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"Todos os clubes em Portugal têm de ter futebol feminino"

Desde selecionadora a diretora da FPF, Mónica Jorge posiciona-se como um dos rostos do crescimento do futebol feminino, que promete não ficar por aqui. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, a dirigente de 45 anos enalteceu as conquistas das portuguesas, deu conta de um momento mais conturbado e traçou (ambiciosas) metas para o futuro.

"Todos os clubes em Portugal têm de ter futebol feminino"
Notícias ao Minuto

19/03/24 por Miguel Simões

Desporto Mónica Jorge

Mónica Jorge é um nome incontornável no panorama do futebol feminino em Portugal e tudo isto, imagine-se, sem nunca ter sido jogadora profissionalmente. Com 24 anos de total dedicação à Federação Portuguesa de Futebol (FPF), entre os cargos de treinadora adjunta, selecionadora nacional e diretora do futebol feminino, a referência do desporto-rei entre as mulheres não deixou nada por dizer, com mensagens impactantes.

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, a dirigente de 45 anos enalteceu as melhorias registadas no futebol feminino desde a entrada de Fernando Gomes, em dezembro de 2011,  deu conta de um momento mais conturbado profissionalmente e não hesitou em traçar objetivos ambiciosos para o futuro, sustentados num plano estratégico até 2030.

Mónica Jorge entrou para a seleção nacional no arranque do século XXI, inicialmente como adjunta, até que chegou ao cargo de selecionadora principal em 2007, dividindo-se entre o escalão de sub-19 e a equipa A. Ao fim de quase cinco anos, aceitou o convite para liderar a direção do futebol feminino na FPF.

A primeira mulher a ocupar os quadros federativos em Portugal começa a ver cada vez mais perto o fim do último mandato de Fernando Gomes, mas nem por isso deixa de sublinhar a necessidade de dar continuidade a tudo o que já foi feito nos últimos anos, recordando, com carinho, o momento em que Portugal se apurou para o Campeonato do Mundo feminino, de forma inédita, há sensivelmente um ano. A principal prioridade passa por colocar todos os clubes portugueses a integrar o futebol feminino. Não é fácil, mas a crença está lá.

Sabia que, naquela altura, de dezembro de 2011 para janeiro de 2012, poderia haver ali uma transformação e, como é óbvio, as seleções [femininas] teriam uma nova dinâmicaFez atletismo, foi federada no futsal, passou pelo halterofilismo e, sem ter jogado futebol profissionalmente, foi a essa modalidade que se dedicou durante todo este século XXI. Como surgiu esta paixão?

Pratiquei várias modalidades. O meu pai era sócio ferrenho da Académica de Coimbra e, durante muitos anos, levou-me, como sendo a filha mais velha, para ver a Briosa a jogar. Aquele tempo académico era muito especial, nos tempos de [Emílio] Campos Coroa, já falecido. Íamos para a parte dos sócios, com as Capas Negras e todo o envolvimento, sendo que eu desde pequenina comecei a perceber o jogo, o papel dos centrais, dos médios... Com o envolvimento, acabamos sempre por aprender e desenvolver. Jogava futsal ou então na rua porque não havia equipas femininas de futebol. Quando fui para a faculdade, entrei logo para o [Desporto de] Alto Rendimento, que era inovador na altura, especializado em futebol. Depois estagiei na Federação por cinco ou seis meses. Fui ficando, primeiro como treinadora adjunta, em que me cruzei com vários treinadores. Mais tarde tornei-me selecionadora com 28 ou 29 anos. Foi muito cedo [risos].

A troca entre o cargo de selecionadora e o de dirigente, em 2012, aconteceu na mesma altura?

Sim. Recebi o convite quando ainda era selecionadora, em dezembro [de 2011]. Estava a meio de uma época. Para aceitar o cargo, sabendo que ia a eleições, tinha de deixar o cargo de selecionador para poder ser diretora. Falei com a presidência na altura e assumi essa minha intenção de aceitar o convite, sabendo que depois podia ou não ficar, dependendo da vitória de Fernando Gomes. Se não ganhasse, provavelmente não continuaria como selecionadora. Sabia que, naquela altura, de dezembro de 2011 para janeiro de 2012, poderia haver ali uma transformação e, como é óbvio, as seleções [femininas] teriam uma nova dinâmica. Acabámos por reestruturar toda a componente técnica.

Enquanto selecionadora, dividiu-se entre o escalão de sub-19 e a seleção principal...

Sim, só havia duas seleções. Na altura, tínhamos acabado de colocar o campeonato com dez equipas. Foi muito difícil. Conseguimos ir a uma Assembleia Geral, que demorava sempre muito, em que colocámos em discussão a alteração do quadro competitivo do campeonato nacional para dez [equipas]. Já foi um avanço histórico. Depois levámos a final da Taça de Portugal para o Jamor, que foi outro patamar, ainda antes da chegada de Fernando Gomes, que se conseguiu. Eram momentos importantes, mas difíceis de conseguir. Eu estava há cinco anos nas seleções nacionais, tínhamos tido bons resultados com uma subida no ranking e até mesmo com a 36.ª posição como recorde, que mais tarde foi batido pelo Francisco Neto. No fundo, foi um saldo muito positivo daqueles cinco anos. Começámos a ir à televisão e passou a falar-se mais de futebol feminino, daí o convite de Fernando Gomes pelo ciclo positivo e pelo desenvolvimento dentro dos limites que, na altura, a Federação nos dava. Só existiam as seleções A e sub-19, um campeonato nacional com duas divisões e a tal final da Taça de Portugal no Jamor, no fundo para ter a presença feminina num estádio que toda a gente queria. 

Num momento em que nós tentávamos sobreviver, dentro de uma estrutura federativa que não tinha ambição e estratégia de desenvolvimento para o futebol feminino, mudou precisamente essa visão, impulsionada por um presidente que tinha acabado de entrarOrientar as duas seleções, de camadas diferentes, seria impossível nos dias de hoje?

Como eu era a selecionadora das duas equipas [A e sub-19], era quase... Agora é impossível. Não há hipótese de fazer isso novamente. Na altura, não havia recursos humanos. Lembro-me que era difícil termos um treinador de guarda-redes para a equipa A. Convidámos um treinador para nos vir ajudar nessa função ou então tínhamos os coordenadores técnicos. O departamento era tão reduzido que era quase impossível ter uma equipa técnica para um lado e outra para o outro. Não era o ideal, mas teve de ser assim. Tínhamos de solucionar e fazer crescer dentro dos limites que tínhamos. A partir de janeiro [de 2012], definimos uma estrutura técnica para a A, entraram mais treinadores para o departamento técnico feminino e, além de sub-19, criou-se as sub-16 e futuramente as sub-17. Fomos delineando. Foram entrando treinadores, uns a tempo inteiro e outros a part-time. Temos 12 ou 13 elementos na estrutura técnica das seleções femininas a tempo inteiro. Nessa altura, isso era impossível. 

À luz do que é o futebol feminino atualmente, qual a diferença entre o presente e o momento em que deixou a seleção nacional, em 2012? 

Foi um salto enormíssimo. Há 12 anos, o futebol feminino sobrevivia à custa de muitas pessoas, do empenho. Estavam poucas pessoas envolvidas no projeto da Federação [Portuguesa de Futebol] para o futebol feminino. Só para alterar um simples campeonato era uma dificuldade muito grande. Tinha de ir a Assembleia Geral... Não tem comparação. A partir do momento em que há um presidente [Fernando Gomes] que investe e claramente tem na sua visão o desenvolvimento do futebol feminino, muda tudo. Ter uma dirigente ou convidar uma mulher para a direção executiva, para que possa apresentar um plano estratégico e planos de desenvolvimento diretamente à sua direção, logo aí, as coisas mudam. Num momento em que nós tentávamos sobreviver, dentro de uma estrutura federativa que não tinha ambição e estratégia de desenvolvimento para o futebol feminino, mudou precisamente essa visão, impulsionada por um presidente que tinha acabado de entrar. Era uma visão diferenciadora do que eu tinha visto antes, daí eu ter aceitado o convite para estar presente numa direção executiva caso ganhasse as eleições. O convite foi tão corajoso e tão diferenciado que eu, mesmo não sabendo o desfecho das eleições, acabei por aceitá-lo. Sabia que tudo podia mudar na modalidade.

E mudou mesmo... 

O presidente decidiu investir e diferenciar todos os investimentos dentro da casa-mãe, na Cidade do Futebol. A partir do momento em que há um plano estratégico, que demorou quase um ano, juntamente com a Escola Superior de Desporto, em Rio Maior, com o apoio da UEFA, houve mais coisas a registar: o aumento de seleções, o aumento do número de competições abertas, o aumento da oferta competitiva distrital, regional e nacional para diferentes escalões, uma boa dinâmica da projeção da modalidade, as qualificações das seleções nacionais.... Com tudo muito bem estruturado, tendo em conta o planeamento estratégico de 2015 a 2021, fomos aos pontos certos e crescemos dentro do que se estava a projetar. Agora já estamos numa segunda fase de desenvolvimento, com outras dinâmicas e outra estrutura que queremos alcançar. Tudo com uma pessoa candidata à Federação Portuguesa de Futebol que teve na sua dinâmica de desenvolvimento o foco do futebol feminino. A missão era a de aumentar o número de praticantes do futebol feminino, que ainda se mantém. É um dos maiores focos dentro desta casa.

Notícias ao Minuto Com 24 anos de 'amor à camisola', Mónica Jorge passou a primeira metade em campo e a segunda metade em funções diretivas.© FPF  

São já praticamente 24 anos de dedicação à Federação e a Portugal. Como se sente em relação ao facto de dedicar mais de metade da sua vida - 24 dos 45 anos - à evolução do futebol feminino em Portugal?

Metade no relvado, metade no escritório [risos]. Foi muito giro. Já estou a dizer foi... Está a ser! Têm sido muitos anos só dedicada à modalidade e a viver todos os pequenos passos que nós damos. Vibrava com uma jogadora da seleção portuguesa que ia jogar para fora, por exemplo. A realização pessoal delas [jogadoras] também é como se fosse a nossa. Todos os saltos evolutivos, do ponto de vista não só mediático, mas também da perspetiva do nosso país e do perfume do nosso futebol a nível internacional, era uma realização profissional. Elas cresciam e nós ficávamos muito orgulhosos. Qualquer passo dado aqui dentro na estrutura, quer a nível de competições ou de seleções nacionais mais jovens, era um orgulho muito grande. Todos os pequenos passos eram importantes para um futuro que se adivinhava que ia ser melhor.

Para alguns, uma simples abertura de uma competição de sub-19 em futebol nove, que foi algo que na altura nos chocou, podia não ser nada. Para nós tinha grande significado. Nós sabíamos que, a partir dali, chegaríamos mais tarde a fases finais do Campeonato da Europa. E chegámos, em sub-17, em sub-19... Pequenos passos, para mim, eram importantes. Vibrava muito. Foram 24 anos em diferentes trajetos e enquadramentos, com duas direções completamente diferentes, mas que faz com que a ligação à casa seja muito grande. É quase uma segunda família, não digo a primeira porque agora, com filhos, estamos muito mais ligados aos nossos. Cresci. Entrei muito menina, fiz-me mulher e vou sair daqui mãe  [risos]. Muito orgulho nesta casa.

E no estrangeiro? Enquanto membro do Comité do Futebol Feminino, delegada e até observadora técnica da UEFA, absorveu ideias já difundidas pela Europa fora, tendo por base a realidade de outros países?

Até a uma certa altura, numa primeira fase do plano estratégico, todos os programas que nós desenvolvemos dos centros de treinos, os campeonatos nacionais, as competições abertas na formação aconteceram com algum conhecimento do que vamos adquirindo lá fora, mas sabendo que dada a nossa dinâmica não funcionariam. Há muitos países que têm diferentes centros de treino que têm um impacto que aqui não têm. Como conhecemos a nossa realidade, transformamos aquele determinado produto de forma expositiva e que nos faça crescer, desde norte a sul, com diferentes abordagens. É um projeto único, mas que não deixa de ser aberto a cada realidade distrital. Os centro de treino no Algarve podem funcionar de uma maneira, nas ilhas de outra e em Lisboa e no Porto já de forma completamente diferente. Há projetos a nível internacional que são mais fechados, mais abrangentes, até porque lá fora podem estar um bocadinho mais avançados. Aqui [em Portugal], precisamos de trabalhar de outra forma para que toda a gente tenha acesso à modalidade. Já passámos das 17 mil praticantes federadas, quase 18 mil, mas isso não invalida que os outros tenham o dobro ou o triplo. Continua a ser essencial que todos os distritos consigam dar oferta competitiva a todas as meninas, em diferentes escalões. Não é uma realidade de muitos distritos, especialmente no interior.

Em todos os nossos trajetos durante a vida, ponderamos se estamos a dar o nosso melhor ou não. Muitas das vezes, nós, mulheres, questionamos se estamos no caminho certo. Ter um filho muda tudo. Estar seis ou sete meses afastada de tudo e de todos... 

Recordando uma entrevista que deu ao Canal 11, aquando do apuramento para o Mundial feminino, a Mónica frisou um momento em que esteve quase a cair, mas teve a força de toda uma estrutura para que aguentasse na liderança do barco. Que momento foi esse?

Foi a fase em que estive grávida. É um momento difícil para nós, por todo o processo. Só quem passa é que sabe. Não podemos estar todos os dias a acompanhar o processo. As nossas dúvidas vêm ao de cima. Em todos os nossos trajetos durante a vida, ponderamos se estamos a dar o nosso melhor ou não. Muitas das vezes, nós, mulheres, questionamos se estamos no caminho certo. Nesse momento, ter um filho muda tudo. Estar seis ou sete meses afastada de tudo e de todos... Isto no futebol é muito rápido e, numa semana, tudo pode acontecer aqui dentro. Uma pessoa ao estar fora acaba por perder muita coisa. Um filho, sobretudo recém-nascido, acaba por nos tirar 24 horas por dia. Não é tudo um mar de rosas. Há altos e baixos. No momento em que tudo isto aconteceu, a seleção teve ali um período crítico em que não se qualificou para o Campeonato da Europa, frente à Rússia [em abril de 2021], logo na altura em que eu tinha sido mãe. Lá está, temos momentos em que nos questionamos se estamos no lugar certo, se vale a pena ter outras pessoas que possam olhar para o barco de outra maneira. Essas coisas são normais. A questão de voltar ao trabalho e de deixar o bebé em casa é um sentimento que só passa por nós... Ter de sair do país para viajar com a seleção deixa-nos com o sentimento de que alguma coisa não está bem. Lembro-me que na primeira vez que viajei de avião [depois de ser mãe], fui a viagem toda a chorar. Não aguentava.

Na altura, a direção e, sobretudo, os meus colegas que vêm comigo desde o início [2012], deram-me a força necessária para continuar no barco e para ajudar a motivar [as pessoas]. Tudo com aquela crença de que a seleção se reerguesse porque houve aquela altura de desestabilização emocional em que falhámos os playoffs [da qualificação para o Europeu], com a Rússia. Abalou um bocadinho, como é óbvio, as jogadoras e toda a estrutura. O resultado final foi a qualificação para o Campeonato do Mundo [diante dos Camarões, em fevereiro de 2023], que foi espetacular. Aí agradeci à Federação porque, da minha parte, podia ter desistido logo assim que fui mãe. Podia ser outra pessoa neste momento. Eles deram-me a força. Não sei se por ser mãe já mais tarde [aos 41/42 anos]. Se calhar, se fosse mais jovem, com 30 e tal anos, talvez não pusesse tanta coisa em causa.

Falou também da pulsação alta que a impediu de assistir aos últimos minutos do jogo diante dos Camarões. Se foi assim no dia do apuramento, como foi a cada jogo que as Navegadoras entraram em campo durante o Mundial?

Era mais importante a qualificação, estarmos lá, pelo marco histórico. Era uma missão que eu tinha e que o presidente também tinha. Um dos focos era a qualificação para o Campeonato da Europa, que já tínhamos conseguido, depois as qualificações da formação. Faltava-nos o Mundial no nosso currículo. Depois daquela agitação toda nos playoffs, sabíamos que era difícil, mas que era possível. Para mim, isso [momento do apuramento] teve muito mais impacto do que estar lá no Mundial. Aí era a primeira vez e queríamos passar à fase seguinte. Estivemos quase. Para nós, do ponto de vista da comunicação, do mercado e da valorização do futebol feminino português, estar num Mundial era completamente diferente. Teve muito impacto para mim como diretora, daí a minha pulsação ter aumentado. Ainda nem o jogo tinha começado e já estava assim...  O mesmo aconteceu no primeiro apuramento para o Campeonato da Europa, na Roménia. Não consegui ver os últimos minutos e vim cá para baixo.

Acredito na valorização do processo de formação. Projetando já o futuro, acho que teremos muita qualidade na seleção A para estarmos em fases finais futuras, quer do Europeu, quer do Mundial

O apuramento de há sensivelmente um ano foi inédito, caso não se repita no próximo Mundial, já será um fracasso? Ou poderá ser algo normal tendo em conta um caminho que se está a construir?

Espero que isso [não apuramento] não se concretize. O difícil é lá chegar, mas mais difícil é manter, ali pelos 10 melhores da Europa ou 20 do ranking FIFA. Como é óbvio, gostaríamos que esta equipa continuasse a qualificar-se para o Campeonato do Mundo. Agora segue-se o da Europa, ainda por cima na Suíça. Vamos tentar fazer de tudo para o conseguir. Há azares na vida em que, às vezes, há um simples jogo [a fazer a diferença]. Mesmo no masculino isso acontece muitas vezes. A Alemanha, por exemplo, qualifica-se muitas vezes diretamente e depois há um ano em que falha. Trabalhamos sempre para estar nas fases finais. Acredito que as novas gerações, que se qualificaram na formação, vão estar com mais preparação e enquadramento competitivo profissional, que lhes dá outra capacidade anímica e atlética. Acredito na valorização do processo de formação. Projetando já o futuro, acho que teremos muita qualidade na seleção A para estarmos em fases finais futuras, quer do Europeu, quer do Mundial.

Se Francisco Neto sair futuramente, seja por insucesso ou por outros convites que surjam, há a ideia de se priorizar uma mulher para assumir o cargo de selecionador da equipa feminina?

Neste momento, só o presidente é que pode responder a essa pergunta [risos]. Não posso ser eu. Para já, o Francisco [Neto] tem contrato. Renovou até 2027. Nós temos treinadores e treinadoras. Eu defendo o perfil da pessoa para estar à frente. Há diferentes perfis. Pode haver uma mulher que não tenha o perfil, como pode haver um homem que não tenha. Neste momento, Francisco Neto tem o perfil certo para estar na seleção nacional feminina. Os resultados depois poderão ditar ou não se o futuro presidente quer mantê-lo. Como é óbvio, gosto muito que cada vez mais possamos ajudar treinadoras, mas que tenham o perfil certo para trabalhar no futebol feminino. Assim como também entendo que há homens que têm o perfil certo para trabalhar no futebol feminino. Desde que seja alguém que se ajuste, seja apaixonado e tenha um respeito enorme pela atleta portuguesa. No futebol masculino é igual. Entendo que há mulheres com o perfil certo para trabalharem para o masculino, que possam trabalhar igualmente como qualquer homem. Tem de ter o perfil certo, seja homem ou mulher.

Notícias ao Minuto Participação inédita de Portugal no Mundial de futebol feminino ficou marcada por um triunfo frente ao Vietname (2-0), em julho de 2023, numa altura em que as Navegadoras ainda sonharam com o apuramento para os 'oitavos'© Getty Images  

Quais as políticas que a FPF tem cima da mesa, que não tenham sido concretizadas, para a valorização do desporto feminino?

Temos de continuar a investir. A política de aumentar o número de praticantes continua a ser o foco principal. Temos 17 mil, mas depois olhamos para Espanha e França, aqui ao nosso lado, onde têm o dobro ou o triplo. Temos de continuar a aproximar-nos destes países. As nossas ofertas competitivas têm de ser maiores a nível distrital. Dentro do plano estratégico para 2030, o foco está no feminino, no futebol e no futsal, em que se quer chegar às 70 mil praticantes. Isso é um desafio brutal. Para isso acontecer, há uma coisa que é clara. Todos os clubes em Portugal têm de ter futebol feminino. Todos. Desde o norte ao sul. Que todos os clubes tenham, na sua formação, jogadoras em futebol misto ou uma equipa feminina. Pelo menos uma. Se todos os clubes em Portugal tiverem isto nos próximos dez anos, não tenho a menor dúvida de que vamos conseguir. Tudo cresce à volta disto.

Se aumentamos o número de praticantes, vamos ter mais treinadoras, mais mulheres em pós-carreira a trabalhar no futebol, mais team managers, mais diretoras... Tudo está em aberto. O aumento de praticantes tem impacto em todas estas áreas. Há projetos com o Desporto Escolar, o programa com as Super Quinas pelo país inteiro, com vários municípios. As associações têm criado competições de sub-13 e de sub-15 para depois justificarem as Taças nacionais. Todo este impacto que está a ser fantástico tem de ser cada vez maior porque ainda temos a realidade de muitos clubes sem equipas femininas no seu enquadramento. Ao criarmos programas de desenvolvimento, de certificação e de apoios às associações distritais, de forma a que as mesmas o repliquem, 'obrigando' os clubes a ter meninas nos processos de formação, o impacto vai ser brutal. Acho que esse foco é o principal. Depois há programas de intervenção, mas enquanto estivermos a batalhar com as associações distritais, os maiores parceiros no desenvolvimento desta estratégica, vai ser fantástico.

A mais recente alteração de reduzir o número de equipas do campeonato nacional de futebol feminino, de 12 para 10, foi bem aceite por todos os clubes?

Acho que sim. Temos de olhar para o motivo que leva a que isto aconteça. A nível internacional, vamos ter cada vez mais jogos. Não é só nas seleções nacionais. É uma sobrecarga para as atletas, que já se tinham queixado. São muitos jogos nacionais e ainda teremos a possibilidade futuramente de meter três equipas na Liga dos Campeões. Onde é que há espaço? Fica mesmo complicado. Não é uma discussão só nossa. Também está a acontecer noutros campeonatos nacionais. Para a dimensão do país, por ser pequeno, comparamo-nos a países enormíssimos como França, que têm entre 10 a 14 [equipas]. Tem de ser uma Liga sustentável. Esse é o caminho. Depois com Supertaça, Taça de Portugal e Taça da Liga, envolvem-se muitas equipas. Esta sobrecarga tem de ser doseada.

Os escalões secundários também podem beneficiar com isso... 

Não nos podemos esquecer que ainda temos seleção de sub-23 e de sub-19, sendo que algumas jogadores estão na I Liga de futebol feminino. Com as datas cada vez mais apertadas da FIFA, temos de ter em conta isso. São soluções que estão a ser apresentadas e discutidas com os clubes. Maioritariamente, está a ser muito bem aceite. Tudo depois mexe com a segunda e terceira divisão, em que tudo tem de ser equilibrado. Está a ser um pouco de bom senso para todos. Todos os regulamentos estão expostos para consulta pública. Os clubes estão ainda à vontade para apresentar as suas melhorias ao processo. Vamos ver o que nos chega e estamos cá para escutá-los. O grupo de trabalho do campeonato nacional acompanha todas as semanas os 12 clubes, estão sempre em contacto para alguma coisa que possamos ou não melhorar.

Houve a criação de uma quarta divisão, algo que não existia. É uma forma de dividir as dinâmicas. A Liga principal tem de ser sempre o topo, com as equipas de maior dimensão e com maior enquadramento competitivo. Assim cria-se depois um nível de competitividade entre a segunda e a terceira, em que as equipas possam depois estar mais próximas do nível da primeira divisão. Temos a quarta divisão, ainda aberta, até porque olhamos para todo o país, de uma forma regional. Houve o acréscimo de mais três milhões de investimento aos clubes da primeira divisão, já com requisitos e exigências técnicas. No próximo ano, a exigência já vai ser jogar em relvado. Todos os clubes terão de jogar em relvado. Exigimos um pouco mais, mas com financiamento e critérios de crescimento diferenciados. Não é só dar financiamento sem se querer que as equipas cresçam. Muita coisa foi feita, muita coisa foi criada. Agora seguem-se as próximas escadas para subir. Nunca esquecer. Todos os clubes em Portugal têm de ter futebol feminino e isso ainda não acontece.

Às vezes, tal como o nosso exemplo masculino, não é preciso termos valores de inscrição maiores do que qualquer outro país para podermos estar entre as melhores seleções do mundo. Acho que é perfeitamente transferível para a seleção feminina

Qual é o sentimento de ver equipas portuguesas a traçarem trajetos de sucesso lá fora?

Sempre que uma equipa portuguesa se destaca a nível internacional é como se fosse o nosso futebol português. Só podemos ficar todos contentes. Temos todos a ganhar com isso. Seja o Benfica, ou um futuro Sporting, Sporting de Braga ou Damaiense. Quem conseguir ficar nas primeiras três posições, daqui a dois ou três anos, para se qualificar para um Liga dos Campeões, só podemos ter orgulho. É a presença do futebol feminino português que está em causa, que acaba por acrescentar experiência competitiva e crescimento de jogar contra equipas internacionais. É um bocadinho como as seleções que, quando joga para as qualificações, a jogadora cresce. O mesmo acontece nos clubes. Quanto mais longe elas [jogadoras] forem, mais orgulhosos nós ficamos, assim como os clubes ficam. É um caminho normal, de evolução. Se continuarmos a registar este crescimento a nível internacional, será bom não só para o futebol feminino, mas também para a atleta e o treinador. Tornam-se mais exigentes. Isso também é bom. Querem estar mais próximos da realidade internacional e a exigência faz parte do nosso crescimento. Incomoda um bocadinho, mas tem de ser. É o caminho e o futuro.

Que desejos finais tem para o futebol feminino em Portugal?

Gostaria muito que, futuramente, a seleção se mantivesse, pelo menos, e crescesse no ranking mundial. Que um dia Portugal chegasse às dez melhores equipas do ranking da FIFA [ocupa atualmente a 21.ª posição]. Não é fácil, mas acreditamos que possa lá chegar. Isso significava que estávamos ali mais ou menos entre as cinco melhores da Europa. Neste momento, estar onde está já é muito positivo, mas eu acredito que temos muita qualidade e capacidade, com trabalho, dedicação e crescimento de todas as nossas Ligas. Às vezes, tal como o nosso exemplo masculino, não é preciso termos valores de inscrição maiores do que qualquer outro país para podermos estar entre as melhores seleções do mundo. Acho que é perfeitamente transferível para a seleção feminina.

E qual a melhor receita para tal?

É preciso trabalhar muito, continuar com o desenvolvimento da formação e sustentar a base, para poder lá chegar. Gostava muito de ver uma participação na Liga dos Campeões ao mais alto nível, com três ou quatro equipas representativas da nossa Liga. Ou até na próxima futura Liga Europa. Não sabemos como se vai chamar, mas é uma prova que já está a ser pensada para o feminino. Que deixem o nosso perfume do futebol feminino português cada vez mais perto dos altos patamares. Também gostaria de ver muito as nossas jogadoras a serem grandes embaixadoras de futebol feminino português a nível internacional e, quiçá, ter uma portuguesa entre as três melhores jogadoras do mundo. Acho que é possível, eu acredito nisso. É preciso continuar a trabalhar até lá chegar.

Notícias ao Minuto Mónica Jorge prepara-se para encerrar um ciclo de três mandatos na direção executiva do departamento de futebol feminino© FPF  

Se fosse possível continuar nas mesmas funções por mais mandatos, imaginava-se no cargo por mais 12 anos?

Como diretora já sei que não poderei continuar porque chegaremos ao final do mandato [dezembro de 2024]. Membro integrante? Não sei. Isso cabe depois ao próximo presidente da Federação decidir o que quer trabalhar ou não. O meu desejo é finalizar esta direção como me sinto, isto é, orgulhosa de tudo o que já fizemos e de todas as missões cumpridas. Quem sabe ainda qualificar mais uma seleção até ao final de dezembro, vamos ver... Era espetacular. Tenho o sentimento de missão cumprida. Estive no treino e estive nesta parte como diretora. Deixo agora a minha missão como diretora cumprida. Cumprimos tudo nos projetos que nos foram exigidos.

Foi um orgulho enorme trabalhar com o nosso presidente e conseguir tantas coisas boas, não só para o futebol feminino, como para o masculino. Sou-lhe grata por me ter deixado ser diretora executiva, a primeira mulher à frente de uma direção. Colocou-me responsabilidades em cima que orgulhosamente cumpri. Está feito. O futuro só a Deus dirá. Não sei se no futebol feminino, se no futebol masculino ou se fora do futebol. Uma coisa é certa: É continuar a trabalhar. Isso não me assusta. O que posso dizer é que termino, sendo o terceiro mandato, assim como os meus colegas, muito orgulhosa do nosso trabalho.

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