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"Em Torres Vedras não há só matrafonas. É um Carnaval livre e para todos"

O rei e a rainha do Carnaval de Torres Vedras são das figuras mais emblemáticas do evento e ao Notícias ao Minuto tentaram explicar o que torna este o evento mais importante da cidade. As palavras para fazê-lo são escassas até porque concluem: só quem vive é que sabe o que é. Aceita o convite?

"Em Torres Vedras não há só matrafonas. É um Carnaval livre e para todos"
Notícias ao Minuto

08:07 - 02/03/19 por Andrea Pinto 

País Carnaval

Se só agora se deu conta de que o Carnaval está a chegar, saiba que em Torres Vedras o evento já é esperado há mais de 365 dias e que é logo em janeiro que a Ivete Sangalo começa a levantar a ‘Poeira’ pelas ruas da cidade. Os foliões já tiraram os fatos do armário e não há torriense que não siga as pegadas da Mocidade brasileira e que não grite bem alto ‘Eu vou, Eu vou’. Portugal não é, por esta altura, um ‘País Tropical’ mas por aqui não há frio que faça com que um verdadeiro folião fique em casa nos próximos dias.

Dão pelo nome de ‘Assaltos ao Carnaval’ e são como uma espécie de ‘aquecimento’ para aquele que é o evento mais aguardado na cidade do Oeste. A liderar as hostes do evento estão Ricardo e Fernando, os famosos reis do Carnaval, e que o Notícias ao Minuto foi conhecer para se pôr a par das tradições do Carnaval mais português de Portugal.

Vestidos a rigor, contaram-nos um pouco mais sobre esta paixão e explicaram-nos como é possível manter a alegria constante em seis dias de festa, que são literalmente em ritmo ‘non stop’.

A matrafona não tem de ser “abichanada”, tem é de transmitir a folia 

Lá vem ela a tropeçar no salto, a abraçar todo o mundo e cantando alto, 

manda beijo com batom borrado, num vestido que parece do tamanho errado

É assim que, em poucos versos, Susana Félix descreve, no Samba da Matrafona, aquela que é a figura mais famosa do Carnaval de Torres Vedras, uma ‘personagem’ que tem na rainha do Carnaval o seu mais ‘belo exemplar’.

Ricardo Rodrigues tem 30 anos e há três, que se tornou rainha do Carnaval de Torres Vedras. A paixão pelo Carnaval já vem, contudo, de há muito tempo, tendo-se estreado nestas lides com apenas nove meses, vestido de nazarena. Seguiram-se anos de folia que acabariam com o seu ingresso numa das associações do evento: os Ministros e Matrafonas.

Após a renúncia da anterior rainha, a que se soma o facto de “ser homem, um bom folião e ter uma cara bonita”, Ricardo acabou por ser escolhido pela Real Confraria para assumir o papel da rainha das Matrafonas.

“Isto é um papel que nós encaramos e isso não quer dizer tenha de ser abichanada ou algo do género. Nada disso. [O objetivo] é transmitir a folia de uma verdadeira matrafona a todos os foliões”, afirma Ricardo, assumindo que “torriense que é torriense gosta de ser matrafona”.

A explicação para isso nada tem a ver com a vontade de vestir o papel de mulher por um dia, mas sim de cumprir uma tradição que remonta a 1923, tal como nos conta: 

“Nos primórdios, quando foi criado o rei, as senhoras não podiam brincar ao Carnaval como hoje acontece. Era uma brincadeira em que elas não eram permitidas. Assim, nos dois primeiros carnavais havia só um rei. E ao terceiro ano, um senhor vestiu-se de rainha e com ele trouxe a sua famosa corte de matrafonas com roupas da mulher, da avó, da irmã… Foi daí que nasceu a matrafona”.

A estreia do rei que é a prova de que o Carnaval é também diversidade

Ao lado de Ricardo e pela primeira vez como rei está Fernando Martins. Após dez anos de mandato, o anterior rei renunciou ao seu cargo, abrindo portas ao professor de 44 anos, que confessa ainda estar em fase de adaptação.

O rei do Carnaval possui já um longo historial enquanto folião do evento, pertencendo à Orquestra Sinfónica da Guarda Armada – OSGA – a qual também teve influência na sua nomeação para o cargo. Uma “responsabilidade” que Fernando mostrou de imediato disponibilidade “para agarrar”.

“Este ano está a ser excelente e muito animado. Fui muito bem recebido e estou numa fase de aprendizagem, de tentar perceber quais os momentos todos do evento. Apesar de já ter alguma história no Carnaval, era sempre noutra função. Agora deste lado estou a tentar inteirar-me e beber um pouco desta dinâmica nova para mim”, afirma.

Já quando questionamos se se sente privilegiado por ser dos poucos homens com autorização para se vestir como tal, Fernando ri-se e conta-nos um pouco mais sobre a história do evento da sua terra. “O Carnaval não é só matrafonas. Por exemplo o grupo ‘Ministros & Matrafonas’, de que falávamos há pouco, é composto por um homem que se veste de matrafona e outro de ministro. Também temos um grupo muito importante que são os Fidalgos, que também são acompanhantes dos reis, e também se vestem de homens fidalgos. A diversidade está sempre presente, não há uma regra”, nota. 

Seis dias de Carnaval? É pouco

Se por estes dias é possível ouvir os Casseta & Planeta cantar ‘Eu tô tristão’, este não é, de modo algum, sentimento que se viva entre os torrienses.

“Nós vivemos o Carnaval com muita intensidade”, diz-nos a rainha Ricardo, acrescentando que o Carnaval “está no sangue” de qualquer torriense. “Em Lisboa vivem muito os Santos Populares. A intensidade com que isso se vive lá nos bairros e com as sardinhas, é aquilo que os torrienses vivem com o Carnaval. Ou seja, o Carnaval para nós é a melhor festa que há”, afirma.

Fernando lembra, contudo, que enquanto rei e rainha “há momentos em que têm de respeitar algum protocolo”, mas garante que é possível conciliar a diversão com a responsabilidade, até porque findos os corsos “podemos vestir-nos com os nossos amigos e ir para o resto da noite vestidos como bem entendemos e divertirmo-nos no meio da multidão”.

Então, qual o segredo para aguentar seis dias de festa, interrogamos. “Há momentos em que estamos cansados mas basta pensar que o Carnaval só dura seis dias e continuamos sempre em alta. Eu tenho episódios de estar a ser maquilhado a dormir mas assim que começa o corso estou em pé. Porque se a gente não aproveitar o pouco tempo que tem – porque para nós seis dias é pouco – nada feito”, diz Ricardo.

O Carnaval partilha-se com a família... os sapatos altos é que não

Dedicados de corpo e alma ao evento da cidade, são poucas as oportunidades para pôr os pés em casa. Se para Fernando, já com dois filhos mais crescidos, é possível conciliar bem o tempo com a família, uma vez que todos estão entretidos pelas ruas e não se queixam com a falta da presença do pai, para Ricardo a situação está mais complicada desde o ano passado.

A rainha foi pai cinco dias após o fim do Carnaval do ano passado e confessa que foi preciso, este ano, ponderar quem ficaria com a criança. Isto porque, como nos explicam, o Carnaval está no sangue de todos os torrienses e não há quem queira faltar. 

Se o tempo é algo que Ricardo não se importa de partilhar, há contudo algo em que não deixa a mulher tocar. "Eu tenho os meus sapatos altos e não divido nada com ninguém", refere, revelando que a preparação para o Carnaval é feita com pompa e circustância, numa incursão a lojas de roupas de senhoras, que faz com que muitos olhem para si de lado, mas rapidamente percebam que só pode ser um homem de Torres Vedras.

Carnaval: "Vivê-lo é o mais importante"

Autointitula-se como o Carnaval mais português de Portugal e espera, este ano, milhares de visitantes. Mas aquilo que faz dele realmente especial é difícil de descrever, mesmo por quem o vive de forma tão intensa.

"A grandeza do Carnaval reside na sua autenticidade na liberdade criativa, na sátira, na possibilidade de toda a gente participar. Não há discriminação, não há espetadores nem figurantes, todos participam. E é isso que torna  o Carnaval de Torres completamente único" afirma o rei Fernando, para quem não há palavras que descrevam a "euforia e alegria tão natural e sentida que faz com o Carnaval seja tão especial".

"É único e indescritível e só vivendo é que se consegue ter uma ideia do que é. Vivê-lo é o mais importante", atira o rei, em forma de convite para os que queiram visitar a cidade entre os dias 1 e 6 de março. Um convite que é feito mesmo aos que não gostam desta festa.

"[O Carnaval" não se rege por religiões, nem por sexismos, toda a gente é livre e toda a gente que vem ao Carnaval pode brincar. Não há baias a separar-nos. Nós costumamos dizer, e as pessoas às vezes até ficam perplexas: 'até quem não vem mascarado pode desfilar'. É um Carnaval livre e é um Carnaval para todos", diz, por sua vez, a rainha.

Fica assim o convite e, no caso de aceitar, lembre-se: aproveite, aproveite ao máximo, porque depois de quarta-feira, dia em que se realiza o enterro do entrudo do Carnaval, são 365 os dias (ou mais) que o separam do próximo Carnaval. E folião, se isso já o deixa preocupado faça como Martinho da Vila e "Cante, Cante" porque um ano passa a correr e, acredite, "a vida vai melhorar".

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