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Historiadora Irene Pimentel lança livro sobre espionagem em Portugal

A historiadora Irene Pimentel publica este mês “Os espiões em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial” em que demonstra que o papel da Legião Portuguesa foi mais efetivo do que o desempenho da polícia política nas questões de espionagem.
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“Eu baseei-me nas fontes da Legião Portuguesa e sobre isso eu não estava à espera, porque eu ia consultar as fontes da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, que funcionou entre 1933 e 1945)", disse à Lusa Irene Pimentel.

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A historiadora afirmou que, além da consulta de documentos norte-americanos, o estudo das fontes da Legião Portuguesa são a “grande novidade” sobre a questão da espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.

“Percebi que a Legião Portuguesa tem mais importância neste aspeto. Eu acho que tem tudo a ver com gente da Legião Portuguesa que formou o Serviço de Informação e que desenvolveu essa atividade”, referiu Irene Pimentel, sublinhando que o papel da organização foi-se modificando em virtude das circunstâncias e do percurso do conflito.

“A Legião Portuguesa é germanófila até 1943, mas Portugal fornece serviço a uns e serviço a outros e muitas vezes em simultâneo. Na Legião, há muita gente, e sobretudo as figuras principais, que finge que trabalha para os dois lados mas trabalha mais para um do que para o outro e, a partir de 1943, a própria Legião elimina as principais figuras germanófilas lá dentro, que é quando se percebe que a guerra muda de rumo”, explicou.

A Legião Portuguesa, milícia do Estado Novo criada em 1936 e extinta em 1974, estava ligada aos ministérios do Interior e da Defesa e durante a Segunda Guerra Mundial interessava tanto a ingleses como a alemães, mais do que a PVDE.

“Há o mito de que a PVDE é feita à imagem da Gestapo. Existe algum relacionamento, mas é curioso que a ligação é com a polícia fascista italiana, que teve em Portugal um elemento que tinha como missão fazer a reorganização da polícia portuguesa”, afirmou Irene Pimentel, autora de uma vasta obra sobre a polícia política do salazarismo.

No livro, a historiadora aborda também os jogos políticos do Estado Novo, porque, disse, havia a preocupação de Salazar para que não transparecesse o papel dos portugueses, “de um lado ou de outro para não prejudicar a neutralidade”.

“A partir de dada altura há negociações muito claras de manutenção do regime depois da Segunda Guerra Mundial. Os oposicionistas tiveram esperança de que o regime, tal como o espanhol, soçobrasse, mas a partir de 1943 está tudo a ser negociado: a manutenção do Império Português e do regime, sobretudo por parte dos ingleses”, disse Irene Pimentel, que se preocupou em contar “Histórias” e factos sobre espionagem em Portugal referindo as identidades dos envolvidos.

“Eu pus os nomes de todas as pessoas porque acho que já passou tempo suficiente. Os nomes dos agentes portugueses. Os nomes de todos são referidos”, esclareceu, reforçando a ideia de que “os principais serviços desenvolvidos são a espionagem naval, mas também a espionagem industrial", relacionada sobretudo com as minas de volfrâmio, minério utilizado na indústria de armamento.

“Os ingleses queriam saber quem é que fornecia e quem é que exportava volfrâmio para a Alemanha. Os ingleses também tinham toda uma estrutura de normalização do Oceano Atlântico porque concediam certificados de navegação e portanto tudo o que era firma considerada suspeita ficava numa lista negra”, referiu a historiadora.

O papel do MI9 (serviço britânico ligado ao War Office entre 1939 e 1945), que se dedicava a atividades de resistência em territórios ocupados, a planos de evasão de prisioneiros de guerra e que tinha também redes de fuga de militares desde França e Espanha, chega também a Portugal, e os factos são contados no livro de Irene Pimentel, que indica que a PVDE conseguiu intercetar a rede e prender sobretudo polacos e alemães, sendo que “alguns vão mesmo parar ao Tarrafal”.

“Eu exploro também o XX System (Double-Cross System) do MI5 com o MI6 (serviços de informações britânicos), e que é uma rede de espiões duplos onde figuram nomes como ‘Garbo’, ‘Popov’ e ‘Zig Zag’, espiões que estiveram em Portugal e que foram importantes para informações falsas e de redes fictícias e de contra informação, muito importantes para Pas-de-Calais (Operação Bodyguard) e o desembarque da Normandia em 1944”, contou a investigadora, que tenciona continuar a investigar o tema da espionagem durante a Segunda Guerra Mundial.

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