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"Nos próximos dias, a governação do concelho fica a cargo da monarquia"

No dia em que entrega as chaves do poder da cidade de Torres Vedras ao Rei e Rainha do Carnaval, Carlos Bernardes, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, é o entrevistado do Vozes ao Minuto.

"Nos próximos dias, a governação do concelho fica a cargo da monarquia"
Notícias ao Minuto

09:30 - 01/03/19 por Andrea Pinto 

País Carlos Bernardes

A vida são dois dias e o Carnaval de Torres são seis. Este é o lema daquele que se autointitula do Carnaval mais português de Portugal. A verdade, porém, é que não são seis dias, mas muitos mais.

No dia 9 de fevereiro, a cidade acolheu a inauguração do Monumento ao Carnaval de Torres Vedras, que se encontra no centro da cidade até ao final dos festejos, e, desde então, foram também abertas as festividades para todos aqueles que quisessem tirar da gaveta os disfarces e começar a ‘aquecer’ para os mais aguardados dias do ano na cidade do Oeste.

O Notícias ao Minuto quis conhecer mais de perto este evento, 'tomando de assalto' para uma entrevista o presidente da autarquia local, Carlos Bernardes.

Durante os próximos seis dias, o autarca entrega as chaves do município, ou seja o poder, ao Rei e à Rainha do Carnaval de Torres, e vê a sua cidade a ser dominada por uma verdadeira monarquia carnavalesca.

E, após um ano de trabalho a preparar o evento mais importante da cidade, o autarca reconhece que agora é altura de descomprimir e provar por que razão durante os próximos dias, todos os caminhos devem ir dar a Torres Vedras... quer se goste, ou não, do Carnaval.

O Carnaval de Torres Vedras assume-se como “a maior organização desorganizada do país”. Como se organiza um evento nestas condições?

Com muita experiência e com várias décadas a fazer do Carnaval de Torres Vedras uma imagem de marca da nossa cidade, da nossa região, e também de Portugal. Os carnavais têm um papel importante de Norte a Sul do país e Torres Vedras dá, também, o seu contributo.

Talvez muitos não percebam a importância do Carnaval de Torres Vedras, que faz parte inclusive do roteiro do turismo de Portugal. Como lhes explicaria a dimensão deste evento?

É um evento que tem início a partir do dia 9 de fevereiro, dia em que temos a oportunidade de inaugurar o monumento alusivo ao Carnaval, que este ano tem o tema ‘Made in Portugal’, justamente para dar a força que entendemos ser importante para aquilo que se faz bem em Portugal, sempre com a sátira política e social associada.

Ao longo do mês de fevereiro, com os 'Assaltos ao Carnaval' nos bares e discotecas do nosso concelho, teremos a oportunidade de ir promovendo a animação noturna e a atividade económica no território. E depois, de uma forma muito mais organizada, do ponto de vista da palavra, temos os dias propriamente ditos do Carnaval, de 1 a 6 de março, onde se concentra efetivamente o contributo fortíssimo desta atividade no âmbito económico no território. Temos, aliás, um estudo feito pelo Instituto Politécnico de Leiria que aponta para um impacto económico a rondar os 9 milhões de euros. Esperamos, como é obvio, muitos foliões na nossa cidade, e que seja um momento onde as pessoas se possam divertir.

Este é um momento importante porque depois de muito trabalho tem de haver um momento de descompressão. E Torres Vedras está de braços abertos para acolher os foliões, aqueles que gostam de Carnaval, e até os que não gostam podem vir até Torres Vedras, pois estou convicto de que passarão a gostar do nosso Carnaval, que mantém a sua matriz identitária como o Carnaval mais português de Portugal, e onde as nossas matrafonas, os nossos Zés Pereiras e os nossos carros alegóricos de grande dimensão irão evocar a temática do ‘Made in Portugal’, que entendemos que este ano era importante no contexto e no posicionamento de Portugal, que hoje é o melhor destino turístico do mundo.

Qual é o maior desafio na organização de um evento destes?

O maior desafio é podermos, de certa forma, estar a cooperar, já de há uns meses a esta parte, com as nossas associações carnavalescas e a colaborar na própria temática e podermos envolver toda a nossa comunidade. É isso que fazemos, desde os mais pequenos, com o desfile escolar, até aos nossos seniores, que têm também a oportunidade de partilhar o seu momento com o baile de Carnaval, e depois toda a animação ao longo dos dias. Portanto, desse ponto de vista organizativo é sempre um desafio constante e permanente.

Outra componente que entendemos que é importante, e que temos vindo a trabalhá-la com as forças de segurança, é ser um evento onde milhares e milhares de pessoas vêm a Torres Vedras, e em que se possam sentir seguras. Ano após ano, temos vindo a melhorar este aspeto e queremos, cada vez mais, ter este tipo de preocupações. E depois há também preocupações de índole ambiental. Queremos que a edição de 2019 possa ser também um EcoEvento. 

Estou convicto de que, ao longo dos anos, quem vai ao Carnaval de Torres Vedras pela primeira vez volta sempre e que quem já é ‘habitué’ tem um papel importante. Queremos, cada vez mais, ser um evento onde as famílias têm a oportunidade de participar e onde na realidade possam em termos de organização ter todas as variáveis envolvidas no espírito de cooperação e partilha entre todos para podermos chegar ao enterro do entrudo e dizer, uma vez mais, que valeu a pena continuar com esta metodologia de trabalho.

Uma vez que fala na segurança, pode garantir que quem visita Torres Vedras pode fazê-lo sem receios?

Sim, é isso que procuramos fazer, quer com a GNR quer com a PSP. É um trabalho com uma longa experiência de vários anos e desse ponto de vista estamos convictos de que quem quiser divertir-se em Torres Vedras pode fazê-lo em segurança.

Vamos ter o nosso caneco do Carnaval que vem substituir o copo de plásticoAbordava também a vertente ecológica do evento. Numa altura em que se fala muito da substituição de plástico por outras alternativas, que medidas têm em mente?

Sim, é um facto que há pouco evoquei. Estamos a trabalhar para que seja um Eco Evento. Vamos ter o nosso caneco do Carnaval que vem substituir o copo de plástico. Obviamente que também temos estas preocupações ambientais que são essenciais hoje em dia sobretudo num evento com a dimensão do nosso Carnaval.

Esse caneco de que fala é uma novidade para este ano?

Já o tentámos fazer no ano passado. E este ano, de certa forma, pretendemos aprofundar esta aposta e ano após ano ir melhorando.

Notícias ao MinutoO evento contará com um copo de plástico reutilizável, que tem o valor de 1 euro© Facebook/Carnaval de Torres Vedras

Em termos económicos, falava de movimentos de 9 milhões de euros. Em que é investido posteriormente este valor?

Nove milhões é o valor que o Carnaval gera em termos de atividade económica. Ou seja, toda a atividade que o evento gera em torno de si, em termos de alojamento, restauração, venda de tecidos, etc.. Já o evento propriamente dito, e isto tem acontecido nos últimos anos, é um evento economicamente e financeiramente sustentável naquilo que são as suas despesas e receitas.

Este evento contribui de forma decisiva na afirmação da marca Torres Vedras enquanto destino turísticoO Carnaval de Torres, que este ano é ‘Made in Portugal', dizem também que é “exportado para o mundo inteiro”. Sentem de facto uma forte adesão de pessoas que vêm de fora?

Sim, temos sentido sobretudo nos últimos anos a vinda de turistas de várias geografias. Não só da Europa mas também da Ásia e da América. E o contributo da temática é muito nesse sentido, para lhes explicar aquilo que se faz de bem em Portugal e, a partir da sátira, fazer perceber que Portugal tem uma grande capacidade exportadora. E se falarmos na componente do turismo, este evento contribui de forma decisiva na afirmação da marca Torres Vedras enquanto destino turístico.

Este Carnaval assume-se como o mais português de Portugal. É uma aposta ganha ou já se pensou em trocar as matrafonas, quiçá, por sambistas?

Não. Essa é a nossa matriz e vamos manter-nos dentro dela porque é ela que faz parte da nossa identidade, da cultura torriense, da história do Carnaval de Torres Vedras. As nossas Matrafonas, os nossos Zés Pereiras, o nosso Rei e Rainha.

O 'Samba da Matrafona' foi uma surpresa na promoção do Carnaval de Torres Vedras no ano passado. De que forma é que este tipo de produções dinamiza o evento?

O ‘Samba da Matrafona’ resultou muito bem e e é hoje ouvido, não só em Portugal, mas noutros continentes. Foi um sucesso e acaba por ser a imagem de marca do Carnaval que tem aqui uma força para garantir o seu sucesso através da criatividade. Sendo um evento que aposta cada vez mais em modelos criativos e participativos através da criação, quer da vertente do filme quer da musica, são elementos importantes para podermos consolidar, cada vez mais, o Carnaval de Torres Vedras e excelentes embaixadores do nosso Carnaval.

E para este ano está a ser preparada alguma produção do mesmo género?

Este ano estamos a trabalhar para que possamos ter no Carnaval eventualmente mais uma ou duas produções para que sejam a surpresa de última hora que faz sempre parte do nosso Carnaval.

Durante estes seis dias a governação do concelho fica a cargo dos reis Chegou à liderança da Câmara de Torres Vedras em 2015. Como é participar neste evento antes e depois de assumir este cargo? Ainda se mascara?

Há sempre a entrega das chaves pelo Presidente aos Reis, nesta época. Existe sempre essa tradição. Portanto, durante estes seis dias a governação do concelho fica a cargo dos reis. Essa tem sido sempre a nossa matriz e que tem a ver com o modelo que foi instaurado e em que a monarquia se instala, fica com a chave do reino da República. Mas acima de tudo, e como presidente da Câmara, são dias em que há muito trabalho para fazer enquanto responsável pelo município mas também há momentos para nos podermos divertir. Faço questão de numa ou noutra noite ir divertir-me. Faz parte do ADN de qualquer torriense.

Neste dia o poder passa para a mão da monarquia. Significa isto que o Carnaval é também muito apreciado pelos autarcas locais porque durante estes dias podem descansar e abstrair-se dos problemas e reivindicações dos seus munícipes?

Fazem outro tipo de queixas através da sátira, o que também é engraçado. Passamos nos desfiles e há algumas queixas que nos são apresentadas do ponto de vista da sátira social. Para nós também é motivador e um orgulho perceber que os torrienses conseguem, através da sua criatividade, ter esses momentos e que nos fazem felizes porque é também essa relação de felicidade que temos com a nossa comunidade.

Fazemos também durante estes dias o nosso trabalho de acompanhamento, para que tudo possa decorrer dentro da normalidade, que é também é a nossa função.

Este ano,e como vem sendo hábito, uma comitiva do Carnaval esteve na capital para ser recebida pela autarquia de Lisboa. É um momento que assinala as boas relações entre as duas autarquias?

Sim, há várias décadas que a embaixada do Carnaval se desloca à capital para a entrega de cumprimentos da nossa cidade à de Lisboa. É uma relação interessante do ponto de vista institucional e são momentos importantes porque, além de estarmos a trabalhar na particularidade deste evento, há também momentos protocolares de suas majestades poderem apresentar cumprimentos às várias entidades, neste caso à Câmara Municipal de Lisboa, a um ou outro ministério ou a um departamento público.

Para nós é extremamente importante o facto de no ano passado o Carnaval ter recebido a medalha de mérito turístico nacional por parte da senhora secretária de Estado do Turismo. Isso é para nós motivo de orgulho e de grande responsabilidade.

E como se estabelece a relação deste evento com o atual Governo? António Costa prometeu que se vencesse as eleições, a terça-feira de Carnaval voltaria a ser feriado, situação que ainda não acontece. É um assunto que pode beliscar esta relação?

A promessa foi cumprida porque foi dada a tolerância de ponto e a partir do momento em que isso acontece, de uma forma geral, a situação ficou resolvida e o assunto ficou cumprido por parte do senhor primeiro-ministro, coisa que não acontecia no passado. Portanto desse ponto de vista, a República portou-se bem com os nossos reis.

A tolerância de ponto é extremamente relevante do nosso ponto de vista porque o Carnaval assume um papel muito importante, de Norte a Sul, mais nuns territórios do que noutros, mas no nosso território as empresas, por norma, na terça-feira de Carnaval estão fechadas e isto está instituído no ADN das próprias empresas. E há que agradecer aos empresários que têm essa visão e que dão essa opção aos seus colaboradores para poderem divertir-se. É nesta simbiose que vamos trabalhando e engrandecendo o Carnaval de Torres e por este país todo.

O que aconteceu no passado, com o facto de não ter sido dada tolerância de ponto, em nada, na minha ótica, contribuiu para uma melhor ação de um governo nem para a melhor produção de um paísO fim da tolerância de ponto durante o governo de Passos Coelho gerou alguma preocupação no que ao arrombo nas contas das organizações diz respeito. É uma situação que se verifica ainda ou está estabilizada?

Penso que, hoje em dia, a situação está estabilizada. Desse ponto de vista, há que ter bom senso e tomar as decisões em função de determinada circunstância. O que aconteceu no passado, com o facto de não ter sido dada tolerância de ponto, em nada, na minha ótica, contribuiu para uma melhor ação de um governo nem para a melhor produção de um país. Pelo contrário, em altura de Carnaval poderá haver essa tolerância de ponto para que as pessoas se possam divertir e estamos cá todos para continuar o nosso percurso de vida e dar tudo em prol das nossas empresas.

E como lidam os políticos com a sátira de que são alvo no Carnaval?

Eu, pessoalmente, lido bem. Temos de ter esse poder de encaixe de forma positiva e alegre, recebendo mensagens importantes e que também nos estimulam para aquilo que agora aí vem durante o resto do ano.

A vida são dois dias e o Carnaval de Torres são seis. Para quem vive intensamente estes dias, como é que se aguenta até ao fim?

Aguenta-se de uma forma ou de outra. É algo que está no nosso ADN, nuns mais do que noutros, mas é como disse: a vida são dois dias e dizem que o Carnaval são três. Aqui são seis. Vamos convivendo dia a dia e superando as dificuldades do dia e da noite onde a sociedade torriense e aqueles que procuram o Carnaval de Torres Vedras se encontram para se poderem divertir, em família, com os amigos e, acima de tudo, com algo que é muito genuíno no nosso concelho que é o Carnaval. Isso é o mais importante.

Como no Carnaval ninguém leva a mal, porque é que o Carnaval de Torres é melhor do que todos os outros?

É um Carnaval que tem uma identidade construída ao longo de varias décadas e que consegue manter essa matriz identitária todos os anos, procurado inovar numa ou noutra dimensão, e temo-lo feito com muita persistência. E poder dar, cada vez mais, um contributo para esta época do ano, que é importante para podermos recarregar baterias e termos a alegria suficiente para dar continuidade aos nossos projetos .

O nosso Carnaval tem uma forma de ser e de estar muito particular e queremos que ele possa contribuir para que tenhamos uma sociedade mais sóbria, mantendo as nossas raízes, a nossa identidade e fazendo do Carnaval uma das nossas grandes imagens de marca do território de Torres Vedras. Se questionar uma pessoa de fora, uma pessoa de Torres Vedras é amplamente conhecida pelo Carnaval e pelo seu bom vinho e o belo pastel de feijão. São estes os três fatores distintivos.

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