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O Bando estreia uma peça de teatro para "quebrar os ciclos de ódio"

"Quebrar os ciclos de ódio" face à ideia da diferença, é o objetivo do encenador João Neca, com a peça 'Filho?', construída a partir da obra de Afonso Cruz, que O Bando estreia na quinta-feira, em Palmela.

O Bando estreia uma peça de teatro para "quebrar os ciclos de ódio"
Notícias ao Minuto

11:30 - 21/10/19 por Lusa

Cultura Teatro

A partir do romance 'Para onde vão os guarda-chuvas' (2013), de Afonso Cruz, João Neca criou uma dramaturgia em que cruza a ideia de "um discurso de ódio" e a maneira como "um gesto tão difícil como a adoção de uma criança de outra religião, tão diferente, pode ser uma redenção", disse o encenador à Lusa.

Em tempos, em que continua a haver "intolerância religiosa e guerras em nome da religião, seja ela mais espiritual, mais esotérica ou mais materialista", para o encenador impunha-se o projeto, que desenvolve numa criação conjunta com O Teatrão, de Coimbra.

Por isso, João Neca abre também o espetáculo às crianças e espera que levem dele "a possibilidade de quebrarem os ciclos do ódio".

Ciclos que não se limitam à religião, disse, citando, a propósito, o "ódio a grupos de que falava há tempo [o escritor moçambicano] Mia Couto (...): dizer 'ah eu não gosto de ciganos', 'eu não gosto dos ucranianos', 'eu não gosto dos romenos', parece que é uma banalidade mas trata-se de uma espécie de um linguajar leviano" e, efetivamente, "de discurso do ódio".

João Neca fala da urgência do projeto, uma urgência sempre presente, "ainda por cima num momento em que a extrema direita chegou ao parlamento português". E considera: "Estas questões dos discursos de ódio, que começaram logo e em força, são coisas muito perigosas".

Das quase 600 páginas do romance de Afonso Cruz - Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, em 2014, e finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e do Prémio Fernando Namora --, passado num oriente efabulado, João Neca retirou três personagens, uma família de sobreviventes numa cidade ocupada.

Aminah, uma muçulmana que detesta estrangeiros, mas que é adepta da "propaganda cultural americana", como a definiu à Lusa o próprio escritor, Afonso Cruz, é uma delas, a que se junta Badini, "o poeta mudo que, aos sete anos, o pai fez engolir as palavras todas", como se ouve na peça, e Fazal, o dono da fábrica de tapetes que passava a vida a olhar para o chão para passar despercebido, e cujo filho herdeiro, Salim, foi morto por aviões americanos.

Isa, o filho americano e católico, adotado por Fazal, também está na peça, mas de forma simbólica, numa ideia que vem desde o título, 'Filho?'.

A figura adquire paralelo a uma história que se terá passado com Gandhi, que terá aconselhado um hindu a adotar uma criança muçulmana, quando questionado por este, quando carregava o filho morto nos braços, sobre o que fazer para ultrapassar a dor.

A ação desenrola-se num meio em que as ruas falam de exércitos, enquanto se abrem portas para a tragédia e para a felicidade.

"Venham, venham, respirem", é como Aminah incita o público a entrar na sala de espetáculo, com uma cenografia onde impera o contraste, entre o preto e o branco.

O chão é negro, com losangos desenhados a branco, alguns dos quais incompletos, que levam até um tabuleiro, a revelar-se metáfora da vida, onde caixas brancas, com a mesma forma geométrica, guardam sal, usado pelas personagens para preencherem as linhas incompletas do chão. São também essas caixas lugar de refúgio, de que Aminah, Badini e Fazal se socorrem, num jogo de "cama-de-gato", à medida que decorre a ação.

Questionado pela Lusa, no final de um ensaio, sobre a adaptação da sua obra pelas duas companhias de teatro, Afonso Cruz respondeu: "Muito bem retratada".

Até porque, tal como a peça, o romance fala muito sobre "a não aceitação da diferença", que é "uma questão preocupante e não se restringe à religião", disse Afonso Cruz.

"Na verdade, se podemos imputar alguma culpa é ao preconceito e não à religião", frisou à Lusa.

"A religião é, ou pode ser, uma manifestação desse preconceito. Como pode ser de direita, ser de esquerda, ser daqui ou de 'acoli'", acrescentou, sublinhando que "qualquer ideia, por melhor que seja, se for levada ao extremo é sempre um absurdo".

A propósito, citou a questão da liberdade: "Que nós tomamos como uma virtude, assumimos que deve ser mais ou menos absoluta, ou que podemos acreditar que seja absoluta e continua a ser uma virtude, quando na realidade não é, porque nenhuma virtude funciona sozinha", enfatizou o escritor.

"Se eu der liberdade absoluta a um néscio, a um tolo, a uma pessoa odiável, só estou a dar liberdade absoluta para ele ser um tirano", argumentou, alertando para o cuidado que deve haver com as ideias de absoluto e de as levar ao extremo.

Perceber a diferença, viver com ela, aceitá-la e não obrigar o outro a viver sobre determinados padrões são, segundo Afonso Cruz, outras das ideias contidas em "Para onde Vão os Guarda-chuvas", que também acabam por se perceber na peça.

As contradições, as coerências e incoerências do ser humano são ideias do romance que serviram de base à peça, onde estão bem retratadas, garantiu Afonso Cruz.

Com cenografia de Rui Francisco e Filipa Malva, que também assina os figurinos e adereços, música de Jorge Salgueiro, ilustração de Ana Biscaia, 'Filho?', o drama, é interpretado por João Santos, Margarida Sousa e Raul Atalaia, e conta com a participação especial de Miguel Rosado.

Em Palmela, a peça está em cena até 10 de novembro, com espetáculos à quinta e sexta-feira, às 21:00, aos sábados, às 17h00, e às 21h00, e, aos domingos, às 11h00 e às 17h00.

De 28 de novembro a 28 de dezembro, 'Filho?' será representada na Oficina Municipal de Teatro, em Coimbra, com espetáculos de segunda a sexta-feira, às 10h30, para escolas, e, aos sábados, às 17h00.

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