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"Não entrar em populismos distingue JS das outras juventudes partidárias"

Ivan Gonçalves, líder da Juventude socialista, é o entrevistado desta semana no Notícias ao Minuto.

"Não entrar em populismos distingue JS das outras juventudes partidárias"
Notícias ao Minuto

21/02/17 por Inês André de Figueiredo

Política Ivan Gonçalves

Ivan Gonçalves tem 29 anos, é deputado do Partido Socialista eleito pelo círculo de Setúbal e foi recentemente eleito para Secretário-Geral da Juventude Socialista, sucedendo a João Torres. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o líder da juventude do Partido Socialista garante que o seu mandato não será de rutura com o anterior. Ivan Gonçalves fala ainda sobre as ideias da JS, sobre o Governo, a solução governativa encontrada e a relação da Direita com a atual governação.

Como é que começou a interessar-se por política e porquê a Juventude Socialista?

Desde pequeno que me lembro de gostar de política, apesar de em determinada altura da minha vida ter escolhido estudar mais no ramo das ciências exatas. Mas sempre gostei de política e história. A Juventude Socialista... Eu não tenho ninguém na família que seja militante do Partido Socialista, mas sempre houve alguma simpatia pelo PS e à medida que fui crescendo fui-me identificando mais com o PS e compreendendo melhor como funcionam os partidos políticos e qual a ideologia de cada um. Sempre me identifiquei mais com uma ideologia de Esquerda do que da Direita, porque a Esquerda é intrinsecamente mais justa.

Na sua opinião, o que distingue a JS das outras juventudes partidárias?

Não estou muito à vontade para falar sobre as outras juventudes partidárias porque gosto pouco de ser juiz dos outros. Mas acho que a JS tem várias vertentes, uma delas é que temos sido capazes de formar bons quadros que vão alimentar o PS. Aliás, se olharmos para o PS de hoje, percebemos que os melhores quadros do PS vieram da JS e isso é sinal de que o trabalho que se faz tem mérito e qualidade. Isto sem entrar em populismos, o que nos distingue de outras juventudes partidárias. Tentamos não entrar por essa via, sabemos que hoje para fazer política e para entrar no espaço mediático é preciso ter algumas atitudes mais folclóricas, mas tentamos não o fazer e marcar a nossa ação com uma postura mais séria e sustentada. A forma estruturada e organizada com que trabalhamos traduz-se na forma como nós fazemos as nossas propostas. Acho que é uma mais valia que temos em relação às outras juventudes partidárias, pelo menos aquelas que têm uma postura mais folclórica. Qualquer militante tem orgulho em pertencer à JS porque percebe que a JS é reconhecida por fugir do estereótipo da 'jota' que é pouco consequente e sustentada naquilo que diz.

Os melhores quadros do PS vieram da JS e isso é sinal de que o trabalho que se faz tem mérito e qualidadeA última contagem de militantes jovens colocava a JS em primeiro lugar, tendo destronado a JSD. Como avalia estes resultados e como é possível superá-los?

Acho que isso faz parte daquele trabalho que eu vinha a dizer. Nós sermos a maior juventude partidária é importante porque é demonstrativo do nosso trabalho, mas não é um fim em si. Não temos como objetivo superar esse número apenas por si só, o que queremos é continuar a fazer o nosso trabalho, e isso faz com que consigamos crescer e ter cada vez mais militantes e, fundamentalmente, cada vez mais pessoas interessadas e que participem em política. Pôr os jovens a participar politicamente, independentemente do partido, é mais importante do que conseguirmos fazê-lo puxando apenas para a JS. É verdade que vamos fazendo esse esforço de convencer os mais jovens da bondade dos nossos argumentos e este Governo tem ajudado muito porque sentimos que os portugueses estão confiantes neste trabalho e isso traduz-se nos mais jovens. Sentimos um renovado entusiasmo por pertencer à JS e ao PS, mas é dessa forma que pretendemos manter o trabalho.

A entrada de jovens na política é muitas vezes vista como uma forma de estes quererem alcançar objetivos pessoais. Como se luta contra este estereótipo?

Acho que muda com um bocadinho mais de participação política e de maior conhecimento de causa. É verdade que há militantes da JS que fazem política a tempo inteiro, eu sou um dos três deputados da JS, mas a JS tem 30 mil militantes e qualquer pessoa que se filie numa juventude partidária ou num partido a achar que vai fazer disso vida no dia a seguir fica rapidamente desiludido. Sou militante desde os 20 anos, ou seja há nove anos, e esta é a primeira vez desde que sou deputado na Assembleia da República que tive oportunidade de fazer política a tempo inteiro. Antes disso houve muito trabalho que foi sendo feito porque gostava de fazer política, nunca por achar que era para atingir o objetivo A ou B. Em todas as profissões há mais pessoas competentes e menos competentes, e pessoas bem intencionadas e outras menos bem intencionadas. Agora, esse estereótipo de que os políticos são todos iguais e mal intencionados criou-se como justificação numa série de males que a sociedade tem. Acho que isso acaba por nos prejudicar porque acabamos por desincentivar as pessoas de participar politicamente e se ninguém participar, não sei como vamos governar a sociedade.

Qualquer pessoa que se filie numa juventude partidária ou num partido a achar que vai fazer disso vida no dia a seguir fica rapidamente desiludidoMuitos jovens acabam por perder o interesse e sair das juventudes partidárias ainda antes de alcançarem os partidos. Consegue perceber a razão?

Não acho que os jovens percam o interesse, porque mesmo a nível local há militantes, alguns preocupam-se mais com as questões locais e outros preocupam-se mais com debater questões nacionais. Tem mais a ver com o perfil de cada pessoa.  Um jovem, para poder participar politicamente, tem de deixar de fazer outras coisas, e muitas vezes existe algum sacrifício pessoal ou até financeiro. É preciso disponibilidade e vontade. Quando, por exemplo, se casa e tem filhos ou começa a trabalhar, às vezes essas mudanças fazem alterar a vida das pessoas, mas não temos um problema de desistência, é normal.

Ao olhar para a política nacional, com casos como António José Seguro ou Passos Coelho, podemos concluir que a juventude partidária é imprescindível para chegar à liderança de um partido?

Não acho que seja imprescindível. Tivemos um momento em que os políticos que já faziam política antes do 25 de Abril não participaram em juventudes partidárias porque não existiam. O facto de uma pessoa entrar numa juventude partidária ou num partido político faz com que aprenda muito, eu aprendi muito ao longo destes anos. É normal que vá direcionando o seu percurso. Tal como referi há pouco, a maioria dos quadros bem preparados do PS vem da JS, passou pela JS, mas não é um exclusivo, porque o partido também tem capacidade de atrair pessoas que fizeram outro percurso.

Mas a presença numa juventude partidária é uma ‘porta aberta’ para chegar ao partido e à política nacional.

Sim. Mas é uma porta aberta porque as pessoas, muitas vezes, quando fazem política na JS, acabam por se filiar também no PS. Foi isso que aconteceu comigo, portanto fiz esse percurso. 

Chegou há pouco tempo a líder da JS e é sucessor de João Torres. O seu mandato será de continuidade ou de rutura com o anterior?

Durante os quatro anos anos em que o João Torres foi secretário-geral da JS, eu fiz parte da direção e acho que o João marcou de forma decisiva a forma de trabalhar da JS. Portanto, não será de certeza marcado por uma rutura. O que existe é uma necessidade normal de novos protagonistas se afirmarem. Nas juventudes partidárias há uma dinâmica, que não deixa de ser interessante, que é aos 30 anos sair e haver uma renovação automática, que nos partidos muitas vezes não existe. Com este mecanismo há sempre uma saída dos militantes mais velhos, eu próprio sairei no próximo congresso, mas a nossa perspetiva é de continuidade. A JS está muito bem preparada e tem sido muito competente a desenvolver a sua ação, mas é óbvio que vamos ter de nos reinventar, porque em política, para mantermos qualidade e nos superarmos, temos sempre de fazer melhor.

Quais os seus principais objetivos para este mandato?

Temos objetivos que queremos concretizar durante estes dois anos, mas é difícil especificar aquilo que queremos que esteja concretizado quando o mandato acabar. Há alguns temas que vamos tentando pôr na agenda mediática e que gostávamos de ver transformados na sociedade portuguesa. Se é no horizonte de dois, três ou quatro anos, não sei se é o que nos deve preocupar mais. A JS serve para ir mudando a forma como o PS vai vendo alguns temas.

É óbvio que vamos ter de nos reinventar, porque em política, para mantermos qualidade e nos superarmos, temos sempre de fazer melhorMas temos duas grandes preocupações sobre a forma como a nossa sociedade se organiza, que se prendem com a forma como os jovens não têm acesso a um trabalho digno, e isso vê-se em quase todas as profissões, e sobre como a precariedade e os baixos salários se tornaram normais. Cabe-nos alertar as pessoas da nossa idade de que isso não é normal, não é normal ter um contrato que amanhã podemos não ter ou passar por sucessivos estágios para eventualmente um dia termos um contrato sem termo, isso não é a normalidade.

Apresentámos há quinze dias uma proposta para criação de um selo de garantia para as empresas sem relações de trabalho precárias. É apenas uma coisa simbólica mas estamos preocupados com a forma como os precários do Estado vão ser incluídos na Administração Pública.

Ao fingir que não existe trabalho sexual em Portugal, o Estado está a deixar que essas pessoas estejam em situações de maior vulnerabilidadeDepois, é a questão do acesso à educação. Portugal tem, apesar de tudo, valores de propinas dos mais altos da Europa, mesmo a nível bruto, não é a nível relativo. Menos normal ainda é termos mestrados e não termos tetos máximos no ensino público para os mestrados e doutoramentos. Acho que o Governo já podia ter sido mais lesto a resolver esta situação e colocar um limite nas graduações de segundo e terceiro ciclo. A propina máxima de primeiro ciclo foi congelada no nosso país nos últimos dois anos e acho que está na altura de começarmos a pensar em reduzir este valor. Sei que não é fácil acabar com as propinas nos próximos anos no nosso país. A JS acha que em Portugal não deviam ser cobradas propinas no ensino superior, mas compreendemos que isso não possa ser feito no curto prazo. 

Uma questão que cruza estas duas áreas e que nos preocupa é a forma como em Portugal o emprego científico é altamente precário e a forma como o Estado e as instituições utilizam muitas vezes recursos humanos altamente qualificados em relações de trabalho que são muito precárias e pouco dignificantes.

A regulamentação da prostituição é um dos pontos mais falados do seu projeto. Como pretende contribuir para esta questão?

As questões ditas fraturantes são das questões mais faladas porque são mais mediáticas. A importância que nós damos a questões como o trabalho, a educação e a redistribuição da riqueza é maior do que aquela que damos a estas questões. 

Aquilo que defendemos, já há alguns anos, é que, não sendo o trabalho sexual proibido no nosso país, o Estado deve garantir que as pessoas que optem, numa determinada fase da sua vida, por exercer esse tipo de atividade, tenham o mínimo de proteção social e laboral, porque muitas vezes estamos a falar de questões laborais perfeitamente estabelecidas.

Ao fingir que não existe trabalho sexual em Portugal, o Estado está a deixar que essas pessoas estejam em situações de maior vulnerabilidade do que aquelas que à partida já estão sujeitas quando escolhem exercer esse tipo de profissão.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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