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"Na família só deve haver um político. Não passa de irmãos para irmãos"

Garante nunca ter pensado seguir os passos do irmão Jorge Sampaio, mas que é o seu apoio quando precisa. Sobre o atual Governo, Daniel Sampaio destaca a confiança no ministro da Saúde, acredita “totalmente” no primeiro-ministro e confessa que “fazia falta ao país” uma pessoa como Marcelo Rebelo de Sousa. Sobre Cavaco, as palavras escasseiam.

"Na família só deve haver um político. Não passa de irmãos para irmãos"
Notícias ao Minuto

04/01/17 por Inês Esparteiro Araújo

País Daniel Sampaio

Nesta segunda parte da entrevista que concede no âmbito do Vozes ao Minuto, Daniel Sampaio garante que sempre olhou para o irmão “como um modelo a seguir”. Os sete anos de diferença entre os dois são um trampolim para que tal aconteça.

O psiquiatra mostra-se ainda confiante de que a atual solução política é a ideal para Portugal neste momento.

Olhemos para o Serviço Nacional de Saúde. Mude-se de Governo ou não, este continua a ser alvo de críticas.

Só falo da psiquiatria. O grande problema da psiquiatria é o acesso. Portanto, não é fácil no SNS aceder rapidamente a uma consulta de psiquiatria e penso que isto é um problema geral do Serviço Nacional de Saúde. Precisamos de ter um acesso mais fácil. É preciso ser mais fácil marcar uma consulta de psiquiatria e penso que para as outras especialidades é a mesma coisa. Acho que os técnicos são bons e quando as pessoas chegam, de uma forma geral, os resultados também são positivos.

Essa dificuldade no acesso leva as pessoas a desistirem.

Sim, em psiquiatria acontece muito isso.

As urgências estão muitas vezes com excesso de pessoas porque os centros de saúde não dão a resposta que deveriam darConcorda que o caos nas urgências é frequente?

Não, não concordo. Não acho que seja um caos. Acho que as urgências estão muitas vezes com excesso de pessoas porque os centros de saúde não dão a resposta que deveriam dar. Acharia prioritário abrir o centro de saúde mais horas durante o dia e a noite, para que as pessoas pudessem ser atendidas nos centros de saúde, porque muitas pessoas vão às urgências porque não têm alternativa.

Não quero personalizar, mas tenho muita confiança no atual ministro da Saúde

Façamos então uma comparação do atual ministro da Saúde com o anterior.

Só vou falar do atual [risos]. Não quero personalizar, mas tenho muita confiança no atual ministro da Saúde. Acho que é médico e isso facilita porque ele percebe bem os problemas dos médicos, tem um secretário de Estado da Saúde que também é médico, um adjunto que também é médico e isso à partida é uma coisa boa. E depois é uma pessoa com muita experiência de gestão hospitalar, de gestão do serviço de saúde e por isso tenho esperança de que ele consiga robustecer o Serviço Nacional de Saúde.

E qual a opinião que tem sobre o ministro anterior?

Sobre o anterior tive a ocasião de o conhecer pessoalmente, acho que fez um grande esforço no sentido de equilibrar o Serviço Nacional de Saúde, mas talvez faltasse, pelo menos ao nível da psiquiatria, que é o que eu conheço melhor, medidas como a criação de mais serviços da área, a formação dos médicos de clínica geral em psiquiatria… Faltaram algumas valências importantes da formação.

Sente que é com governos de esquerda a saúde tem mais peso?

Depende muito das circunstâncias, mas… Acho que o Partido Socialista foi o partido que estava no governo quando se criou o Serviço Nacional de Saúde e portanto acho que isso é uma bandeira do Partido Socialista que é importante e é útil.

Acredita nesta solução governativa?

Completamente. Acredito totalmente no primeiro-ministro, que conheço há muitos anos e acredito que esta foi uma boa solução, com o apoio parlamentar, e acho que tem havido um esforço para reverter a situação dos cortes que as pessoas tiveram.

Mesmo com a pressão quem vem de fora?

Mas no fundo os últimos sinais são positivos. A economia cresceu, o Orçamento passou em Bruxelas… Portanto, neste momento, acho que vamos ter um ano positivo.

Confiante DE que esta será uma solução que se vai aguentar?

Confiante. Também com o apoio muito importante do Presidente da República.

Falemos então sobre o chefe de Estado. Antes de Cavaco entrar em cena, os portugueses tiveram o seu irmão a comandar o país. Quando ele assumiu a Presidência, era possível separar-se dos laços familiares e, caso tivesse crÍticas a dirigir-lhe, conseguia fazê-lo?

Sim, dei sempre a minha opinião. Sempre.

O meu irmão tem uma grande capacidade de ouvir, portanto ouviu sempre a minha opinião

E ele ouvia-o?

Sim, penso que ouvia. Não quer dizer que seguisse o que eu dizia, mas o meu irmão tem uma grande capacidade de ouvir, portanto ouviu sempre a minha opinião.

Tem alguma tradição especial que mantenha com o seu irmão?

Sim, tomamos o pequeno-almoço todos os sábados. Às vezes estamos fora, mas de uma forma geral… Temos um grupo ao sábado de manhã que inclui o Dr. Francisco Jorge, o diretor-geral de saúde, o Dr. Vera Jardim, o professor Emílio Salgueiro, que é pedopsiquiatra. Portanto, somos um grupo que se reúne no hotel em frente à nossa casa, porque eu moro na mesma rua do meu irmão. Os outros também são vizinhos.

Alguma vez sentiu que ele precisava de um conselho seu?

Não… Talvez na altura em que ele precisou mais do meu conselho foi há muitos anos, quando decidiu candidatar-se à presidência da Câmara de Lisboa e isso foi uma decisão muito surpreendente e que ninguém estava a espera. Aí pediu-me opinião, eu disse que sim e talvez aí ele necessitasse um bocadinho do apoio familiar. Mas, de resto, foi uma consequência natural da vida dele. Da Câmara para a Presidência da República. Do primeiro mandato para o segundo. Pelos cargos internacionais que teve, foi uma consequência lógica.

Nunca pensou em seguir os mesmos passos?

Não. Acho que na família só deve haver um político. Acho que o político não passa de pais para filhos, de irmãos para irmãos. Acho que é uma vocação, acho que ele tinha vocação para isso desde muito novo e eu tive mais vocação para ser médico e para as doenças.

São sete anos de diferença que vos separam. Sempre olhou para ele como um modelo a seguir?

Sim, porque repare: quando eu estava no início do secundário, ele estava na faculdade, quando eu entrei na faculdade, ele era advogado. Portanto a diferença é muito grande. No momento atual não tem grande diferença, mas quando eu tinha 13 e ele 20 fazia uma grande diferença.

A seguir ao seu irmão Jorge Sampaio, surgiu Cavaco Silva como Presidente. Como acha que correu o cargo a Cavaco?

Acho que era uma pessoa um pouco afastada dos outros. Não tinha um contacto muito próximo com a população e acho que o Presidente precisa de ter um contacto muito próximo… E o contraste com o atual Presidente é muito grande, porque este é um presidente muito próximo das pessoas e isso é muito positivo.

Então, comparando, os dois são o oposto um do outro?

Nada têm a ver. Felizmente fomos para uma pessoa muito afetiva e próxima das pessoas e acho que isso é muito bom, faz muita falta ao país.

Com isso quer dizer que….Cavaco acabou por não corresponder às expetativas?

[Risos] É isso… Sabe que os psiquiatras têm tendência a dar muita importância à personalidade - não estou a falar de doença, estou a falar da maneira de ser - e  o professor Cavaco é uma pessoa um bocadinho fechada. É um bocadinho retraída no seu contacto e acho que isso se notou na Presidência.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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