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"Tive maturidade para perceber que as pessoas são malucas, nada a fazer"

Solrir: O festival de humor do sul do país tem nova edição marcada para o final deste mês. Nilton será um dos humoristas convidados para atuar, assunto que serviu de mote para uma boa conversa com o Notícias ao Minuto. "Não sou algarvio, mas comecei a fazer humor lá", afirma, assumindo-se quase como "embaixador" do evento.

"Tive maturidade para perceber que as pessoas são malucas, nada a fazer"
Notícias ao Minuto

26/12/18 por Mariline Direito Rodrigues

Fama Nilton

Bem-disposto. Assertivo. Com a resposta na 'ponta da língua'. Foi assim que Nilton se apresentou quando chegámos aos estúdios da Renascença, mais precisamente, ao auditório da RFM, onde aconteceu esta entrevista.

De sorriso no rosto, recebeu-nos e respondeu sem rodeios a todas as perguntas. Humorista há 18 anos, se contarmos os momentos em que começou a subir aos palcos, ou há mais de duas décadas, se pensarmos no tempo em que se começou a interessar pela comédia, são muitas as histórias que gosta de recordar. Ou as piadas que tem para contar. 

Tem um enorme carinho pelos fãs que se dão ao trabalho de "saírem de casa" para irem ver os seus espetáculos de 'stand up', e até mesmo pelos 'haters' - que não são poucos - que perdem tempo da sua vida a criticá-lo, não só ele, mas ao mundo, conforme fez notar. 

Continua a encher salas de espetáculo ao fim de 18 anos. É difícil manter o interesse das pessoas?

É difícil fazeres isso diariamente e, de alguma maneira, manteres as pessoas interessadas naquilo que possas ter a dizer. Para mim é um grande barómetro esgotares salas pelo país todo há tantos anos e é sinal de que realmente que as pessoas gostam. O que dá trabalho é diariamente, mas isso é como tudo, eu gosto de trabalhar. Centro muito a minha vida profissional na 'stand up', é aquilo que gosto de fazer, estar em contacto com as pessoas, dou muito valor às que saem de casa para irem assistir a um espetáculo. Acho que isso é um ‘like’ brutal, a pessoa saiu de casa e foi ver-te. E depois, obviamente, isso é uma consequência do teu trabalho. Acordo às 5h30h da manhã para vir para aqui [para a rádio] e depois as pessoas retribuem indo ver os meu espetáculos.

Qual a mensagem mais difícil de transmitir nos espetáculos?

Já passei um bocado a parte da utopia, acho que a mensagem é acima de tudo dares um bom momento às pessoas e elas esquecerem a vida, os problemas, perceberem que se pode brincar com tudo. Não tenho nenhuns pruridos em brincar com tudo, acho que está em ti aceitar isso ou não enquanto catarse. É não te levares demasiado a sério e saberes rir e aceitar que não vale a pena às vezes chateares-te com coisas supérfluas.

Acho que qualquer humorista tem em si um bocadinho de humor negro  

Notícias ao MinutoNilton após um espetáculo em Portimão, onde a sua carreira começou. Regressará ao Algarve, mais precisamente a Albufeira, para o festival de humor Solrir, no dia 29 deste mês © Facebook/Nilton

Então não existe humor negro mas simplesmente humor?

Tal como um indivíduo que começa a aprender a andar de bicicleta e depois começa a fazer cavalinhos, acho que qualquer humorista tem em si um bocadinho de humor negro. Rio-me e adoro piadas de humor negro e faço-as muitas vezes no dia a dia. Se for fazer um espetáculo empresarial terei algum cuidado com isso. No meu humor em auditório faço muito mais, enquanto comediante e, em primeiro lugar, como guionista, já quero fazer cavalinhos. E isso é obviamente fazeres escárnio e sátira às coisas mais pesadas, porque são elas que te fazem mais cócegas no cérebro. Portanto, vais querendo fazer mais acrobacias com a tua bicicleta que é a escrita. Adoro esse sentimento do ‘ahhhhh, qual era a necessidade agora disso?’. Gosto desse lado do teatro.

Mas por vezes um humorista precisa de auto-censura?

Num contexto: é como tu saberes que vais jantar a casa da tua namorada pela primeira vez e não vais pôr os pés em cima da mesa... se calhar nunca pões. É teres noção numa lógica de longevidade. Podes ser um grande maluco… [Mas] Acho que tens de saber posicionar-te em cada situação. Quero que as pessoas gostem daquele momento seja onde for, quero fazer cócegas no cérebro e brincar com as pessoas, mas dentro de uma auto-censura lógica.

 A auto-censura é saberes comportar-te em cada situação Por exemplo, na rádio, temos uma figura que é o ‘family oriented’. Sei perfeitamente que há a figura do ‘kid in the back seat’, neste caso, as crianças atrás no carro, e que se disseres coisas disruptivas que deixem o pai desconfortável ele muda de canal. Se aceitas estar a trabalhar numa rádio com um milhão de pessoas, que é o caso da RFM e do ‘Café da Manhã’, tens de ter essa noção. Depois compensas noutro sítio. [Por exemplo] Adoro fazer nudismo, mas não posso fazer em todas as praias, então vou ao Meco. A auto-censura é saberes comportar-te em cada situação.

Então o grupo de 'haters' do Nilton que existe não lhe faz comichão…

Não, já fez, é natural. Principalmente com o início da Internet. Fui o primeiro humorista a atingir o milhão de seguidores no Facebook, que é uma marca muito grande e que chateia muita gente. Por exemplo, não tinha 'haters' quando tinha poucos seguidores. No início destas redes sociais ninguém tinha muita noção das coisas. Aprendes a lidar com isso e a perceberes que não é contra ti, é contra toda a gente, porque hoje marram contigo, depois amanhã contra outra pessoa.

A partir do momento em que ganhei maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a fazer

Ainda na semana passada estava a criticar a história do helicóptero do INEM, de haver pessoas a buscar peças do helicóptero. E para qualquer cidadão normal, quem é que é o maluco [que faz isto]? Além de estar a comprometer uma investigação, está a ofender pessoas. Iam pessoas reais dentro do helicóptero: pais, filhos. Consegues pôr uma frase sobre isso e há pessoas que vêm marrar contigo a condenar, outras a dizer que estás a usar o INEM para fazer piadas. A partir do momento em que ganhei maturidade para perceber que as pessoas são malucas, não há nada a fazer.

                                                     

 Não podes estar a preocupar-te com estas coisas, porque o 'hater' estará lá para ti, para outro, irá sempre dizer as coisas à maneira dele e se tu alimentares, pior ainda Uma vez um indivíduo enviou-me uma mensagem a meio da noite a dizer assim: ‘tu que andaste a mamar à conta do Sócrates e do teu PS, agora andas aí a criticar, devias era ser DJ como os gajos da Casa dos Segredos’. Ele disparava em tantas direções, a meio da noite, coitado. Foi realmente o dia em que dei o gatilho e pensei ‘isto é só estúpido’. Não podes estar a preocupar-te com estas coisas, porque o 'hater' estará lá para ti, para outro, irá sempre dizer as coisas à maneira dele e se tu alimentares, pior ainda. Até dou algum valor a isso, porque a pessoa que tira do seu tempo, da sua vida, para estar a perseguir-te diariamente, seja a ti seja a outro qualquer, até há algum lado engraçado nisto. Nutro algum carinho por isso. 

Talvez seja essa a parte de que me arrependa, de ter apertado a mão a muito indivíduoExistem 'haters' dentro da profissão?

Sim. Tenho mais pena dos 'haters' que são teus colegas, pessoas a quem tu apertaste a mão e de quem foste amigo e de repente percebes que é malta que tem um fundo um bocado esquisito. Hoje em dia há malta que se preocupa mais em dizer mal dos outros do que em trabalhar. Talvez seja essa a parte de que me arrependa, de ter apertado a mão a muito indivíduo.

No futebol e na tourada torço sempre por aquele que está de pretoO humor gera mais polémica do que o futebol?

Não, isso é impossível. Mas se quiseres juntar os dois, sim. Não tendo clube de futebol, não vivo aquilo. No futebol e na tourada torço sempre por aquele que está de preto. Não tenho assim grande apetência para aquilo e muito menos pelo lado irracional, sou muito adverso a extremismos e o futebol, infelizmente, acarreta muita  irracionalidade e centra-se muito em coisas paralelas. O Bruno de Carvalho é um exemplo disso. Gosto de desporto, de futebol, mas não percebo tudo o resto. 

 Achas que não se brinca, mas eu sou livre de dizer e tu és livre de aceitarÉ como o humor negro, com isso não se brinca: achas que não se brinca, mas eu sou livre de dizer e tu és livre de aceitar. E com o futebol é um bocado assim, podes brincar com qualquer doença, desde que não seja com um clube, 'com o meu Benfica', ou o Porto, ou o Sporting, por exemplo. 

Bruno de Carvalho, Cristina Ferreira ou Marcelo Rebelo de Sousa: quem foi a figura do ano?

Princesa Diana? [Diz, sem resistir à piada]. 

O Marcelo está a fazer o dobro, acho que o Cavaco deveria restituir-lhe o dinheiro que ganhou Não, o Marcelo. Não posso dizer que foi o Bruno de Carvalho, porque isso é pela negativa. Acho que o Marcelo conseguiu de alguma maneira tirar os políticos da bolha. O Marcelo só aparece tanto porque está a compensar 10 anos de Cavaco, o Marcelo está a fazer o dobro, acho que o Cavaco dever-lhe-ia restituir o dinheiro que ganhou. Mas o Marcelo faz uma coisa, que se calhar não terás outro político tão cedo a fazer, que é chegar às pessoas. Percebo que um primeiro-ministro esteja a legislar e que não tenha tempo. O Marcelo é um RP [Relações Públicas] do governo e vê-se que o sucesso que ele tem é um bocadinho isso. Ele chega às pessoas, é afetuoso, faz realmente a diferença. O Marcelo teria acalmado o Bruno de Carvalho. O Marcelo resolveria a guerra na Síria. 

A Cristina tem mérito, mas é só uma pessoa que mudou de canal.

A figura americana tem um lado a que acho piada – mas que nunca o faria – que é: eu ganhei não sei quantos milhões. Nós é o contrário. ‘Olha-me esta gaja aqui, agora é um milhão, deve ter andado metida com não sei quem’Mas na altura chegou a comentar o caso…

Uma coisa que o português tem e que eu já senti muito é que odeia que os outros tenham sucesso. A figura americana tem um lado a que eu acho piada – mas que nunca o faria – que é: eu ganhei não sei quantos milhões. Nós é o contrário. ‘Olha-me esta gaja aqui, agora é um milhão, deve ter andado metida com não sei quem’. Critiquei isso, não conheço a Cristina, estive uma vez com ela na vida para apresentarmos um espetáculo juntos. Faz-me confusão… ainda bem para ela. No mercado televisivo, acho ótimo, que venha a seguir o próximo e paguem dois milhões. Acho bem o mercado mexer. 

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Muita parvoíce se tem escrito e dito sobre a contratação da Cristina Ferreira e não há dia que não leia alguém a vomitar tontices, como se uma empresa privada não pudesse fazer o que lhe apetece com os seus investimentos. E estou completamente à vontade para falar porque tenho amigos nos dois canais e não trabalho para nenhum deles, mas acontece que sou a favor de mudanças no mercado, é isso que o faz mexer e infelizmente o nosso é tão pouco competitivo que perdemos meses a falar de coisas que são banais em todo o mundo. (Coloquemos as coisas em linguagem futebolística porque pelos vistos é o único sítio onde se pode falar de milhões sem que haja uma indignação geral). A Cristina Ferreira vende camisolas e marca muitos golos e isso faz com que todos os clubes a queiram contatar. Infelizmente é também isso que deixa outra tanta gente irritada e roída de inveja, porque é disso que falamos quando as pessoas criticam o suposto ordenado que vai ganhar – até porque essas pessoas, no alto da sua altivez iriam certamente recusá-lo, caso lho oferecessem – ou os programas que ela fez, como se os tivesse feito para eles. Nos Estados Unidos aplaude-se o sonho americano e festeja-se a felicidade alheia por cada vez que alguém atinge o estrelato desejado, nós criticamos e lembramos os demais que há muita gente que também merecia muito dinheiro, como se fizesse algum sentido misturar as coisas ou como se fosse a Cristina que estivesse a tirar o dinheiro aos Professores, médicos, enfermeiros e demais parvoíces que já li. Não conheço bem a @dailycristina (só estive com ela uma vez numa gala que apresentámos juntos), mas sendo eu a favor da meritocracia, do trabalho, da dedicação e do profissionalismo, não posso deixar de lhe desejar publicamente as maiores felicidades e dizer que seja sempre autêntica, dedicada e será sempre vencedora. Nem que seja para irritar os detractores profissionais que torcem para que ela ou qualquer outra pessoa que atingiu o sucesso apenas e só à custa do seu trabalho, falhe. Hoje a Cristina Ferreira é entrevistada no Jornal da Noite da SIC e corre o risco que o Rodrigo Guedes de Carvalho lhe pergunte quanto vai ganhar, mas vai responder à altura.

Uma publicação partilhada por Nilton (@niltonoproprio) a 17 de Set, 2018 às 11:14 PDT

Um acontecimento deste ano que dava uma boa piada…

Uma coisa que só fiz em teatro em tragicomédia é o caso do consulado da Arábia Saudita, na Turquia. Talvez seja o acontecimento para mim de humor negro, que mostra que o mundo está muito para lá do que deveria ser. Em 2018, isto ainda ser possível acontecer... Eles não se deram ao trabalho de enviarem uns espiões e apanharem o gajo numa rua escura, não, no consulado é que é. É perceberes como é que isto acontece sem nenhuma punição. Isso sim é uma coisa negra no pior sentido. Costumo dizer que a humanidade não merece viver. O ser humano não merece viverAssusta-o pensar no futuro dos seus filhos perante a atualidade?

Acho que estamos num cantinho especial da Europa. Assusta-me o mundo em si, este fechar de olhos para a situação do clima. Não sei se será para os meus filhos, mas se calhar para os filhos deles. Assusta-me a humanidade em geral. Costumo dizer que a humanidade não merece viver. O ser humano não merece viver. A minha mulher disse-me há dias, e com muita graça, como é que uma pessoa pode ser ilegal. Estamos todos num planeta. Como é que dizes para um refugiado que vem de barco e que está a morrer ‘não meu amigo, azar’. Assusta-me um mundo em que ouves falar que vêm refugiados para Portugal e tu dizes ‘o quê? Como assim?’. Assusta-me olhares para o teu umbigo e todo este fechar de fronteiras.

O encontro com o Jimmy Fallon foi o ponto alto da sua carreira?

Não, não. Costumo dizer que não fui eu que pedi para tirar foto, foi ele que sugeriu. A minha mulher ofereceu-me um bilhete para a última apresentação de um espetáculo do Billy Crystal - ‘700 Sundays’. Quando saímos estavam duas miúdas histéricas com um rapaz de capucho, que não percebi quem era, e ficámos a olhar. (Este é o lado da distância nos Estados Unidos: quando vês o Jimmy Fallon sabes que nunca mais o vais ver na vida. Em Portugal somos mais descontraídos e cá também não há famosos, há reconhecidos.) Ele olhou para mim e para a minha mulher e perguntou: ‘também querem uma foto?’. Por isso é que digo a brincar que foi ele que perguntou se eu queria uma foto. Fico feliz pelas pessoas serem o que aparentam.

Precisávamos de um ghostbuster para egos, chegava lá e sugava-lhe o ego e a pessoa passava a ser normalJá lhe aconteceu conhecer uma pessoa que admirava e ficar dececionado?

Já, já aconteceu. Enquanto reconhecido, volto a dizer que não há famosos, é achares que és mais do que aquilo que és. Do caraças é um médico que tira um coração de um gajo e põe lá outro. Esse gajo é do caraças, deixa-o ser cagão, porque andou a estudar não sei quantos anos para aquilo. Tudo o resto, somos só pessoas. Para isso está o Obama, por exemplo, que tem sempre mais likes. Precisávamos de um ghostbuster para egos, chegava lá e sugava-lhe o ego e a pessoa passava a ser normal. As pessoas embandeiram um bocadinho e isso neste país é só parvo.

Qual o melhor humorista português?

Gosto muito do Aldo Lima, tem um humor muito especial, físico, é muito diferente. É um indivíduo com um olhar muito particular da atualidade, não sou um indivíduo asneirento, o Aldo também não, identificamo-nos muito nisso.

Não podes avaliar as pessoas, porque eu já fiz tanta merda na minha carreira, que hoje em dia faria diferente e melhorE o de que menos gosta. Há algum tipo de humor com que não se identifique tanto? Acabou de dizer que não era asneirento, por exemplo…

O humor é relativo. Gosto de humoristas que são asneirentos, no Brasil, por exemplo. O Rafinha Bastos, o Danilo Gentili, eles, por exemplo, são muito asneirentos e não me choca nada. Acho que utilizam a asneira de uma forma muito rica. Não podes avaliar as pessoas, porque já fiz tanta merda na minha carreira, que hoje em dia faria diferente e melhor. Estamos todos numa aprendizagem. As próximas gerações serão sempre melhores porque têm uma outra base. Já vi humoristas que estão na praça hoje em dia, que na altura faziam coisas péssimas e hoje em dia vi evoluções brutais e coisas muito boas. O Hugo Sousa está ótimo e notas perfeitamente a evolução que ele fez e isso não faz dele pior no início, ele apenas aprimorou a sua arte.

O que é que diria ao Nilton que começou há 18 anos em Portimão?

Sempre tive o cuidado de ver os vídeos, mas se calhar diria 'não vás a todas'. Às vezes há uma tendência de quereres ir a todas e de fazeres tudo ao mesmo e não há necessidade, há tempo para tudo. 

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