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Eleições. Alemães de leste continuam numa encruzilhada e fora do tempo

Em Dresden, capital da Saxónia, antigo território da República Democrática Alemã, o paradoxo entre as novas construções e os antigos monumentos do regime comunista revelam a identidade de uma população "fora do tempo" e longe do resto do país.

Eleições. Alemães de leste continuam numa encruzilhada e fora do tempo
Notícias ao Minuto

09:49 - 21/09/21 por Lusa

Mundo Alemanha

No centro de Dresden um antigo centro cultural da República Democrática Alemã (ex-RDA) de linhas austeras e um enorme mosaico com os motivos proletários da era soviética está a ser restaurado.

Frente à obra de restauro há cartazes da candidata do Die Linken em Dresden, Katja Kipping, e que agrupa os comunistas locais enquanto algumas dezenas de partidários da extrema-direita, negacionistas, marcham em silêncio contra o uso da máscara de proteção sanitária em espaços fechados.

A polícia segue a marcha da extrema-direita pelo centro da cidade, junto ao rio Elba.

Para as eleições do próximo domingo nenhum candidato a chanceler é do leste alemão, num país onde o peso do passado ainda se faz sentir apesar da reunificação nos anos 1990.

"Ainda há diferenças entre o este e o oeste. Todos os candidatos a chanceler nestas eleições são de regiões ocidentais da Alemanha. Os alemães de leste são uma espécie de minoria de 16 milhões de pessoas. A região esteve debaixo do regime comunista até 1989 e isso deixa marcas. Os alemães de leste não gostam da NATO, não sentem ligações de amizade com os países vizinhos a ocidente", disse à Lusa o historiador alemão Konrad H. Jarausch.

Autor de uma vasta obra sobre a História contemporânea da Alemanha, Jarausch, 80 anos, refere que sobretudo as gerações mais velhas das regiões do leste alemão ainda "não se sentem em casa".

"A reunificação nos anos 1990 ocorreu de forma muito rápida, para muitos foi uma oportunidade que tinha de ser aproveitada e na política como na História, por vezes, não se pode esperar pela melhor solução", refere.

Para o historiador, a memória do Holocausto e a responsabilidade pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945) afetam mais a população da região ocidental da Alemanha.

No leste, os comunistas, após 1989, formaram o PDS (Partido do Socialismo Democrático) que agora é o Partido de Esquerda (Die Linke) que atrai o voto de protesto.

"Na minha opinião não é eficaz, porque não faz parte da coligação governamental, só apenas a nível local", refere o historiador.

Apesar da reconstrução dos edifícios e dos novos meios de transporte ainda há infraestruturas do antigo Exército Vermelho (ex-União Soviética) ou do Exército Nacional Popular (Exército da ex-RDA) abandonados e "muitas zonas no leste não chegaram ainda à prosperidade prometida pelo então chanceler Helmut Kohl (1930-2017)".

No domínio económico, o impacto sobre a forma como decorreu a reunificação foi mais negativo do que positivo, considera o historiador, uma vez que na reestruturação de uma economia planificada para uma economia de mercado foram cometidos erros, "resultantes da avaliação incorreta da situação na ex-RDA".

A oferta de uma "união económica monetária e social", em 1990, visava travar a emigração em massa dos cidadãos do leste da Alemanha para o ocidente, introduzindo o marco alemão.

No entanto, a taxa de câmbio de 1:1 no caso dos salários e de 1:2 no caso das poupanças maiores, concedido pelo então chanceler Helmut Kohl, "por razões eleitorais" revelou-se demasiado elevada, uma vez que a produtividade real da economia da Alemanha de leste equivalia a um terço da produtividade da Alemanha ocidental.

Além de algumas das questões da reunificação que continuam "latentes" - apesar de passadas três décadas-, na encruzilhada entre o leste e o oeste, a "República de Berlim" tem de estar cada vez mais "atenta" aos dois lados do mapa europeu.   

"Eu creio que os alemães têm dois olhos. Um encara o oeste, o outro o leste. Tem de ser assim. Após 1990, a União Europeia recentrou o continente e por outro lado o 'eixo entre Paris e Bruxelas' que foi importante durante um certo período, mas, entretanto, acabou", diz o historiador.

Assim, frisa, do ponto de vista geopolítico e económico enquanto Vladimir Putin mantiver o regime ditatorial em Moscovo "vão surgir surpresas a leste e as coisas podem vir a ser difíceis".

"Não acredito em 'bom ambiente' com a Rússia, como aconteceu durante a aliança do século XVIII. A Alemanha olha sempre para o leste, mas também está fortemente envolvida com o ocidente europeu. Mas é evidente que por motivos económicos e históricos a 'República de Berlim' jamais poderá esquecer o leste europeu", afirmou Konrad H Jarausch.

Nas margens do Elba o tempo é enganador porque se a Alemanha está no ocidente ainda há zonas do país que mantêm a chama viva do passado como as duas velas acesas junto ao plinto de uma escultura em honra dos soldados russos do Exército Vermelho tombados durante a Segunda Guerra Mundial perto do rio.

Leia Também: Alemanha. Eleitores estão preocupados com economia e emprego

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