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Júlio Pomar, o pintor intelectual que atravessou várias estéticas

O artista plástico Júlio Pomar, que morreu esta terça-feira aos 92 anos, deixa uma obra multifacetada que percorre mais de sete décadas, influenciada pela literatura, pela resistência política, o erotismo e algumas viagens.

Júlio Pomar, o pintor intelectual que atravessou várias estéticas
Notícias ao Minuto

08:31 - 23/05/18 por Lusa

Cultura Óbito

Nascido em Lisboa, em 1926, Júlio Pomar, que gostava mais de desenhar do que de jogar à bola quando era criança, vendeu o primeiro quadro a Almada Negreiros por seis escudos, numa época em que era impensável viver da pintura.

Tornou-se um dos artistas mais conceituados do século XX português, com uma obra marcada por várias estéticas, do neorrealismo ao expressionismo e abstracionismo, e uma profusão de temáticas abordadas e de suportes artísticos experimentados.

A obra foi dedicada sobretudo à pintura e ao desenho, mas realizou igualmente trabalhos de gravura, escultura e 'assemblage', ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo.

Desde muito jovem começou a escrever sobre arte, tem obra poética publicada, alguma musicada e interpretada por cantores como Carlos do Carmo e Cristina Branco.

Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, tendo participado em 1942, em Lisboa, convidado por Almada Negreiros, na VII Exposição de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação.

Fez parte da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD), e participou ativamente nas lutas estudantis, o que lhe custou a expulsão das Belas Artes do Porto.

Em 1947, realizou a primeira exposição individual, no Porto, onde apresentou desenhos, e colaborou com os jornais A Tarde, Seara Nova, Vértice, Mundo Literário e Horizonte, participando no movimento artístico 'Os Convencidos da Morte', assim denominado por oposição aos célebres 'Os Vencidos da Vida', grupo marcante na história da literatura portuguesa.

A oposição ao regime de Salazar leva-o a passar quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros - 'Resistência' - pela polícia política, e a ocultação dos frescos com mais de 100 metros quadrados, realizados para o Cinema Batalha, no Porto.

Mesmo assim, Júlio Pomar conseguiu desenhar e pintar na prisão - onde circulavam papel, lápis e caneta - e fazendo um requerimento para obter materiais que lhe permitiram criar retratos dos camaradas presos, como Mário Soares, e do quotidiano no cárcere.

Num período inicial, neorrealista, foram marcantes algumas das suas obras, como 'O Almoço do Trolha', 'Menina com um Gato Morto', 'Varina Comendo Melancia' ou 'O Cabouqueiro', que revelam a influência, na mesma corrente, de escritores como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, e artistas plásticos como o brasileiro Cândido Torquato Portinari.

Nos anos 1950 viajou até Espanha, onde estudou a obra do pintor Goya, fundou a cooperativa Gravura, em Lisboa, para produção e divulgação de obras gráficas, que marcou várias gerações de artistas.

Na década seguinte, foi viver para Paris, onde esteve como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1963 e 1966.

Desse tempo destaca-se a série de quadros a preto e branco para ilustrar a versão de 'D. Quixote', de Aquilino Ribeiro, tema que usou noutras pinturas e esculturas, e iniciou a série 'Tauromaquias', que exibiu em Paris, onde também participou numa mostra dedicada ao quadro de Ingres 'Le Bain Turc', no Museu do Louvre, em 1971.

Em entrevista à agência Lusa em 2009, Júlio Pomar recordou que a vivência em Paris, nos anos 1960, coincide com uma rutura "mais dramática" no percurso artístico, quando sentiu que a pintura que criava "estava a desfazer-se".

"A minha pintura estava a desfazer-se e senti necessidade de dar-lhe uma estrutura", explicou, acrescentando que as mudanças no seu percurso artístico foram feitas de um modo geral sem esforço, mas naquele caso "foi esforçada".

Em Portugal, a primeira retrospetiva da obra de Pomar foi organizada em 1978 pela Fundação Gulbenkian e exibida na sua sede em Lisboa, também no Museu Soares dos Reis, no Porto e, parcialmente, em Bruxelas.

Também em Paris e em Madrid apresentou, na década de 1990, a série sobre os índios do Alto Xingú, na Amazónia, onde passou algum tempo, e a antológica 'Pomar/Brasil', organizada pelo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, e apresentada em Lisboa, Brasília, São Paulo, e Rio de Janeiro.

Em 2004, o Sintra Museu de Arte Moderna - Coleção Berardo apresentou uma vasta retrospetiva intitulada 'Pomar/Autobiografia', comissariada por Marcelin Pleynet, enquanto o Centro Cultural de Belém expôs a antologia 'A Comédia Humana', organizada por Hellmut Wohl.

Nesse ano foi criada a Fundação Júlio Pomar e quase uma década depois, em 2013, foi inaugurado em Lisboa o Atelier-Museu Júlio Pomar, com um projeto arquitetónico de reabilitação de Álvaro Siza.

Júlio Pomar também ilustrou várias obras, como 'Guerra e Paz', de Tolstoi, 'O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro, a obra "D. Quixote", de Cervantes, "A Divina Comédia", de Dante 'Pantagruel', de Rabelais, 'Rose et Bleu', de Jorge Luís Borges, e 'Mensagem', de Fernando Pessoa.

Recentemente ilustrou o livro 'O cão que comia a chuva', de Richard Zimler, distinguido com o Prémio Bissaya Barreto de literatura para a infância.

O seu trabalho encontra-se em edifícios e espaços públicos, nomeadamente na estação de metro do Alto dos Moinhos (1983-84), os frescos pintados no Cinema Batalha (Porto 1946-7), e a sala de audiência do Tribunal da Moita, com o arquiteto Raul Hestnes Ferreira (1993), e as tapeçarias executadas para as sedes do Montepio Geral e da Caixa Geral de Depósitos.

Escreveu os livros de ensaios sobre pintura 'Discours sur la Cécité des Peintres' (1985), 'Da Cegueira dos Pintores' (1986), e '- Et la Peinture?' (2000) e 'Então e a Pintura?' (2003), e publicou os livros de poesia 'Alguns Eventos' (1992) e «TRATAdoDITOeFeito» (2003).

É o autor do retrato oficial do antigo Presidente da República Mário Soares.

Júlio Pomar integrou a representação portuguesa na Bienal de São Paulo de 1953 e recebeu, entre outros, o Prémio Associação Internacional de Críticos de Arte em 1995, o Prémio Celpa/Vieira da Silva, em 2000, e o Prémio Amadeo de Souza Cardoso em 2003.

Foi condecorado pelo antigo Presidente da República Mário Soares e também por Jorge Sampaio. Em França, foi condecorado com a comenda das Artes e das Letras.

Em 2013 recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Lisboa.

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