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Ossos, dentes, ADN. O "complexo" processo de identificação das vítimas

A identificação das 64 vítimas da tragédia do passado sábado foi iniciada na madrugada de dia 19 e concluída quatro dias depois, em tempo recorde. Porque como explicaram especialistas ao Notícias ao Minuto, este tipo de processo é, por norma, demorado.

Ossos, dentes, ADN. O "complexo" processo de identificação das vítimas

O Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), através do recurso à comparação genética, deu por terminado esta sexta-feira (dia 23) o trabalho de identificação das 64 vítimas do incêndio de Pedrógão Grande.

No comunicado enviado às redações com esta confirmação, o Ministério da Justiça especificou que 18 cadáveres foram identificados com "recurso ao ADN" e deixou uma palavra aos profissionais envolvidos neste trabalho de identificação por o terem concluído num "curto período de tempo".

Este processo de identificação esteve desde início a cargo de uma equipa multidisciplinar do INML, criada após a queda da ponte em Entre-os-Rios, para atuar de forma rápida em casos de catástrofe, que resultam em múltiplas vítimas. Foi esta equipa que, juntamente com a polícia científica da Polícia Judiciária, procedeu à recolha e identificação dos cadáveres.

A verdade é que a identificação das vítimas de Pedrógão foi realizada em tempo recorde porque, como explicou Alexandre Quintas, coordenador da Licenciatura em Ciências Forenses e Criminais do Instituto Superior de Ciências de Saúde Egas Moniz (ISCSEM), ao Notícias ao Minuto, nestes casos o processo de identificação pode ser demorado.

O estado de um corpo carbonizado

Um corpo carbonizado significa que os restos mortais – músculos e tecidos – estão completamente reduzidos a uma amálgama sólida, “como, por exemplo, quando se está a queimar açúcar”. Estes corpos sofrem mutilações severas e perdem grande parte, ou a totalidade, das feições.

“Quando está reduzido a pó, como o caso das pessoas que são cremadas, aí tudo o que é orgânico passa a dióxido de carbono e água e passa para a atmosfera, mas ficam os elementos metálicos - o nosso corpo tem cerca de 27 - alguns deles não passam a dióxido de carbono e água. Ficam restos de amónio, de sais, que ficam reduzidos a cinza. Para isso é preciso uma incineração, que demora algum tempo, nem sempre existe energia de combustão suficiente para isso acontecer, no caso de um corpo”, sustenta Alexandre Quintas.

Como se identifica um cadáver carbonizado

A identificação que se procura de imediato é a chamada identificação não científica, ou secundária. São procuradas “as características únicas” da vítima. Estas características são de ordem muito variada: matrícula do carro em que seguiam, roupas, alianças ou outros adornos, próteses, etc. Esta identificação secundária tem que ser sempre confirmada, a posteriori, por identificação com elementos científicos: ADN ou registos dentários.

“Tudo depende do estado dos restos mortais após o incêndio. E houve casos em que os incêndios atingiram temperaturas elevadíssimas, em que pouco restava”

As partes mais resistentes do corpo humano são os ossos e os dentes, que “geralmente, são utilizados nos processos de identificação”. “No caso dos registos dentários, por um médico dentista forense, no caso dos ossos por um antropólogo forense”, explica Alexandre Quintas.

Este tipo de análises são reservadas para cadáveres que foram severamente queimados e que necessitam que se aplique uma observação mais detalhada. “Se houver ainda tecidos que não tenham sido completamente carbonizados pode haver análise de ADN, mas nem sempre isso é possível”, indica.

Cathy Paulino, investigadora no Laboratório de Ciências Forenses Psicológicas Egas Moniz e especializada nesta área, reforça ao Notícias ao Minuto, que esta análise de ADN “depende do estado do corpo, a temperatura a que foi exposto e durante quanto tempo”.

"O ADN é extraído da parte dos ossos ou dentes, medula óssea. Poder-se-á utilizar o DNA nuclear que é normalmente utilizado para fazer um perfil genético. Nestes casos, quando as amostras estão degradas, poder-se-á estudar o DNA mitocondrial que é mais resistente".

A sequência genética do ADN é depois comparada com “alguma amostra” cedida pela família, seja da própria vítima ante-mortem (fios de cabelo, por exemplo) ou de algum familiar.

A morosidade do processo de identificação de vítimas

O processo de identificação de vítimas de incêndio depende, obviamente, do grau das queimaduras e do tempo que o corpo foi exposto a essas temperaturas, como já foi escrito. Cathy Paulino afirma, a título meramente indicativo, que a identificação através de ADN demora “provavelmente, dois dias”.

É primordial a celeridade do processo nesta fase inicial, uma vez que as amostras são biológicas. “Primeiro é feita a autópsia e depois, a partir da autópsia, serão enviadas as amostras para os outros departamentos, neste caso o laboratório de genética, que fará a análise da parte do ADN”, indicou a investigadora.

Ainda assim, o processo é complexo, como explica Alexandre Quintas.

“Por exemplo, imagine que tem uma amálgama dentária. Se a amálgama derreter significa que naquele ponto atingiu 1.300 graus, mas do outro lado da face pode ter ainda amálgama, porque desse lado não atingiu essa temperatura. As coisas chegam a ser tão complexas quanto isto. E isto origina uma morosidade muito grande na análise dos corpos”.

Há, no entanto, outros problemas que também podem prolongar o processo. “Um deles é saber se há registos dentários, se existem realmente particularidades que permitam uma identificação imediata… Na ausência destes, será um processo moroso".

Mas "nós temos equipas excecionais que trabalham a nível internacional portanto não me parece que seja essa a questão”. E não foi.

Quatro dias após a tragédia que assolou os concelhos de Pedrógão Grande e Góis, os corpos das 64 vítimas a lamentar foram entregues às famílias e emitidas "as respetivas certidões de óbito, necessárias à realização dos funerais e subsequentes atos sucessórios", declarou ontem o Ministério da Justiça.

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