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"Tenho de dar a perceber às pessoas que não sou um cantor de baile"

Pedro Mafama refletiu sobre a nova fase da sua carreira numa entrevista ao Fama ao Minuto.

"Tenho de dar a perceber às pessoas que não sou um cantor de baile"
Notícias ao Minuto

03/05/24 por Filipe Carmo

Fama Pedro Mafama

É seguro afirmar que não há em Portugal uma única pessoa que ainda não tenha ouvido o tema cujo refrão começa com a palavra "olarilólé". 'Preço Certo' foi lançado com o objetivo de ser o protagonista da banda sonora do último verão e, quase um ano depois, não há dúvidas de que o objetivo foi cumprido com sucesso.

Do autor, Pedro Mafama, espera-se agora muito. Parte daqueles que dançaram ao som da sua música nos últimos meses até aí não sabiam da existência do cantor, enquanto o público que já o conhecia precisou de se adaptar a esta nova versão.

É precisamente neste 'limbo' criativo que Pedro Mafama, numa nova entrevista ao Fama ao Minuto, confessa encontrar-se agora. O artista, de 32 anos, sabe que a sua carreira não voltará a ser a mesma, mas recusa passar a ser somente um cantor de música popular, ainda que tenha entendido que por esse caminho chegaria a uma audiência muito mais abrangente.

Acabado de lançar 'Estava No Abismo Mas Dei Um Passo Em Frente 2.0', uma reedição do seu segundo álbum, Pedro também prepara o concerto de dia 10 de maio, no Campo Pequeno. Pelo meio, procura que Emília, fruto da relação amorosa com a fadista Ana Moura, não sinta a sua falta, o que não foi fácil durante o verão passado, em que deu concertos por todo o país.

Acredito que 2023 tenha sido um ano muito especial, estou certo?

Sim, foi um ano de concretização de muitos anos de trabalho e de uma tentativa bem sucedida de juntar universos aparentemente distantes, que é um bocado o que sinto que faço. Conseguimos juntar públicos que habitualmente não se cruzam no mesmo sítio.

Tinha um público que o conhecia e tem agora outro, muito mais amplo, que passou a conhecê-lo depois do êxito do 'Preço Certo'. Acredita que houve uma viragem na sua carreira?

De certa forma é uma continuação. O objetivo sempre foi explorar e reinterpretar a música portuguesa. Sim, se calhar 'bateu numa tecla' maior, mais abrangente. As referências que usei desta vez estão mais presentes e tocam mais no modo de vida atual dos portugueses

Tive a perceção de que o momento em que me encontrava, de celebração da vida, de felicidade na minha família, rimava muito bem com a alegria do 'Preço Certo'Como é que surgiu esta ideia de gravar um tema ligado ao programa 'Preço Certo' e de ir até aos estúdios da RTP para gravar o videoclipe?

Eu comecei a apaixonar-me pela música de baile e iniciei uma pesquisa. Muita da música de baile, como nós sabemos, sai do 'Preço Certo', este é um programa que serve de palco para muita música que vai, depois, tocar nos bailes do país inteiro. Também tive sempre um fascínio por este programa, que já foi estudado por pessoas de fora que quiseram perceber o sucesso do franchise no nosso país, enquanto em Espanha e países com culturas semelhantes à nossa isso não resultou. Ao mesmo tempo, tive a perceção de que o momento em que me encontrava, de celebração da vida, de felicidade na minha família, rimava muito bem com a alegria do 'Preço Certo'. Sinto que fiz o que sempre fiz, que isto não é diferente de quando escrevia uma frase no Twitter para 'enervar' um certo segmento da população, de forma a obter uma reação. Não é diferente do videoclipe do 'Borboletas da Noite', em que decapitei o D. Sebastião. Sempre fiz ações de 'guerrilha', de marketing viral, conseguindo que algumas fossem mais virais do que outras. Este sempre foi o meu plano de ataque e desta vez resultou muito bem, tudo se alinhou.

Em menos de nada houve uma 'explosão' deste tema e todas pessoas no país passaram a conhecê-lo e a ouvi-lo de manhã à noite. Como é que reagiu a todo esse sucesso inesperado e repentino?

Foi muito bonito. A primeira vez que me senti uma estrela e que senti que o 'Preço Certo' era uma cena gigante foi em Alfama, durante os Santos Populares, onde passei muito tempo a acompanhar a marcha. Foi aí que me senti uma estrela pela primeira vez, que me senti mimado pelas pessoas. Depois vi esse sentimento a crescer ainda mais, um sentimento que começou em Alfama, que passou para a cidade inteira, depois para todo o país e por aí fora. Agora, sinto que é hora de me focar noutras coisas e o 'Preço Certo' terá sempre o seu lugar.

Sinto que algumas pessoas têm a expetativa de que o Pedro Mafama faça um novo 'Preço Certo', mas isso não irá acontecer. Nunca vou fazer o novo nada, nunca vou reproduzir uma coisa que já fiz 

Não deixa de ser curioso que um artista mais ligado a um outro tipo de música não tenha sentido qualquer preconceito por passar a ser conhecido por muitas pessoas como um artista de música popular...

Eu tento olhar para a vida dessa forma, sem olhar para trás e sempre ansioso pela próxima fase. Nunca olhei para nenhum género com qualquer desdém, muito menos para este, que tem coisas muito bonitas. Agora, também tenho de dar a perceber às pessoas que não sou um cantor de baile, sou um artista que fez música de baile e que agora vai partir para a próxima coisa. Sinto que algumas pessoas têm a expetativa de que o Pedro Mafama faça um novo 'Preço Certo', mas isso não irá acontecer. Nunca vou fazer o novo nada, nunca vou reproduzir uma coisa que já fiz. Quando isso acontecer, a minha carreira irá tornar-se desinteressante.

E como lida agora com estes dois públicos completamente diferentes?

Sei que para algumas pessoas que já conheciam o meu trabalho, esta nova fase é menos interessante, como sei que a fase para onde irei a seguir poderá ser menos interessante - e até horrível - para as pessoas que me conheceram agora. Enquanto isso estiver a acontecer, para mim está tudo bem.

Nunca ponderou, ao longo dos últimos meses, deixar o registo pop, com que começou a sua carreira, para se dedicar a este registo que o catapultou?

Não, de todo. Não sinto que tenha de reproduzir a pessoa que sou agora porque tive sucesso, como nunca irei reproduzir a pessoa que era antes para voltar a um certo conforto do público que tinha antes.

Então podemos concluir que sente que há um Pedro Mafama antes do 'Preço Certo' e outro depois deste tema e que o futuro passa por uma junção dessas duas realidades?

Sim, provavelmente. Não digo que será um consenso entre os dois mundos, porque isso seria uma coisa muito planeada e não muito interessante, mas sei que este é o Mafama 2.0 e amanhã estaremos no 3.0. Quem tiver um bocadinho de sensibilidade para entender o percurso e o que estou a tentar fazer, estará cá. Quem não estiver, um dia irá perceber.

Quero continuar a fazer, a elevar a fasquia do que se faz em Portugal, elevar a fasquia do que eu façoNa reedição do álbum 'Estava No Abismo Mas Dei Um Passo Em Frente' acrescentou o "2.0". Pretendia vincar a ideia de que esta é, de facto, uma nova fase?

Sim, é uma fase de transição. Este ainda não é o meu próximo capítulo, porque o 'Sem Ti' é uma música de transição e é um 'filho' deste álbum, ainda tem uma certa celebração dos temas que preenchem o álbum. Tem um aspeto mais eletrónico e baseado em sintetizadores, por isso já tem as coisas que me estão a entusiasmar.

Ainda sobre o 'Sem Ti', nesse videoclipe há uma nova aposta em diversas simbologias, com vários significados. Continua a ser importante para si lançar videoclipes com mensagens fortes e produções bem sustentadas?

Sim, muito. Para mim, não é suficiente estar só a amealhar, a fazer os meus concertos e a usufruir do sucesso do 'Preço Certo'. O que me interessa mesmo é fazer os melhores videoclipes que já fiz, o melhor concerto que já fiz... É isto que eu quero continuar a fazer, a elevar a fasquia do que se faz em Portugal, elevar a fasquia do que eu faço.

E que fase é esta em que se encontra agora? Já está a trabalhar no próximo álbum ou está a descansar para um verão de muitos concertos?

Estou a preparar o concerto no Sagres Campo Pequeno, mas, acima de tudo, a preparar música nova. Quero subir a parada e partir para uma nova fase. Quero ainda mais do que o Campo Pequeno. Este será um marco na minha carreira, mas o objetivo é progredir, sair de Portugal e continuar a procurar elementos musicais novos. É uma fase de bastante trabalho.

E a nível pessoal, que fase é esta?

Estou a esforçar-me para estar cada vez mais focado e a pensar no meu trabalho como se fosse uma empresa, o que me leva a ter de estar mais atento e desperto, com os pés assentes na terra. Também tenho trabalhado o meu físico, a tentar ir ao ginásio e a estar bem.

A verdade é que várias pessoas têm destacado esta sua perda de peso. Como é que isso aconteceu?

Foi a digressão que me fez perder peso, foi aí que percebi que tinha de emagrecer e de estar em forma. Esta fase em que estive um pouco mais pesado não é aquela em que me revejo, foi uma coisa que aconteceu a seguir a ter a minha filha, porque fiquei um pouco mais sedentário e a preparar um álbum. Fui surpreendido por mim mesmo, porque nunca pensei que ia ver-me ao espelho e pensar 'estou mesmo gordinho'. Quero ser um artista pop, com metas e objetivos, e para isso é preciso estar em forma e com bom aspeto durante muitos anos. Em digressão, é curioso, é muito fácil ganhar peso...

É um período em que se come mais 'porcaria'?

Sim, há sempre um camarim cheio de chocolates e batatas fritas. Também passamos por vários restaurantes em diferentes zonas do país, sendo que cada um tem uma especialidade que é 'obrigatório' provar... Foi difícil, mas ficar só pelos grelhados e pela salada de tomate ajudou bastante.

Estou a tentar fazer um bom equilíbrio e a dar aquilo que quero dar ao país e ao mundo, mas também o que quero dar à minha famíliaDisse anteriormente que tem uma "memória turva" do verão passado. É uma consequência da intensidade deste período?

Sim, apercebo-me disso quando me pedem para recordar histórias e momentos da digressão. Ainda assim, lembro-me de coisas curiosas e de cumprimentar muitas pessoas, de me deitar numa cultura e de acordar noutra completamente diferente. Foi muito bom abraçar toda a gente e sentir o que as pessoas sentiram com a minha música.

A 'explosão' da sua música nas rádios e na televisão coincidiu também com os primeiros meses da sua filha. Sentiu alguma dificuldade em acompanhar esta fase como gostaria?

Sim, ao tomar a decisão de dar tudo pela minha arte houve horas que sacrifiquei. Sinto que estou aqui a tentar fazer um bom equilíbrio e a dar aquilo que quero dar ao país e ao mundo, mas também o que quero dar à minha família.

Qual foi a reação da sua companheira, a também cantora Ana Moura, ao longo de todo este processo recente?

Como em qualquer casa, as pessoas partilham as coisas do seu trabalho e o processo. Aqui não foi diferente, estamos sempre a mostrar música nova um ao outro, estamos sempre a viver as coisas juntos. Toda a casa acompanhou o início e também eles celebraram.

A dada altura, também partilhou um vídeo da sua filha a dançar o 'Preço Certo', o que aconteceu com milhares de crianças deste país. A Emília é a sua maior fã?

Quando ainda pensava se o tema 'Sem Ti' estaria terminado ou não, metia-o a dar no carro e ela deu-me uma segurança ao bater palmas e a pedir para tocar novamente. É incrível.

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