Norte e do Sul.

Nós não estamos com uma postura de andar a dar lições a ninguém

E o que podem os socialistas 'mais velhos', passe o termo, aprender com os jovens socialistas europeus? Refiro-me em concreto a exemplos que recentemente têm corrido mal nas urnas.

Nós não estamos com uma postura de andar a dar lições a ninguém. Mas neste momento, e vou percebendo um pouco isso da própria convivência entre os partidos socialistas europeus, há uma perceção de que houve algumas posturas e alguns caminhos seguidos que não foram corretos. Mas acho que o ponto essencial foi de facto perceber duas coisas. A primeira é que o caminho da austeridade provocou danos que levarão muito tempo a reparar em países como Portugal, Grécia ou Itália. Neste momento já não sinto, a nível da família socialista europeia, que haja nenhuma defesa de que a austeridade pode ser benéfica na recuperação económica dos países. A segunda é que é possível, e o governo português provou isso, fazer as coisas de forma diferente.

Falamos do fim da TINA [There is no alternative – não há alternativa]?

Exatamente. É o mantermo-nos fiéis àquilo que são os nossos princípios e à visão da sociedade que temos, de continuar a melhorar a vida das pessoas e perceber que há de facto alternativa. Esse ponto é essencial: há alternativa e essa alternativa é bastante visível hoje.

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