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Chuvas? "Em Portugal, nunca tivemos capacidade de resposta organizada"

Presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) é o convidado desta sexta-feira do Vozes ao Minuto. Defende que Portugal "nunca" teve "uma capacidade de resposta organizada ao processo de precipitação" e entende que deve ser estruturado um sistema capaz de dar resposta às cheias urbanas, tal como aconteceu nos últimos cinco anos com os incêndios rurais.

Chuvas? "Em Portugal, nunca tivemos capacidade de resposta organizada"
Notícias ao Minuto

13/01/23 por Carmen Guilherme

País IPMA

Jorge Miguel Miranda assumiu a presidência do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) em 2013 e, nos últimos tempos, ouvimo-lo com frequência falar sobre o mau tempo que se abateu em algumas zonas do país - tempos especialmente difíceis para aqueles que foram afetados pelas cheias e inundações. 

Para o geofísico, estamos perante um mundo em que os "extremos" são, aparentemente, "mais frequentes" e no qual teremos de começar a fazer alterações a tudo o que "desenhámos" até então, "de forma a sermos capazes de conviver de forma pouco arriscada" com um novo ambiente.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Jorge Miguel Miranda deixa nota de algumas previsões para o que resta do inverno, fala sobre a polémica que envolveu o IPMA, em dezembro, estando em causa os avisos para as fortes chuvas em Lisboa, e admite que o Instituto carece de "um pouco mais de recursos humanos". 

Os extremos aparentemente são mais frequentes. É um mundo em que nós, em média, temos menos precipitação, mas em que temos fenómenos de precipitação intensa com causas rápidas

Comecemos por falar sobre 2022 que, como sabemos, foi um ano que terminou com chuvas recorde, um fenómeno extremo que parece ter-se prolongado no Norte no início de 2023, com fortes períodos de precipitação. É expectável que nos próximos tempos possamos voltar a ter episódios semelhantes? 

Existe sempre uma ideia nas ciências geofísicas de que o passado é aquilo que se repete. Isso é a ideia de clima.

Este ano, 2022, foi realmente um ano que teve fenómenos de alguma energia. Teve, no caso dos fogos rurais, alguns fogos com uma expressão muito importante, a qual a mais interessante foi a da Serra da Estrela, e depois tivemos um período de grande precipitação que ocorreu desde o dia 6 de dezembro, mas que se prolongou por janeiro de 2023 e isto, no fim, num período de seca prolongadíssimo, que atingiu quase todo o território nacional.

Portanto, estamos aqui a falar de um mundo em que os extremos aparentemente são mais frequentes. É um mundo em que nós, em média, temos menos precipitação, mas em que temos fenómenos de precipitação intensa com causas rápidas. E, de repente, tivemos também um dos meses de dezembro mais quentes de sempre - e estamos a caminhar para um janeiro também com temperaturas bastante superiores ao normal.

Abordando o que me está a dizer, é importante perceber o que é que está na origem destes eventos, porque não estamos só a falar de alterações climáticas, certo? 

Nós não estamos só a falar de mudança climática. A mudança climática é uma situação que hoje em dia, penso eu, é consensual e que está realmente a ocorrer no mundo inteiro. O que nós estamos aqui a ver é quais é que são os efeitos sobre nós, sobre a vida humana, sobre as cidades e sobre os campos, dessas alternâncias de períodos de muito pouca precipitação com períodos de precipitação intensa - muito curtos, mas de precipitação intensa. E esta situação, que obviamente se soma àquilo que é a mudança da paisagem humana em toda a Terra, e em particular na Europa, com a grande migração da população do Interior para o Litoral, com a ocupação intensíssima do Litoral, etc, leva a que os riscos comecem a aumentar de forma significativa. 

Tudo aquilo como nós desenhámos até agora, as nossas infraestruturas, a nossa forma de viver, provavelmente vai ter de ter alterações

Incisivamente, que efeitos podemos esperar deste tipo de fenómeno? Já sabemos que causa destruição, deixa danos claramente visíveis, mas há também uma saturação dos solos que acaba por agravar toda a situação...

Sim, mas deixe-me pôr a coisa de outra forma. Nós sempre tivemos irregularidades na temperatura e irregularidades na precipitação. Neste clima, num clima como o nosso, numa zona temperada, sempre tivemos períodos muito frios, períodos muito secos, e períodos de precipitação de forma alternada. E o que o homem fez foi exatamente tentar com a construção de barragens, de albufeiras, por exemplo, que a água que caía de forma irregular pudesse se utilizada de forma regular. Depois fizemos outra coisa, fizemos aquedutos, e os aquedutos transportaram água da zona onde ela está para a zona onde ela é precisa. E portanto, o que nós estamos a fazer, é uma espécie de médias no espaço e médias no tempo.

Agora, mudem-me um bocadinho o clima: considere que os períodos de seca vão ser mais prolongados, considere que os períodos de precipitação vão ser mais curtos e a precipitação mais intensa. Tudo aquilo como nós desenhámos até agora, as nossas infraestruturas, a nossa forma de viver, provavelmente vai ter de ter alterações. Nós estamos preparados para um certo clima, vamos ter de nos mudar para o novo clima. Não quer dizer que as alterações sejam dramáticas, nem que nós vamos começar a ter níveis de risco muitíssimo mais elevados - o que isto quer dizer é que nós temos de mudar as normas, as infraestruturas, a capacidade dos sistemas, de forma a sermos capazes de conviver de forma pouco arriscada com este novo ambiente.

Quando, em 2017, tivemos várias dezenas de mortos no incêndio de Pedrógão, tornou-se claro que a nossa sociedade não está disponível, não está disposta, a viver com esse nível de risco

Digamos que esta não é uma situação nova, embora se comece a ver com mais frequência. Quando falamos de começar a viver de uma nova forma, que soluções é que aponta? Falamos aqui também daquilo que é a intervenção do Governo, da própria Proteção Civil? Como é que vê esta questão?

Atenção, não é só o clima que está a mudar, é a nossa atenção sobre o clima que está a mudar. Quando, em 2017, tivemos várias dezenas de mortos no incêndio de Pedrógão, tornou-se claro que a nossa sociedade não está disponível, não está disposta, a viver com esse nível de risco. Isso é uma situação que é clara. Contudo, é evidente que esse nível de risco é inferior, por exemplo, ao risco da morte por tabaco ou até ao risco de guerra que estamos a viver neste momento na Ucrânia. Mas a nossa sociedade não quer viver com esse nível de risco e, portanto, a forma como se segue cada um desses acontecimentos é diferente do que se seguia no passado. E ainda bem que é diferente, porque isso significa que nós estamos dispostos a lutar por cada vida e por cada bem, seja ele de quem seja.

E esta ideia, esta perceção social, está a fazer-nos mudar a forma de ver. Nós agora queremos antever, queremos prever, queremos preparar-nos e queremos ser capazes de mitigar as consequências depois de acontecer. E esta vontade da humanidade de fazer isto, de gerir os recursos naturais é uma total novidade, e uma ideia que trespassa todo o mundo. E é a ideia de que nos temos de preparar para riscos mais elevados - é verdade - mas temos de mitigar os riscos que já existem neste momento. Porque se formos ver o que aconteceu no Porto, ou antes em Lisboa, ou no Alto Alentejo, ou noutras localidades, não são situações completamente novas.

São é situações que nós estamos a ver de uma forma completamente nova. Nós agora não estamos dispostos a que alguém possa ter um pequeno negócio numa rua, que a seguir é completamente destruída por uma chuvada forte.

A melhor forma que nós temos para mitigar os efeitos, em particular nos segmentos sociais mais vulneráveis, é melhorar a sua qualidade de vida

Quando me fala nisso, gostava de lembrar que há quem tenha alertado que as fortes chuvas acabam também por agravar a vulnerabilidade habitacional dos mais pobres. Esquecemos a sustentabilidade social neste tipo de situação?

Eu diria que sim. Eu diria que é preciso chamar mais à atenção sobre ela. Deixe-me dar-lhe outro número que não tem a ver com chuva, mas tem a ver com sismos. O perigo sísmico tem uma magnitude que é razoavelmente constante. A Geologia envolve processos de longo período e, portanto, não são coisas de variação anual. Portanto, o risco existe e tem sempre o mesmo valor. Mas isso é o perigo. Se houver, por exemplo, um sismo na Califórnia ou no Paquistão, ou por exemplo uma inundação no Paquistão, ou uma inundação na Holanda, sabe que os efeitos são muito diferentes.

A melhor forma que nós temos para mitigar os efeitos, em particular nos segmentos sociais mais vulneráveis, é melhorar a sua qualidade de vida. Ponto. É melhorar a qualidade da habitação social, é melhorar a qualidade das suas infraestruturas, onde quer que a pessoas estejam localizadas. A ideia de que todos os cidadãos do mesmo país merecem o mesmo nível de serviço, o mesmo tipo de vida básica e que o risco ligado aos riscos naturais tem uma importância. E essa ideia é a ideia de que estamos dispostos a pôr recursos para diminuir esse impacto. E ao pormos recursos isso significa pôr recursos na Proteção Civil, obviamente, nos Bombeiros, em todos os corpos que servem para mitigar os efeitos depois de o problema ocorrer, mas também significa pôr recursos nas infraestruturas que é preciso ter para que esses impactos sejam o mais pequenos possíveis.

[IPMA] tem pessoas que não estão em turnos, estão acordadas a qualquer hora do dia ou da noite e não há nenhum tipo de compensação para isso

Aqui que chegamos também ao IPMA. Considera que o IPMA tem os recursos e os meios suficientes para fazer o seu trabalho de uma forma mais eficiente e melhor?

Bem, nós temos tentado responder a uma outra pergunta que é: 'Com os recursos que temos qual é o melhor que podemos fazer'. E acho que temos demonstrado que somos capazes de fazer muitas coisas com os recursos que temos. Agora, quando se fala de recursos, nós estamos a falar de pessoas e de meios. Em termos de meios, eu diria que o IPMA tem meios de muita alta qualidade e, não é por acaso, que todos os nossos meios são usados por praticamente toda a gente. 

Quando falamos de recursos há duas coisas que eu tenho de salientar. Primeiro, nós precisamos um pouco mais de recursos humanos, não é muito mais, é um pouco mais de recursos humanos, muito qualificados e precisamos de lhes dar, digamos, um rendimento razoável para a qualidade e para o esforço que os meus colegas fazem. Penso que ninguém tem a consciência de que muitas das pessoas que trabalham aqui, na verdade, estão disponíveis quase 24 horas por dia, porque sabem que os riscos não escolhem hora. Nós temos turnos, obviamente, isso é normal, mas temos muitas outras pessoas que não estão em turnos, mas que estão acordadas a qualquer hora do dia ou da noite e não há nenhum tipo de compensação para isso.

Há situações que era preciso que alguém olhasse, de uma forma mais razoável, e que percebesse que nós somos uma instituição que sempre se assumiu como transversal ao Estado, de serviço às pessoas, serviço ao setor económico, sem olhar a quem. Todos os nossos dados podem ser acedidos sem identificação - nós não precisamos de saber isso - mas é verdade que podemos ter ainda maior capacidade. Temos de ter um pouco mais de recursos humanos e um pouco mais bem compensados.

Nós não podemos dar alertas vermelhos cada vez que achamos que há uma situação de risco, porque isso acaba por desqualificar o tipo de avisos que nós damos

Quando diz que o IPMA faz o melhor que pode com os meios que tem e olhando para algumas das críticas que foram apontadas ao Instituto em dezembro - e estamos aqui a falar de alertas - sente que houve ou não uma falha? Foi um problema só de antevisão ou, realmente, com mais meios, teria sido possível fazer com quem as coisas tivessem decorrido de uma forma diferente? 

Isso é um assunto, na minha opinião, demasiadamente polémico pelas más razões. E hoje, estamos no meio do mês de janeiro, em que já se passaram pelo menos três episódios similares a 6 de dezembro, e já se viu bem que, quando as estruturas da Proteção Civil estão alerta e a fazer o seu trabalho, é possível, com os alertas que nós emitimos, fazer melhor.

Vou pôr as questões assim. Quando nós emitimos um alerta, por vezes, falhamos por defeito e, por vezes, falhamos por excesso, isso é completamente inevitável. No caso do dia 6 de dezembro, nós só lançámos um alerta vermelho reativo, ou seja, quando a precipitação estava acima dos 40 mm/h. No caso do 12/13 de dezembro, o problema não foi a intensidade, foi a extensão, aí foi muito bem caracterizado. No caso aqui de janeiro, nós demos um alerta que tinha sido de uma área bastante grande, mais do que o costume, porque não tínhamos a certeza de onde é que ia cair o máximo, que foi na cidade do Porto. Mas, nesse caso, o alerta foi dado com antecedência e foi, talvez, dado um bocadinho por excesso.

Mas quem prevê tem sempre a possibilidade de falhar, nós não podemos dar alertas vermelhos cada vez que achamos que há uma situação de risco, porque isso acaba por desqualificar o tipo de avisos que nós damos. E se as pessoas querem confiar nos nossos avisos, eles têm de ter critérios de emissão. Se tivesse sido possível prever os 47 mm/h que caíram na estação aqui de Lisboa e houvesse vermelho uma hora antes, francamente, acha que haveria diferença, da resposta do sistema? Acha que era só com o alerta vermelho que se iam desentupir as zonas de escoamento? E os túneis? Era só com o alerta vermelho que iam ser encerrados? 

O problema real é o que é que nós temos de fazer sempre que temos um nível de perigo de precipitação. E esse problema está-se a levantar em Portugal porque nunca tivemos uma capacidade de resposta organizada ao processo de precipitação

Não pode ter havido, então, um problema de comunicação?

Nós comunicamos sempre o mesmo. Nós temos aqui dois grandes canais de comunicação. Temos a comunicação direta com as pessoas, que é feita pela nossa página e pelos nossos serviços web, e temos a comunicação que é feita pelo sistema de Proteção Civil. O sistema de Proteção Civil, por outro lado, tem os seus canais próprios, que vão dar às comunidades locais. Devo-lhe dizer também que, por vezes, nós temos comunicação direta com as comunidades locais porque os presidentes de câmara querem um pouco mais de detalhe na informação que nós estamos a dar e, portanto, temos alguns contactos diretos - e existiram nesse dia, já agora. 

Estarmos a ver como aspeto principal se foi dada importância que chegasse - eram precisos SMS, era preciso isto ou aquilo - parece-me que é fugir ao problema. Porque o problema real é o que é que nós temos de fazer sempre que temos um nível de perigo, de determinado nível, de precipitação. E esse problema está-se a levantar em Portugal porque nós nunca tivemos uma capacidade de resposta organizada ao processo de precipitação.

Nós estamos há cinco anos a estruturar um sistema, que cada vez está mais inteligente, ao perigo de fogos rurais. Pode não estar perfeito, mas está cada vez mais bem estruturado. E nas cheias urbanas temos de fazer o mesmo. Temos de saber o que é se faz no nível amarelo, no nível laranja e no nível vermelho, até sabendo que qualquer um deles pode falhar.

Não é por acaso que nós temos sempre os mesmos problemas nos mesmos sítios

Para não correr sempre atrás do prejuízo?

Para não correr sempre atrás do prejuízo. E há situações básicas, como por exemplo a questão de não acumularmos água em várias zonas que já se sabe que acumulam sempre água. Têm que ser acauteladas, independentemente da chuva que vai ou não cair. Porque vamos lá ver, não é por acaso que nós temos sempre os mesmos problemas nos mesmos sítios. 

E escusamos de estar a dizer que isto é a cheia do século ou o caudal não sei quê, quando a gente sabe que em 20/30 anos aconteceu meia dúzia de vezes. Portanto, este conhecimento, é um conhecimento de toda a gente. E nós até poderíamos pensar e poderíamos dizer que houve falta de atenção social a 6 de dezembro e que, a partir daí, até a comunicação social se tornou muito mais atenta às situações. Tudo isso é verdade, repare, nós vínhamos de cinco anos de seca. Mas o que é previsto pelos modelos numéricos do tempo, no essencial baseamo-nos no modelo europeu - o melhor modelo do mundo, inquestionavelmente - e o modelo apontava para uma situação que classificamos como laranja, ou seja precipitação entre 20 e 40 mm/h, e apontava para várias horas de impacto. Era óbvio que, para responder a isto, era preciso um conjunto de ações.

Agora, estamos nós preparados para ela? Não é ver quem é que é o culpado, isso é o menos importante. Estamos preparados agora, sempre que acontece, para agirmos rapidamente? Era muito importante que aqueles locais a que eu chamo as armadilhas, ou seja aqueles locais que são críticos de acumulação de água, fossem resolvidos de uma vez por todas. Porque isso permitia-nos estar mais à vontade para encarar o problema na sua globalidade.

Todas as previsões apontam para um clima mais seco, episódios extremos mais frequentes, ondas de calor mais frequentes, essencialmente, noites com temperaturas mais elevadas

Se há pouco falávamos da forma como 2022 terminou – e também já abordou este tema - recordemos que foi também um ano, em contraste, marcado por ondas de calor, seca e incêndios florestais. Soube-se há dias que 2022 foi o segundo ano mais quente na Europa desde que há registo e o quinto mais quente no mundo. O que é que se pode esperar para Portugal em termos de alterações climáticas?

Neste género de modelos que existem, todas as previsões apontam para um clima mais seco, episódios extremos mais frequentes, ondas de calor mais frequentes, essencialmente, noites com temperaturas mais elevadas, noites chamadas tropicais - tem esta designação tão veraneante, mas, na verdade, não é uma coisa boa – e, provavelmente, também um pouco mais de vento na costa. Isto é uma situação que está bastante clara hoje em dia e é o que temos já observado de forma sistemática.

Neste sentido, que alerta é necessário continuar a fazer? O que é que ainda é preciso explicar às pessoas?

Acho que existe uma boa perceção social. Agora, uma questão um bocadinho diferente é perguntar assim: 'Será que nós temos de alterar significativamente os princípios/normas que utilizamos na construção? Ou temos apenas de continuar com a situação atual de melhorar a capacidade de escoamento e, por exemplo, de ter muito mais soluções baseadas em soluções naturais, ou seja, naturalização das linhas de água, de ribeiras, para o caso dos picos de chuva?'. Penso que, hoje em dia, as soluções são todas razoavelmente conhecidas e que elas, progressivamente, vão ser materializadas.

Talvez se tenha perdido bastante tempo a fazer, por exemplo, estradas que não têm claramente capacidade de escoamento, talvez não estejamos a integrar suficientemente a questão de termos períodos prolongados de seca, com períodos de chuva intensa, o que significa que deveríamos ser capazes de armazenar água num dos períodos para gastar no outro. Talvez não estejamos a ser ainda completamente rigorosos na poupança que temos de fazer de energia e de água fresca. Mas tudo isso parece estar ao nosso alcance, do ponto de vista técnico e do ponto de vista económico. 

Não estamos a demonstrar ser capazes de reduzir significativamente a redução de CO2

Então não atingimos um ponto de não retorno?

Um 'tipping point'. Por enquanto, ainda não está demonstrado. A única questão, o único problema que existe, que é uma espécie de espada que está por cima das nossas cabeças, é que não estamos a demonstrar ser capazes de reduzir significativamente a redução de CO2. Estão a haver reduções parciais, ou em áreas limitadas, ou em atividades humanas limitadas, mas não está a haver uma redução de forma sistemática, necessária, para que a mudança climática não acelere. 

Estamos a ter temperaturas mínimas bastante acima da média

Fazendo aqui já algumas previsões para as próximas semanas, sabemos que dezembro foi muito chuvoso, mas um mês muito quente. Há pouco já falava também de janeiro, o que podemos esperar do que resta do inverno?

Pelo pouco que vi, e não posso dizer que tenha visto tudo, - porque não há muitos modelos que tentem fazer previsão sazonal, não há muitos países capazes de o fazer- eu diria que, nesta latitude, nós caminhamos para manter a sucessão que está agora, que é altos níveis de agitação marítima - não falámos mas tem sido muito relevante - vai haver mais uma sucessão extrema dentro de poucos dias no Norte, que vai atingir todo o Golfo da Biscaia, mas vai atingir praticamente o Norte de Portugal.

Estamos a ter temperaturas mínimas bastante acima da média, o que pode criar riscos razoáveis sobre uma parte da nossa fruticultura, estamos a ter precipitação elevada mas que tem sido gerida com muita paciência pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e que tem conduzido a que as nossas barragens estejam com níveis muito elevados, mas por enquanto sem ainda criar efetivos destrutivos.

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