Sem presidente há meses, Áustria está a sentir-se "república das bananas"

A Áustria prepara-se para eleger no próximo domingo um novo Presidente, mais de sete meses depois da primeira votação, num processo longo e acidentado que exasperou os austríacos.

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Mundo Eleições

"Se nem umas eleições conseguimos organizar, talvez fosse melhor tornarmo-nos um protetorado da ONU ou da OSCE", escrevia recentemente o diretor do jornal vienense "Die Presse", Rainer Nowak, num artigo intitulado "República das Bananas".

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A expressão "Bananen-Republik" foi utilizada com frequência pelos media austríacos para descrever uma improvável sucessão de incidentes. As eleições presidenciais realizaram-se a 24 de abril e nenhum dos dois candidatos mais votados, Norbert Hofer (FPÖ, extrema-direita) e Alexander Van der Bellen (independente ligado aos Verdes), alcançou maioria absoluta. Teve assim que se realizar uma segunda volta.

A segunda volta teve lugar a 22 de maio, mas a votação dos dois candidatos foi tão próxima que a televisão estatal, ÖRF, não se atreveu sequer a arriscar um vencedor. A projeção ao fechar das urnas da TV pública dava exatamente 50 por cento a cada candidato.

Contados os votos, Hofer ficou à frente com 51,9 por cento, mas essa contagem não incluía os votos por via postal. Votar pelo correio é um método permitido e muito popular na Áustria e tradicionalmente, a esquerda austríaca tem melhores resultados nos votos por via postal, o que abria a possibilidade de Van der Bellen recuperar o atraso.

No dia seguinte, o Governo anunciou os resultados finais, com um novo vencedor. Van der Bellen triunfara por uma margem de 30 mil votos num total de 4,5 milhões de eleitores.

No entanto, o FPÖ denunciou irregularidades no escrutínio e apresentou uma queixa ao Supremo Tribunal austríaco. O ministro do Interior, Wolfgang Sobotka, admitiu "desleixo" na contagem dos votos.

Os magistrados não encontraram quaisquer provas de fraude, mas determinaram a existência de "irregularidades formais" -- por exemplo, a contagem de votos por funcionários sem as acreditações necessárias. Foi assim decidido repetir a 2 de outubro a segunda volta das eleições.

No entanto, em setembro o Governo admitiu haver problemas com os votos por via postal. Segundo o ministro Sobotka, os envelopes autocolantes onde os votos deviam ser enviados não colavam. Simultaneamente foi noticiado um assalto às instalações da gráfica de Viena onde eram impressos os boletins de voto para as presidenciais.

Perante este cenário, o Parlamento austríaco optou por adiar a repetição da segunda volta. Chegou a pôr-se a hipótese de a votação já só se realizar em 2017.

A diretora do diário "Der Standard", Alexandra Föderl-Schmid, comparou desfavoravelmente o processo eleitoral austríaco com as eleições presidenciais americanas de 2000. O atraso para apurar se fora George W. Bush ou Al Gore a vencer na Florida "só demorou um mês", escreveu Föderl-Schmid.

O resultado final deverá ser conhecido na própria noite das eleições. Ou talvez não.

As sondagens até agora publicadas apontam para um "empate técnico" entre os dois candidatos.

 

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