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'Museu Salazar?' "Riscos de conversão num santuário são muito grandes"

António Araújo, licenciado e mestre em Direito e doutorado em História Contemporânea, é o entrevistado desta quarta-feira do Vozes ao Minuto.

'Museu Salazar?' "Riscos de conversão num santuário são muito grandes"
Notícias ao Minuto

05/04/23 por Teresa Banha

País 25 de Abril

A polémica em torno do chamado Centro Interpretativo do Estado Novo não é nova, mas, com o aproximar da inauguração do projeto, o tema voltou a estar em cima da mesa. 

O centro, que deverá ser instalado na Escola-Cantina Salazar, na freguesia de Vimeiro, em Santa Comba Dão, onde António de Oliveira Salazar nasceu, deverá arrancar com uma primeira fase já em maio. 

Apesar de o autarca, Leonel Gouveia, rejeitar a ideia de que haverá uma santificação do ditador português, quase 18 mil pessoas assinaram, desde 2019, uma petição contra o espaço, incluindo o atual ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, que na altura não estava no cargo.

Agora questionado sobre o tema pelo Notícias ao Minuto, o Ministério da Cultura enfatiza que é "estranho à criação deste centro interpretativo", alertando que com "a criação de um espaço-memória na aldeia natal do ditador corre-se o risco de se estar a promover um destino de peregrinação e de culto de personalidade, em lugar de se promover a compreensão mais vasta de um período negro da nossa história, que representou atraso, pobreza, subdesenvolvimento e opressão para a maioria dos portugueses.”

Por forma a perceber os riscos e consequências desta criação, conhecida como 'Museu Salazar', o Notícias ao Minuto falou com o historiador António Araújo. O também diretor de Publicações e membro da Comissão Executiva e do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos falou ainda, à margem das comemorações da Revolução dos Cravos, sobre as promessas de Abril que ficaram por cumprir - e que, segundo explica, "naturalmente", sempre estarão.

Ainda há uma Direita salazarista que está um bocadinho orfã e que precisa muito de ter um lugar de ancoragem. Se este museu vai servir para isso, é um péssimo serviço. Os riscos de apropriação e conversão num santuário são muito grandes 

A autarquia de Santa Comba Dão defende que jamais teve a intenção de criar um museu dedicado a Salazar, mas que a criação do Centro Interpretativo do Estado Novo é "absolutamente necessária" para realçar as "virtudes da democracia". Concorda que é imprescindível para a memória política de Portugal que haja um centro deste tipo na terra natal de Salazar?

Não acho que seja imprescindível, de modo nenhum. Há uns anos colocou-se a possibilidade de fazer um centro interpretativo e havia pessoas da Universidade de Coimbra que estavam ligadas ao projeto - o professor Luís Reis Torgal, por exemplo. Eram pessoas que davam plena garantia de que iriam fazer uma coisa séria e rigorosa que era um centro de estudos históricos e um centro interpretativo.

Também compreendo que do ponto de vista turístico, a câmara tenha interesse em utilizar um dos seus sítios mais conhecidos. Estabelecer um centro de estudos sobre o Estado Novo pode ser positivo - mas se o interesse da autarquia for chamar turistas e promover uma espécie de turismo salazarista, acho que é negativo. Não conheço os contornos do projeto, mas acho que vai ser muito difícil assegurar esse equilíbrio entre história e turismo.

Porquê?

Porque - até pelo sítio onde está inserido - o ‘museu’ poderá tornar-se um local de peregrinação para saudosistas. Acho que é muito interessante uma autarquia, seja qual for a cor política, interessar-se pela memória histórica das pessoas e não tenho nada contra [a eventualidade de] que a casa de Salazar seja preservada. Ainda recentemente houve um estudo da historiadora Rita Almeida de Carvalho e de Duncan Simpson sobre a biblioteca de Salazar - é pena, realmente, que parte do espólio particular de Salazar tenha sido perdido por vendas avulsas por parte da família.

Independentemente de um ou outro aspeto que seja mais memorabilia saudosista, poderia haver documentação, nomeadamente, da biblioteca, que teria sido do máximo interesse o Estado português ter preservado. Acho que os riscos de se tornar um local de peregrinação são muito grandes. É muito difícil levar para ali documentação - que se encontra na Torre do Tombo - e fazer um centro de estudos. Acho que vai acabar por se fazer uma coisa que é o pior: uma espécie de centro interpretativo que não quer parecer salazarista, mas que acaba por evocar a sua personalidade em termos nostálgicos.

Era importante haver um acervo?

Como é evidente. Em Coimbra, existe o Centro de Documentação 25 de Abril, que é excecional, devia ser mais acarinhado e estudado. E também em Lisboa deveria haver mais investigação sobre o 25 de Abril. Há também a questão da Hemeroteca de Lisboa, que está uma lástima - praticamente morta. É uma pena porque é bom que existam todos esses centros de investigação, e mesmo no interior do país deveria haver. O meu ponto de vista nunca é ideológico. Não é por ser de Salazar que não deveria haver. O meu ponto de vista é o risco de esse centro não ter qualidade e de o projeto de se tornar, ele sim, muito ideológico. Acho interessante a ideia de haver um centro de documentação sobre o Estado Novo - mas isso implicava um investimento que não estou a ver a câmara a desenvolver. É uma pena que não tenha havido um esforço para não dispersar o arquivo particular de Salazar.

A autarquia alega também a questão do desenvolvimento turístico.

A pessoa que vai fazer turismo vai pela curiosidade de ver o sítio onde nasceu Salazar. Vai por uma curiosidade um bocadinho nostálgica. Mas também não sou daqueles que corre a dizer que acha uma ideia extraordinariamente negativa. É claro que aquilo não vai ser nenhum centro educativo, nem um museu, até porque não há peças. Aquilo vai ser um pouco um local de evocação, porventura sem grande qualidade, se calhar com umas televisões e com uns mapas interativos e coisas do género.

Do ponto de vista da memória patrimonial é uma desgraça que as casas de Aristides de Sousa Mendes, mas também de Salazar, estejam a cair. Goste-se ou não, Salazar foi uma figura histórica

Não perder esse espólio podia até ser uma forma de, utilizando um cliché, a História não se repetir? 

Havia uma frase de Karl Marx que dizia que a História começa primeiro como tragédia, e depois como farsa. O meu risco aqui é que a História se repita como uma farsa. Que ali se faça uma coisa como uma farsa. Uma coisa com falta de qualidade, em que não sirva sequer o propósito de atrair turismo - exceto o dos saudosistas.

Ainda há uma Direita salazarista que está um bocadinho orfã - uma parte estará no Chega, e outra nem sequer no Chega está - e que precisa muito de ter um lugar de ancoragem. Se este museu vai servir para isso, é um péssimo serviço. Os riscos de apropriação e conversão num santuário são muito grandes e só seriam evitados com uma boa equipa técnica de apoio. Repito que não conheço o projeto, não quero ser injusto, mas o modo com tem sido conduzido ao longo dos anos levanta legítimas preocupações.

Com esta criação pode-se incorrer no aumento do chamado turismo negro?

Nem diria isso. Porque não me parece que se torne um ponto de atração para um estrangeiro ir. Pode sim ser um ponto a que vão pessoas saudosistas de Salazar - e vai uma ou outra pessoa por curiosidade. Se passasse na zona, não deixaria de ir ver, quanto mais não fosse para ver como é que trataram uma museologia muito difícil de fazer. É muito difícil. Inicialmente, o projeto estava integrado numa rota de uma série de casas [em ruínas]. Isso poderia ser interessante. Era muito interessante também recuperar-se as casas de António José de Almeida [Vale da Vinha, Penacova], e de outros políticos. Naturalmente, todo esse trabalho das câmaras é importante.

Do ponto de vista da memória patrimonial é uma desgraça que as casas de Aristides de Sousa Mendes, mas também de Salazar, estejam a cair. Goste-se ou não, Salazar foi uma figura histórica. O que é importante é que uma evocação deste género seja devidamente blindada para evitar os saudosismos e apropriações.

É só um bocadinho paradoxal que se evoque a democracia no local onde vivia um ditador 

Azinhaga, na Golegã, é por norma associada a José Saramago, que nasceu no local.

É evidente. É natural que até para efeitos de projeção de terra, as pessoas liguem a isso. É mais do que natural. Mais difícil é tentar justificar dizendo ser uma iniciativa imprescindível para a democracia. 

Outros locais no país, como o Museu Nacional da Resistência e Liberdade, em Peniche, não servem esse propósito?

O facto de existirem uns, como esse e, porventura, o Quartel do Carmo, nada inibe [de existirem outros]. É só um bocadinho paradoxal que se evoque a democracia no local onde vivia um ditador. Não tenho uma visão totalmente condenatória de um exercício destes, mas é arriscado. Até para propósitos de autarquia, que vai ter, se calhar, poucos turistas e muitos saudosistas. Se não for feito com bom enquadramento histórico, pode vir a ser negativo. Se fosse o professor Reis Torgal, ou pessoas da Universidade de Coimbra, dar-me-iam alguma garantia, porque, independentemente da cor ideológica, o importante é, insisto, que este projeto tenha o mínimo de qualidade. Veja as figuras em cera e as recriações da Inquisição em Castelo de Vide… Pavorosas! Que tenha o mínimo de qualidade. Goste-se ou não, Salazar foi uma figura histórica.

Fazer um projeto com qualidade, com uma espécie de hostilidade surda do próprio Ministério da Cultura, vai ser um bocadinho difícil


Em relação a outros países, podemos comparar a situação, por exemplo, com Espanha, onde os restos mortais de Francisco Franco estiveram no Vale dos Caídos, antes de serem transladados para um cemitério nos arredores de Madrid?

Em Portugal não teremos talvez essas questões da memória tão intensas porque, apesar de tudo, até uma certa altura, as pessoas mais saudosistas de Salazar viviam um bocadinho no armário - mas essas pessoas podem surgir, como é evidente.

O caso da Alemanha é diferente, porque aí a memória do nazismo é tão negra que não tem sequer comparação. Agora, em Predappio, em Itália, onde nasceu Mussolini, pode-se dizer que, 100 anos depois, os admiradores ainda fazem fila para visitar o seu túmulo. É um lugar de peregrinação. Mas lá há souvenirs e é uma escala muito diferente. Mas as pessoas foram lá rezar para celebrar a vitória de Georgia Meloni [quando foi eleita primeira-ministra, em setembro].

Com Salazar não há esta dimensão, mas chegou a existir uma estátua dele que foi decapitada a seguir ao 25 de Abril - não no Vimeiro -, e mais tarde chegou mesmo a ser dinamitada. Portanto, também pode haver riscos de ali se tornar um ponto de violência de parte a parte. Os efeitos do turismo não servem num país como o nosso, que não tem saudosistas de Salazar com a dimensão que tem Itália. Mas pode servir para pontos de encontro de movimentos fascistas e neonazis da Europa toda - que num ano vão a um lado, e no outro virão a Portugal.

Acho que ali também se colocou uma questão política e, portanto, a câmara está num braço de ferro, mas não me parece que isto seja um ponto essencial para a afirmação da região.


O projeto contou com um voto de condenação do Parlamento. A iniciativa do PCP teve votos a favor do PS, BE, PCP e PEV, e abstenções do PSD e CDS - em 2019. Apesar de já ter havido uma 'troca de cadeiras' nestes últimos anos, em que medida um voto de condenação tem impacto num projeto destes?

É natural que exista. É muito difícil tratar a memória do salazarismo do ponto de vista estritamente historiográfico. Chegaram a haver pessoas que propuseram que os ficheiros da PIDE fossem destruídos - uma fonte histórica preciosa. 

O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, que na altura não estava no cargo, foi um dos rostos contra a criação deste centro, assinando a petição 'Museu Salazar, não'. Em que medida é importante haver o apoio e acompanhamento da tutela?

Havendo desconfianças de que aquilo é uma coisa um bocadinho nostálgica, e na terra é um bocadinho difícil não haver reservas, acho que as pessoas se afastam. Até por isso é um projeto que vai ter dificuldades de concretização com qualidade. Fazer um projeto com qualidade, com uma espécie de hostilidade surda do próprio Ministério da Cultura, vai ser um bocadinho difícil. Pode tornar-se quase numa afirmação de um presidente de câmara e de uma birra: ‘Ai sim? Fazemos isto contra tudo e contra todos’.

O apoio da tutela dar-lhe-ia um bocadinho mais de credibilidade?

Como é evidente - um projeto destes se estiver ligado a uma universidade e ao Ministério da Cultura tem alguma garantia mínima de que não vai resvalar.

É bom que os jovens percebam o que é que é uma ditadura e o que é uma democracia. A partir do momento em que se vive em democracia, é quase como o ato de respirar - nem damos por ela. Só notamos quando nos falta

De que formas pensa que hoje em dia se podem realçar as virtudes da democracia?

É necessário perceber o que era viver na ditadura. As pessoas que dizem que era melhor viver no tempo antigo, só podem dizer uma frase destas porque vivem em democracia. Em Portugal, as pessoas podem dizer que preferiam viver no tempo de Salazar, mas no tempo de Salazar não podiam dizer que preferiam viver em democracia. É essa assimetria que é necessário fazer - uma espécie de pedagogia da memória, de as pessoas saberem o que era mesmo viver em ditadura, com falta de liberdade de expressão. As pessoas vão para as redes sociais falar bem do salazarismo, mas, se vivessem no tempo de salazarismo, não era possível haver redes sociais. As redes sociais seriam censuradas. É bom que os jovens percebam o que é uma ditadura e o que é uma democracia. A partir do momento em que se vive em democracia, é quase como o ato de respirar - nem damos por ela. Só notamos quando nos falta. É muito difícil a democracia fazer a sua pedagogia por si mesma.

É o que diz muitas vezes o politólogo Pedro Magalhães: As pessoas não estão contentes com esta democracia, mas preferem viver em democracia. São democratas descontentes com a atual democracia, com uma parte significativa do atual regime. Por isso mesmo é que é um bocadinho difícil a democracia uma exaltação daquilo que ela é em si mesma. Porque as pessoas já estão habituadas, e dificilmente vão fazer a exaltação de que o ar é bom. O exercício tem de se fazer pelo contraste - o que será não termos ar para respirar? O que será não termos democracia. 

Com o passar dos anos, é natural que as pessoas possam estar insatisfeitas com a vida de hoje, e tenham essa tendência escapista de julgar que o mundo de ontem era melhor. Os jovens hoje têm menos perspetivas de futuro, têm empregos precários ou mais dificuldades na habitação. E há sempre uma parcela que tem esta saída um bocadinho escapista de julgar que o passado era melhor. Há 50 anos era mais fácil um jovem arranjar casa, se calhar tinha empregos mais estáveis - mas depois havia desigualdades, injustiças, muita gente a passar fome, entre outras coisas.

É espantoso como é que a desmemória é tão grande

Espera que essa pedagogia seja aplicada nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril?

Não sei como vai ser o programa, mas penso que vão ser lançadas iniciativas para os jovens. Na minha opinião, a pedagogia aplicada não deverá ser apenas assente nas chamadas conquistas de Abril. Porque as pessoas têm isso como adquirido. O sentido da liberdade só será percetível na ausência da liberdade. A pessoa só percebe a importância do oxigénio no dia em que lho tiram.

Mas é espantoso como é que a desmemória é tão grande. As pessoas sabem o que são os campos de concentração. Vimos um campo de concentração e pensamos: ‘Nunca mais ninguém há de defender regimes parecidos com aquilo’. E, apesar dos campos de concentração, do Holocausto, há pessoas que ainda hoje em dia defendem o nazismo e coisas do género. Mesmo perante a exposição óbvia do horror negam o que ali existiu - mesmo perante uma coisa tão patente, abominável e horrível.

Um historiador italiano, chamado Carlo Maria Cipolla tinha um livro chamado 'As Leis Fundamentais da Estupidez Humana'. A estupidez e a irracionalidade humana nunca devem ser subestimadas. Nós, que estamos mais distantes, conseguimos ver isto: como é que é possível Donald Trump ganhar as eleições com tudo o que disse das mulheres? Como é possível haver uma mulher que vote nele depois de tudo o que ele disse?

Exercem os direitos conquistados em Abril para criticar ou manifestar saudades de um regime anterior ao 25 de Abril, quando esses direitos não existiam. É um paradoxo terrível 

Acha que esta parte da História está a 'ficar para trás', no sentido em que os mais jovens não têm consciência ou interesse sobre o que se passou?

Por um lado, os jovens já nasceram todos em democracia e, por outro, têm fontes de informação um bocadinho precárias, hoje não são tantos os livros, mas sim as redes sociais, povoadas de fake news. Sinto que pode realmente haver o risco de alguns deles, perante o futuro que têm - com as ameaças ambientais, falta de perspetiva, empregos precários, falta de habitação - resvalarem para um saudosismo que não tem fundamento nem razão de ser.

Tomam os direitos que foram conquistados em Abril como garantidos?

Exercem os direitos conquistados em Abril para criticar ou manifestar saudades de um regime anterior ao 25 de Abril, quando esses direitos não existiam. É um paradoxo terrível.

Não nos podemos colocar na pele de há 50 anos. Temos de nos pôr na pele de hoje. Há um conjunto de promessas de Abril que estão por cumprir e que, naturalmente, existirão sempre por cumprir

Quase 50 anos depois do 25 de Abril, quais as reformas que ainda estão aquém do esperado?

É muito difícil responder à pergunta. Só numa utopia é que toda a gente teria o mesmo nível de conforto ou habitações, ao que está na letra do Sérgio Godinho [‘Liberdade’] - paz, pão, habitação, saúde e educação. Está tudo por fazer num certo sentido - e é natural que as coisas estejam por fazer, porque nunca chegaremos a esse ponto. Avançámos muito na paz - agora menos, talvez -, e também no pão, saúde, habitação. Mas todos os dias surgem novos problemas. As alterações climáticas, inteligência artificial, a guerra na Ucrânia ou a pandemia são questões que eram inimagináveis há 50 anos. Há um balanço que precisa de ser feito: por que razão é que os jovens hoje em dia têm menos esperança no futuro do que tinham em 1975? Mas também é verdade que se se der a um governante de '75 os problemas com que um governante tem de lidar… hoje a realidade é infinitamente mais complexa. 

Acho que também é próprio de uma democracia a eterna insatisfação com ela. Fez-se muito, mas há um conjunto novo de desafios, nomeadamente com a entrada de uma série de países de leste na União Europeia. Sobretudo nos últimos 20 anos, marcámos um bocadinho o passo do ponto de vista do desenvolvimento.

As necessidades são diferentes?

Não nos podemos colocar na pele de há 50 anos. Temos de nos pôr na pele de hoje. Há um conjunto de promessas de Abril que estão por cumprir e que, naturalmente, existirão sempre por cumprir. Esse não é o problema. Só muito utopicamente é que alguém estava à espera de que após 50 anos houvesse grandes apartamentos para todos ou empregos bem remunerados - mas houve evolução no âmbito da mortalidade infantil, acessos aos cuidados de saúde ou igualdade entre homens e mulheres. O legado é extremamente positivo e, precisamente por isso, é que a ausência de perspetivas e convergência em relação à União Europeia nos deixa com um amargo de boca ainda maior.

Houve dois caminhos. Um caminho de igualização, de maior justiça e maior acesso à habitação e cuidados de saúde, que foi feito logo em 1976 - dos anos 70 aos 2000. E depois há outro, que é o caminho de divergência em relação à trajetória da União Europeia, que tem marcado as duas últimas décadas. Num balanço de 50 anos de democracia, não podemos fugir a uma reflexão sobre essa trajetória de divergência, pois é nela que se joga o futuro de Portugal e das gerações mais novas.

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