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"É raro ver um país com tantos dentistas. O mercado está saturado"

Miguel Stanley, médico dentista que ficou conhecido por dar uma nova vida ao sorriso de vários portugueses nos programas de televisão ‘Doutor, Preciso de Ajuda’ e ‘Dr. White’, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"É raro ver um país com tantos dentistas. O mercado está saturado"
Notícias ao Minuto

26/06/17 por Vânia Marinho

País Miguel Stanley

Miguel Stanley, ou Dr. White como é conhecido por muitos, consagrou-se como o médico dentista capaz de transformar as bocas e os sorrisos mais difíceis.

Na sua clínica, com tecnologia de ponta e muitos extras que não se encontram nas clínicas comuns, é conhecido como o ‘pai’ dos sorrisos dos famosos, como Cristiano Ronaldo ou Paulo Portas, mas também trouxe novos sorrisos e muitas alegrias aos portugueses que foram tratados nos programas de televisão que protagonizou: ‘Doutor, Preciso de Ajuda’ (que passou na TVI em 2006) e ‘Dr. White’ (que passou em 2012 na SIC).

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Miguel Stanley comenta como é ser dentista em Portugal, como temos um enorme potencial para atrair pessoas de outros países devido à qualidade e baixo preço da medicina dentária que se pratica.

Como é ser dentista em Portugal?

Acho que como em qualquer profissão, fazemos dela aquilo que quisermos. Eu quando me formei em medicina dentária, entrei na ordem com o número 2.249, o que significa que em 1998 havia 2.249 dentistas em Portugal. Hoje acho que ultrapassa os 10 mil e está perto dos 11 mil. Há mais de sete faculdades a produzir mais ou menos mil dentistas por ano. E, obviamente, o mercado, de acordo com as ‘trends’ que eu oiço, está um bocadinho saturado. É raro ver um país com tantos dentistas.

Para responder a essa pergunta é preciso entender um bocadinho melhor o mercado português em geral. Nós temos, como qualquer país, pessoas com capacidade económica, pessoas da classe média e pessoas com fracas posses económicas. Tem de haver uma medicina dentária para todos eles. Da mesma maneira que se alguém precisa de um quarto de hotel, tem de haver pensões e tem de haver hotéis de cinco estrelas. Nem toda a gente tem dinheiro para ir a um hotel de cinco estrelas. Porque é que um hotel de cinco estrelas cobra o que cobra e uma pensão num raio de 500 metros cobra incrivelmente menos? Bom, é conforto, não sei, acho que as pessoas sabem responder a isso. Na medicina dentária muito do custo está associado à tecnologia, aos recursos humanos, ao cuidado dos materiais.

O mercado, de acordo com as ‘trends’ que eu oiço, está um bocadinho saturado. É raro ver um país com tantos dentistasEu sempre quis trabalhar de uma forma altamente avançada. Estamos sempre a progredir, estamos sempre a melhorar, a equipa está sempre a mudar. Existe aquela falácia de que a equipa é como uma família. Sim, é, mas ela tem de crescer, expandir e mudar, um pouco como uma equipa de futebol. Estamos sempre preocupados em estar à frente e isso requer uma grande capacidade de gestão, nem sempre é fácil. Para nós, ser médico dentista em Portugal é algo positivo e que nos permitiu reconhecimento internacional. Nem sempre é fácil, porque vivemos num país pobre e tentamos fazer medicina dentária do mais avançado que há. Mas acho que estamos a conseguir.

Ainda tem o sonho de fazer de Portugal um destino turístico da saúde dentária?

Quando tive essa ideia há uns anos, quando criamos o grupo Dentists of Portugal, fiz isso com o intuito de ajudar os dentistas que praticavam boa medicina dentária, que pudessem até ser considerados concorrência se olhássemos com esses olhos – felizmente não tenho esses olhos, não vejo outras clínicas como ameaça, nem nunca vi – e criar um projeto com um denominador comum que era a excelência e o facto de estarmos em Portugal. E daí criar uma plataforma a partir da qual unidos pudéssemos atrair os biliões que andam a ser investidos fora de países como Inglaterra, Noruega, Estados Unidos, Alemanha, por pessoas que procuram fora tratamentos dentários mais baratos. Nós temos grande qualidade e preços mais baixos.

O problema é que, como qualquer coisa, requer muitas reuniões, muito trabalho, toda a gente tem uma opinião e às vezes é muito difícil agregar essas ideias. Portanto, sinto que é mais fácil fazer isso apenas pela White Clinic e promovendo os nossos serviços. Obviamente, que impreterivelmente ao promover os nossos serviços acho que promovemos Portugal. Para finalizar acho que de qualquer maneira, Portugal vai acabar por ser um destino turístico sem a nossa ajuda e sem qualquer associação, pura e simplesmente pela qualidade da medicina dentária que se pratica aqui e pelo facto de Portugal ser agora um ‘hot spot’ no que diz respeito ao turismo.

As palestras internacionais que dá fazem-no viajar muito. Ainda assim consegue passar a maior parte do ano cá?

Sim, sim, ao contrário do que pode parecer no Instagram ou no Facebook, eu passo grande parte da minha vida cá em Portugal a trabalhar nesta clínica. Apesar de parecer que estou sempre fora nas palestras, eu faço isto porque para mim é um fator de grande importância científica. Quando estou a dar palestras estou sempre no centro das mais avançadas novidades científicas e também estou a aprender. Hoje em dia, diria que é quase um hobbie meu esta coisa de estar sempre nestas palestras. Obviamente que para lá estar eu tenho de desenvolver um bom trabalho, e isso faço-o de segunda à sexta cá na clínica com a minha equipa.

Já lá vão 12 anos desde que começamos as gravações do ‘Doutor, Preciso de Ajuda’. Na altura acho que não tinha a noção de onde me estava a meterFicou conhecido nos programas ‘Doutor, Preciso de Ajuda’ (que passou na TVI em 2006) e ‘Dr. White’ (que passou em 2012 na SIC). O que lhe trouxe essa experiência e esse protagonismo?

Já lá vão 12 anos desde que começamos as gravações do ‘Doutor, Preciso de Ajuda’. Na altura acho que não tinha a noção de onde me estava a meter, mas o facto é que, pela primeira vez, aquilo que se podia fazer na medicina dentária passou a entrar dentro do lar de milhões de portugueses. Isto tudo aconteceu antes do Facebook, do Twitter, do Instagram. Talvez hoje tivesse repercussões diferentes, não sei, mas estamos a falar de uma coisa quase histórica. Tenho muito orgulho do trabalho que desenvolvemos. Foi tudo feito com a maior das éticas.

Obviamente que em retrospetiva é fácil dizer que devíamos ter feito isto e aquilo, mas o que é facto é que espoletou uma grande procura da medicina dentária. Posso dizer que em 2007 o volume de implantes dentários em Portugal disparou 47%. Portanto, os portugueses disseram ‘Eh, pah, eu também posso fazer isto’. Foi uma coisa positiva também para o volume de trabalho que tivemos. Durante muitos anos, a clínica teve um enorme sucesso por causa disso, mas muitos dentistas em Portugal também beneficiaram com isso. Portanto, acho que foi muito positivo para a indústria como um todo. Pelo lado pessoal, obrigou-me a ser muito mais responsável e ético para não ter os tais ‘telhados de vidro’. Obrigou-nos, a mim e à minha equipa, a ser uma bandeira de excelência, que hoje em dia é reconhecida internacionalmente. 

Sente que os portugueses ficaram com um grande carinho por si?

Sim. Já não estou no ar e ainda há pessoas que me vêm dar beijinhos na rua e isso. É muito engraçado e sinto um enorme carinho. Tenho pacientes que se lembram do programa. Não me arrependo nada de tê-lo feito. Só agora e quase uma década depois, é que em outros países se está a começar a fazer o mesmo tipo de formato que fizemos. E se não me engano, hoje em dia, na televisão portuguesa há mais três ou quatro formatos parecidos, mais reduzidos mas que vão ao encontro do mesmo. Gosto e sinto que é um elogio que me fazem ao imitar.

Pela sua experiência como médico, como estão a saúde oral e o sorriso dos portugueses?

A geração sub-30 está ótima. Vão gastar muito menos dinheiro com o dentista, porque os cuidados com a higiene estão bons e são filhos de uma geração que se preocupou mais em levá-los ao dentista mais cedo. Acho que dentro de 15/20 anos a nossa geração adulta vai ter ótimos dentes, ótimos sorrisos. Acho que os cuidados são mais com a estética - pôr os aparelhos, e essas coisas todas – mas está a mudar e está muito bom. Acho que há muitos dentistas em Portugal preocupados em melhorar a higiene oral da sua comunidade e acho bem. Haverá sempre lugar para clínicas como a nossa que são peritas em resolver casos mais complexos e também, infelizmente, fracassos. Ou seja, tratamentos que não correram bem, por não seguirem, digamos, os padrões dourados ou o correto protocolo clínico, escolher materiais menos próprios ou fazer as coisas à pressa e com inexperiência.

As modas existem porque é mais barato do que ir ao dentistaQuais são os fracassos mais gritantes?

Eu diria o de pessoas que há um ano colocaram implantes dentários, fizeram reabilitações complexas e gastaram muito dinheiro e fracassaram. O problema clínico resolve-se sempre, a questão é o problema emocional que isso acarreta na pessoa. Portanto nós temos de estar realmente muito atentos a essa carga emocional, porque o sorriso está muito ligado a essa componente emocional e depois há também uma componente financeira que agrava a emocional. Temos de estar muito bem preparados para lidar com o stress que vem com problemas desta natureza.

Quais são os principais mitos associados à saúde oral e de que forma é que eles nos podem prejudicar? E o que pensa das modas para branquear os dentes em casa?

As modas existem porque é mais barato do que ir ao dentista. Portanto, qualquer moda que apareça que funcione em casa, passando pela farmácia, por um esteticista ou online, sem passar pelo dentista só tem um propósito: poupar dinheiro numa ida ao dentista. Vou dizer o seguinte: Não faça! Os dentistas utilizam produtos que estão inscritos no Infarmed, aprovados pela comunidade europeia e têm uma ciência por trás deles. Não estamos aqui para vos roubar, estamos aqui para vos ajudar. Mais vale não tentar essas modas. Qualquer pasta dentífrica, comprada no supermercado ou na farmácia, é boa. Desde que utilize uma pasta dentífrica, fio dental, uma escova média macia, que visite o dentista regularmente e tenha bom senso, já está a fazer melhor do que muita gente. Se tem um problema a começar, vá logo ao dentista, não espere que passe.

O grande mito é que ir ao dentista dói. Não dói. Procure um dentista que trabalhe com calma, que tenha uma agenda que lhe permita estar com tempo, lavar as mãos, desinfetar a sala. Eu criei um conceito, uma marca registada chamada 'Slow Dentistry', que é exatamente isso, dar tempo para lavar a as mãos, desinfetar a sala, falar com a pessoa, dar tempo para a anestesia pegar e usar todos os protocolos clínicos que vão ao encontro de proteger realmente o tratamento que se faz e fazer as coisa bem feitas. Se as pessoas fizerem isto, geralmente as coisas correm bem.

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