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O médico explica: O papel da dieta na doença inflamatória intestinal

Estima-se que três em 10 pessoas sofrem de algum tipo de doença inflamatória do intestino e não sabem. Nesta edição da rubrica 'O médico explica', Laura Oliveira, médica pediatra no Hospital CUF Infante Santo conta como a incidência de doença inflamatória intestinal (DII) está a aumentar de forma acentuada nos países ocidentais e em desenvolvimento, em franco paralelismo com o aumento do consumo das dietas ocidentalizadas. 

O médico explica: O papel da dieta na doença inflamatória intestinal

"Dados epidemiológicos mostram uma relação clara entre o desenvolvimento da DII e o consumo de açúcar e de hidratos de carbono refinados (como por exemplo, pão e bolos). Alguns estudos, confirmaram a associação entre o aumento da ingestão de gorduras e proteínas com o risco de desenvolver a doença. Em sentido inverso, o aumento da ingestão de fibras alimentares associou-se a um menor risco de desenvolvimento de uma das formas de apresentação da DII, a Doença de Crohn", alerta Laura Oliveira. 

A observação de uma forte associação entre o crescimento desse tipo de patologias e o consumo de um tipo de alimentação tipicamente ocidental, levou a que a médica teorizasse de que a dieta poderia ter um papel importante no desenvolvimento destas doenças.

Estima-se que, em Portugal, 20 mil pessoas vivam com doença inflamatória do intestino. Trata-se de uma patologia que pode afetar pessoas de todas as idades, mas, por norma, os primeiros sintomas surgem antes dos 30 anos, com pico de incidência dos 14 aos 24 anos. Contudo, há casos em que a doença começa entre os 50 e os 70 anos de idade.

As doenças inflamatórias intestinais podem ser divididas em dois principais tipos: a Doença de Crohn e a Colite Ulcerosa. No caso da Doença de Crohn, ocorre uma inflamação crónica que pode afetar qualquer segmento do tubo digestivo, podendo aparecer em 'manchas' e impactar algumas áreas do trato gastrointestinal. Trata-se de uma doença onde a cirurgia pode ser necessária, mas não tem cura. A Colite Ulcerosa é uma doença crónica limitada ao intestino grosso (cólon) e ao reto, com tendência para agudizar periodicamente durante vários anos. Os principais sintomas passam por dejeções diarreicas, frequentemente com sangue, cólica abdominal e desejo urgente de evacuar. As principais complicações são hemorragia, colite fulminante e cancro do cólon, mas também podem ocorrer inflamações nas articulações, inflamação na parte branca dos olhos, nódulos cutâneos e feridas.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a médica Laura Oliveira explica como a dieta pode contribuir ativamente para o aparecimento de doenças inflamatórias intestinais e também como a alimentação pode ser um elemento chave no tratamento das patologias. 

Terá a dieta algum papel no aparecimento da doença inflamatória intestinal?

A incidência de doença inflamatória intestinal (DII) está a aumentar de forma acentuada nos países ocidentais e em desenvolvimento, em franco paralelismo com o aumento do consumo das dietas ocidentalizadas. 

Esta observação, levou à teorização de que a dieta poderia ter um papel importante no desenvolvimento destas doenças.

Como se caracteriza a dieta padrão 'ocidental'? 

A dieta padrão 'ocidental' destaca-se por ter um alto teor proteico, excesso de açúcar e de gorduras e um baixo consumo de vegetais e fruta. Associa-se também a uma ingestão aumentada de alimentos altamente processados.

Em que medida a dieta pode ser responsável pela inflamação do trato digestivo?

Uma das hipóteses aventadas, é que alguns componentes alimentares possam provocar um desequilíbrio na microbiota intestinal (microrganismos que habitam o intestino) e afetar a integridade da barreira intestinal, podendo causar um estado pró-inflamatório que precede o desenvolvimento de DII

Que alimentos podem perturbar a barreira intestinal?

Dados epidemiológicos mostram uma relação clara entre o desenvolvimento da DII e o consumo de açúcar e de hidratos de carbono refinados (como por exemplo, pão e bolos).

Alguns estudos, confirmaram a associação entre o aumento da ingestão de gorduras e proteínas com o risco de desenvolver a doença.

Em sentido inverso, o aumento da ingestão de fibras alimentares associou-se a um menor risco de desenvolvimento de uma das formas de apresentação da DII, a Doença de Crohn.

Que outros componentes da dieta podem estar implicados na génese da doença?

Pesquisas recentes indicam que vários aditivos alimentares, como maltodextrina, agentes emulsificantes ou espessantes, como a carboximetilcelulose, carragenina e goma xantana, podem ter efeitos prejudiciais na homeostase intestinal. Para identificar se existe a presença destes aditivos nos alimentos que consome, deve procurar identificá-los através da leitura dos rótulos das composições.

Experiências in vitro com a maltodextrina, por exemplo, revelaram uma perturbação das células intestinais de defesa anti-bacteriana demonstrando aumento das bactérias patogénicas intracelulares, com potencialidade para induzir doença intestinal.

Isso é ainda mais preocupante pelo uso generalizado da maltodextrina em alimentos processados, estimando-se que mais de dois terços dos alimentos embalados contenham maltodextrina ou "amido modificado" (milho, trigo, etc.).

Também se demonstrou que outros aditivos alimentares, como emulsionantes ou espessantes (usados para estabilizar alimentos preparados ou para modificar / melhorar a textura e viscosidade do produto), podem provocar disfunção da barreira intestinal. A carragenina ou a goma xantana, contam-se entre estes produtos, que sendo produtos naturais são, tendencialmente classificados como seguros. No entanto, experiências em roedores, têm demonstrado que, apesar de 'naturais', possuem a capacidade de induzir inflamação intestinal e proliferação bacteriana. Por estes motivos se está, atualmente, a rever a margem de segurança da sua utilização na alimentação. 

As manipulações na dieta podem alterar o curso da doença inflamatória intestinal e fazer parte do seu tratamento?

Há fortes evidências científicas de que a terapêutica nutricional é altamente eficaz no tratamento de certas formas da doença de Crohn

A nutrição entérica exclusiva era usada inicialmente como terapêutica nutricional suplementar em doentes adultos desnutridos. Esta intervenção nutricional rapidamente se revelou muito eficaz. Tornou-se claro que a nutrição entérica exclusiva durante um determinado período, é um potente tratamento anti-inflamatório, altamente eficaz para induzir a remissão em doentes com doença de Crohn, e é a abordagem terapêutica inicial preferencial na idade pediátrica.

Em relação a outras dietas - como as dietas de exclusão de hidratos de carbono (específicos ou em baixa quantidade), a dieta de baixo teor em FODMAP (Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides And Polyols), a dieta paleolítica, a dieta LOFFLEX – (Low Fat/ Fibre Limited Exclusion), a dieta CDED (Crohn Disease Exclusion Diet) - são necessários mais estudos clínicos para testar a sua segurança e eficácia no tratamento da DII.

Em que medida as intervenções dietéticas / nutricionais devem fazer parte das estratégias de controle da doença?

É necessário conhecer mais profundamente a fisiopatologia da doença, para que se possam propor, de forma personalizada e segura, alterações à dieta, combinando as diferentes estratégias de tratamento médico.

A intervenção dietética, no controle destas doenças, é um conceito sedutor, mas tem de ser fundamentado em mais estudos científicos, de modo a que se evitem dietas de exclusão, muito restritivas e que possam induzir carências nutricionais. 

A nutrição entérica exclusiva com dieta polimérica, elementar ou semielementar está recomendada na indução da remissão inicial da Doença de Crohn em idade pediátrica e apresenta resultados satisfatórios (melhores que a nutrição entérica parcial) e tem sido por nós utilizada. Esta é uma dieta especial com nutrientes integros, com ou sem lactose, baixa osmolaridade, hiperprotéica, hipercalóricas suplementadas com fibra.

Parece-nos ser de bom senso aconselhar algumas restrições dietéticas, nomeadamente da lactose, dos ácidos gordos polinsaturados ómega-6, das gorduras saturadas, de alimentos processados e enlatados. Deve-se contrariar o uso excessivo de carnes vermelhas, utilizando em alternativa carnes de aves e peixes com alto teor de ácidos gordos ómega-3. Deve-se incentivar o consumo de todos os legumes e frutas e que os alimentos sejam cozinhados utilizando gorduras monoinsaturadas, como o azeite. Os doentes em remissão devem ajustar a dieta em função da sintomatologia desencadeada por alimentos específicos.

Nos casos em que há síndroma do intestino irritável associado, a dieta de baixo teor em FODMAP poderá ser tentada. Esta, assim como as outras dietas atrás referidas, só devem ser utilizadas sob aconselhamento médico e sob supervisão de dietista/nutricionista.

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