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Maria Bethânia foi brilho e luz em Lisboa. Houve fado e homenagens

De alguma maneira, talvez até com explicação no plano místico, a cantora satisfez as quase 3 mil pessoas que foram homenageá-la no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Maria Bethânia foi brilho e luz em Lisboa. Houve fado e homenagens
Notícias ao Minuto

16:40 - 22/10/17 por Notícias Ao Minuto

Cultura Concerto

Como será escolher de entre um reportório de 52 anos de carreira, resumi-lo e colocá-lo em palco? A cantora Maria Bethânia conseguiu, de alguma maneira, talvez até com explicação no plano místico, satisfazer as quase 3 mil pessoas que foram homenageá-la no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, este sábado. O espetáculo é o primeiro de duas apresentações na capital portuguesa - segue para o Porto, onde dará outro concerto, na próxima quarta-feira.

A liberdade a cantar e a gratidão presentes na sua obra são as marcas do espetáculo chamado 'Grandes Sucessos', já sem o maestro que a acompanhava, Wagner Tiso, agora com Túlio Mourão no mesmo posto. Para quem costuma entrar em estúdio, fazer um disco e sair em digressão, normalmente, de dois em dois anos, Bethânia reitera, ainda assim, que "não para para olhar para trás".

Para Maria Bethânia, apesar de cantar 'Os Sucessos', o importante no espetáculo é mostrar "o que uma pessoa que tem 50 anos de carreira pensa hoje, o que ela sente hoje", conforme indicou ao jornal Público. O concerto navegou dos orixás, que a guiam e protegem - afinal, ela é "a menina dos olhos de Oyá" -, às homenagens aos grandes amigos músicos e compositores, uns ainda connosco, outros apenas nas canções em forma de poesia 'bethanesca', como no caso do músico Naná Vasconcelos, pernambucano, falecido no início de 2016.

Num bonito tributo ao percussionista, Bethânia conseguiu emocionar um público 'exilado' e cheio de saudades, com a devida atenção à quantidade de brasileiros residentes em Portugal ao puxar 'Frevo nº2'. "Quando me lembro, o Recife está longe. A saudade é tão grande qu até me embaraço", ouvia-se em uníssono, mesmo a 3.652,17 km da capital pernambucana, fora do Carnaval e em pleno mês de outubro. Naná foi e é grande e assim foi também Bethânia, ao não o deixar cair no esquecimento, pelo mundo afora.

Fez o mesmo ao lembrar as suas raízes e a sua história no palco, como é costume. Cantando o conterrâneo Dorival Caymmi, ou mesmo os clássicos do irmão, Caetano Veloso - "mestre do seu barco", citado nos tradicionais agradecimentos de 'Samba da Bênção', de Vinicius de Moraes. Caetano também esteve no pot-pourri de 'Reconvexo', por exemplo, intercalado com os sambas de roda de Santo Amaro, cidade natal de ambos, na enseada Baiana.

Ao longo do reportório, e apesar de ser considerada um cânone da MPB [música popular brasileira], Bethânia não se acanha ao trazer musicas consideradas do 'povão', como a da dupla sertaneja Zezé de Camargo & Luciano. "É o amor que veio como um tiro certo no meu coração. Que derrubou a base forte da minha paixão. Que fez eu entender que a vida é n-a-d-a (falando pausadamente para ver se conseguimos compreender que a poesia está em tudo) sem você", cantou.  E 'namorou' mesmo o público, bem doce, ao som de outra dupla sertaneja, Bruno e Marrone. Quebrar essa barreira, do que é ou não 'boa música', é uma das demonstrações mais claras de liberdade na seleção do reportório da cantora.

Portugal

"Se me perguntarem o que é minha pátria, direi não sei (..) Mas sei que minha pátria é a luz, o sal, a água (…)". A poesia, sempre presente no trabalho de Bethânia, era e é o que usa para intercalar as suas canções, como quem anuncia e prepara para o que há de vir. Foi assim com a homenagem a Portugal. Sem deixar passar em branco, Bethânia puxou das típicas palmas de acompanhamento do fado corrido (mais alegre), ao cantar a maior fadista portuguesa de todos os tempos e pioneira do fado moderno, Amália Rodrigues, com 'Meu amor é marinheiro', algo que tem feito desde que incluiu a canção no disco 'Abraçar e Agradecer', lançado em 2016.

Outro momento forte foi quando Bethânia resgatou 'Balada de Gisberta', composta pelo português Pedro Abrunhosa e que a cantora também já havia incluído no disco 'Amor, Festa e Devoção', de 2007. A música conta a história de Gisberta, imigrante ilegal brasileira, transexual, prostituta, sem-abrigo e seropositiva. O homicídio de Gisberta causou um impacto profundo na sociedade portuguesa, devido ao seu grau de violência. O facto de Bethânia a trazer ali, àquele palco, é uma forma de mostrar que não esquecemos as dores causadas por quem amamos, mesmo quando somos da mesma família.

Final

Maria Bethânia permite-se a terminar o espetáculo, antes do encore, com a canção francesa 'Non, Je Ne Regrette Rien' (de Charles Dumont e Michel Vaucaire, interpretada por Edith Piaf), que, didaticamente, traduz para o público em forma de poesia.

Para encerrar o encore, como não poderia deixar de ser, a artista cantou o seu amigo e um dos grandes compositores brasileiros, Gonzaguinha (1945-1991), com 'O Que É, O Que É?', 'Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é, meu irmão?' .

Brasileiros e portugueses agradecem a belíssima noite com que foram presenteados. Bethânia não dececiona nunca. Foi brilho e luz.

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