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"Ligam-me pessoas na Arábia Saudita a perguntar por técnicos portugueses"

Pedro Emanuel faz parte do contigente português que está a crescer a olhos vistos na Arábia Saudita. O técnico português pegou no Al Taawon, anteriormente orientado por José Gomes, e está no terceiro lugar do campeonato.

"Ligam-me pessoas na Arábia Saudita a perguntar por técnicos portugueses"

A Arábia Saudita está a atrair cada vez mais treinadores portugueses. Um deles é Pedro Emanuel. O técnico de 43 anos assinou, este verão, contrato com o Al Taawon e acredita que o balanço dos primeiros quatro meses é francamente positivo. 

Sucedendo ao compatriota José Gomes, atual treinador do Rio Ave, Pedro Emanuel garante ter encontrado um clube organizado e com condições para crescer. Com apenas 12 jogos disputados, o Al Taawon ocupa, neste momento, o terceiro lugar da tabela classificativa com um total de 24 pontos arrecadados. A equipa de Pedro Emanuel está apenas atrás de Al Nassr, equipa onde está Hélder Cristóvão, e do Al Hilal de Jorge Jesus. 

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Pedro Emanuel admite que a adaptação a um país como a Arábia Saudita não foi fácil. No entanto, o treinador que já orientou equipas como Arouca, Académica e Estoril garante que, a par com o AEL Limassol do Chipre, este é um desafio mais que aliciante. 

Também o crescimento do futebol saudita foi tema de reflexão nesta conversa, bem como o desenrolar do campeonato português. Afinal de contas, e apesar da evidente distância, Pedro Emanuel revela-se muito atento ao que se passa em Portugal.

O regresso ao estrangeiro foi desde sempre uma prioridade para mim

Para começar, que balanço faz destes primeiros meses nesta aventura? 

A adaptação não foi muito fácil, especialmente na questão mais social e cultural. É um país onde os hábitos são totalmente distintos. Em termos profissionais, encontrei um clube organizado, algo que também é fruto do trabalho desenvolvido pelo José Gomes [atual treinador do Rio Ave] nos últimos anos. Isso permite ter um clube que é um pouco diferente daquilo que aqui existe. Tirando os clubes grandes, que são três ou quatro, o Al Taawon é uma equipa pequena, mas que quer crescer e afirmar-se no futebol saudita. Esse foi um pouco o entusiasmo para nós enquanto equipa técnica. É um clube que quer crescer e que quer mostrar bastante mais do que aquilo que tem feito nos últimos anos. Felizmente isso tem vindo a acontecer. Estamos na 13.ª jornada e neste momento somos terceiro classificados apesar de termos um jogo em atraso. Somos o segundo melhor ataque do campeonato [com 27 golos], atrás do Al Hilal do Jesus [que tem mais um]. Isto também para dizer que uma das características que explica este sucesso inicial tem muito a ver com a qualidade do grupo de trabalho. Felizmente, os jogadores que trouxemos para cá, e os sauditas que já cá estavam, têm muita qualidade e um espírito de equipa muito forte. Acho que esse é o ponto fundamental do nosso trabalho. O nosso objetivo é estar nos oito primeiros lugares. O ano passado ficaram em sétimo lugar e o objetivo é fazer melhor do que foi feito.

O que o convenceu a rumar à Arábia Saudita?

O meu objetivo passava por vir para o estrangeiro. A minha segunda época no Estoril foi um pouco fora daquilo que eu tinha idealizado para o desenvolvimento da minha carreira enquanto treinador. Tinha estado no Chipre e as coisas correram bem. Regressei a Portugal porque o Estoril era um clube que estava num momento difícil. Na primeira época conseguimos concluir o nosso trabalho. O projeto era credível, mas as coisas não aconteceram como eu perspetivara, muito em função daquilo que eu acho fundamental: a construção do plantel. A segunda época no Estoril não foi ao encontro da construção do plantel que nós tínhamos em mente. Infelizmente não foi só uma questão com o Pedro Emanuel, foi também uma questão com o Ivo [Vieira] que levou o Estoril à II Liga. Contudo, o regresso ao estrangeiro foi desde sempre uma prioridade para mim.

Porquê a opção pela Arábia Saudita?

A Arábia Saudita quer afirma-se como o melhor campeonato do Médio Oriente e mesmo do continente asiático. Por isso, tentam atrair bons jogadores para o campeonato e também bons treinadores. Se repararmos, o nível competitivo deste campeonato é bem elevado. Outro ponto fundamental foi a minha conversa com o José Gomes. Era a pessoa que estava cá e se hoje estou cá muito devo a ele. Não só pela recomendação, mas também pela passagem de um testemunho serena e tranquila. É um campeonato diferente e um desafio grande para nós enquanto equipa técnica. Estes primeiros quatro meses e meio têm sido produtivos. Aliás, estamos acima daquilo que eram as nossas expectativas.

O que é normal em Portugal, pode ser uma mudança radical aqui

Quais os entraves que sentiu quando chegou a Arábia Saudita? Afinal de contas, trata-se de uma realidade muito distinta…

Não é fácil. É diferente virmos para a Arábia Saudita do que irmos para o Dubai ou Qatar. São países que já têm um nível de desenvolvimento diferente e um tipo de abertura para aquilo que é a globalização. Acho que esse é o principal entrave. A Arábia Saudita é muito tradicionalista e tem uma sociedade muito fechada. Está a começar a abrir, agora com a entrada do novo príncipe. Há muitos entraves quando um europeu vem cá. Desde logo, não vemos mulheres com as caras destapadas. A nossa ida a um simples restaurante conta com uma separação de pessoas. De um lado estão as pessoas com família e do outro estão as pessoas sozinhas. É logo imediato. No aspeto religioso é a mesma coisa. Aqui rege-se muito a vida pela religião. As cinco rezas diárias devem ser respeitadas, mas às vezes constituem um entrave ao nosso trabalho. Se estivermos a treinar e se tocar o som da reza, imediatamente temos de interromper o treino porque os jogadores precisam daquele período de reflexão. Não paramos o treino para eles rezarem, mas damos um/dois minutos para refletirem. Depois há algo que eu acho que é fundamental que passa por tentar mudar a mentalidade do jogador saudita. O jogador saudita tem qualidade, mas falta-lhe alguma componente física e o aspeto mental. O ser competitivo e o querer evoluir diariamente. É um aspeto que têm vindo a desenvolver aos poucos, mas também é aliciante no trabalho diário. E quando os resultados aparecem, mais facilmente as nossas ideias são passadas. Acho que este é o caminho que temos de percorrer e sobretudo temos de nos adaptarmos a estas questões. Temos de ter essa mentalidade aberta. O que é normal em Portugal, pode ser uma mudança radical aqui.

E em relação à língua, sente que consegue passar a mensagem aos jogadores?

É importante a presença de um tradutor. Tenho aqui um tradutor, que já está cá há alguns anos, e que percebe aquilo que é o jogo e o treino. Isso é bastante importante. É fundamental aprendermos algumas palavras-chave para a nossa comunicação. Eu comunico em português ou em inglês para eles entenderem. Temos seis estrangeiros que entendem português e isso também é bastante importante. A mensagem tem de ser clara e objetiva. Já comunico algumas palavras e isso é essencial, uma vez que leva os jogadores a reconhecer o esforço da equipa técnica. É importante eles sentirem que nós viemos para ajudar.

Falou na evolução do futebol saudita. A chegada de alguns treinadores portugueses também ajuda a explicar essa evolução?

É bastante importante. É o reconhecimento por parte das entidades que gerem o futebol saudita, nomeadamente da federação que tem de validar todas as contratações para o campeonato. É o reconhecimento de competência relativamente aquilo que são as capacidades dos treinadores portugueses. Acho que há outra alteração a ter em conta. Abriram um pouco mais a porta aos jogadores estrangeiros, algo que obrigou os sauditas a serem mais competitivos. Há quatro anos havia sete lugares garantidos para sauditas, atualmente a situação inverteu-se. Só há quatro lugares para sauditas e podem jogar sete estrangeiros. Podemos ter oito estrangeiros no plantel, mas, em campo, a jogar, só podem estar sete. Se quiser meter o oitavo, tenho de tirar um estrangeiro que esteja a jogar. Isto fez evoluir a mentalidade saudita. A qualidade do treino e do jogo passou a ser melhor. Mais do que isso, o maior resultado está na qualidade dos jogos. Ainda no fim de semana [passado] me deliciei a ver o nosso jogo na televisão. A transmissão em direto dos jogos aqui é em canal codificado, mas depois passam em diferido nos canais abertos. Deliciei-me a ver o nosso jogo com o Al Wehda, que era a equipa que estava à nossa frente e que ao ganharmos conseguimos ultrapassar na tabela. São esses jogos que levam as pessoas aos estádio. Não é só a qualidade dos jogadores, mas também o trabalho dos treinadores que ajuda os jogadores a evoluir. Acho que existe uma evolução natural desde da primeira jornada. Mas também não deixa de ser verdade que em 16 equipas, em 13 jornadas, oito já trocaram de treinadores, o que leva a alguma instabilidade.

Pode dizer-se que este é o desafio mais aliciante que teve enquanto treinador?

Sim, sinto isso. Este e o desafio que tive no Chipre. A minha saída para o estrangeiro deveu-se muito à procura desta primeira metade da tabela de forma mais concreta e objetiva. E passo a explicar porquê. Aqui, posso ter a capacidade de escolher jogadores de um nível diferente do que estava habituado em Portugal. Em Portugal, nas equipas onde eu estive, contávamos os tostões para podermos contratar jogadores e na maior parte das vezes nunca pagávamos transferências em clubes como a Académica ou Arouca. E até no Estoril. Aqui conseguimos ter um budget para contratar, à semelhança do que tive no Chipre. Ao conseguirmos contratar melhores jogadores, conseguimos formar melhores equipas. Isso é um elemento chave em qualquer equipa do mundo. No Chipre correu bem, ganhámos a Taça e Supertaça, e aqui no Al Taawon, que nunca ganhou nenhum troféu, um dos objetivos passa pela Taça do Rei. É uma competição onde iremos apostar forte.

Para mim é aliciante enquanto treinador. Ainda para mais tendo em conta que as possibilidades que surgiram em Portugal não foram ao encontro das expectativas que eu tinha para a minha carreira. É lógico que é um desafio muito difícil e ainda há muito para fazer. Mas, nesta fase do campeonato, estarmos em terceiro lugar é a cereja no topo do bolo que eu não pensei que conseguíssemos tão rapidamente. Está aí um vídeo a circular de um golo que nós marcamos frente ao Al Fateh e isso revela bem aquilo que é a qualidade da equipa. É um prazer para quem treina e para quem vê. É um esforço complicado, porque o jogador saudita leva-nos muita paciência. Costuma dizer-se que quando se vem para o Médio Oriente, e especificamente para a Arábia Saudita, devemos trazer muita paciência. Essa é a mentalidade certa para encarar este desafio. Provavelmente temos de repetir diariamente as coisas. É lógico que é desgastante, mas também é gratificante sentir que os jogadores estão recetivos àquilo que nós propomos. Temos de os saber atrair para o nosso trabalho. 

Notícias ao MinutoPedro Emanuel e a equipa do Al Taawon num momento de celebração, uma imagem que se tem repetido ao longo desta época. © Reprodução Twitter Al Taawon

Pegando nessa questão da paciência. O facto de ter sido jogador ajuda-o a perceber melhor o outro lado, o lado dos jogadores?

Sim, naturalmente. Juntamente com muito daquilo que bebi durante estes dez anos em que me tornei treinador. Essa experiência enquanto jogador, principalmente ao nível que eu consegui atingir em clubes como o Boavista e o FC Porto, foi muito importante na minha carreira como treinador. Também devo realçar que aquilo que eu era enquanto treinador quando peguei na Académica e aquilo que sou hoje é completamente distinto. Um treinador diferente, muito mais completo e preparado para os desafios, independentemente do país. Acho que a melhor forma e aquela considero ser a mais objetiva na carreira de um treinador é a forma como a equipa joga e revela os automatismos que treinamos todos os dias.

A evolução do treinador passa por aí. Ser treinador não é só ir ao campo. Tem muito de saber ter junto de nós aqueles que são os maiores apoiantes no nosso processo e são os melhores a fazer aquilo que sabem fazer. Neste momento estou rodeado de pessoas que são competentes e que se querem superar dia após dia. Hoje sinto-me um treinador mais capaz e satisfeito com aquilo que tenho vindo a desenvolver. O futebol é mesmo isto. É abraçarmos um projeto e saber que incertezas temos muitas e que certezas temos poucas. Mas com o desenrolar do processo, começamos a ter mais certezas do que incertezas, e acho que é isso que nos faz melhores e que nos leva a ser reconhecidos em todo o mundo. Ainda agora poderíamos ter aqui o Leonardo Jardim. Aliás, já me ligam pessoas na Arábia Saudita a perguntar por treinadores portugueses e o que é que eu recomendo. Isso é muito gratificante para nós. É a nossa imagem de marca em todo o mundo. No outro dia, o José Mota falou sobre isso. Por vezes colocamos em dúvida aquilo que é a nossa capacidade de liderança, e colocamos em causa aquilo que é o trabalho do treinador português. Mas eu acho que, não poucas vezes, o treinador português só passando por estes processos no exterior é que sente o reconhecimento que em Portugal não é dado. É aquilo que estou a fazer. Estou a trabalhar para ganhar estatuto, para ganhar reconhecimento internacional e depois, quem sabe, pensar no regresso a Portugal, que acontecerá como é lógico, para um clube com condições para que desenvolva um bom trabalho.

Por falar em Portugal, continua a acompanhar o campeonato?

Como diz Jesus, tenho parabólica (risos). Vou acompanhando... Continuo a beber muito daquilo que é a qualidade técnico-tática. Sinto que este ano o campeonato está bastante mais equilibrado. Ainda um dia destes estava a debater isso com a minha equipa técnica. Este ano olhamos para todas equipas e não vemos nenhuma que possamos dizer: ‘esta vai ser campeã’ ou ‘esta está condenada a descer’. Basta observar o caso do Desportivo de Chaves. Está em último lugar, mas tem apresentado um bom futebol e a bola não tem entrado. Isto seria impensável para quem acabou a temporada passada, penso eu, em sexto ou sétimo lugar e que este ano empatou com o Benfica. Está a acontecer no campeonato português aquilo que eu vivencio aqui na Arábia Saudita todas as semanas. Nós temos uma equipa que estava em penúltimo lugar e que foi empatar com o segundo classificado. Tudo isso é fruto do momento da competitividade. É o trabalho desenvolvido pelos treinadores. Há muita variedade e o saber escolher é muito importante.

Volto a falar do Estoril. Nós perdemos sete jogadores que eram titulares e que tinham feito um final de época fantástica, mas o contexto do ano seguinte foi completamente diferente. E a reposição dessa qualidade foi distinta. Acho que o campeonato está cada vez mais seletivo nesse sentido. Se me perguntar agora quem vai ser campeão? Não lhe sei responder. Apesar de sentir que o FC Porto está numa trajetória ascendente desde da temporada passada - e isso é fruto do trabalho do Sérgio [Conceição] -, não posso garantir que com dois resultados menos positivos a equipa não abane como está a abanar no Benfica e como abanaram no Sporting. Mas dizer quem vai ser campeão ou quem vai descer, não sei dizer. Está tudo muito imprevisível. 

Para terminar, consegue definir os objetivos para esta temporada?

A minha vinda para cá pretende continuar a evolução do clube iniciada pelo José Gomes. Passa por ficar na primeira metade da tabela, sendo que aqui existem cinco crónicos candidatos ao título. Mas, neste momento, um desses candidatos está no último lugar e ainda não ganhou. Estamos a falar de um clube que tem um orçamento cinco vezes superior ao nosso. Isto mostra o equilíbrio do campeonato. O nosso objetivo principal passa por ficarmos nos seis primeiros. E ainda temos um sonho que queremos transformar em realidade. O clube nunca conquistou nenhum troféu e uma das possibilidades que temos é a Taça do Rei. Vamos colocar lá todas as nossas fichas e dar uma alegria a esta região. Comparo Qasim com Chaves. É uma região do interior, distante da capital e isso, sem dúvida, faz a diferença. Vamos lutar sempre com os pés bem assentes no chão. Sabemos como é o futebol e principalmente aqui onde a emoção transforma aquilo que é o paraíso num inferno. Mas acredito que com uma ou outra alteração pontual no plantel, agora em janeiro, poderemos ter outra capacidade. Mas estou satisfeito pelo trabalho desenvolvido e estou satisfeito com a recetividade do clube e dos jogadores às nossas ideias. Quero que sejamos reconhecidos como alguém que veio para cá para ajudar a desenvolver o futebol deste país. Como eu gosto de ouvir as pessoas a dizer, na rua quando saio, que gostam de ver a nossa equipa jogar.

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