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"O SNS está suborçamentado mas é possível fazer mais com menos"

O diretor-geral de Saúde, Francisco George, é o entrevistado desta semana no Vozes ao Minuto.

"O SNS está suborçamentado mas é possível fazer mais com menos"
Notícias ao Minuto

24/08/16 por Carolina Rico

País Francisco George

Admite que o setor da saúde está suborçamentado, mas acredita que a solução está no aumento da eficácia. O diretor-geral da Saúde elogia, sobretudo, a medicina que se faz em Portugal.

Francisco George esteve à conversa com o Notícias ao Minuto.

Chegou à DSG há mais de 15 anos, a saúde dos portugueses está melhor desde aí?

Está. Em termos gerais está melhor. Mas é preciso distinguir a saúde dos portugueses individual e coletiva, de uma outra dimensão: a perceção do funcionamento dos serviços de saúde. A primeira é avaliada através da evolução de indicadores que permitem perceber se estamos ou não a ganhar em termos de saúde. Estes indicadores comparam a saúde entre países e entre regiões de um mesmo país.

Estes indicadores são objetivos, indiscutíveis, mas independentes das outras questões. Há um conjunto de elementos no plano da comunicação que por vezes criam imagens que não correspondem à realidade. Coisas como, por exemplo, notícias de partos em ambulâncias antes de chegar ao hospital podem traduzir problemas organizativos, mas nem sempre esta é a realidade.

O que falta mudar?

Falta mudar antes de mais nada um processo de literacia em saúde, isto é, fazer com que os conhecimentos de cada cidadão possam inteiramente cooperar com as prestações de saúde. Um cidadão que está devidamente informado, que sabe estar dentro do sistema de saúde, que coopera, que colabora, que participa.

Um bom exemplo destas situações são os cuidados prestados pelos diabéticos. Não fosse o diabético a injetar a sua própria insulina e não havia nenhum diabético que sobrevivesse, uma vez que seria impossível ter um médico ou enfermeiro para cada diabético.

Foram recentemente noticiadas mortes por falta de assistência nas urgências de hospitais portugueses. Como olha para estes casos?

São casos pontuais que não podem ser ignorados mas que não traduzem os ganhos do Serviço Nacional de Saúde, no seu conjunto, que têm colocado o país em lugares cimeiros a nível mundial.

Estes casos têm de ser lidos, percebidos, tem de se ver o que correu mal, o que não correu mal, se os exames devidos foram feitos ou não foram feitos. Há aqui questões de responsabilidade que naturalmente não podem ser ignoradas.

Mortes por falta de assistência são casos pontuais que não podem ser ignorados mas que não traduzem os ganhos do Serviço Nacional de SaúdeO pilar da ética e da responsabilidade tem de ter uma dimensão muito exigente e é preciso cultivar esta questão da responsabilidade e a leitura destes processos tem de ser feita de forma muito rápida e muito transparente.

E costuma ser transparente?

Nem sempre, mas é preciso evoluir.

Um aumento da parcela do Orçamento do Estado destinada ao Serviço Nacional de Saúde seria suficiente para evitar estes casos?

As questões do Orçamento são conhecidas. O SNS está, desde há muito, diria, suborçamentado. Um serviço que para funcionar precisa de 10 mil milhões não pode ter um orçamento de nove mil milhões. Mas também é verdade que é possível aumentar a eficiência, fazer mais com menos. Através da não repetição de exames, da cooperação entre serviços, setores, hospitais.

De que forma é que esse problema pode ser melhorado?

Não faz sentido que um doente que chegue a um hospital repita exames que já tenha feito na sua observação num centro de saúde. Nesta transferência sucessiva de doentes entre diferentes níveis de serviços é preciso ter em conta o que já foi feito. Estas questões podem ser melhoradas e estão a ser melhoradas.

É preciso promover a eficiência com imensa exigência e com grande energia. Pensar antes de se prescrever determinado exame prova, teste, prescrição, pensar se é ou não absolutamente necessário e se vai ao encontro de boas práticas.

Tem havido uma atenção muito especial na perspetiva de reduzir as filas de espera ou até eliminá-lasOutro exemplo: nós tínhamos exames da osteoporose em mulheres que eram repetidamente pedidos quando não eram necessários. Também é preciso que neste caso as cidadãs estejam bem informadas da necessidade de fazer os exames e da sua frequência ao longo do ciclo de vida. Não é preciso repeti-los de forma desregulada. Isso só acarreta despesas para o Estado desnecessárias, sem vantagem alguma no plano clínico.

Ajudaria também a combater as longas filas de espera para cirurgias no público.

Sim, com certeza. Mas esse é um problema que existe em toda a Europa, não é admissível, mas tem havido uma atenção muito especial a esta questão na perspetiva de reduzir as filas de espera ou até eliminá-las.

Que indicações tem sobre o Orçamento do Estado para 2017?

Tenho indicação da necessidade de gerir as verbas atribuídas de uma forma exigente em termos de qualidade, de boas-práticas, de não aumentar a despesa sem absoluta necessidade e de prosseguir os trabalhos tendo em atenção este rumo da eficiência.

Não se pode receitar um antibiótico de última geração, as chamadas quinolonas, que são muitas vezes prescritas indevidamente quando há outros que têm melhor indicação e que acarretam menos despesa ao sistema.

Culpa da indústria farmacêutica?

O setor farmacêutico é fundamental. A indústria farmacêutica tem de ter em conta que neste período de ajustamento tem de colaborar.

Não é isso que está a acontecer?

Não digo que não esteja a acontecer, pode não ser é suficiente. A questão do ajustamento e de adaptação aos tempos de crise económica e financeira implica o envolvimento de todos os setores, sem exceções. Esta questão dos medicamentos inovadores é preocupante porque muitas vezes apresentam custos que não são aceitáveis na perspetiva do interesse dos doentes e do Orçamento.

Ainda sobre o Orçamento do Estado para 2017, será novamente magro para as necessidades?

Qualquer presidente, primeiro-ministro, secretário de Estado, dirigente, todos aqueles que governam a administração pública têm interesse em que, num setor tão importante como a saúde, o Orçamento possa cobrir as necessidades e despesas mas nem sempre assim é possível, em função destas limitações que todos conhecem.

Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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