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  • 25 SETEMBRO 2022
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Covid-19? Cameron alerta para aumento da pobreza nos Estados mais frágeis

O ex-primeiro-ministro britânico David Cameron alertou hoje para um alarmante aumento da pobreza e criticou os atuais processos de ajuda aos países mais frágeis - no contexto da pandemia -, defendendo as relações diretas com os governos.

Covid-19? Cameron alerta para aumento da pobreza nos Estados mais frágeis

"As iniciativas do passado falharam, eu apoio os processos de ajuda, mas, em muitos casos, nada disto funcionou porque não fizemos o que era necessário para recuperar estes países", disse David Cameron, atual membro da presidência do Conselho sobre Fragilidade dos Estados.

Na primeira sessão da 2ª Conferência sobre a Fragilidade dos Estado dedicada à "Pandemia, Vacinação e Solidariedade: Implicações nos Países Frágeis", que decorre por videoconferência, Cameron defendeu novas formas de atuação em relação aos Estados mais fragilizados e atualmente mais afetados pela crise sanitária.

"Precisamos de realismo e não de idealismos, é preciso reconhecer que nos Estados frágeis há instituições frágeis, corrupção, níveis muito baixos de confiança ou recuperação de conflitos. Tentar conseguir todos os objetivos ao mesmo tempo e ter ideias grandiosas sobre o que pode ser feito não ajuda", disse.

"É preciso estar atento às prioridades locais em vez da prevalência das necessidades internacionais" acrescentou, sublinhando que é fundamental o trabalho direto com os governos.

"As intervenções bem-intencionadas de auxílio falham porque acabam por minar os próprios governos e as instituições que pretendem ajudar. Trabalhar com os governos é essencial", afirmou.

David Cameron disse ainda que é preciso priorizar ações de reconciliação nos Estados frágeis, sobretudo em situações pós-conflito em vez de "apressar a realização de eleições".

"Isto é controverso porque eu sou um democrata e quero ver a realização de eleições e governos legitimados, mas primeiro é preciso resolver as divisões internas através da reconciliação. É melhor do que marcar eleições que geralmente conduzem a mais divisões", defendeu.

Cameron considera fundamental o funcionamento das instituições e frisou que, no contexto da atual pandemia de covid-19, são os Estados que promovem as ajudas, gestão de meios ou programas de vacinação.

"O que nós vemos é que os Estados mais frágeis que já falharam no combate à pobreza e às desigualdades vão aumentar com esta pandemia e isto é perigoso", disse. 

"As ações do G7 foram uma desilusão. Em países como o meu [Reino Unido] 60% da população está vacinada, mas em África estão menos de 2%. Só agora estamos dispostos a mandar vacinas para África", acusou, acrescentando que os planos de curto prazo deviam estar concentrados na distribuição das vacinas aos países mais pobres do mundo. 

A médio prazo, disse Cameron, devia ser estabelecido "o que dar, o quê e a quem, quando e de que forma".

"O que nós estamos a ver é um plano de longo prazo e essa é a razão pela qual estamos a falhar no acesso das pessoas mais pobres, dos países mais pobres, às vacinas. Porque a produção das vacinas está muito concentrada em apenas alguns países", disse.   

Para o ex-primeiro-ministro conservador britânico vai existir sempre um "problema de nacionalismo" em relação às vacinas e, por isso, defende a partilha de conhecimentos ou patentes e relacionar a produção com centros de distribuição para se lutar "com esta e com pandemias futuras".

"Defendo organizações de vigilância internacionais para situações de pandemia. Nós sabemos quando temos de responder de forma melhor. Eu vi isso com o ébola, quando era primeiro-ministro. Creio que a Organização Mundial da Saúde foi lenta e, por isso, do que precisamos é de uma organização que funcione em rede a siga as sequências dos vírus e partilhar informações de forma transparente e não política", propõe.

"O perigo de confiar apenas na Organização Mundial da Saúde (OMS) é deixar que a política inevitavelmente tome conta do problema. Com a pandemia de covid-19 os países informaram com rapidez a OMS? Não, não o fizeram. A OMS disse-nos a todos de forma célere o que estava a acontecer? Não, porque estava preocupada em culpabilizar alguns países", criticou.

Cameron alertou ainda para o crescimento da pobreza extrema no mundo até 2030, sendo que o contexto da crise sanitária pode agravar a situação.

"Penso que a realidade é dececionante, os países mais pobres estão a ficar para trás, nas campanhas de vacinação. O Covax [plataforma de distribuição de vacinas pelos países mais pobres] está a fazer o que pode, fez promessas sobre África, mas porque não está a funcionar?" questionou.

"Não podemos esperar que sejam os países mais pobres a fazer o trabalho de partilha, temos de ser nós a ajudar. Mais uma vez assistimos à forma como é a globalização em que vivemos e, por isso, não devíamos esperar para usar o dinheiro da ajuda para auxiliar os outros, porque no limite isso protege-nos a nós também", conclui David Cameron. 

A conferência organizada pelo Clube de Lisboa e g7+ (organização criada em 2010 que reúne países que enfrentam conflitos ativos ou têm experiência recente de conflito e fragilidade) ainda decorre e discute, entre outros aspetos, o papel da cooperação internacional para erradicar a pandemia e para garantir a vacinação rápida e gratuita nos países frágeis e nas comunidades vulneráveis.

Anteriormente, os membros do g7+ emitiram uma declaração conjunta de solidariedade e cooperação solicitando ações imediatas para mitigar o impacto da pandemia em pessoas de países frágeis ou com comunidades vulneráveis, pessoas deslocadas internamente e refugiados.

O evento global conta com a participação de 19 participantes de 13 países, incluindo atuais e ex-membros de governos, entidades multilaterais, académicos, profissionais do setor privado, dos meios de comunicação social e da sociedade civil.

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