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"Não vale a pena o sucesso subir à cabeça. Muita confiança é infantil"

Eunice Muñoz não precisa de ser apresentada. São já largas as décadas que passou em frente ao público ou no plano frontal das câmaras que a levam até ele. Na entrevista para o Vozes ao Minuto, deu o veredito de alguém que sempre recolheu a unanimidade de um país inteiro: o de uma atriz exemplar.

"Não vale a pena o sucesso subir à cabeça. Muita confiança é infantil"
Notícias ao Minuto

28/03/17 por João Oliveira e Marina Gonçalves

Cultura Eunice Muñoz

Aos cinco anos, iniciou um caminho que ainda hoje continua a trilhar. Já lá vão 88 dos quais pelo menos 75 foram profissionalmente passados com os pés em cima de um palco. Hoje em dia, pesa-lhe na voz a longa experiência em dar vida a quem não existe para lá da ficção.

Continua a somar anos de carreira e vai regressar aos palcos já no verão com a peça ‘Rei Lear’, de William Shakespeare, com a direção do encenador Bruno Bravo.

Na redação do Notícias ao Minuto, a sua chegada faz levantar os presentes na mesa. Sinal de respeito perante um dos colossos da arte da representação nacional.

A maioria acha que pouco tem para aprender e que já só lhe resta ensinar quem ambiciona uma carreira igual, mas Eunice diz o contrário: “Esta é uma profissão riquíssima, em que há sempre muito por aprender, e por isso é que é tão difícil”. O futuro da representação, as necessidades de uma arte aparentemente caída no esquecimento ou a construção de um legado foram alguns dos temas da entrevista de Eunice Muñoz ao Vozes ao Minuto.

Estamos hoje perante uma das mais experientes atrizes do país que, quando era mais nova, sentia uma paixão pela medicina. Foi o ambiente artístico que a fez enveredar pela representação? Como e quando é que percebeu que o teatro era o seu caminho?

Não sei. Coisas do destino. O facto de ter nascido num ambiente artístico contribuiu para isso e muito. Era um pai e uma mãe que tinham quatro filhas e um filho e a vida deles era representar nas sociedades de recreio. A minha avó era uma pessoa que sempre me impressionou muito como atriz. Era muito impressionante vê-la. Eu nunca soube o que era outra coisa. Comecei com cinco anos na companhia dos meus pais. O meu avô nunca quis vir para Lisboa. Na época, ele achava que ele, a mulher e quatro filhas virem para a cidade era uma coisa do diabo. E portanto nunca quis, nunca se aproximou sequer. A mãe casou-se depois com um homem que era do circo. Ele acabou por representar também. Tinha muito pouco jeito. A mãe tinha vocação, mas o pai não. Mas tínhamos de ganhar a vida. Depois dos sete anos vim para Lisboa.

Estreou-se profissionalmente em 1941, na peça Vendaval. Ainda se lembra de como se sentiu nessa altura ao pisar o palco?

Sim. Só fui para o Dona Maria com 13 anos. Impressionou-me muito, certamente, por causa da importância que aquele teatro tinha. Era o primeiro teatro do país. Isso era um peso enorme e foi isso que me impressionou quando subiu aquele pano gigantesco, e eu que estava habituada a coisas modestas.

A dada altura, em 1952, decidiu abandonar o teatro. O que a fez deixar os palcos nessa altura?

O cansaço. Já tinha muito tempo de teatro.

E o que a fez regressar aos 27 anos?

Acabei por, finalmente, levar a sério uma profissão que até aí eu fazia mas não era com paixão, de modo nenhum. A partir daí sim.

Fui sempre muito persistente nas minhas decisões. Tive muita sorte, não me posso considerar, de modo nenhum, uma pessoa infelizComo descreve a tão falada magia do teatro?

Não sei definir a magia. É muito relativo porque para mim, que comecei em criança, não chega a dar assim essa definição. Acho que a vocação estava cá e, apesar de tudo, estes anos trouxeram-me coisas muito boas. Conheci gente que não tinha nada a ver com o teatro e isso foi muito bom, conheci o meu segundo marido, pai dos meus quatro filhos, o que também foi muito bom. Através dele eu tive uma vida muito mais tranquila. Tinha uma filha do meu primeiro casamento que foi sempre tratada pelo meu marido como uma filha, como os outros, ele nunca fez diferença. O teatro passou a ser definitivamente importante na minha vida. E por aí fora fui tentando melhorar sempre o meu trabalho. É uma coisa que se deve fazer ao longo de toda a vida.

Havia alguma obra literária ou algum filme que gostasse particularmente de representar?

Não. De todas as peças que fiz, só uma delas foi escolhida por mim. As outras foram sempre propostas pelo encenador do espetáculo e do representante, por exemplo, do autor.

E algum colega com quem mais prezasse contracenar?

Tive um colega que infelizmente que já partiu. Foi dos atores que mais me emocionaram e me deram uma réplica extraordinária, chamava-se José de Castro. Um ator extraordinário. Há outro também com quem eu tenho uma relação de trabalho muito rica que é o João Perry.

Sente que os atores mais velhos estão esquecidos e só são recordados quando morrem?

Já foi pior. Agora estamos melhor, apesar de tudo. Depende de tanta coisa mas, acima de tudo, de quem está à frente da cultura.

Hoje em dia raramente os jovens atores da televisão não se prepararam para fazer teatro. E isso enche-me de esperançaComo vê os atores desta nova geração? Acha que essa paixão pela profissão do teatro ainda é transparente?

Vejo com muita satisfação o facto de uma grande parte dos jovens atores da televisão, por exemplo, querer fazer teatro. E isso é muito bom sinal. Hoje em dia raramente os jovens atores da televisão não se prepararam para fazer teatro. E isso enche-me de esperança.

Considera que a representação nacional ficará bem entregue?

Acho que sim, desde que eles tenham talento. E há muitos jovens com talento.

Houve alguma obra que tivesse mudado a sua vida?

Não. Eu fui sempre muito persistente nas minhas decisões. Tive muita sorte, não me posso considerar, de modo nenhum, uma pessoa infeliz. Tive uma carreira muito boa, até agora, tive oportunidades que penso que aproveitei, tive e tenho grandes amizades. Infelizmente, e dada a minha idade, muitos já foram à frente. 

Pede sempre a Deus que a proteja antes de entrar em palco. Houve alguma vez que essa ajuda tivesse falhado?

E persigno-me também. Nem sempre se está bem. Não se pode chamar falhar, também. Mais brilhante, menos brilhante. Há dias em que se está mais vocacionado, outros menos, e tem de se fazer um maior esforço. Isso acontece.

A interpretação de uma personagem é sempre qualquer coisa muito angustiosa para mim, muito difícil, trabalhosa. É capaz de ser um ato de vaidadeÉ uma pessoa muito acarinhada pelo público. Como é que se consegue esta unanimidade?

Não sei, é difícil dar a minha opinião. São muitos anos para começar. Muitos anos a fazer um trabalho em que o público entende e intui que eu tenha dado tudo o que posso. A interpretação de uma personagem é sempre qualquer coisa muito angustiosa para mim, muito difícil, trabalhosa. É capaz de ser um ato de vaidade porque no fundo eu quero o melhor possível. Acho sempre que ainda não está. E isso é capaz de ser uma vaidade.

Se fosse convidada para se sentar à mesa com o ministro da Cultura, o que é que lhe dizia?

A primeira coisa, e não nos podemos esquecer disso, é que a Cultura - o que tem materialmente - é tão pouco que é sempre muito difícil estar-se naquele lugar [de ministro]. Apesar de tudo, há vários grupos e bons, muito interessantes, espalhados pelo país que de vez em quando vêm cá mostrar o seu trabalho. É necessário e fundamental que a Cultura tenha maiores possibilidades materiais para poder funcionar. Eu compreendo que assim é muito difícil. Os subsídios são pequenos. Toda a gente se queixa e com toda a razão. Mas, efetivamente, não há. Vamos ver se o dinheiro começa a crescer para nós.

Não vale a pena subir-nos o sucesso à cabeça porque o nosso trabalho é tão exposto. Qualquer tipo de muita confiança acho que é uma coisa quase infantil

Quais são as maiores lições que aprendeu ao longo dos 75 anos de carreira?

Uma das lições é que não vale a pena subir-nos o sucesso à cabeça porque o nosso trabalho é tão exposto. De repente, acontece-nos qualquer coisa como o que me está acontecer a mim. A minha voz fica muito diminuída, uma capacidade menor. Também pode ser um acidente que nos proíbe de andar ou de mexer. Qualquer tipo de vaidade e de muita confiança acho que é uma coisa quase infantil.

Aos 82 anos disse que a sua memória estava muito fraca. Sente que, com o passar dos anos, vai-se tornando mais difícil decorar os textos ou já é algo automático?

Eu tenho um ponto sempre. A partir de certa altura sim, não tenho memória que chegue para papéis muito grandes.

Além da queda em 2012 no Teatro D. Maria II, foi também submetida a intervenções médicas, mas nada a fez desistir do teatro. Há alguma coisa que fizesse com que isso acontecesse?

Não porque a paixão que eu tenho pelo teatro é verdadeira. Não podia desistir e continuo a lutar. Tenho um projeto já para o verão deste ano, é o 'Rei Lear' de [William] Shakespeare.

Sou uma mulher de esperança e acho que o país já está a melhorar e vai continuar a melhorarComo é que assistiu ao encerramento do teatro da Cornucópia? Acha que o teatro tem os dias contados?

Não. Eu não acredito nunca que o teatro tenha os dias contados. Sou daqueles que pensam que o teatro é eterno e que não vai acabar. Não pode.

As pessoas hoje vão menos ao teatro?

Acho que as pessoas estão a ir ao teatro. Se for ao teatro, não vai encontrar o teatro vazio. Se for ao Nacional [São Carlos], não está vazio. Se for ao Experimental de Dona Maria, também não está vazio. Isso foi uma ideia que se criou e que tem de se contrariar, porque não é assim.

Como é que olha para a sociedade dos dias de hoje? Com esperança ou sem ela?

Sou uma mulher de esperança e acho que o país já está a melhorar e vai continuar a melhorar.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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