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"Fechavam o hotel só para nós e os atores andavam connosco nos copos"

Estivemos à conversa com Mário Augusto, jornalista que se destacou pelo seu trabalho - e paixão - ligado ao cinema.

"Fechavam o hotel só para nós e os atores andavam connosco nos copos"
Notícias ao Minuto

02/02/22 por Mariline Direito Rodrigues

Fama Mário Augusto

Quando pensamos em Mário Augusto, de imediato, uma outra palavra vem à nossa cabeça: cinema. Jornalista de televisão desde 1986, o comunicador tornou-se um entusiasta divulgador do que se faz na sétima arte, como o próprio confessa entre risos.

A paixão pelo cinema surge ainda na adolescência, através de um professor que relatava filmes como ninguém e de um festival de cinema de animação que se realizava em Espinho, a sua terra natal. 

Quis o destino que, na fundação da SIC enquanto canal, o seu primeiro trabalho jornalístico fosse sobre cinema. Apesar de já ter feito muitas outras coisas, nunca esqueceu este 'primeiro amor'. 

Lançou recentemente um livro que compila os factos mais interessantes sobre a história do cinema, que se estende por 125 anos. 'Como se fosse um romance' é o nome deste projeto que leva ao leitor curiosidades sobre o mundo por trás das histórias que fizeram sonhar milhões de pessoas ao longo das últimas décadas.

Tenho 58 anos e este episódio terá acontecido quando eu tinha 12. O professor tirou-me a mim e a mais dois colegas da sala para nos contar que tinha visto o '2001 - Odisseia no Espaço' e explicava com tanto entusiasmo que, quando anos mais tarde vi o filme, percebi que era tal e qual como ele tinha explicado

Este livro é só para quem gosta de cinema?

Sim e não só. Pode ter o lado de cativar novos apaixonados de cinema, porque o livro não tem uma componente de estudo cinematográfico profundo. Tentei fazer um livro em que se estivesse do outro lado e não fosse um entusiasta de cinema ficava com vontade de querer saber mais. O livro reflete essa minha constante curiosidade das coisas. 

Porquê esta curiosidade sobre o cinema?

No caso do cinema, há um momento no ciclo preparatório em que tenho um professor de desenho que falava muito de cinema, com tanto entusiasmo, que eu quase conseguia ver os filmes da maneira que ele explicava. Tenho 58 anos e este episódio em concreto terá acontecido quando eu tinha 12 e lembro-me perfeitamente da circunstância e do local. Sei que o professor me tirou a mim e a mais dois colegas da sala para nos contar que tinha visto o '2001 - Odisseia no Espaço' e explicava com tanto entusiasmo que, quando anos mais tarde vi o filme, percebi que era tal e qual como ele tinha explicado.

Depois há outro fator muito importante: vivo em Espinho e desde os meus 13 anos há um festival de cinema de animação que se organiza aqui na cidade. Comecei desde muito jovem a frequentá-lo. Tinha ateliers de cinema de animação, história do cinema e isso acabou por me pôr a par de algumas obras e cineastas que não tinham a mesma projeção de um cinema comercial. 

Considera que ao sabermos o que acontece nos bastidores, ao conhecermos as técnicas, conseguimos desfrutar mais de um filme, ou a magia do cinema consiste apenas em chegarmos a uma sala, vermos uma trama e virmos embora?

É verdade que o filme está feito para que quando lá chegamos, gostemos ou não, absorvamos a mensagem. Mas, para quem gosta verdadeiramente de cinema e tenha conhecimento da forma como evoluiu, tem um entendimento melhor para além do que se projeta. Mesmo assim, tem que se manter a curiosidade acesa. Hoje, sem falsa modéstia, posso dizer que conheço bem a técnica de cinema e o que está por trás e ainda me surpreendo com determinadas fórmulas e conceitos técnicos.

Por exemplo, quando vemos um filme da Pixar ficamos a olhar para aquilo e a pensar: como é que é possível fazerem isto? Como é um boneco que é completamente virtual consegue ter alma, tocar-me? É essa magia curiosa que o cinema tem e que o distingue das outras artes. Torço um bocadinho o nariz a muitos dos críticos que andam para aí porque misturam opinião pessoal com análise crítica e isso resulta mal

Como é que entende a dualidade entre os filmes mais populares, que normalmente são apontados como tendo menor qualidade, e os menos populares, mas que são aclamados pela crítica? 

Isso leva-nos a uma discussão um pouco mais complexa. Se és cinéfilo e segues a análise dos críticos tens uma tendência natural a seguir aqueles com que te identificas. Ele diz que aquele filme é bom por isto e aquilo e vais ver. 

Quando alguém faz um filme, por muito mau que seja, aquela pessoa não o fez para ser mau e tem de haver condicionantes colaterais para ter chegado ali. Ou não teve dinheiro para filmar, ou não pôde filmar onde queria, ou seja, a visão do criador daquela obra pode ter sido condicionada por mil coisas.

Torço um bocadinho o nariz a muitos dos críticos que andam para aí, porque misturam opinião pessoal com análise crítica. Depois há outro tipo de críticos que são, normalmente, realizadores frustrados que nunca conseguiram fazer o que quer que fosse naquela área, então passam a críticos e ao 'bota abaixo' porque sim. Isso não são críticas, é maledicência baseada num pressuposto de análise conceptual que está desfocado pela forma daquela pessoa analisar o trabalho dos outros. Aqui em Portugal temos excelentes críticos. [Mas] Eu não sou crítico, apenas um divulgador entusiasmado do cinema. As comédias românticas são uma fórmula bem pensada e estruturada e que, às vezes, tira uns coelhos da cartola

Existem 'guilty pleasures' no cinema? Lembro-me agora do caso das comédias românticas.

Existem sempre, somos humanos, temos a nossa envolvente social, a nossa evolução como pessoas, o nosso sentido de mundo e sociedade e isso interfere no nosso dia a dia e análise. Por exemplo, se eu não gosto de música clássica, não posso discutir isso com ninguém. 

Outro exemplo concreto: eu não gosto de filmes de terror, não gosto de me assustar nas salas, porque envolvo-me com a ação, vivo as ações dos filmes e aquela coisa de apanhar uns grandes sustos de vez em quando na sala de cinema (porque em casa é um bocadinho diferente), às escuras, com a sensação envolvente do ecrã, levares assim com uma pancada de susto incrível, pessoalmente não gosto, fico à porta. Agora, já vi muitos filmes de terror e há muitos que me seduzem e me põe a pensar duas vezes naquilo. Há uma geração jovem que adora cinema de terror, vê aquilo como quem vê uma comédia. O que é que hei de dizer? Se calhar é uma falha minha que não me soube preparar para a evolução do cinema numa determinada área. E isso é igual para todas as coisas. 

Citou as comédias românticas. É uma fórmula bem pensada e estruturada e que, às vezes, tira uns coelhos da cartola. Não tem propriamente a ver com a história, porque são mais ou menos iguais, mas com os atores, com a química entre eles, com os cenários, com o enquadramento e o enchimento à volta das personagens. 

A evolução do cinema foi feita em cima de profetas da desgraça em contraponto com uns malucos que diziam 'vamos fazer mais isto e acrescentar mais aquilo'

O cinema tradicional, tal como o conhecemos, vai morrer por causa da chegada do streaming?

De todo. Já andam a vaticinar a morte do cinema desde que apareceu em 1895. Logo na primeira sessão, como explico no livro, o [George] Méliès vai ter com o pai dos Lumiére a dizer: 'quero comprar uma maquineta destas, quero começar a fazer cenas, quero filmar coisas e tal' ele disse-lhe: 'olhe que isto não vai funcionar muito tempo. Vai ter a sua graça, mas é uma moda'. A evolução do cinema foi feita em cima de profetas da desgraça em contraponto com uns malucos que diziam 'vamos fazer mais isto e acrescentar mais aquilo'. Foi assim em relação às primeiras narrativas, foi assim da passagem do mudo para o sonoro, foi assim da transição do preto e branco para a cor, foi assim na transição da película para o digital, e agora na discussão do modelo de produção estar a mudar em função dos streaming. 

Apercebi-me dessa transformação quando uma vez, há uns anos, disse ao meu filho mais velho que tinha convites para a antestreia de um filme e perguntei se queria vir. E ele disse: ‘Mas também não há outro?’. E disse que preferia ver o outro porque o que eu sugeri era mais interessante de ver em casa. Fiquei a pensar: espera aí, há filmes que são para ver em casa e outros no cinema? E comecei a achar que tinha razão, porque a escala de imagem, movimento, da ação e tudo num cinema é completamente diferente do que em casa. Por exemplo, uma comédia romântica com uma boa televisão em casa tem o mesmo efeito que numa sala de cinema. Agora ver um 'Dune', um 'Indiana Jones' ou filmes de super-heróis é diferente de ver numa sala com ecrã gigante. 

O que são os reality shows se não montras de emoções?Mas as salas vão ou não acabar?

Não acho que acabem, vai é mudar radicalmente o paradigma. O fenómeno agora é muito idêntico ao que aconteceu com o aparecimento da televisão nos anos 1950, em que se achou que o cinema iria quase desaparecer. Penso que haverá menos salas, mais qualidade técnica em projeção e se calhar passará por juntar os amigos ao fim de semana que chegam lá e a sala é só deles. Têm um cartão de assinante da Netflix, da Disney, da HBO, seja o que for, passam um cartão e dizem se é uma sessão única para eles ou se entram numa sala que esteja aberta e que tenha mais gente. O cinema vai ser 'on demand', em sala dedicada. 

Penso que na base de tudo, do cinema, do teatro, da televisão estão as emoções. Mesmo a televisão, sendo um bocado fria, simula bem as emoções. O que são os reality shows se não montras de emoções? Quem me contou essa história foi a Judi Dench, mas a base penso que é do Orson Wells - a pessoa vai ao teatro não para ver a peça, mas no fundo para ver se o trapezista cai. Esse jogo de emoções é que vai fazer sobreviver o cinema e a magia que ele guarda. 

A Marvel é uma fábrica de jogos. Aquilo soa-me sempre a feira do relógio porque tem um lado que é demasiado formatado

Emoções não faltam nos filmes de super heróis. Ainda assim tivemos o Martin Scorsese envolvido numa controvérsia depois de dizer que os filmes da Marvel não eram cinema. Concorda com esta afirmação?

Percebo bem o que dizia o Scorsese. A Marvel é uma fábrica de jogos. Quase não vejo filmes da Marvel, mas já percebi que quando vou atrás de uma coisa no universo dos super-heróis é porque está por trás de uma grande campanha de marketing que quase me obriga a ir. Eles sabem gerir isso muito bem. Aquilo soa-me sempre a feira do relógio, porque tem um lado que é demasiado formatado. Fiquei um bocado chateado quando ao fim de 10 anos, depois do Iron Man, o gestor dizer que aquilo tinha obedecido a um conceito definido há uma década. Como espectador, senti-me enganado. Então fui enrolado numa fórmula e ninguém me disse nada? Isso chateia-me um bocado. 

Por outro lado, ao fim de cinco minutos a veres um filme de super-heróis percebes como é que aquilo vai acabar. Não há que enganar. Estás ali para ver como é que se vão safar daquela, como é que vão fazer o avião explodir em cima do outro, por exemplo. É uma nova abordagem para as emoções do cinema que tem a ver com uma evolução social dos jovens. A roupa, as cores, os cenários, o jogo de sombras, tudo isso é feito em função de uma fórmula científica para captar a atenção de quem está a ver.

O Scorsese diz basicamente isto: o cinema tem emoções, histórias e coisas paralelas. Hoje, grande parte dos filmes que se vê vão diretos ao assunto, não há distrações. É uma autoestrada de emoção, não se para para ver a paisagem. O objetivo é chegar ao destino. É essa paragem para ver a paisagem e os elementos que acompanham ao longo da viagem que fazem os grandes filmes. 

A 'Casa de Papel', por exemplo, é uma autoestrada de emoção, é daquelas que têm muros de um lado e de outro por causa das barreiras sonoras

'Autoestradas' não faltam nos streaming…

Os streaming são incríveis nisso, diria mesmo que é obsessivo e doentio. Hoje leva-se com uma série que no início atira-nos com a informação toda e depois vai afunilando de acordo com a necessidade de nos levar a determinado sítio.

A 'Casa de Papel', por exemplo é uma autoestrada de emoção, é daquelas que têm muros de um lado e de outro por causa das barreiras sonoras. Mas isto é uma coisa nova? Não, porque quando começaram a mostrar os primeiros grandes planos das caras dos atores para criar emoção dramática, os produtores chamaram a atenção dos realizadores e disseram que tinham pago o ator inteiro, não metade, não percebendo que aquilo fazia parte da narrativa.

O meu primeiro trabalho em televisão foi a falar de cinema há 36 anos e mantive sempre esse lado.

Faz o seu programa sobre o cinema há 18 anos. Nunca se cansou?

Eu faço outras coisas, isso é a parte visível do meu trabalho. Já escrevi argumentos para televisão, já fiz reportagens do dia a dia, agenda normal de redação, mas o meu primeiro trabalho em televisão foi a falar de cinema há 36 anos e mantive sempre esse lado. Há 18 anos comecei a fazer um programa semanal que nunca deixou de estar no ar, sem feriados ou férias. Mas se gostava de fazer outras coisas? Já fiz a volta a Portugal, já apresentei aqueles programas do ‘Verão Total’, a correr o país. Tudo o que faço é com entusiasmo. Aliás, um dos programas que me deu mais notoriedade profissional até, uma coisa muito curiosa, foi um que inventei com a Teresa Conceição na SIC - ‘Ir é melhor remédio’. Quatro ou cinco anos depois, quando as pessoas me encontravam na rua diziam que eu andava sempre a passear e eu já nem fazia o programa [diz, entre risos]. 

Entre ir conhecer o melhor que se faz no nosso país e entrevistar uma figura de Hollywood, o que é mais emocionante?

Depende das estrelas de Hollywood e depende do prato da comida. Comecei a entrevistar atores em 1987...

Havia semanas que ia duas ou três vezes a Londres na mesma semana. Cheguei muitas vezes a ir de manhã e a vir à noite. Foi fantástico 

Acompanhou o crescimento de algumas estrelas, como o Leonardo DiCaprio.

O Leonardo entrevistei-o pela primeira vez quando tinha 16 anos. Entretanto já acabou aquele modelo que tive a sorte de o fazer durante anos e anos, que me permitia todas as semanas viajar, ou para Nova Iorque, Los Angeles, ou Londres. Havia semanas que ia duas ou três vezes a Londres na mesma semana. Cheguei muitas vezes a ir de manhã e a vir à noite. Foi fantástico. 

Fechavam o hotel só para nós, tinham lá os atores todos que andavam connosco nos copos

Os bastidores dessas entrevistas deviam ser incríveis, suponho. 

Tivemos uma experiência muito engraçada que experimentei durante quatro anos, o tempo que durou: a Sony Pictures fazia sempre uma coisa incrível, em junho, que era levar jornalistas de todo o mundo para Cancún, no México, ao hotel Ritz. Fechavam o hotel só para nós, tinham lá os atores todos que andavam connosco nos copos. À noite eram os copos, de manhã era ver os filmes e à tarde entrevistá-los. Era assim durante 10 dias, uma coisa inacreditável. Hoje faço algumas entrevistas online, acabaram as viagens, o modelo esgotou-se. Os atores aplaudem porque estão sossegadinhos em casa.

 Às vezes ia ver lá um filme e dizia: ‘porr*, vim eu de tão longe para isto e ainda tenho que levar com esta encomenda?’. Mas fazíamos o trabalho, tinha de ser

E em relação à pergunta que lhe fiz anteriormente?

Eu teria a tentação de dizer que no país real somos mais surpreendidos, porque estas coisas das entrevistas são muito formatadas. Tirando os casos em que vamos entrevistar a Meryl Streep, o Al Pacino, o Steven Spielberg, o Martin Scorsese, o Leonardo Dicaprio [aí é emocionante]. Agora, quando vamos entrevistar aqueles caramelos que não interessam a ninguém. Às vezes ia ver lá um filme e dizia: ‘porr*, vim eu de tão longe para isto e ainda tenho que levar com esta encomenda?’. Mas fazíamos o trabalho, tinha de ser. 

Pergunta clássica a obrigatória nesta entrevista: se a sua vida fosse um filme como é que se chamaria?

'A Grande Aventura'. Nunca me passou pela cabeça fazer o que já fiz até hoje, nem ter tido as oportunidades que tive. Já publiquei oito livros, já escrevi coleções para jornais, já ganhei prémios, já dei a volta ao mundo - tive em sítios que a minha avó nem sabia onde é que eram. Poderia até ser um título mais apelativo como ‘Um Rapaz de Sorte’, porque é a fórmula que define a minha vida. Costumo dizer que sou um produto acabado de um triângulo que tem três vértices que é: algum talento mas muito trabalho, muita sorte e oportunidades. Isto tem que estar afinadinho porque deixa de ser um triângulo. 

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