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"Andamos a alimentar as prioridades da economia alemã há bastante tempo"

A eurodeputada do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, defendeu hoje que a Europa anda há demasiado tempo a alimentar as prioridades da economia alemã, para rejeitar terminantemente a criação de um exército europeu.

"Andamos a alimentar as prioridades da economia alemã há bastante tempo"
Notícias ao Minuto

20:00 - 13/11/18 por Lusa

Política Marisa Matias

"A minha posição relativamente à criação de um exército europeu, independentemente do discurso da chanceler alemã, é de oposição total. Eu creio que não há nenhuma necessidade construída, é apenas uma desculpa para alimentar uma indústria, a do armamento, que alimenta as exportações de muitos países da União Europeia, em particular da Alemanha e da França", notou.

Marisa Matias justificou a defesa da criação de um exército europeu, feita hoje por Angela Merkel no seu discurso sobre o Futuro da Europa no Parlamento Europeu, com a vontade de usar o orçamento comunitário como um pretexto para fazer renascer essa indústria.

"Nós andamos basicamente a alimentar aquelas que são as prioridades da economia alemã há bastante tempo e é por isso que há países deficitários e a Alemanha tem excedente comercial. Já andamos a fazer a política alemã há tempo de mais, já o sentimos em Portugal de forma bastante dura", lembrou.

Para a eurodeputada do BE, enquanto a líder da CDU permanecer à frente do Governo alemão, o mote será "Angela Merkel sonha, as instituições fazem, a obra nasce". E não me parece que seja um caminho de grande futuro da UE se continuar assim", completou.

Instada a comentar a insistência da chanceler da Alemanha no uso da palavra solidariedade, que repetiu dez vezes no seu discurso, Marisa Matias argumentou que "não há nenhuma tradução de solidariedade" no Quadro Financeiro Plurianual da UE para o período 2021-2027.

"Solidariedade não rima com cortes na coesão, não rima com cortes em políticas que significam alguma convergência, como a Política Agrícola Comum, e com o aumento das [verbas para] políticas que têm mais a ver com concorrência. Ela pode repetir solidariedade várias vezes, mas creio que a solidariedade a que a chanceler aqui se refere e que também refere nas instituições europeias é aquela que mais serve aos interesses da Alemanha como motor da Europa", criticou.

A eurodeputada bloquista, que será a cabeça de lista do seu partido às eleições europeias de maio, sublinhou ainda a antítese da solidariedade inscrita no terceiro pilar da União Bancária.

"Sabemos que a União Bancária não ficou completa por causa do fundo de garantia de depósitos, que nunca foi aceite e que supostamente seria um instrumento comum que nos permitiria salvaguardar os depósitos acima dos 100 mil euros em caso de uma nova crise financeira. O que ela falou hoje foi apresentar uma proposta para o fundo de garantia de depósitos, tendo em conta que os riscos são muito diferentes de país para país, ou seja, vamos pagar cada um o seu", analisou.

Marisa Matias concluiu dizendo que nem tudo o que a chanceler alemã fez na Europa foi mau, ressalvando, contudo, não poder estar "mais em desacordo com aquilo que tem sido a linha política e económica de Ângela Merkel".

"Creio que qualquer chanceler alemão ou chanceler alemã poderá continuar nesta linha política, porque os tratados foram alterados de maneira a permitir que a Alemanha tenha o domínio", concluiu.

Angela Merkel apresentou hoje ao Parlamento Europeu a sua visão do futuro da Europa, no 12.º de um ciclo de debates com chefes de Estado e de Governo iniciado em janeiro e que contou com a participação do primeiro-ministro português, António Costa, em março.

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