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"A música é um comprimido que nos tira da realidade crua e dura"

'III' é o título do novo álbum de Rui Massena, o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"A música é um comprimido que nos tira da realidade crua e dura"
Notícias ao Minuto

09:20 - 07/01/19 por Fábio Nunes 

Cultura Rui Massena

A música instrumental está a ganhar o seu espaço em Portugal e Rui Massena é um dos estandartes deste estilo musical. 'III' é o seu terceiro álbum e foi lançado no passado dia 3 de novembro pela editora Universal Music e com o selo de qualidade da Deutsche Grammophon. Tal como os seus dois trabalhos anteriores, 'Solo' (2015) e 'Ensemble' (2016), 'III' também atingiu o top de vendas nacionais.

Sem medo de arriscar, o maestro decidiu experimentar novas sonoridades neste novo projeto, quebrar barreiras, e combinou o acústico com música eletrónica. Lançou um desafio a si próprio e ficou agradado com o resultado. 

Com 'III', Rui Massena pretende transmitir uma 'slow life', atrasar a vida das pessoas num mundo que segue a uma velocidade cada vez maior e cada vez mais stressante. 

Mas esse não é o único papel que a música pode ter. Também pode representar a união, a tolerância num mundo dividido. "A música tem a capacidade de atenuar a intolerância. A música liga profundamente", salienta Rui Massena.

O concerto de apresentação do novo álbum vai ter lugar no Coliseu do Porto no dia 1 de fevereiro. A 18 de abril 'III' vai ser apresentado no Casino do Estoril.

Como foi o processo de produção de ‘III’? Já tinha pensado que queria fazer algo diferente ou isso aconteceu durante o desenvolvimento deste novo projeto?

É um projeto diferente para encontrar no universo dos sons digitais, da música mais eletrónica uma ligação minha a essa música, a construção do meu próprio vocabulário sonoro e depois ligá-lo ao universo acústico de forma a que não se percebesse onde é que começa um universo e onde é que acaba o outro. Para que fosse uma coisa una, para que as pessoas não conseguissem distinguir entre o digital e o acústico. Essa é a grande decisão de fundo tomada para este terceiro disco a solo por necessidade minha de compreender novas linguagens e sobretudo compreender as linguagens dos nossos dias, do que é a nossa sociedade hoje e refleti-la na minha música. A arte é isto mesmo, documenta o seu tempo.

Não estou refém do mercado, nem o contrário é verdade. Estou refém de ser autêntico comigo próprioCada álbum é uma oportunidade de experimentar e dar um passo em frente enquanto músico?

Completamente. Cada álbum é uma necessidade que tenho de chegar a mim próprio, de me mobilizar e só me mobilizo se estiver num processo de desafio, de procura. Se estiver num processo igual ao que conheço não há mobilização, portanto o que faço é mobilizar-me e para isso preciso de encontrar novos caminhos. Às vezes imagino-me com uma faca de mato por uma floresta a abrir um novo caminho, um caminho que não conheço e que me desafia. É disto que vive a construção da música e a criação, a criação da minha música. Ir à procura de novas sonoridades, de novas organizações sonoras.

Há muitos artistas que fazem uma carreira inteira sempre com o mesmo registo, e depois há outros como o Rui que tentam desbravar um novo caminho, como diz. A recetividade dos fãs e de quem aprecia esses artistas a essas mudanças nem sempre é a melhor. Parece não haver muito espaço para a criatividade.

Mas há. Há porque não estou apenas dependente do aspeto comercial. Julgo que as pessoas que ouvem a minha música, ouvem porque gostam de ser desafiadas. Nunca me limitei na minha vida artística e já lá vão uns anos valentes. Pelo menos 18 depois de assumir a direção de uma orquestra e nunca me limitei a seguir o óbvio, a seguir fórmulas. O meu disco anterior atingiu o número um de vendas e neste disco não procurei essa fórmula, fui à procura de uma fórmula diferente. Fui à procura de uma fórmula que me servisse a mim, para poder dizer ‘eu gosto deste disco, este disco mobilizou-me no processo’. Portanto, é disto que se trata. Não quero ter um grupo de pessoas que só gosta de ouvir as mesmas coisas. Há espaço para tudo. Não estou refém do mercado, nem o contrário é verdade. Estou refém de ser autêntico comigo próprio.

Hoje em dia a história faz-se muito rapidamente, tudo é muito rápido. Esta música procura atrasar a vida das pessoas

Por que razão decidiu apostar na música eletrónica neste álbum?

Dirigi orquestras durante toda a minha vida e há muito tempo que acompanhava o percurso da eletrónica na música e isso entusiasmava-me. Simplesmente decidi que estava na altura de ir a jogo, de ir conhecer este mundo e trazê-lo para a minha música. Foi isso. Enquadro a minha música na música do século XXI, que é uma música que procura coisas diferentes do que a do século XX procurava. Hoje a minha música procura sobretudo novos sons que a eletrónica ajuda a encontrar, atrasando um pouco o tempo que as pessoas têm. Hoje em dia a história faz-se muito rapidamente, tudo é muito rápido. Esta música procura atrasar a vida das pessoas, ou seja quando alguém ouve o disco espero que atrase um bocadinho o seu tempo, que sinta que ganhou tempo a ouvi-lo, porque se tranquilizou, porque serenou.

São estes dois fatores. Os sons de hoje, do que é digital, da música eletrónica e também de uma certa ‘slow life’, este conceito de atrasar o tempo. Isto conjugado com a minha formação clássica que tem o acústico como ponto principal, é por isso que o álbum tem um triângulo na capa.

Entre outras cidades, a produção do álbum passou por Berlim. Sei que a passagem por Berlim não esteve relacionada com a opção pela música eletrónica, mas tendo em conta que esteve lá e sendo uma cidade que tantas vezes é apelidada de capital da música eletrónica, ajudou no processo de inclusão deste estilo no projeto?

Ajudou. Berlim é uma cidade que visito desde 2000 quase anualmente. Eu vou à Filarmónica de Berlim ouvir ensaios de grandes maestros, de grandes obras e muitas vezes saio e vou a grandes clubes de música eletrónica e gosto do que acontece lá no sentido sonoro. Acho que só agora isso se está a manifestar. Portanto, acho que Berlim não influenciou diretamente porque eu fui lá gravar, não fui lá compor. Mas a vivência que lá tive até hoje, influenciou.

Temos, de há 20 anos para cá, uma geração de compositores, de intérpretes, de maestros que é extraordinária. Acho que às vezes os nossos departamentos culturais não percebem isto

É um desafio fazer chegar a música instrumental a cada vez mais pessoas?

Não é para o público. Quando estive envolvido na Capital Europeia da Cultura (Guimarães 2012), íamos aos sítios mais recônditos do ponto de vista da interioridade e as pessoas adoravam obras clássicas. Quando as pessoas se sentam num concerto em que a música é instrumental acho que adoram. O desafio é que os meios de comunicação, como o Notícias ao Minuto, pensem que isto não lhes vai tirar audiências. É só esse o grande desafio. Porque uma vez chegando às pessoas, se elas puserem os pés numa sala de concertos, vão amar. Seja a minha música ou a de outros.

O que mudou para que a música instrumental tenha atualmente uma aceitação maior? Os gostos das pessoas são mais diversificados, o ritmo e o stress do quotidiano levam à procura de sonoridades mais tranquilizantes?

Claramente. As pessoas hoje em dia procuram sons mais tranquilizadores porque querem atrasar o seu tempo. Eu próprio sinto que o meu tempo tem de ser atrasado, preciso de sentir calma no meu estúdio. Quando alguém fala é preciso enquadrar o raciocínio nas sociedades do seu tempo. Temos muitos séculos de música muito bem feita e houve uma altura em que a música instrumental fez muito sentido. Durante o século XX o advento do elétrico trouxe uma nova construção da mentalidade social. Trouxe as bandas, trouxe novos movimentos. A música instrumental está novamente a ganhar preponderância. Acho que isto é por ciclos. A relevância da música instrumental no século XXI é para atrasar o seu tempo, para não condicionar a mente através das palavras. Na música instrumental cada um faz o seu filme, faz a sua viagem, constrói a sua própria história. Foi sempre assim durante muitos anos e hoje voltamos a um período em que cada um tem necessidade da sua própria história. Acho que a música instrumental vai ser cada vez mais relevante.

Notícias ao MinutoRui Massena quer que a sua música transmita sons mais tranquilizadores, uma sensação de calma© Universal Music

O que significa para si ter o selo do Deutsche Grammophon?

A Deutsche Grammophon é a editora mais antiga da música clássica. Foi lançada no século XIX e documentou o século XX todo. Acomodou todas as inovações tecnológicas para a música. É uma editora com muita história e é uma editora que tem nos seus arquivos a história da música. O facto de terem escolhido uma música minha, chamada ‘Valsa’, para uma compilação dos primeiros 20 anos do século XXI é relevante porque pôs-me ao lado de nomes como Philip Glass, Steve Reich ou Ludovico Einaudi, nomes do movimento neoclássico que bebe da formação clássica, pessoas que estudaram música, que conhecem o alfabeto dos sons e que constroem música mais simples. É neoclássica porque no fundo é uma ‘new age’.

Agora, não foi só uma música, uma canção que escolheram, foi um disco inteiro. Acham que sou um compositor que está a fazer as coisas bem feitas do ponto de vista técnico, artístico e que acham que é uma música que deve ser ouvida. São os meus parceiros para o mundo juntamente com a Universal. Vão distribuir a minha música no mundo. Quando eu estudava música procurávamos os discos com a etiqueta amarela (a da Deutsche Grammophon), sabíamos que eram discos bons. É uma certificação. Isto está a acontecer-me a mim mas podia acontecer a outros músicos portugueses. Se calhar porque tornei-me mais popular, porque tenho trilhado este caminho e mais pessoas ouvem a minha música. Mas em nada é maior do que uma pessoa que tem menos pessoas a ouvir a sua música.

Nós temos uma geração de compositores de há 20 anos para cá, de intérpretes, de maestros que é extraordinária. Acho que às vezes os nossos departamentos culturais não percebem isto. Temos uma musicalidade inacreditável. Não somos é devidamente valorizados. Temos uma situação geográfica que é muito desprivilegiada. Se estivéssemos no centro da Europa estávamos a dar cartas para todo o mundo, mas não estamos…

No dia em que o meu sucesso se medir pelo número de pessoas que tenho no público estou desgraçadoCostuma preocupar-se com o sucesso de vendas dos seus álbuns?

Se quisesse navegar na fórmula vencedora pegava no piano e cordas. Na Holanda, na Alemanha e nos Estados Unidos ouvem mais a minha música – ainda sem contar com este álbum – do que em Portugal. No dia em que o meu sucesso se medir pelo número de pessoas que tenho no público estou desgraçado. Não faço isso. Não cometo esse erro. Durante muitos anos apresentei obras às pessoas com muitos anos de história, umas vezes tinha 50 pessoas, outras tinha mil, mas nunca foi isso que fez a perenidade das obras ou com que eu gostasse mais ou menos de música. É claro que gosto de ser relevante, mas são as pessoas que decidem.

E tendo em conta que são as pessoas que decidem, quais as suas expetativas para a receção de ‘III’?

A minha expetativa agora é internacional também. Tenho estado em Espanha, também na Bélgica e a minha expetativa é ir à Holanda e à Alemanha tocar. Espero que esta relação com a Deutsche Grammophon me permita mostrar a minha música a muitos países do mundo.

O Coliseu do Porto é um lugar especial para apresentar este novo trabalho?

Não tenho tanto esta coisa dos Coliseus como tinham os músicos de há 10 anos. Já fui ao Coliseu e trato-o como uma sala espetacular, mais popular, como trato a Casa da Música, o CCB, o Tivoli. Tenho uma relação com cada uma das salas porque cada uma traz-me uma energia própria. Naquele momento, naquela sala, com aquela configuração, encontramos um modelo que é único. É a beleza da música, a materialização imediata e irrepetível. O que tenho preparado é apresentar o álbum no Coliseu e ir buscar músicas atrás para fazer uma espécie de um ‘best of’.

A música tem um papel que nada mais tem no mundo, que é do cultivo da tolerância, do bem comumAtualmente o acesso à música é completamente diferente, mas a rádio continua a ser um dos principais meios difusores de música. Ainda não passa certos estilos de música, como a sua?

Nem toda a rádio passa a minha música. Há uma geração de pessoas como a Joana Gama, o João Resende, Filipe Melo, Filipe Raposo, Mário Laginha, Bernardo Moreira, José Salgueiro, entre outros, que fazem música bem feita. E que vai tomar o seu lugar no mundo, pode levar menos ou mais tempo. O grande entrave é a perceção de que a comunicação social não se consegue libertar porque está refém das audiências. Acho é que a rádio vive do mesmo problema.

Sou um felizardo no meio deste processo porque a minha música não passa na rádio, mas sempre que vou à rádio passam a minha música. Portanto, sou uma das pessoas que faz com que passem música instrumental na rádio, mas só quando vou lá. Mas isso já um caminho. É algo positivo. Se isto começar a acontecer mais vezes vamos compreender uma coisa importante: que a diversidade é fundamental. De manhã pode apetecer ouvir-nos uma coisa, à tarde outra, a meio da tarde outra coisa diferente, quando estamos cansados queremos ouvir outro tipo de música e há lugar para tudo. Durante muito tempo tivemos tendência para menosprezar alguns estilos de música. Eu não menosprezo nada, há lugar para tudo.

Notícias ao MinutoO maestro destaca o talento que há na música nacional© Universal Music

A nível global as sociedades estão muito divididas, vivemos um período marcado pela intolerância, xenofobia, o extremismo ressurge. A música continua a unir as pessoas, a afastar as diferenças que nos parecem separar no dia a dia?

A música está acima da ideologia. Costumo dizer que nos concertos tenho políticos de várias ideologias. E quando os vejo juntos ali, unidos por aquele bem comum, percebo que existe algo mais forte do que a ideologia. A música tem a capacidade de atenuar a intolerância. A música liga profundamente. Liga nos instintos, liga na intuição. A música tem um papel que nada mais tem no mundo, que é do cultivo da tolerância, do bem comum. Isso é talvez a razão que me fez seguir música porque gosto de unir, gosto da harmonia. Retiradas as diferenças, somos música, somos unos.

Na música podemos conhecer alguém profundamente sem conhecer a realidade dessa pessoa. Nós músicos olhamos para os outros e conhecemo-nos muitas vezes sem conhecer a realidade uns dos outros. As artes sublimam a elevação e é por isso que são tão essenciais à sociedade. A música une antes da razão, pelo espírito. Une sem se pensar. Temos de convergir para a harmonia, para a tolerância, para a cedência. Não há forma de construir uma sociedade democrática sem cedência. Orgulho-me de ser músico, do número de músicos que há em Portugal, de fazer parte de uma comunidade que sabe isto. Só temos é de saber ser mais fortes nestas áreas que nos unem.

De uma forma geral, as várias artes são afetadas por um problema da Cultura em Portugal, que é quase sempre o parente pobre dos diferentes Orçamentos do Estado, em termos de investimento público. Temos agora uma nova ministra. Tem esperança que isto mude?

Sempre que surge um novo ministro, renovo a minha esperança. É o caso desta nova ministra. Não tem a ver com investimento, tem a ver com entendimento. O entendimento pressupõe uma relação afetiva com as artes e é isso que temos de criar. Para que não seja só uma forma de pensarmos na Cultura, mas desejarmos a Cultura da mesma forma que desejamos uma relação afetiva. Aquilo ser emocionalmente calmante para as nossas vidas porque só quando for assim é que vamos afetar mais dinheiro. Isso é válido para toda a sociedade. Só nesse dia é que alguém vai perceber quanto é que deve investir.

A música é um bálsamo, é um comprimido que nos tira da realidade crua e dura. A música eleva-nos. As artes elevam-nosAcha que as pessoas, de uma forma generalizada, não procuram a Cultura?

O nosso país tem tido uma evolução nesse aspeto que é inacreditável. Hoje procuramos mais as artes do que alguma vez procurámos. Somos um país com um desejo cultural muito acima do que alguma vez tivemos. É tudo positivo nesse aspeto. Mas agora precisamos de criar condições para a indústria das artes para ser sustentável e criar cada vez mais qualidade e quantidade. É esse o desafio. Nós somos um país riquíssimo na procura, temos é uma assimetria muito grande entre o que são as grandes instituições culturais e o que está a meio. Não temos um sistema médio de instituições culturais. Temos as grandes e depois só temos o precário. Não temos um sistema médio que sustente a pirâmide toda. Precisamos de gosto. É por isso que na minha escola cultivo o gosto pela música, isto transportado para todas as escolas do país, o gosto pelas artes, faz com que as pessoas queiram a arte. É um calmante. A arte é um Valium, é um Xanax.

O Rui já tem bastantes anos de carreira. A música faz parte da sua vida. O que é que o apaixona na música?

A música é um anestésico extraordinário. A música é uma realidade à parte porque quando mergulhamos conseguimos viver a fantasia daquilo que estamos a ouvir, conseguimos não pensar na dureza, na crueldade com que muitas vezes o mundo se apresenta. A música é um bálsamo, é um comprimido que nos tira da realidade crua e dura. A música eleva-nos. As artes elevam-nos.

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