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"Numa única candidatura da Direita seria mais fácil disputar a Câmara"

Assunção Cristas, líder do CDS-PP e candidata à Câmara Municipal de Lisboa, é a entrevistada de hoje do Vozes ao Minuto.

"Numa única candidatura da Direita seria mais fácil disputar a Câmara"
Notícias ao Minuto

29/09/17 por Inês André de Figueiredo

Política Assunção Cristas

Aos 43 anos, completados ontem, Assunção Cristas é líder do CDS-PP e candidata-se à autarquia de Lisboa, em nome do seu partido, mas garante que a acumulação de cargos, dependendo do resultado das eleições, não é problemática. Apesar de manter a confiança nos lisboetas e na campanha que fez, a centrista assumiu que uma "candidatura única do centro-direita" poderia ter mais sucesso frente ao Partido Socialista.

Com duras críticas à governação socialista dos últimos dez anos, principalmente dirigidas a Fernando Medina, Cristas admite, ao Notícias ao Minuto, ser uma alternativa para a capital, também com o intuito de travar uma "ameaça de governo das Esquerdas unidas também na Câmara Municipal de Lisboa". 

Sobre o Governo, a líder do CDS comenta a gestão de casos como Tancos e Pedrógão Grande, realçando que as demissões pecam por tardias.

A líder do CDS-PP é a candidata à Câmara Municipal de Lisboa. Na capital e no país, um dos cargos poderá ficar prejudicado?

Penso que é perfeitamente compatível ser líder nacional do CDS e ser presidente da Câmara de Lisboa e, portanto, se essa for a escolha dos lisboetas, e estou a trabalhar há um ano no terreno para construir um programa com todos os lisboetas, para construir uma equipa forte que vai muito além do CDS, tem muitíssimos independentes, para além do MPT e do PPM, não vejo nenhuma incompatibilidade nem nenhum prejuízo numa ou outra circunstância. Por uma ou outra razão, se porventura os lisboetas não me derem a vitória enquanto presidente da Câmara, mas me derem um resultado que me permita ser vereadora da oposição, certamente que será completamente compatível ser vereadora da oposição na Câmara de Lisboa, ser deputada da oposição no Parlamento e ser líder do CDS. Mas se me perguntar o que é que eu prefiro? Naturalmente ser presidente da Câmara de Lisboa e mostrar como é possível conjugar uma coisa e outra como, aliás, já aconteceu no passado.

A intensidade e dedicação, minha e do CDS, a esta candidatura foi a máximaApós o anúncio da sua candidatura, falou-se que o PSD apoiá-la seria uma opção, havendo uma coligação PSD/CDS na corrida a Lisboa. Isso não aconteceu e o PSD optou por Teresa Leal Coelho. Esta decisão enfraqueceu ambas as candidaturas?

Naturalmente que numa única candidatura do centro-direita seria mais fácil disputar a Câmara, no sentido em que não divide votos e isso é bastante evidente. Eu trabalhei desde o primeiro minuto como trabalharia como se tivéssemos uma candidatura conjunta, dando o meu máximo e o meu melhor, visitando muito a cidade, estando com os lisboetas, concretizando, com a coordenação do professor Carmona Rodrigues, um ciclo de 13 conferências a que chamámos 'Ouvir Lisboa' e, portanto, a intensidade e dedicação, minha e do CDS, a esta candidatura foi a máxima, como seria a máxima em qualquer circunstância.

Acredita que pode haver um arrependimento por parte do PSD?

Só me preocupo com o CDS, é do meu partido que eu tenho de tratar, e preocupo-me com esta grande candidatura que é a 'Nossa Lisboa', uma coligação de três partidos e com muitos independentes envolvidos, desde logo encabeçando a Assembleia Municipal, outros na lista para a Câmara e nas várias juntas de freguesia encabeçadas por independentes e onde creio que podemos ter bons resultados.

Apesar de as sondagens terem apenas valor de sondagens, têm colocado o CDS em segundo lugar, a seguir a Fernando Medina. Este resultado, já por si, é uma conquista?

Trabalho desde há um ano para passar a minha mensagem de ambição, de rasgo e de vontade de servir os lisboetas. Entendo que é preciso pôr um ponto final a 10 anos de governação socialista no município de Lisboa e também por haver uma ameaça de governo das Esquerdas unidas também na Câmara Municipal de Lisboa como já se começa a desenhar, numa perspetiva eventual de Fernando Medina vencer sem maioria. Creio que nós temos uma alternativa muito forte a Medina, muito sólida, consistente, que olha para os problemas estruturais da cidade e que apresenta soluções. E que também olha para as oportunidades da cidade e apresenta um programa de ação. Portanto, estou convencida de que, até ao último minuto, há oportunidade para vencer porque em democracia não se pode pensar de outra maneira, em democracia a palavra é dos eleitores, e neste caso dos lisboetas. O que eu lhes quero dizer é que vale a pena votar em mim, não se vão arrepender de votar na 'Nossa Lisboa' e que prometo superar as expectativas que possam ter criado, que me deem essa confiança.

O que podemos ver a olhos vistos foram as obras de Medina, obras de encher o olho, obras de cosmética, obras que podem servir para inglês verComo referiu, o PS está há 10 anos à frente da autarquia de Lisboa. Como avalia esta última década?

Faço uma avaliação negativa, no sentido em que nada do que é estrutural na cidade foi efetivamente resolvido. Nós olhamos para o trânsito e perguntamos se está melhor ou pior. Está pior. Olhamos para questões estruturais, como a limpeza da cidade, a higiene urbana e perguntamos se está melhor ou pior. Está pior. Olhamos para o estacionamento e está pior, o transporte público está pior, a habitação, principalmente a social, está muito pior. Mas na habitação para todas as pessoas, durante 10 anos, a Câmara de Lisboa abandonou, e talvez pela primeira vez na história da Câmara, qualquer política ativa da habitação, extingui a EPUL e não teve mais nada em alternativa. Portanto, se formos picar ponto por ponto, está pior. O que é que está diferente? Aquilo que não dependeu da Câmara, por exemplo o turismo, e na parte que depende da Câmara, em todas elas estamos pior. O que podemos ver a olhos vistos foram as obras de Fernando Medina, obras de encher o olho, obras de cosmética, obras que podem servir para inglês ver.

Mas não melhoraram a vida das pessoas?

Não servem para melhorar a vida das pessoas no dia a dia da cidade de Lisboa, pelo contrário. Em muitas zonas da cidade infernizaram a vida das pessoas. Na zona das Avenidas Novas, à volta da Avenida da República, o chamado eixo central, uma vez disse que a obra até está bonita mas não serve e tive vários moradores que me disseram 'por favor, não diga que está bonita, a nossa vida transformou-se num inferno à conta destas obras'. Para além de muitos defeitos de conceção, pondo em causa desde logo questões relacionadas com a própria segurança, os carros de emergência não passam em muitas zonas.

Outro exemplo de uma questão estrutural que não foi resolvida desde há 10 anos foi a questão da drenagem de Lisboa, nos planos que existiam, António Costa pôs de lado e Fernando Medina quer anunciar um grande túnel, que além do mais é uma solução caríssima de 200 milhões de euros, que resolverá alguma coisa de estrutural, mas que não resolve bem, não resolve à imagem do que são as propostas e soluções do século XXI em que devíamos estar a reter água para a podermos utilizar, não para a despejar no Rio Tejo. A maneira como se fazem as coisas na cidade... Por exemplo, em matéria de transparência. Lisboa, no índice de transparência municipal está no lugar 137. Acho que isto não é aceitável, temos de estar no top 10.

Acredita que maioria absoluta contribuiu para isso?

Acredito que há uma certa acomodação ao poder e uma certa ideia de que há um 'quero, posso e mando'. Quando olhamos para o jardim de São Pedro de Alcântara, onde se contrata uma obra de 5,1 milhões de euros por ajuste direto e se desconsidera um parecer de LNEC que não fala em nenhuma urgência imperiosa, acho que é de quem está demasiado à vontade.

Diferença entre ambos [Costa e Medina], sinaliza uma grande diferença. Fernando Medina tem uma postura muito mais de 'quero, posso e mando'Há diferenças visíveis entre a liderança de Fernando Medina e António Costa, que deixou a Câmara para assumir a liderança do PS?

Quem observou de perto as duas lideranças, e a diferença entre ambos, sinaliza uma grande diferença, por exemplo, no que diz respeito à capacidade de diálogo e envolvimento das pessoas que Fernando Medina não tem, tem uma postura muito mais de 'quero, posso e mando', de menos capacidade de ouvir a cidade, as instituições, os moradores, menos capacidade de dialogar com eles e aquilo que eu ouço é uma grande crítica em relação a essa postura da Câmara Municipal de Lisboa.

Notícias ao MinutoAssunção Cristas, de 43 anos, é a candidata do CDS a Lisboa© Blas Manuel

No que toca à campanha, a habitação e os transportes estiveram no centro de todas as propostas dos diversos partidos. Em que é que o programa do CDS se diferencia dos outros?

O programa do CDS vai muito além desses dois temas e até é empobrecedor do nosso diálogo termos ficado tão circunscritos nos temas. Eu elenquei como prioridade a aérea social porque, lá está, em 10 anos de governação socialista, a cidade perdeu muitos habitantes, tornou-se a capital mais envelhecida da Europa, e nós temos de ter estratégias para apoiar os mais idosos, e para conseguirmos que mais jovens e famílias com filhos e vontade de ter filhos venham para a cidade de Lisboa. Uma cidade que tem uma falha de 30% na oferta de creches precisa de ter uma forte política aí. Nós defendemos um modelo, tendo proposto um programa para chegar, , em quatro anos, a uma cobertura total de creches. Como defendemos também o apoio aos mais idosos através de uma rede de cuidadores, trabalhando com todas as instituições do setor social que já trabalham na cidade de Lisboa.

Em relação aos temas que me coloca, na habitação damos muita atenção à habitação para todas as idades e para todas as carteiras e, por isso, não descuramos a habitação social. Nós temos sinalizado e referido as fracas condições que vemos nos bairros sociais, com a necessidade de obras, de atender às necessidades concretas das famílias. Temos falado muito da necessidade de rapidamente entregar às famílias as 1.600 casas que estão fechadas nos bairros sociais da cidade de Lisboa. Por outro lado, todo o património imobiliário da Câmara Municipal de Lisboa que não tem utilidade, neste momento deve ser alocado a programas de arrendamento a preços moderados e não é só nas zonas menos apetecíveis. Por exemplo, connosco, o terreno da Feira Popular é para um programa para mil apartamentos a preços controlados que estimamos que sejam entre 30 a 50% abaixo do preço de mercado, entre T0 e T4.

Há outras medidas que passam pela política nacional e que o CDS, aliás, tomou a dianteira nessa matéria, como por exemplo medidas relacionadas com a competitividade do arrendamento de longa duração. Nós já apresentámos, nos dois últimos Orçamentos do Estado, uma baixa da fiscalidade para esse arrendamento, de maneira a estimular os proprietários a colocarem as suas casas no arrendamento para habitação de longa duração. Depois há outros instrumentos que a Câmara simplesmente não utilizou e que nós entendemos que deve utilizar em benefício de termos mais habitação para arrendamento a preços moderados em Lisboa, por exemplo, obras coercivas ou direito de preferência que a Câmara tem e que não tem utilizado.

Há depois outros mecanismos que podem fazer a diferença. Neste momento, os recursos públicos para reabilitação urbana podem ser utilizados em quase toda a cidade para hotéis, alojamento local, serviços, restaurantes, etc., mas para habitação só para uma zona muito circunscrita da cidade. Nós entendemos que se deve alargar para toda a cidade, precisamente para que um proprietário possa fazer obras no seu imóvel e beneficiar de fundos públicos para a habitação e não apenas para um alojamento local. Há uma medida que também colocamos no programa para ser avaliada e ponderada que é, no limite, através dos Planos de Pormenor e PDM introduzir um equilíbrio entre as diferentes freguesias e bairros, porque sabemos que há alguns locais pressionados pelo turismo.

Ainda no tema da habitação, o que é que está errado na política do arrendamento?

A política do arrendamento conheceu uns sinais muito positivos a seguir à reforma que entrou em vigor em 2012, pôs fim a décadas de congelamento de rendas que empobreceram a cidade de Lisboa e do Porto, fizeram com que o edificado ficasse abandonado, desertificado e a cair aos bocados e isso levou a um ânimo do mercado de arrendamento. Aliás, quando comparamos o número de imóveis disponíveis para arrendar hoje e em 2010, hoje temos muitos mais.

Mas com preços muito mais elevados...

Na generalidade das freguesias são preços exatamente iguais. Nas freguesias com forte apetência turística são bastante mais elevados. O que aconteceu foi que isto entroncou com uma forma descoberta da cidade de Lisboa por parte dos turistas e depois com uma pressão dos investidores imobiliários, e muitas vezes com as duas coisas em paralelo. Mais do que nunca, neste momento é necessário que na Câmara de Lisboa, que abandonou as políticas de habitação durante 10 anos, essas políticas existam para contrabalançar com este interessa da habitação urbana para o turismo.

O caso do Porta 65, por exemplo, é suficiente para dar habitação aos jovens que entram no mercado de trabalho com salários baixos?

Não é suficiente em Lisboa. Antigamente havia a EPUL jovem, por exemplo, mas acho que o modelo deve ser de arrendamento e não de venda, como era o caso da EPUL. Deve ser um programa de arrendamento a preços moderados mas é preciso que a Câmara se empenhe na renovação de edifícios, lembro que a Câmara é um grande proprietário da cidade de Lisboa, o maior proprietário, e que deve aproveitar bons terrenos porque os existem. Há zonas da cidade onde é possível construir para arrendamento a preços moderados, a Câmara tem de dar um impulso e criar uma política ativa de habitação.

Nós temos de ter o metro articulado com a Carris, temos que ter uma frota de dimensões variadas para manter uma regularidade de maneira a não perder passageirosDa habitação para os transportes, uma das propostas mais faladas foi a do CDS, sobre a criação de 20 estações de metro até 2030, foi considerada "megalómana" e António Costa chegou a dizer que é "algo que não faz o menor sentido". Como vê estas reações?

No caso de António Costa vi o inverso, ao dizer que depois de 2020 fazia sentido ter a expansão do metro de Lisboa e do Porto e pensar nos fundos comunitários para isso. Aliás, notei esta adesão do PS e do Governo à vontade de expandir o metro, que de resto Fernando Medina já tinha referido no dia 8 de maio deste ano quando foi apresentado o fecho da linha em Santos e Estrela. Na altura estava ao lado do ministro e disse 'a breve trechos, espera-se poder ir até Belém'. Neste momento todos os partidos entendem que é necessário chegar até à zona ocidental, nós defendemos uma visão estratégica de médio prazo para o metropolitano e isso diferencia-nos dos outros partidos, no sentido da análise, estudo e comparação que fizemos com outros países e concluímos que ou temos o metro como coluna vertebral dos transportes em Lisboa para impedir que uma boa parte dos 360 mil automóveis que entram todos os dias na cidade fiquem retidos às portas da cidade ou então dificilmente vamos arranjar uma solução, não é com os autocarros ou com os elétricos que arranjamos uma solução, isso depois é complementar.

Quando disseram que era megalómano devo dizer que sorri, por duas razões: primeiro porque sei que neste momento, até agora, tivemos 1,3 estações em média por ano em Lisboa e o que propomos é passar de 1,3 para 1,5, portanto é um pequeno incremento e não um salto imenso; segunda razão porque lembro-me de ver Ana Paula Vitorino em 2009, na altura secretária de Estado dos Transportes, a anunciar 30 estações de metro e, portanto, quem na altura dizia isto não pode agora dizer que a nossa visão é megalómana.

Estamos a falar de uma estratégia que traz qualidade de vida para quem mora na cidade e para quem vem todos os dias para Lisboa - lembro que na cidade de Lisboa só há 160 mil automóveis - mas também tem um impacto ambiental imenso, pelas nossas contas isto permite reduzir em 30% as emissões de CO2. Escolhemos 2030 como meta porque é a meta das estratégias europeias de energia e clima e é por aí se alinham as metas com que os países se comprometeram. Portanto achamos que é possível construir um caso bem sólido para vir a ser financiado com fundos comunitários dos próximos dois quadros.

É por isso que eu tenho muita esperança de que passado o momento em que acho que todos ficaram com pena de não terem sido os primeiros a falar desta visão estratégica e de futuro para a cidade de Lisboa que, de facto, um a um, como tem acontecido durante a campanha eleitoral, venham a dar razão ao CDS, prioridade para a zona ocidental, para o fecho entre a Campo Grande-Aeroporto e depois Telheiras-Pontinha e depois passá-lo até Loures, feito faseadamente.

Creio que essa visão é muito importante. Não depende da Câmara, depende do Governo, mas depende da pressão e da visão que a Câmara tenha. Enquanto presidente da Câmara, farei toda essa pressão junto do Governo para que possamos ter este projeto realizado.

Além do metro, a rede que temos de autocarros da Carris na cidade é suficiente?

Não é suficiente mas, sobretudo, o que é muito insuficiente é a ocupação que nós temos na Carris. Temos 16% de ocupação nos autocarros da Carris. Isto quer dizer que é muito pouco. Há um desajustamento da frota com a oferta e a procura. Nós temos de ter o metro articulado com a Carris, temos que ter uma frota de dimensões variadas para manter uma regularidade de maneira a não perder passageiros mas garantir que os autocarros são em determinadas horas do dia mais pequenos para ser mais suficientes e manter a tal cadência. Depois precisamos de mais informações ao utente. Tudo tem de ser articulado com todos os meios a pensar numa cidade do futuro mas, precisamente por isso, entendo que o metro é a coluna vertebral. Já agora convém não infernizar a vida aos moradores, que já não são muitos, e eu oiço em todo o lado que estacionar é tão difícil que há, por causa disto, residentes de Lisboa que estão a sair da própria cidade.

O estacionamento é um dos graves problemas desses moradores.

Para esse problema temos um programa a que chamámos 'Lisboa Parque' que significa que os moradores têm de ter um estatuto de benefício, duas zonas de estacionamento à borla, a da residência e uma qualquer outra, 20 minutos por dia gratuitos e 50% de desconto nas tarifas EMEL.

E no que toca ao estacionamento, há uma má gestão por parte da EMEL?

É uma questão de termos mais espaços, muitos deles estão cheios. Há uma grande carência e continuará a ter essa carência enquanto não deixarmos uma boa parte dos automóveis às portas da cidade de Lisboa, com parques dissuasores gratuitos para quem tem título de transporte coletivo.

Ainda no setor dos transportes. Fez uma campanha dedicada aos motociclos, as motas poderiam resolver grande parte da mobilidade em Lisboa?

As motas podem ajudar, sobretudo se significarem alguém deixar de usar o automóvel para passar a a utilizar uma mota. Nós focámos a questão das motas porque o CDS tem uma grande responsabilidade, e orgulha-se disso, porque propôs que as motas andassem na faixa BUS e isso é um grande fator de segurança, quer para as motas, quer para os carros, há um respeito recíproco entre uns e outros e permite-nos promover um uso seguro das próprias motas. Se compararmos que um carro tem uma ocupação de 1,2 em média, as motas também levam 1/2 pessoas, ocupam menos espaço, imitem menos CO2 e também se ganha na fluidez do trânsito. Também falta estacionamento para as motas e para as bicicletas.

Não temos turistas a mais mas temos gestão urbana a menosPor outro lado temos o turismo, que era visto como o 'menino dos olhos de ouro', e que começou a ser um tema controverso nos últimos tempos. Como se pode equilibrar a balança de um tema tão importante?

Com mais gestão urbana. Eu costumo dizer que não temos turistas a mais mas temos gestão urbana a menos. Em Lisboa, o ano passado, recebemos 5,6 milhões de turistas, Barcelona recebeu 32 milhões, Portugal inteiro recebeu 20 milhões de turistas. O turistas trouxeram animação a zonas que estavam desertificadas e praticamente sem gente, reabilitação urbana, restaurantes, lojas. Também trouxeram muitas outras coisas que não gostamos tanto e, portanto, precisamos de gestão urbana nas áreas da higiene urbana, da habitação com políticas ativas, na área dos transportes garantindo que os fluxos dos turistas também são precavidos no que diz respeito às linhas dos transportes coletivos.

Não é possível vermos os elétricos cheios uns após outros, sem servirem nem turistas nem locais. Precisamos de mais segurança, por exemplo na zona do Cais do Sodré e do Bairro Alto. O turismo de fim de semana, para saídas à noite, também pegou moda. Há cerca de 100 mil pessoas na rua à quinta, à sexta e ao sábado e não há mais segurança. As pessoas sentem-se inseguras, portanto este é outro aspeto relevante que precisa de mais intervenção.

E de que forma devem ser utilizadas as receitas provenientes do turismo para melhorar a cidade?

A taxa turística deve ser usada olhando para estas questões básicas. Choca-me que a taxa turística seja utilizada, por exemplo, para fechar a obra do Palácio da Ajuda, quando essa devia ser financiada totalmente pelo Governo, e não seja utilizada para termos mais recolha de lixo, por exemplo, ou mais limpeza urbana, porque os turistas andam mais tempo na rua, usam muito mais embalagens e produzem mais lixo e muitas vezes não têm tanto cuidado como os habitantes porque estão aqui de passagem. Higiene urbana ou, por exemplo, mesmo na questão dos transportes ou na habitação. Eu creio que a taxa turística utilizada desde logo para áreas que tenham uma relação direta com os efeitos negativos ou menos positivos do turismo.

Também temos de levar os turistas para outras centralidades, para outros pontos de interesse na cidade de Lisboa e olhar para o estuário do Tejo para uma zona para onde queremos levar os turistas.

Notícias ao MinutoAssunção Cristas em entrevista ao Notícias ao Minuto© Blas Manuel

Com a aproximação do ato eleitoral, entende que estas eleições podem ou devem ter uma leitura em termos nacionais?

Cada município é um município, há dinâmicas muito próprias em cada concelho que têm a ver com quem está, há quantos anos é que está, quem é que aparece, quem são os adversários. E eu acho que estas eleições muitas vezes explicam-se casuisticamente em cada concelho. Dito isto, também sei que na noite eleitoral, jornalistas e comentadores fazem sempre leituras nacionais. Mas o que me preocupa é garantir que o objetivo que foi definido no congresso do CDS há um ano e meio seja cumprido, que foi crescer do ponto de vista autárquico, não desvalorizar estas eleições mas garantir as posições que temos e crescer em mandatos e, no caso do CDS, pode ser ter uma junta de freguesia, ter um vereador, um deputado municipal em sítios onde não temos ninguém ou num caso ou noutro conseguir uma Câmara. Esta orientação geral que é dar importância às autárquicas e crescer autarquicamente porque queremos servir os nossos concidadãos também ao nível do poder autárquico e às vezes é onde se conseguem resolver determinadas questões. O partido está mobilizado.

Governo tem mostrado uma ligeireza, uma falta de sentido de Estado, uma falta de capacidade de assumir responsabilidades aos vários níveis que é, de facto, preocupanteAcredita que, por exemplo, os partidos à Esquerda podem beneficiar com a 'Geringonça'?

Não sei, não faço essas leituras e confesso que não olho muito para quem está ao lado. Olho em frente, olho para os nossos objetivos e empenho-me na concretização desses mesmos objetivos.

Como avalia a gestão do Governo no caso de Tancos, que volta a marcar a atualidade depois do relatório de que falou o Expresso?

Desastrosa, absolutamente desastrosa. O Governo tem mostrado uma ligeireza, uma falta de sentido de Estado, uma falta de capacidade de assumir responsabilidades aos vários níveis que é, de facto, preocupante. Mostra que o Partido Socialista e as Esquerdas unidas não têm capacidade para gerir com sentido de Estado as áreas de soberania. O Governo coloca-se sistematicamente na posição de um cidadão comum, colocando questões aos organismos que deles dependem. Com certeza que têm que as colocar, ninguém o questiona e tem mesmo que as colocar mas, para fora, é o Governo que responde perante os portugueses. O Governo é cabeça da Administração Pública, é o Governo que tem de dar respostas aos portugueses, não tem de fazer perguntas como se fosse um qualquer cidadão.

O CDS pediu, por diversas vezes, a demissão do ministro da Defesa. Azeredo Lopes podia ter gerido esta situação de forma diferente?

Azeredo Lopes mostrou uma total incapacidade para exercer as funções que desempenha, mostrou que não compreende o seu cargo. Enfim, é uma ligeireza, uma falta de responsabilidade e, portanto, infelizmente, passam-se as semanas e temos mais razões para entender que o dissemos bem e vai muito tarde qualquer remodelação nesta área. Espero que um dia venha a acontecer, a bem da própria credibilidade do Estado e das instituições do Estado.

Agora que chegámos ao fim do verão, uma estação marcada pela tragédia de Pedrogão Grande, dá o caso como resolvido?

Não, de forma alguma. Ainda está no princípio. Nós temos uma comissão independente a trabalhar e aguardamos as conclusões dessa comissão para as avaliar e escrutinarmos no Parlamento. Não está, de todo, resolvido, pelo contrário. Nós estaremos muito atentos, muito interventivos, para garantir que todas as explicações são dadas.

Mas ficou uma demissão por ser feita?

Essa já peca por muito tardia, talvez o primeiro-ministro venha um dia a mexer no Governo e eu espero que, se e quando o vier a fazer, não se esqueça da Administração Interna e da Defesa.

Disse, numa entrevista à Renascença, que dificilmente votaria a favor do Orçamento do Estado, que falhas antevê neste documento?

Nós temos uma visão estratégica diferente da do Partido Socialista e das Esquerdas unidas, que temos expressado sucessivamente nos Orçamentos do Estado, temos tido uma posição construtiva apresentando propostas alternativas, e temo-lo feito no Plano Nacional de Reformas e no Programa de Estabilidade. Portanto, avaliaremos este documento à luz daquilo que é a nossa visão para o país e, certamente, retiraremos as conclusões. O que eu disse e repito é que nós nunca temos um voto cego, digamos assim, nós analisamos o conjunto do Orçamento e fazemos a nossa avaliação e temos votado contra. E depois fazemos uma avaliação medida a medida, proposta a proposta e, por isso, em vários casos, temos posições que vão desde o voto contra, à abstenção, ao voto a favor.

Nada a faria mudar de ideias em relação a essa decisão?

Eu não conheço o Orçamento e não gosto de estar a antecipar votos antes de conhecer, mas que é verdade que temos uma visão diferente em relação ao Governo das Esquerda unidas, certamente que as temos. O que tenho procurado dizer todos os dias é que não se pode conhecer um Orçamento a conta-gotas, em fase pré-eleitoral, claramente com vocações mais eleitoralistas e eu gostaria de conhecer o Orçamento na sua totalidade. Se o Governo está em condições de o apresentar, pois está em condições de dar notícias todos os dias, apresente-o e podemos começar a discuti-lo.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve em Angola, onde se viu envolvido numa 'confusão' com o significado dos assobios...

Tanto quanto me é dado saber teve uma grande ovação, foi o único dignitário estrangeiro presente na cerimónia que foi ovacionado, eu acho que houve uma leitura errada que creio que já foi corrigida.

Como analisa os últimos meses de trabalho do Presidente da República?

Tem sido consistente com aquilo que sempre disse, um fator de estabilidade em relação a um Governo que tem um apoio sólido no Parlamento, de vez em quando há um bocadinho de vozearias, negociações próprias de um período pré-eleitoral e pré-orçamental que coincide. Mas eu acho que, de facto, enquanto o Governo tiver esta maioria sólida a apoiá-lo, em relação à qual nós temos muitas críticas e nos assumimos como alternativas, não espero que o Presidente da República tenha outra postura que não seja ser consistente com uma postura que ele próprio disse, ser um fator de estabilidade. Portanto, creio que tem correspondido àquilo que anunciou que iria ser.

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