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Assédio sexual: "A coragem de umas mulheres é a coragem de outras"

Ana Guerreiro, investigadora, criminóloga e membro da UMAR, explicou ao Notícias ao Minuto os pontos principais do Projeto Bystanders, do qual Portugal é o país promotor.

Assédio sexual: "A coragem de umas mulheres é a coragem de outras"
Notícias ao Minuto

08:20 - 23/05/18 por Anabela de Sousa Dantas 

País Projeto Bystanders

Numa altura em que o tema da violência de género está na ordem do dia, a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta está a implementar em Portugal um projeto pioneiro para criar consciencialização entre os mais jovens no que diz respeito ao assédio sexual.

Portugal é o país promotor do Projeto Bystanders, termo que pode ser traduzido como 'observadores', mas este está a ser implementado em mais quatro países. Focado, para já, no ensino secundário, espera-se um seminário de apresentação dos resultados no início de outubro deste ano, para determinar que caminho deverá tomar.

Ana Guerreiro, investigadora, criminóloga e membro da UMAR, explicou ao Notícias ao Minuto os pontos principais do projeto, indicando que se destina não só aos jovens, mas também aos professores.

"Quanto mais cedo nós interviermos, mais resultados se verão", sustentou Ana Guerreiro, esclarecendo que "a base de trabalho do assédio sexual é, também, a mesma da violência doméstica e da violência no namoro".

A este propósito saliente-se também que esta quarta-feira será apresentado um estudo levado a cabo pela UMAR Coimbra sobre a violência sexual em contexto académico que revela que 94,1% das mulheres inquiridas já foram alvo de assédio sexual, 21,7% de coerção sexual e 12,3% reportaram já terem sido violadas.

A ideia é capacitar as pessoas que observam os jovens para saber identificar um comportamento de assédio sexual

O que é o projeto Bystanders?

É um projeto internacional, está a ser implementado em quatro países ao mesmo tempo: em Portugal, que é o país promotor, Malta, Eslovénia e Reino Unido. Tem como objetivo prevenir o assédio sexual em contexto escolar, a ideia é fornecer ferramentas aos jovens e às jovens mas também ao corpo docente e aos técnicos e técnicas operacionais no sentido de identificarem e de desenvolverem um conjunto de estratégias para a prevenção deste comportamento no contexto escolar. Neste momento o projeto tem como destinatários e destinatárias os jovens do ensino secundário, é um projeto pioneiro que está neste momento a ser testado nestes quatro países e a ideia aqui não é trabalhar nem com ofensores, nem com vítimas, é com os ‘bystanders’, ou seja, os observadores e observadoras.

A ideia é capacitar as pessoas que observam os jovens e as jovens para saber identificar um comportamento de assédio sexual e depois, obviamente, intervir junto desse comportamento, que seja de forma ativa, que seja de forma passiva. Agir ativamente no sentido de intervir na situação ou intervir sem se intrometer na situação concreta, mas pedindo ajuda a outra pessoa ou alertando alguém para a possibilidade de, entre aquelas duas pessoas, poder existir um comportamento de assédio.

Como é que o projeto foi implementado?

Primeiro houve uma revisão de literatura, tentar recolher em cada país o máximo de literatura que falasse sobre as questões do assédio sexual, depois especificando no assédio sexual em contexto escolar e, obviamente, também, dentro deste tema, que programas de prevenção é que existiriam já. Efetivamente são muito poucos aqueles que existem. Depois disto, com a equipa internacional, construímos um programa piloto e após esse teste piloto voltámos a reunir-nos no sentido de verificar aquilo que realmente funciona ou não.

Neste momento, estamos a terminar nos quatro países a implementação do programa definitivo. É um programa com cinco sessões: uma com docentes, preferencialmente que estejam envolvidos com a turma ou turmas onde vamos intervir; depois três sessões com jovens, onde os docentes não estão presentes. As duas primeiras com rapazes e raparigas separados e a terceira é conjunta; a última volta a ser com os docentes.

Quais são as primeiras impressões?

Temos tido resultados muito positivos ao nível do envolvimento e da necessidade que os jovens e as jovens sentem em falar desta temática. Já nos foi confidenciado que este não é um tema muito falado nas escolas, que se fala sim ao nível da violência no namoro e da violência doméstica mas que assédio sexual não é muito falado. Isto é um ponto positivo neste projeto porque começa a falar de uma outra problemática tão importante quanto a violência no namoro e a violência doméstica. Obviamente isto irá contribuir para a prevenção. Devemos intervir o mais cedo possível, é isso que os estudos nos dizem e que a experiência também nos diz. Quanto mais cedo nós interviermos, mais resultados se verão.

 Estamos imbuídos numa sociedade patriarcal e com uma disciplina em que a sexualidade ainda é um tema tabuNão deverá ser um assunto fácil de falar, porém. Não é preciso andar muito para trás no tempo, para estarmos numa altura em que existiam aulas de educação religiosa e moral e nenhuma de educação sexual…

Sim, e repare que ao nível da sexualidade, continua também a não ser muito fácil abordar estes temas. Ainda que estejamos numa sociedade em desenvolvimento, em cujos temas da sexualidade já estão a ser mais debatidos e mais desenvolvidos, ainda há tabus.

Da parte dos alunos e da parte dos pais, se calhar...

Dos pais e dos professores. Nós estamos imbuídos numa sociedade patriarcal e com uma disciplina em que a sexualidade ainda é um tema tabu.

Acredita que os jovens estão preparados para identificar uma situação de assédio sexual?

Não diria que já estão preparados mas começam a estar consciencializados. Daí a necessidade de continuar a trabalhar este tema, até alargar as questões da prevenção. Se continuarmos a trabalhar neste sentido, com certeza que pelo menos ficarão consciencializados. Repare que este projeto começou em 2016, é muito, muito recente e apenas focado no assédio sexual. Portanto, na questão da prevenção, aquilo que os estudos indicam é que tem de ter alguma continuidade. Vamos ter um follow-up a três meses, que é curto, mas vamos ver o que nos dirá.

Esta sensibilização para o assédio sexual entre os jovens poderá, a longo prazo, ter efeito na forma como esta nova geração olha para a violência doméstica ou violência de género, no geral?

Com certeza que sim. A base do assédio sexual não é mais do que uma forma de violência de género. E o que é que está na base da violência de género? Um conjunto de estereótipos e de mitos relacionados com aquilo que é ser mulher e com aquilo que é ser homem, aquilo que é um comportamento aceite de mulher e um comportamento aceite de homem. A base de trabalho do assédio sexual é, também, a mesma da violência doméstica e da violência no namoro: trabalhar as questões dos papéis de género, as questões do estereótipos, etc. Depois tomam, claro, caminhos distintos, mas a base é a mesma.

O ciúme é uma das grandes razões para romantizar a violênciaO último inquérito nacional sobre violência no namoro indicou que mais de dois terços dos jovens inquiridos acham normal a violência no namoro. Considera que a democratização do acesso à internet e às redes sociais veio piorar esta situação?

A questão dos media é aquela grande e velha questão controversa, por um lado tem coisas muito boas, por outro tem coisas muito más. E isto decorre também do processo de globalização. A informação chega em massa, pode não ser bem transmitida e também pode não ser bem recebida. As pessoas não saberem diferenciar, separar e escolher que notícias ler. Isto tem os seus efeitos positivos e negativos, mas obviamente que as redes sociais vieram aqui dar um contributo, não só como um mecanismo para a prática da violência mas também como um mecanismo para legitimar determinados comportamentos.

Também não podemos esquecer os efeitos positivos, que é falar cada vez mais de violência no namoro, de violência doméstica, de assédio sexual. Bem ou mal, a informação vai sendo passada.

De que forma é que alguns comportamentos considerados como violentos podem ser romantizados?

Por exemplo, a questão do ciúme. O ciúme é uma das grandes razões para romantizar a violência. O ciúme é natural nas relações humanas mas a utilização que se lhe dá é que é controversa. Efetivamente, o ciúme é visto por grande parte dos jovens e da jovens como algo muito positivo porque ‘se ele/ela tem ciúmes é porque gosta de mim’. Só que depois o ciúme é também um exercício de poder, e que reforça o sentimento de posse - ‘eu tenho ciúme porque ela/ele é minha/meu’, ‘eu sou seu dono/a’ e portanto ‘eu posso fazer isto’.

E isso pode, muito facilmente, escalar para comportamentos violentos?

Exatamente, muito facilmente.

O projeto Bystanders adquire aqui um papel crucial, suponho, preparando os amigos, colegas ou professores de uma possível vítima?

Exatamente, e em tudo o que é violência de género. É importantíssimo e fundamental estarmos todos e todas sensibilizadas para as questões da violência. Saber identificar aquilo que é normal e aquilo que não é normal, separar aquilo que é aceitável daquilo que não é aceitável. Só depois disso é que conseguiremos, então, chegar a uma sociedade mais justa e não violenta. Claro que isto é um processo a médio e longo prazo mas é preciso ir trabalhando. E os bystanders, todas as pessoas que vão interagindo, são fundamentais neste processo de saída da violência e de identificação de algum ato violento.

A denúncia tem consequências, quer a nível físico, quer a nível psicológicoNo último ano temos assistido a vários movimentos, em vários países, como o ‘Me Too’, ‘Time’s Up’ ou ‘Cuentá-lo’, aqui ao lado, em Espanha, para incentivar mulheres a falarem sobre as situações em que foram vítimas de um ato de assédio ou de agressão sexual. Um aspeto que é usado de forma transversal para menorizar o relato de uma vítima é, muitas vezes, o tempo que decorre entre o ato de agressão e o momento em que é feito esse mesmo relato. Que razões pode elencar para uma vítima de assédio ou de agressão sexual esperar meses ou anos para falar sobre o assunto?

Várias, várias. Aliás, é uma das questões muito associadas à violência doméstica e não só, também ao assédio sexual e à violência no namoro. É algo que interfere com o nosso íntimo, com a nossa intimidade. Não é fácil, há conjunto de consequências - a questão da vergonha, do medo de represálias -, há um conjunto de fatores que nos impedem de falar sobre aquele acontecimento. Ter que dizer ‘apalparam-me’, ‘tocaram no meu corpo sem a minha autorização’ é algo que causa desconforto e que se traduz em vergonha, criando-se logo uma barreira para a denúncia. E acresce aí o medo das represálias. Um medo pessoal, como num caso de violência doméstica, que o agressor possa fazer pior. E em contexto laborar, num episódio de assédio sexual, há o medo do despedimento.

A denúncia tem, portanto, consequências, quer a nível físico, quer a nível psicológico. A vítima vai ponderar e vai ter medo, vai pensar duas, três, quatro, cinco vezes. E, eventualmente, arranja coragem para falar dias, semanas, meses, anos mais tarde, mas é preciso validar esta coragem. Não é fácil falar de algo que afeta a nossa intimidade. É preciso dar valor e reforçar a coragem destas pessoas.

Existe também o efeito de contágio, não é?

Exatamente, por isso é que na altura dos Óscares, nesse período, apareceram ali logo dois movimentos de forma sucessiva: houve um ‘boom’ de relatos. Umas dão coragem às outras, a coragem de umas é a coragem de outras. Daí a importância disto acontecer, é quase como uma corrente.

A APAV disse no ano passado, a propósito deste tema, que os magistrados judiciais e o Ministério Público deviam ter formação sobre violência doméstica. Acredita que isto é um fator, tendo em conta alguns casos polémicos a que fomos assistindo em Portugal?

Sim. A formação dos magistrados e das magistradas e de todos os profissionais que contactam com estas vítimas é fundamental, porque se nós tivermos uma boa experiência, neste caso, com o sistema de justiça, certamente que as vítimas terão a coragem de continuar com o processo. Uma má experiência no atendimento a uma vítima frustra a pessoa e faz com ela retroceda no processo de denúncia e no processo de mudança de vida. Portanto, uma boa experiência, quer ao nível de uma organização que atende vítimas, quer ao nível da polícia, quer ao nível do tribunal irá obviamente contribuir para o progresso daquele processo ou para o seu retrocesso. O contacto que as vítimas têm com os profissionais é fundamental. Há várias formações a decorrer, o Governo está empenhado nesta questão, mas ainda há muito que fazer, claro que sim.

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