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Alemanha. Eleições regionais na Baviera e Hesse sob o signo do populismo

A Alemanha vai estar de olhos postos no domingo em duas eleições regionais, nos estados federais da Baviera e do Hesse, onde as campanhas têm sido marcadas pelo populismo e parecem confirmar uma radicalização à direita do discurso político.

Alemanha. Eleições regionais na Baviera e Hesse sob o signo do populismo
Notícias ao Minuto

11:35 - 04/10/23 por Lusa

Mundo Alemanha

Embora os dois estados (länder) vizinhos no centro e sul da Alemanha sejam bastiões de longa data da União Democrata-Cristã (CDU) e da União Social-Cristã (CSU), partidos 'gémeos' conservadores de centro-direita -- a CSU existe somente na Baviera, enquanto a CDU opera nos restantes 15 estados -, a extrema-direita, mesmo sem a força que já exibe na Alemanha de Leste, está a ditar o tom das campanhas eleitorais, marcadas por um discurso cada vez mais duro contra a imigração.

Num contexto de descontentamento generalizado com a coligação de centro-esquerda que governa o país, e com as sondagens a apontarem para resultados muito pobres no próximo domingo dos partidos que a compõem -- os socialistas do SPD, do chanceler Olaf Scholz, os Verdes e os liberais do FDP -, as eleições na Baviera e no Hesse servirão para medir o pulso à aparente radicalização da cena política alemã.

Essa radicalização tem sido palpável na campanha para as eleições regionais de domingo, nas quais a nova força emergente da extrema-direita alemã, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), ainda que sem aspirações em chegar ao poder em qualquer dos estados, tem estado a marcar a agenda, com vários analistas a concordarem que este partido levou os concorrentes a radicalizar o discurso numa tentativa de cativar o seu potencial eleitorado, descontente com o elevado fluxo migratório e a situação económica no paós.

Os discursos anti-imigração -- o tema que serviu ao AfD na sua ascenção no panorama político alemão -- são já transversais, de tal modo que já não é apenas a extrema-direita a usá-la como 'bandeira' eleitoral, e até os Verdes, tradicionalmente moderados nesta matéria, reclamaram recentemente uma política mais dura, com a copresidente do partido, Ricarda Lang, a acusar os parceiros do governo de coligação de não fazerem o suficiente com vista à deportação para os países de origem dos requerentes de asilo aos quais é negada proteção.

Já o líder da CDU a nível nacional, Friedrich Merz, atual líder da oposição, deu na semana passada um exemplo do discurso populista em que os partidos do 'mainstream' parecem estar a cair para 'rivalizar' com o AfD, ao sugerir que os imigrantes estão a receber tratamentos dentários dispendiosos em detrimento dos alemães, "que nem conseguem marcar consultas", uma acusação negada pelo presidente da associação nacional de dentistas.

Foi Merz que lançou um debate até há pouco impensável na Alemanha sobre a possibilidade de alianças da CDU com o AfD, quando, no rescaldo de triunfos locais do partido de extrema-direita no Leste da Alemanha, comentou que "se um conselheiro de um cantão, um presidente de câmara, for eleito e pertencer à AfD, é natural que seja necessário procurar vias para continuar a trabalhar em conjunto nessa cidade".

O coro de críticas que se seguiu, incluindo de vários setores da CDU, levaram Merz a garantir na semana passada que "não haverá qualquer cooperação a nível local da CDU com o AfD", mas a polémica, e a possibilidade, já estava lançada.

Tanto a CSU, na Baviera, pela voz do seu líder Marcus Söder, como a CDU, em Hesse, liderada por Boris Rhein, vencedores anunciados das eleições do próximo domingo -- restando saber com que margem - , já garantiram repetida e perentoriamente que não se aliarão em caso algum com o AfD.

No entanto, o parceiro de coligação dos conservadores na Baviera, o partido populista Eleitores Livres (FW, na sigla em alemão - «Freie Wähler») -- com quem a CSU decidiu coligar-se após as anteriores eleições em 2018, em detrimento dos Verdes -, tem muitas posições similares à Alternativa para a Alemanha, e o seu líder, Hubert Aiwanger, é suspeito de ter simpatia pela ideologia nazi, sendo o principal protagonista de um dos 'casos' que tem marcado a campanha para as eleições de domingo.

Em agosto passado, um dos principais jornais alemães, o Süddeutsche Zeitung, de Munique, publicou uma investigação intitulada "O panfleto de Auschwitz", na qual revelava que, há cerca de 35 anos, foi encontrado na mochila escolar de um jovem de 17 anos um panfleto a defender que os "traidores da pátria" deviam ser executados a tiro ou "nas chaminés de Auschwitz", o complexo de campos de concentração e de extermínio operado pelos nazis na Polónia ocupada durante a II Guerra Mundial. Esse jovem era Aiwanger, atual vice-primeiro-ministro e titular da pasta da Economia na Baviera.

Tão polémica quanto as palavras de teor nazi do panfleto foi a reação de Aiwanger, que começou por refutar de forma categórica as acusações, tendo mesmo um seu irmão vindo a público confessar a autoria do texto. Face às evidências, o líder do FW viria a reconhecer que tinha escrito o panfleto e tinha consigo "uma ou mais cópias" na mochila - o que lhe valeu uma suspensão do estabelecimento de ensino -, mas desvalorizou o incidente, considerando-o um episódio de rebeldia juvenil.

Esta polémica não parece, contudo, ter 'beliscado' a popularidade de Aiwanger, com a média das sondagens a indicarem que o FW até deverá crescer em comparação com as eleições de há cinco anos, de 11,6% para 15,7%.

O populismo do FW é, de resto, considerado o principal 'travão' a um maior crescimento do AfD na Baviera, cuja secção regional está sob vigilância do Departamento Federal de Proteção da Constituição, por indícios de "esforços hostis contra a constituição" alemã e suspeitas de "fantasias golpistas" por parte de membros da ala mais radical. Já no Hesse, um estado onde os serviços de inteligência têm detetado um aumento da violência da extrema-direita, o AfD não tem essa 'concorrência', e deverá obter um resultado mais robusto.

De acordo com as mais recentes sondagens, o AfD vai crescer em ambos os estados e obter até 13,7 por cento dos votos na Baviera (contra 10,2% nas eleições de 2018, as primeiras nas quais participou), e mais de 16% no Hesse (contra 13,1% há cinco anos), podendo ficar à frente dos socialistas do SPD do chanceler Olaf Scholz nas duas eleições.

No Hesse, o SPD apresenta como candidata à chefia do governo a atual ministra do Interior do governo de coligação, Nancy Faeser, o principal alvo das críticas da direita e extrema-direita devido ao forte aumento do número de requerentes de asilo na Alemanha .

Os estudos de opinião continuam a apontar de forma unânime para uma crescente popularidade do Alternativa para a Alemanha à escala nacional -- aquele que é considerado o partido de extrema-direita mais bem-sucedido desde os nazis é o segundo partido nas intenções de voto se tivessem agora lugar eleições nacionais, com 22 por cento (contra os 12,6% conquistados nas eleições gerais de 2021), apenas atrás da CDU (27%) e à frente do SPD (17%).

Em 2024, acontecerão novas eleições regionais em três antigos estados comunistas do Leste da Alemanha - Turíngia, Brandeburgo e Saxónia -, onde o AfD aponta mesmo à vitória.

Leia Também: Alemanha. Eleições na Baviera e Hesse medem pulso ao extremismo

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